quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Mulher dos olhos lindos


O verde dos campos, o azul do mar, o d'ouro do coração, os fios do cabelo para eu desfiar, o vermelho para beijar. Viana em todo o seu esplendor.

(Foto de José Maria Barroso Coelho)

Paris



Hoje soube-o uma vez mais: Paris deveria fechar para descanso durante o dia e abrir as portas à vida só à noite. 
Sexta-feira fria e as esplanadas cheias de risos, pernas cruzadas, lagosta à mesa, vinho a percorrer os copos e sexo na cama. Cidade feiticeira. 

Mulher avantajada


Tentou entrar hoje na Assembleia da República. Que não, são ordens novas, você é uma mulher avantajada e isso pode distrair os deputados do seu labor fundamental. Em prol da nação. E do interesse dos mais necessitados, sentenciaram os guardas. Mas eu sou representante da Associação Portuguesa dos Nutricionistas e tenho audiência marcada com o deputado Carlos Abreu Amorim, disse a mulher avantajada. Não brinque com esta casa, olhe o respeito, aqui funciona a sede da democracia, rosnaram com a boca semicerrada os agentes da Judiciária ou do SIS ou lá o que era... 

Gata em Telhado de Zinco Quente


Vou hoje assistir à representação da peça Gata em Telhado de Zinco Quente. Ente os actores em cena há um que admiro particularmente: Rúben Gomes. Tem um ar calmo, próprio de quem diz mais com o olhar do que com as palavras. Faz-me lembrar o Gregory Peck. Para além disso tem boa voz... Ei!!!! Mas só agora reparo... Quem é aquela gaja que insiste em colocar-se em primeiro plano na fotografia!?
Eu quero ver o Rúben Gomes.
Palhaça.

Maria Leonor de Barros







Hoje não é um dia qualquer. A Maria Leonor faz nove anos. Tal como eu, daquela vez em que ganhei um relógio de pulso de homem crescido. Tanto tempo passou já. Parece uma eternidade, outro filme, uma vida irremediavelmente distante.

Agora é a vez da Leonor. Com ou sem relógio de pessoa grande. A corrida dela está prestes a começar. 1, 2, 3: os ponteiros do Longines do estádio avançam inexoravelmente. A Nonô vai começar a disputar o jogo inventado pelos grandes. Há barreiras para saltar, rasteiras para evitar. Não há dúvida, são tão estúpidos os "donos disto tudo". 

E que posso eu fazer para ajudar a correr veloz como um lince a minha Leonor? Ir em vez dela? Coitado de mim e principalmente da Leonor. Ela é melhor do que eu. Hoje passei pela escola onde estuda para entregar um bolo. A Leonor é muito inteligente, disseram todas e uma por uma as professoras. E ainda por cima ri e faz rir. Diferentemente de mim. E é desenrascada, autónoma. Ainda vai ser também "dona disto tudo", pensei eu. 

Neste arremedo de Verão pífio que nos abandonou sem alguma vez ter chegado, quis ensinar a bela Leonor a fazer a última das coisas que um pai pode fazer por uma filha: segurar no selim da bicicleta até ela ser capaz de se equilibrar sozinha. Dessa minha façanha restou a fotografia que abaixo se publica e na qual apareço muito favorecido. Da Leonor e da bicicleta ficou apenas o pó erguido pela bicicleta e pela nortada do Verão mentiroso. Derrotado, limitei-me a vê-las sprintar numa velocidade furiosa em direcção ainda hoje não sei de quê. 

Parabéns pelo teu aniversário, minha querida filha. 


(Em 16 de Outubro)

Foto da direita: Leçon de vélo (Bike Lesson),1961. Robert Doisneau

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Matilde de Barros


A Matilde é muito bonita, mas ainda não sabe. Tem sensibilidade de poeta, mas duvida. Nasceu para ser diferente, mas acha-se a mais insignificante das adolescentes. Tem corpo de manequim, mas não gosta do que vê no espelho. Gosta do mar, mas julga-se da terra. É sonho, mas sente-se, muitas vezes, pesadelo. Percebe todos os mistérios da vida, mas tem medo de não ser capaz. Tem o melhor pai do mundo, mas pensa que só é da Europa. 
Não é de admirar tanta hesitação, tanto receio de ser quasi invisível: afinal ela faz hoje apenas (e tanto...) 15 anos. E aos 15 anos todos as mulheres e homens interessantes foram assim. 
Parabéns, minha querida filha.

