quinta-feira, 11 de maio de 2017

As aparições e a minha vida


O transcendente visitou-me algumas vezes. Comoqualquer um dos leitores. Nessas ocasiões algo provoca em nós espanto. E por vezes muda-nos. É como se houvesse um corte com o passado.

Esse encontro com o passado acontece muitas das vezes com a visão ou mesmo com a aparição. Eu sei que o encontro com o sobrenatural tem diversos graus de impacto emocional. Falarmos com Deus não entra nestas minhas cogitações, os meus amigos jesuítas fiquem descansados acerca da minha saúde mental.

Até porque infelizmente não sou religioso. Quando falo em acontecimentos marcantes, próximos da ruptura com o que já se foi, falo da leitura de um bom livro, de uma conversa que não se esquece. Coisas assim.

Por exemplo, de quando li O Homem que Olha do Moravia, ou vi no cinema o A Filha de Ryan de David Lean. Ou quando toquei pela primeira vez o corpo nu de uma mulher.

O que é que estás a dizer? Não te ouço, Zuckerberg... Ah! Descansa. Apenas vou falar de testemunhos pessoais mas partilháveis por todos. Que toda a gente possa traduzir para a sua própria vida.

Deixa-me pensar, Zuckerberg. Já sei o que escolher: a aparição de 1990 – era eu um adolescente. O hotel onde hoje estou hospedado, o Beverly Wilshire, em Los Angeles, também não me deixa muita margem de manobra em matéria de recordações marcantes.

Lembro-me de nesse ano, uma mulher linda "mais brilhante do que o Sol" olhar nos meus olhos, sorrir nos seus olhos, e dizer com os lábios mais fantásticos que alguma vez o Chiado viu: "Qual a cor do preservativo que queres?” Olhei para aquele anjo e não sei porquê lembrei-me da deputada comunista muito em voga naquele tempo – a Odete Santos. Não tinha nada a ver.

Sei que no dia seguinte, depois de uma noite de oração e muita descoberta metafísica, dei à Vivian (era esse o nome dela) o cartão da minha mãe do Continente para comprar roupa no Rodeo Drive. O vestido de cor castanha e fogo-de-artifício branco foi nesse dia que caiu do céu.

À noite fomos à ópera em São Francisco. Ela levou uma toilette vermelha que tinha usado no filme Pretty Woman e fomos na camioneta do Barraqueiro. Durante a viagem conversamos muito. A Vivian era uma mulher muito experiente e quis dar-me alguns conselhos sobre o sexo feminino. Que nunca me deixasse seduzir pelas mulheres russas. Principalmente quando louras de cabelo comprido e a tocar piano. Primeiro tinha de usar o meu charme – que ela achava eu possuir às carradas – e assim proceder à conversão delas aos meus princípios. Depois revelou-me algo de trágico a acontecer no meu futuro mas que não poderia dizer mais porque era segredo. Prometi-lhe o cartão da minha mãe da Loja das Meias e ela então falou-me que alguém iria atentar contra a minha vida. Preveniu-me ainda que via armas no meio daquele presságio. Não percebi nada até uns anos mais tarde uma mulher apontar uma pistola à minha cabeça por eu não querer mais nada com ela.

Mas voltando à Vivian e à ópera: ela em forma de anjo com o rosto em cima do meu ombro, a música a ecoar naquele teatro, e as lágrimas… Sérgio… Sérgio… Acorda que são horas da escola! Abri os olhos e vi a minha mãe como sempre preocupada comigo. Que horas são? – perguntei. Oito horas. Dentro de meia hora tinha a minha professora de francês a lembrar-me que no mundo não há só corpos celestes.

Se fui o mesmo de sempre na aula de francês? Não, não fui. Nunca falei tanto francês na minha vida e em feux d'artifice e na apparition de la Sainte Vivian. Uma autêntica epifania aquele sonho.


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