domingo, 22 de janeiro de 2017

Esclarecimento sobre o post anterior

Foto de Francisco Sérgio de Barros e Barros.

1 - Aqueles que menos me conhecem entenderam como literal tudo o que eu dizia naquele post sobre os supostos presentes e brindes dados pelas editoras aos professores. De facto, a minha intenção era tão só utilizar a ironia para responder ao alarido noticioso veiculado pelos jornais e pelas televisões (Sandrinha, como foste cair em tamanha patranha sobre os privilégios da classe docente?).
Aquilo que na altura escrevi, com a efabulação que me caracteriza, é em mim relativamente habitual, considerando o diagnóstico que me foi apresentado, corria o ano de 2004: "mentiroso compulsivo". Ingenuidade dos outros — há muito que decidi não perder tempo a distinguir a mentira e a verdade, dada a fronteira entre ambas ser tão ténue e mesmo insignificante em termos epistemológicos. Há até quem me aponte como fundador do conceito de não-verdade (Furtwängler, 2014), o que é relativamente falso.
 De qualquer forma, rave parties para professores em Ibiza, oferecidas pelas editoras de manuais escolares, continua a parecer-me matéria de riso e não de credulidade. Se estiver enganado então que se apressem todos: dentro de cinco anos a grande maioria dos professores vai de bengala para a festa.

2 - Sempre tive muito respeito pela classe docente, ao contrário do que acontece com a sociedade actual no seu conjunto e os jornalistas em particular. A verdade é que são eles que com sacrifício pessoal ensinam o dia inteiro os nossos filhos, criam as condições para mais tarde serem os engenheiros, os cientistas, os escritores de que o país tanto se orgulha (não, não são apenas as universidades que têm responsabilidades no processo de formação, ao contrário do que a maioria pensa).
Para além disso são agentes culturais por esse país fora, dirigindo jornais, companhias de teatro, orquestras, expondo os seus trabalhos artísticos, publicando livros, fazendo investigação histórica e antropológica, fomentado o exercício da massa crítica tão necessária à vida das populações.

3 - E agora o tema mais polémico, aquele que a maioria prefere ignorar: os professores ganham hoje menos que no ano 2000. Quando vão ver os seus ordenados aumentados? Nunca. Pelo menos durante esta geração.

4 - Por tudo isto falar em viagens e canetas Montblanc oferecidas aos professores, só por brincadeira. Há, no entanto, algo de positivo que estou em condições de anunciar à classe docente: estão neste momento a decorrer negociações entre as editoras e a ServiLusa, a multinacional que faz muito bons funerais, prevendo-se um desconto de 10% para aqueles que aderirem ao Plano Funeral em Vida. Segundo os responsáveis daquela empresa, os professores integram um grupo de potenciais clientes de relevante interesse comercial, uma vez que não vão para novos e segundo um estudo encomendado à Universidade Fernando Pessoa pela ServiLusa, "um dia vão morrer todos".

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

As prendas e os professores


Agora negam! Claro, iam dizer que sim, queres ver... Enfim, depois dos médicos, os professores. As classes privilegiadas no seu melhor. Já estou mesmo a ver as prendas dadas pelas editoras aos docentes: canetas Montblanc a rodos, rave parties em Ibiza, fins de semana com festas de gala na Villa La Vedetta, em Florença, e por aí fora. Fala-se mesmo à boca pequena de um casal de professores da Escola C+S de Arruda dos Vinhos, que foi convidado para estar presente esta sexta-feira na cerimónia da tomada de posse do Presidente Trump, com direito, além do mais, a participar num dos muitos bailes comemorativos daquele evento. Tudo porque o tal casal conseguiu adoptar na turma do 7º B, na disciplina de Francês, o manual Vive la France. Uma vergonha!

domingo, 15 de janeiro de 2017

A propósito do congresso dos jornalistas


Tanta vacuidade, tanta vaidade, tanta camisa de xadrez e bolsa a tiracolo – a farda da profissão que se remata com a barba por fazer e o cabelo desgrenhado – circularam por estes dias no congresso dos jornalistas. E protestos, muitos protestos. Contra os outros, claro. Nunca assumindo os próprios erros.
São as redes sociais e os energúmenos que as frequentam, consumidores acríticos da não-verdade. Dois erros imensos de avaliação: a comunicação digital trouxe possibilidades novas nunca sonhadas e que não a estão ser devidamente aproveitadas pelo modelo de negócio da comunicação social; por outro lado, o público consumidor de informação é completamente diferente do de há três décadas atrás: muito mais culto, mais exigente. Escreve bem, por vezes melhor que o jornalista profissional, frequentou cursos universitários exigentes.
Quer isto dizer que o jornalismo profissional tem os dias contados? Claro que não, bem pelo contrário. Tem é de evoluir em dois campos aparentemente contraditórios mas que acabam por se complementar: a velocidade da notícia e o enquadramento esclarecidos dos factos. E isto na mesma plataforma noticiosa, seja digital ou impressa. Sim, digital também, essa ideia de que os textos mais sérios ou mais extensos não têm lugar nas novas tecnologias informativas tem sido um erro trágico.
O leitor actual mudou tanto ou mais que o mundo actual. Já não lê no mesmo sítio todos os dias, às mesmas horas. Fá-lo a qualquer momento – em viagem, em ócio, durante o trabalho, em resposta a uma questão momentânea. Sem com isso admitir qualquer desvalorização da qualidade informativa. Sabe é diferenciar, conforme dissemos já, a mera notícia da mundividência que a envolve.
E consulta a informação não nos sites noticiosos mas nas aplicações para smartphones, ao contrário do que quase todos pensam.
O sucesso de casos como o Observador ou El Español (ideologias políticas aparte) constitui os primeiros passos de algo que vai necessariamente desenvolver-se.
E a imprensa publicada? Terá sempre lugar, agora mais dedicada a públicos-nicho, com o desenvolvimento e investigação dos temas em análise mais assumido, com o design e a qualidade das fotografias objecto de um investimento diferente.
O resto é lamúria, ignorância, desculpabilização à custa dos que não têm culpa. E, já agora, mudem a forma de estar e reduzam essa atávica vaidade. Em verdade não a merecem.