(Em 29 de Setembro)

A mim


Ao ser mais maravilhoso de todos. Do Facebook e arredores. Da praia de Moledo e das terras amarelas do sul. A mim mesmo. Obrigado.

João Álvaro Rocha


Morreu no Porto, vítima de cancro, João Álvaro Rocha, um dos maiores arquitectos portugueses. Nascido em Viana do Castelo há 55 anos, integrava a chamada escola de arquitectura do Porto, onde pontificam nomes como Siza Vieira ou Souto Moura. Conjugava a capacidade técnica de criar um projecto com a erudição teórica capaz de o justificar em termos conceptuais e urbanísticos. 
João Álvaro Rocha foi autor de três das estações de metro do Porto e de diversos edifícios marcantes na história recente da arquitectura portuguesa, alguns deles construídos nos arredores da cidade de Viana.
De realçar que uma das apostas maiores do seu trajecto profissional referia-se à concepção funcional e estética de edifícios de carácter colectivo, vocacionados para o alojamento de famílias de menores recursos económicos. 
Um desses projectos de habitação social, localizado em Matosinhos, valeu-lhe o Prémio Vale da Gândara, atribuído pela Ordem dos Arquitectos em 2005. 
Foi professor na Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto e noutras instituições de ensino dos Estados Unidos, França, Itália e Espanha. 
Publicou vasta bibliografia sobre arquitectura para além de ter sido alvo de estudos publicados em livro por especialistas na área. 
Era filho do conhecido ceramista Álvaro Rocha e pertencia a uma geração de vianenses que ocupam lugares cimeiros no panorama universitário e cultural português sem que, por uma razão ou por outra, os habitantes daquela cidade alto-minhota saibam das suas raízes tão próximas. 

Viana em Agosto


Esplanada de Agosto em Viana.
(Adeus Agosto. Adeus Viana.)

Mulheres bonitas


Ontem à tarde vi em Moledo 231 mulheres bonitas, em Viana 1742 e no Porto 1741. Quer isto dizer que num espaço de seis horas apaixonei-me 3714 vezes. Não parece mas é Verão.

A praia


- Lurdes, traz-me os calções de banho vermelhos. 
- (...)
- Hoje vou finalmente reencontrar-me com o mar. 
- É p'ra já, senhor doutor.

A esplanada (II)


Agora sim, vão finalmente extirpar-se as gorduras do estado. Já não era sem tempo. Olha. Aleluia. Acabou de aterrar uma mulher linda na mesa ao lado da minha na esplanada. Viva o estado mínimo. 

Medicina e Arte


Francisco Campos fez da vida e da medicina arte, muito mais do que ciência. Bela escolha! Até sempre.

O avião vai partir


E pronto, lá vou eu de partida mais a minha grande amiga Cuca Roseta.

sábado, 17 de maio de 2014

Bom Povo


O povo de Portugal abandona a igreja onde assistiu esta manhã a uma missa de acção de graças pelo sucesso do programa de ajustamento hoje terminado. 
À frente vê-se o presidente do conselho. Para trás ficou Camilo Lourenço que mostrou vontade de cumprir o sacramento da confissão. 
No semblante de todos a vontade de que os Espíritos Santos Salgados guardem a nossa Pátria. 

sábado, 12 de abril de 2014

Biblioteca Café


Uma das coisas que me diverte mais na vida é ler. Em qualquer sítio. Em casa, na areia, no café. Nessas ocasiões, perco-me completamente do tempo e do mundo. Chego a parecer uma criança. Ou, então, um lunático sem poiso. Por vezes perigoso outras inofensivo. Mas sempre estranho.

Foi o que me aconteceu outro dia num café. Que por ironia dos seus donos se chama Biblioteca. Lá estava eu, cabeça baixa sobre a revista, os olhos a acompanharem as letras e as fotografias, a cabeça num sítio qualquer. Na mesa espraiava-se a Adriana Ugarte, impressa em papel mate, e ao lado, um copo cheio de gelo, limão e coca-cola zero.

As luzes acesas daquele café em tarde de sol acrescentavam coisa nenhuma ao espaço. Talvez alguma aura de filme. Ou nem isso. Deve ter sido a empregada que se esqueceu de as apagar. À minha leitura e à Adriana as luzes nem estavam a menos nem a mais. Simplesmente não faziam parte daquele momento.

Os meus olhos jogaram a vida inteira ao gato e ao rato comigo. Ao longe vi sempre mal; ao perto ria-me dos outros que precisavam dos óculos. Nunca me importei muito com isso – não via a três metros os defeitos, as rugas das mulheres. Estavam quase sempre bem. A Adriana Ugarte e a professora de francês do meu filho são testemunhas disso.

Na página seguinte da revista anunciava-se a nova colecção da Cerruti. Fotografias grandes de gravatas, camisas, blazers desafiavam agora o meu olhar. A roupa e as luzes do café em tarde de sol. Que estava a deixar de o ser no horizonte que a montra deixava ver. A noite aproximava-se. A Adriana tirara já os óculos pretos da moda.

Só eu continuava longe da noite e do dia. Estava a ler. Concentrado como sempre. Rodeado de luzes por todo o lado. Que mais pareciam holofotes.

Dizem que foi por essa altura que a noite baixou definitivamente sobre o Biblioteca. Quem mo disse foi a Adriana e a professora de francês do meu filho. Que eu não reparei em nada para além do texto engraçado do João Tordo que estava naquela revista e eu devorava longe da mesa onde estava.

Por fim fez-se luz em mim. O café estava agora às escuras. As luzes foram desligadas. Era hora de servir as mistas grandes cheias de queijo. E de afastar os clientes que liam e não comiam as mistas grandes cheias de queijo. Vamos embora Adriana, mais a colecção da Cerruti e o texto sobre a vila alentejana engendrado pelo Tordo, que o café Biblioteca não é para nós. E a própria professora de francês do meu filho merece melhor. Merece a areia em frente ao mar onde eu estive a tarde toda. Agora eu sei.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

A propósito de uma fotografia


O tempo, esse escultor de emoções novas, passou por aqui. E fez estragos. E trouxe consciência ao olhar inicial. 
Conheci-os a todos. Todos bons miúdos. Com a coragem que naquela altura as circunstâncias partidárias exigiam. Principalmente quando o exercício político se desenvolvia à direita. Dois deles já não são do CDS. Militam num outro partido. Mais à esquerda. O próprio professor já não pensa da mesma forma em termos políticos. 
É o tempo a trazer maturidade e mudança. Mas, felizmente, a manter o sonho no olhar daqueles jovens prontos a mudar o mundo. 

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Em tempo de aniversário do jornal O Vianense


O tempo não é uma linha linear, contínua, sempre igual. Vive de sobressaltos, disrupções, mudanças de sentido. O mesmo acontece com a vida das pessoas e dos povos. Aquilo porque estamos a passar neste momento inscreve-se nesta alteração de rumo. Na Europa, e muito particularmente em Portugal, vive-se uma época de crise e de mudança.

Não é por acaso que estas duas últimas palavras normalmente surgem associadas uma à outra. Crise e mudança são, efectivamente, duas faces de uma mesma realidade. Elas revezam-se e explicam-se. Na maioria das vezes com efeitos positivos, outras nem tanto.

Aquilo que tem acontecido em Portugal é a materialização da segunda possibilidade. A crise no nosso país e, principalmente, a forma como se tem procurado resolvê-la, nada tem de regenerador, de virtuoso. O nível de destruição da teia social e económica que nos aproximou durante estes séculos todos é de tal ordem que o retrocesso em vez do avanço parece ser a consequência natural desta crise.

Na Europa as coisas também não estão muito melhores. A desunião entre as nações é evidente, a compreensão do carácter global das razões deste tempo não tem feito caminho. E isto num continente reconhecido pelo alto grau cultural das suas elites!

É em plena vivência deste tempo de perplexidade que se comemoram os 34 anos de vida do jornal O Vianense. Não é fácil administrar uma publicação periódica numa altura assim. Ainda por cima quando o jornal em causa se insere numa cidade e numa região também ela mergulhada numa profunda crise económica e no vazio da materialização de desígnios. Viana há muito tempo que sabe que o seu futuro passa pelas indústrias ligadas ao mar, ao turismo e às actividades criativas de cariz cultural e etnográfico. Pois é exactamente ao arrepio destas metas de desenvolvimento que o governo central retirou nos últimos dois anos a auto-estrada livre de portagens – e que tinha sido a única coisa que verdadeiramente tinha patrocinado em termos políticos durante todo o século XX –, os estaleiros navais que foram desde sempre o esteio do progresso industrial, o comboio de ligação directa ao Porto e a Vigo – numa atitude que chega a parecer de desaforo, de gozo mesmo – para não falar da velha questão da não autorização de funcionamento de um único curso universitário que seja, de que a engenharia naval é o exemplo mais chocante.