Francisco Sérgio de Barros e Barros
Carteira de jornalista TE-2

Foto: Meios & Publicidade


quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Morreu um aluno


Da morte o que nos separa é algo muito ténue. Por vezes quase nada. Entra-se no carro do pai depois de um dia de aulas, percorre-se caminho em direcção à nossa casa, vem uma carrinha em sentido contrário ao nosso e… é a morte que nos abraça, leva-nos com ela, deixa um vazio nos outros que dói, fere. É pérfida a morte. Principalmente quando se tem 17 anos, rosto de modelo fotográfico, uma vida para amar. O Emanuel Veiga, aluno do Liceu de Bragança, não merecia isto. Nem ele nem os outros que com ele sonhavam os dias que vêm aí. Resta-nos mantê-lo vivo na nossa memória, nas festas que fizermos, nas conversas que mantivermos daqui a 30 anos, na cidade de Bragança que soubermos construir. Juntos a ele. Sempre.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Falta a Julia Roberts



Estou numa esplanada onde o ser mais interessante que aqui está é um fabuloso cão. Não está mal mas não era bem isto que eu esperava.

domingo, 8 de janeiro de 2017

Adeus Mário Soares


Mário Soares morreu hoje. A notícia era esperada há algum tempo. Estávamos por isso todos preparados para ela. Mas mesmo assim custa. Não era uma pessoa qualquer. Muitos não saberão mas tempos houve em que do nosso país os estrangeiros conheciam a Amália, o Eusébio e o Mário Soares. Entre a geração de políticos de excepção que a Europa teve – sim, um dia teve, parece incrível! – constam nomes como François Miterrand, Willy Brandt, Olof Palme, Hans-Dietrich Genscher, Felipe Gonzalez, Helmut Schmidt, Helmut Kohl, Jacques Delors e, claro, Mário Soares.
Mas não é disso que vou falar hoje. Fica prometido para outros espaços de reflexão. Vou antes dar-vos conta da memória pessoal que guardo dele.
Importa dizer que desde muito cedo gostei de política. Lembro-me de criança ainda recusar o gesto afetuoso de Américo Tomás ao querer fazer-me uma carícia na testa, num jantar faustoso, depois de ter chegado no Rolls-Royce da Presidência; de integrar-me, alguns anos mais tarde, na fila que na Sexta-Feira à noite esperava pela edição do semanário Jornal (era eu o mais jovem dos clientes); de ler o Expresso de uma ponta à outra (anúncios de emprego incluídos).
De Mário Soares recordo-me da 1ª vez que estive com ele. Só não levava calções porque nunca mais os usei desde os oito anos de idade. Abeirei-me dele, o meu herói político, não me lembro se consegui dizer coisa alguma, cumprimentei-o e… não, não leiam mais aqueles que não gostam dele... desejo-vos um tempo feliz na companhia da TVI… sejam vocês mesmo segundo os mandamentos do Reiki… cheirei as mãos... e lá estava ele… um perfume beatífico, dos Champs-Elysés, quase-terreno, quase-celestial.
E depois as gravatas. De um bom-gosto irrepreensível. Os fatos feitos à medida num corpo que ultrapassava as coordenadas dos dietistas mas que a altura acima da média ajudava a disfarçarem.
E que valia isso perante a verbe de Mário Soares? Como jornalista acompanhei algumas vezes congressos, acções de incentivo dirigidos à actividade empresarial. Escusado será dizer que havia sempre indivíduos preparados para zurzir no político – a grande maioria regressados das antigas colónias e zangados com tudo e com todos.
Mário Soares entrava nos anfiteatros com o seu passo largo, o sorriso confiante no rosto e a inigualável desenvoltura pronta a actuar.
Algum tempo depois, a bonomia posta em acção, um interesse genuíno naquilo que os outros diziam, a última palavra escolhida a preceito, e era vê-los juntos, braços nos ombros, irmanados na ideia de progresso e de investimento.
É com muita emoção que escrevo hoje sobre Mário Soares, o homem que mais me influenciou politicamente. Vivemos na actualidade outros tempos, políticas novas. Dizem que pertencem à era da pós-verdade. Pode ser que sim. Mas uma coisa não faça o possível eleitor nunca: não se deixe representar por políticos que não saibam juntar o exercício político à cultura, seja ela livresca, científica ou artística. Mário Soares é o exemplo perpétuo disto mesmo.

domingo, 1 de janeiro de 2017

Ano Novo


Ei...!! Você aí... O que se passa consigo!?