Ser jornal e ser cidade assim não é fácil. Resta esperar que a tal palavra normalmente associada ao conceito crise – mudança – ocupe a sua vez na realidade que tarda em chegar. E se integre num contexto de maior discernimento e de maior felicidade para estes homens e estas mulheres de Viana que há muito o merecem porque nunca tiveram nada.

domingo, 5 de janeiro de 2014

Notícia do dia


Esta manhã, quando um funcionário público saía de uma conhecida pastelaria lisboeta, depois de ter terminado o turno de urgência no hospital de St.ª Maria, foi detido pelas brigadas de recalibragem ideológica. O indivíduo em causa, médico de profissão, é conhecido pelo seu reaccionarismo na recusa de integração no processo de ajustamento em curso no nosso país.

Após curta audiência no tribunal plenário de S. Bento, o clínico foi enviado para o centro de reeducação de Monsanto, onde poderá redimir-se dos desmandos a que o Estado para o qual trabalhou – e tirou proveito disso – conduziu o nosso povo. A revolução não pode parar sob pena de as liberdade individuais de escolha e de fomento do êxito pessoal serem postas em causa. Viva o Estado mínimo, abaixo os funcionários públicos.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

O Rapaz da Camisola Verde


O mar de Viana (ou de Afife, como quiserem!) levou com ele os segredos todos de Pedro Homem de Mello. Até mesmo o do rapaz da camisola verde. Que hoje anda por aí de camisola grená. À procura das moças do surf para com elas experimentar o mar revolto e a paz adulta da casa de família acabada de estrear. Com as janelas abertas para deixar o sol e o barulho das ondas entrar. Calando deste modo o choro das crianças que um dia vão tricotar outra vez a cor verde do mar.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Ana Moura


Ana Moura,

No momento em que estiveres a ler estas palavras estarei a sobrevoar o Mediterrâneo a caminho do Dubai. Apeteceu-me mergulhar noutras paragens, procurar o mar e a esperança que nascem a oriente. Não poderei assim olhar-te no espectáculo que darás esta noite. Eu sei que terias vontade que as coisas não corressem assim. Disseste-me isso no último fax que me enviaste dando-me notícia de hoje e de que aceitaste a actuação por saberes que decorrerá no teatro vizinho do meu apartamento. E de que vestirás o corpo de lantejoulas azuis tal como sabes que eu gosto.

É verdade que por momentos pensei em corresponder ao teu desejo. Cheguei mesmo a debruçar a minha hesitação no parapeito da bilheteira do teatro municipal. Mas o funcionário disparou traiçoeiro as palavras que não nos pertencem: “lotação esgotada”. Perdoa-lhe, Ana, que ele não sabe de nós. Nem ele nem eu.  És rio que corre para a nascente. E eu com os olhos fitos no mar. Salva-se a noite que ri soberba das nossas mãos a procurarem-se.

Vou agora no avião à procura por alguns dias de uma terra onde o dinheiro corra pelas ruas e pelos balcões. Deixei para trás o Passos mais o Portas mais o Camilo. E a ti também. Se amanhã aí estivesse iríamos por certo almoçar ao restaurante do Abel, comer a posta mirandesa e beber o vinho Casal Garcia fresquinho. No final pediríamos o pudim do intermaché enquanto me contavas pela milésima vez o desfado em que a tua vida se transformou.

E tu simpática a pagares-me a consulta transformada em conta do restaurante. E a tua voz sensual de fazer inveja ao Barry White a soar-me cá por dentro. Dizendo que gostas de mim. Meu Deus, mas eu porquê? pensaria mais uma vez. Como é possível teres descoberto deste modo tão arguto o enorme interesse que me enforma? E a hospedeira a olhar para mim sem perceber nada de nós dois enquanto me pergunta se já escolhi o jantar.

Adeus, Ana. Até um dia destes. No teu Ribatejo ou no meu mundo todo. Ah! É verdade: a Cuca Roseta que fez questão de me acompanhar nesta peregrinação por terras sem troika pede-me para te mandar um beijinho. Um dia destes vamos ver o rio a chegar ao mar os três juntinhos. Bom espectáculo.

domingo, 1 de dezembro de 2013

De língua de fora


Nunca gostei de ginásios, de suor, de runnings, de desporto. Sempre gostei mais de ver do que fazer. Em tudo o que se mova. Ultimamente as coisas tiveram que mudar: aos poucos e poucos fui impelido por todos a fazer umas caminhadas. Uma tortura. Ando de vez em quando mas detesto. O ar a faltar e a esplanada sem mim. Já me sinto cansado só de pensar nisto.

Ontem andei mais uns quilómetros. A necessidade de ser bonito a isso me obriga. O fato Zegna merece um dono como deve ser. Só mais um bocado. Já só faltam seis quilómetros. A esplanada ao dobrar da esquina. E eu a suar e a andar. Foi nisto que apareceu ao meu lado um rafeiro em forma de cão com pêlo longo e sujo e língua de fora. A língua de fora reconheci-a eu de algum lado. O resto do retrato – eu e mania dos retratos – também me era familiar. A verdade é que desde sempre atraio os cães. Vêm todos ter comigo. Parecem conhecer-me, confiar em mim. Nunca percebi porquê. Talvez por, tal como eles, achar que os outros todos os conheço há muito tempo. Que faço parte da vida deles. Que não precisamos de ser apresentados. Engano meu tantas vezes arrependido.

E o rafeiro de porte pequeno a andar o tempo todo ao pé de mim. Contente, notava-se. A língua de fora e o fumo do calor a sair da boca. E a rir. Eu sei. Fez-me lembrar um outro que há muito tempo também caminhava repetindo os meus passos. Por um instante traiçoeiro saiu do passeio e foi cheirar a rua. Veio um carro e matou-o. Ali à minha beira. Nunca mais recuperei de vez daquilo.

O cão pequeno de língua de fora olhava para mim e para a relva do jardim. Parecia orgulhoso do novo amigo. E a esplanada à minha espera. É tempo de parar. A casa veio ter comigo. Abri a porta, entrei. Olhei para trás. Lá estava ele sentado no passeio a ver-me. Olhei melhor. Sim, o rafeiro estava mais magro. Ao contrário de mim.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Maria Leonor


A Leonor faz hoje oito anos. Eu faço dezoito. Ou vinte e oito. Ou trinta e oito. Ou mais. Nem sei. Só sei que também faço hoje anos. Nem de outra forma poderia ser. Quando um filho faz anos os pais também fazem. Começam outra vez. São outra vez. Com a esperança renovada. Pelo menos de serem tão bonitos como os seus filhos. Com o mesmo brilho nos olhos. Com o mesmo sorriso nos lábios.
Quase e nunca preparados para serem substituídos. Mas com a esperança de um dia os filhos serem eles outra vez. Se possível melhores que eles.
É aqui que a Leonor entra na minha história. A Leonor que faz hoje anos vai ser melhor do que o pai. O tal que também faz hoje anos. Mais bonita, mais inteligente, tão feliz. É vê-la a fazer contas, a falar no skype com as amigas, a comandar tudo e todos. E, principalmente, a olhar. Não deixa dúvida alguma.
Estamos, por isso, de parabéns os dois. Apenas um bocadinho mais a Leonor. Por uma única razão: ela faz oito anos. Está a começar a vida. O pai nem tanto. Maldito calendário. Bendita Leonor. Meu amor.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

O meu pai


O meu pai faz hoje anos. Não muitos. Apenas os necessários para viver muitas coisas. Uma boas outras nem tanto. Mas viver. De modo pleno. Como convém viver. Sem tibiezas ou medos de não ser assim. A vida é isto. Ou deveria ser. Um percurso cheio de pedras no caminho que se contornam ou se moldam nas nossas mãos. Fazendo-as nossas. Trazendo-as para o nosso lado. Para que juntas à beleza de tudo o resto preencham o cenário das nossas vidas. O mar, as mulheres, as palavras escritas sabem de tudo isto. Parabéns, meu querido pai.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

A Leonor e a Margarida

Na foto: a Leonor e a Margarida no recreio da escola

A Leonor de repente desistiu de olhar as casas e as pessoas que o carro deixava para trás e perguntou:
— Posso dar o teu número de telemóvel à Margarida?
— Para quê? – perguntei distraído da conversa.
— Ela vai viver para Guimarães e assim pode telefonar-me.
Calei-me eu e a Leonor. As casas e as pessoas da viagem estacaram. A Margarida também vai embora. Parece que, de uma vez só, toda a gente decidiu mudar o cenário das suas vidas. É a “mobilidade estatutária” transformada em esperança imposta.
Coitado do País. Coitadas da Leonor e da Margarida que cedo vão perceber a contingência de os dias nem sempre sucederem aos dias.
Os homens são maus – mas elas ainda são muito novas para saber isso.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Jardins distantes


Estão distantes os jardins de nós os dois. Não falamos as mesmas palavras, não olhamos a mesma lua. E o caminho é o mesmo de sempre. Perdemo-lo hoje, eu sei, mas quem sabe amanhã? O amor está à nossa espera – que nos lembremos dele, ingénuo, branco, gargalhada em cascata. As mãos de ambos sabem tudo isto. São sábias de se quererem juntas. Outra vez. Da mesma forma que as soltamos de suor novos de tudo experimentar. Doce inocência. Tal como deveríamos ser sempre. Meninos novos de rosto belo e velho. Quase tanto como a lua.

domingo, 28 de abril de 2013

"Este País não é para velhos"


Uma mulher velha tentava ao balcão da farmácia iludir a realidade. "O médico disse-me que o número de glóbulos vermelhos estava bem". A funcionária jovem expressava-se numa voz firme e ao mesmo tempo suave. "Estes comprimidos só pode tomá-los depois de comer alguma coisa!". "Mas eu não tenho apetite", lamuriava-se a mulher doente ao mesmo tempo que imprimia pequenos ziguezagues na postura do corpo na tentativa de esconder-se de mim que assistia à cena.

A cara da menina saudável de bata branca ia ficando mais severa. "Mas não toma o pequeno-almoço?” insistia a recém-formada farmacêutica. O corpo da mulher doente e o balcão eram já um só, tão colados estavam um ao outro. " Não", consegui decifrar a partir de um esgar esforçado de voz sumida.

Vim-me embora nesse momento porque já tinha sido aviado no meu pedido de cliente e porque não queria perturbar mais a intimidade reclamada por aquela mulher que se recusava a assumir a anemia que a natureza má lhe impôs.

Este país não é para velhos nem para aqueles que um dia também o vão ser, pensava eu enquanto entrava no carro. Nunca vou querer anemias nem pequenos-almoços por servir. O noticiário no rádio do carro entretanto fazia-se anunciar através do jingle estafado de tanto tocar.

Foto: Margherita Vitagliano

João Tordo


Ainda sou do tempo em que os escritores se endeusavam a si próprios. Embora fingissem não o fazer de propósito. Frequentavam as livrarias e os cafés dos outros mas não se misturavam. À volta deles havia como que uma áurea diferenciadora do comum dos mortais. Assinavam os livros com uma condescendência sacrificada. Olhavam as pessoas com a bonomia própria de quem reconhece que nem todos podem ser iguais.

Noutro dia conheci o João Tordo. Que diferença! Foi como se privasse com ele há muito tempo. Simpático, sedutor nato, experiente na vida e no mundo real (como não poderia deixar de ser uma vez que é escritor), capaz de partilhar de forma genuína o interesse e a proximidade que sente pelos outros, sejam eles quem forem.


É, provavelmente, o mais democrático dos escritores que tenho conhecido. E a verdade é que João Tordo tem tudo para, também ele, se alcandorar a um plano superior ao da vulgaridade de alguma escrita literária que por aí se faz. Tanto sob o ponto de vista formal, em que é de um rigor assinalável, como no domínio do enredo e das personagens a quem sabe transmitir um interesse crescente, ele integra por mérito próprio um grupo muito restrito de novos valores do panorama cultural português.

A diferença está no facto de perceber, porque é boa pessoa, porque gosta dos homens e, principalmente, das mulheres, que a arte da escrita necessita da normalidade traduzível em páginas admiráveis que só os grandes escritores sabem produzir.

quinta-feira, 7 de março de 2013

Em Directo


Três horas de reunião. Dezanove pessoas: blá, blá, blá. Um dos presentes lê com voz monocórdica um documento qualquer. Ninguém parece interessado no que se está a passar. Os homens são feios. As mulheres são feias. Menos uma. A deputada. A boazona. Cruza os braços e também não diz nada. Nem ela nem eu. Quando é que acaba este martírio? Alguém propõe uma votação. Acho que vou votar ao lado da maioria. Não sei o quê. Também não deve ser muito importante. Sorte a minha: a proposta foi aprovada por unanimidade. Provavelmente referia-se à viagem longa da boazona deputada de braços cruzados comigo para longe da reunião.

domingo, 3 de março de 2013

Papa Bento XVI


Ninguém o compreendeu. Foi ignorado, apenas tolerado por todos. Até que resolveu recusar o lugar ao qual os homens da igreja aspiram nos sonhos mais inconfessados. Aí, sim. Finalmente reconheceram-lhe a grandeza de alma. Um verdadeiro príncipe da comunidade de Cristo, disseram em uníssono. Idiotas. Como se o esplendor da racionalidade só se adivinhasse a partir dos grandes gestos, do espectáculo gratuito.
Esquecendo-se, todos eles, que a base teórica daquilo que mais importante se escreveu e se implementou na igreja nos últimos 50 anos, em grande parte se deve a ele.
Em Fátima os peregrinos não compravam os “santinhos” do papa-filósofo. Podem agora ficar descansados os donos das lojas do comércio religioso. O espectáculo vai começar outra vez.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

A esplanada (I)


Às vezes o paraíso parece-nos estar muito longe. Outras vezes sentimo-lo ao nosso lado, quando olhamos para o longe sentados numa esplanada que nos aproxima da terra e das pessoas. Uma coisa é certa: o paraíso somos nós e os outros de quem gostamos. Tudo o resto é mentira.

terça-feira, 8 de maio de 2012

David Hockney e Lucien Freud


David Hockney e Lucien Freud. Dois dos pintores contemporâneos de que mais gosto. O primeiro ainda felizmente vivo, o segundo (neto do célebre psicólogo) falecido o ano passado.
Eram amigos, o que é raro na actividade artística. Entre muitas outras coisas havia uma que os aproximava e outra que os afastava. Ambos gostavam de retratar as pessoas e os seus contextos de vida. Hockney (homossexual assumido) pintava predominantemente o universo masculino; Freud (amante inveterado de mulheres – pai de cerca de 40 filhos) pintava essencialmente o nu feminino.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

José Luís Peixoto


Gosto muito de ler o José Luís Peixoto: cinzela cada palavra como se de uma escultura se tratasse – mas de uma forma aparentemente fácil, tal como fazem aqueles que escrevem verdadeiramente bem.
(Fotografia de Helena Canhoto)

E a campainha ali tão perto...


Trriiimmmm! Fujam que o mundo está todo contra nós… O mundo e o Sr. Augusto, o dono da casa… Se ao menos a Teresa aparecesse à janela!
(Fotografia de Robert Doisneau )

domingo, 29 de abril de 2012

Garota de Ipanema


Difícil é escrever fácil. É dizer as coisas com a leveza de um dia de sol. Sem ponta de vento a fazer-nos cerrar o olhar. Dizendo bonito sem pensar em tal. Gostando das palavras e do que elas representam. Usando da naturalidade com que damos a mão à pessoa que sempre quisemos. Fazendo da palavra amor e corpo numa tarde de Verão.

Vinicius de Moraes é exemplo disto mesmo ao escrever o poema que mais tarde se tornou célebre em todo o mundo, inspirado no andar leve e divino de Helô Pinheiro, a mulher linda que fazia virar a cabeça de todos em sua direcção sempre que passava perto das mesas do Bar do Veloso, hoje justamente chamado Garota de Ipanema.

O poema é este:

Olha que coisa mais linda
Mais cheia de graça
É ela menina
Que vem e que passa
No doce balanço, a caminho do mar
Moça do corpo dourado
Do sol de Ipanema
O seu balançado é mais que um poema
É a coisa mais linda que eu já vi passar
Ah, porque estou tão sozinho
Ah, porque tudo é tão triste
Ah, a beleza que existe
A beleza que não é só minha
Que também passa sozinha
Ah, se ela soubesse
Que quando ela passa
O mundo inteirinho se enche de graça
E fica mais lindo
Por causa do amor

Vinicius de Moraes

Texto de Francisco Sérgio de Barros e Barros

(A fotografia retrata a Helô Pinheiro com 16 anos, um ou dois anos antes de ser descoberta por Vinicius de Moraes e por Tom Jobim. Desconheço o nome do autor da fotografia.)

Celmira Macedo


Eu vou arriscar e dizer uma coisa que não deveria dizer em público. Se não gostares, perdoa-me, por favor. Uma vez estavas tu entre um grupo de pessoas que iam ser entrevistadas por uma televisão. Quando chegou a tua vez levantaste-te, tiraste o casaco que trazias, mostraste ao mundo todo a blusa branca (ligeiramente transparente) que tinha sido feita para ser tua e só tua, e falaste... foi aí que os operadores de câmara ficaram petrificados, os outros convidados emudeceram, um senhor em Singapura teve uma síncope mortal, outro em Alfândega desmaiou e eu próprio não fiquei muito bem...

Homens e mulheres


Tonta. As mulheres de que os homens mais gostam são aquelas que dizem que eles são bons. Só isso.

Foto: PARIS - 1992
© Martin Parr -
Magnum Photos

Whitney Houston


Não era feliz. Despediu-se de nós com 48 anos provando que a beleza só não basta. Faltou-lhe um guarda-costas capaz de a proteger dos golpes baixos que a vida lhe pregou. E, já agora, que não a abandonasse depois de o filme acabar.

Discoteca Pôr de Sol


Hoje à noite há festa. O Chico e a Zé estão prontos. Os músicos da banda Estrela d’Alva também. A tia Conceição mais a danada da sobrinha de olhos bonitos puseram-se agora a caminho. A cerveja e o sumol não vão faltar. Nem o rafeiro quitoso do Jolly. Nem eu.

Adeus


Vocês são o elo mais fraco. Adeus.

O elo mais forte


Tu ficas.

Gostar


O amor é... sem fazermos algo por isso – perante a entrada na sala de alguém com quem não contávamos – sorrir com o corpo inteiro (principalmente através do olhar), ver o dia cinzento transformar-se num dia radioso, esquecer a vontade de sucesso a todo o custo e do carro de marca desejados pouco antes, agradecer a um Deus em quem infelizmente não acreditamos o facto de termos nascido e, para além disso, não sabermos dizer uma única palavra das mil e uma que tínhamos para dizer.

O que fizeram de ti


Da  Moody's à chanceler Merkel, passando pelo inefável Miguel Relvas, todos mandam no desgraçado governo português. Todos menos o Sr. José Torres Pereira, de Mondim de Basto, e a Sr.ª Rosa Esteves, de Almeirim. Ah!  E o ministro das finanças Vítor Gaspar também.
Pobre e triste Portugal. O que fizeram de ti!

Laetitia Pinto


Nasceste para fazer o bem e o mal. Espero que mais vezes o bem.
Mas mesmo que seja o mal a tua escolha, voluntários não te vão faltar. 
Eu, por mim, ofereço-me já.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Catarse


A vida não se percorre de forma linear. Por vezes ela muda de direcção, escapa-se-nos do controle, nega a racionalidade pretendida. Parece um carrossel cheio de altos e baixos onde nos limitamos a rodar na chávena gigante à espera que o homem do altifalante anuncie a última viagem.

Por isso é que algumas pessoas não aceitam ser uma só. Tornam-se actores, escritores, políticos, poetas, realizadores de cinema, membros do clero, da maçonaria, da vida social tornada profissão. A vontade de galgar horizontes novos, diferentes dos de sempre obriga-as a isso.

Outras nunca serão capazes de lá chegar. O sonho nelas nunca deixará de ser apenas sonho. Transformam-se assim em mentirosos frustrados pelo desespero de viverem de maneira sempre igual. Ainda por cima de uma vez só porque não há duas vidas, duas oportunidades.

Os heterónimos são formas de estar e de dizer que correspondem à vontade de não ser um só. De escapar a esta realidade imperiosa. De serem de ninguém e muito menos deles mesmos. Todos os que se integram naquele primeiro grupo de pessoas sabem bem disto.

Normalmente não são pessoas felizes. Não se pode ser ora assim ora de outra forma qualquer. Nem os outros deixam nem eles próprios conseguem suportar a toda a hora o facto de não saberem quem vão ser no instante seguinte. Quem vão amar agora ou depois. Se vão ser estudiosos de profissão firmada ou meros observadores da vida que passa bonita na rua.

O pior é a mentira em que naturalmente tropeçam ao quererem ser como são. Ninguém lhes perdoa esse desejo de serem mais que a realidade. E são castigados e castigam-se por causa disso. E são votados ao desprezo por não serem iguais a todos. Logo eles que amam mais que ninguém um a um os outros sem deixarem ninguém de fora.

Se são as vítimas, ou inocentes crivados pelo desprezo dos demais, não o são. Nem os outros são os maus. A vida é que provavelmente não precisava de ser assim. A escolha do itinerário da viagem no carrossel em que se transformou tudo isto deveria, isso sim, ser livre e reescrita sempre que alguém o quisesse. Cada um poderia, desse modo, continuar ou mudar de estrada no próximo cruzamento. Outra vez. Sem que nenhuma das que foram já percorridas e sobre a qual continuamos a viajar deixasse alguma vez de ser a estrada da nossa vida.