sábado, 17 de maio de 2014

Bom Povo


O povo de Portugal abandona a igreja onde assistiu esta manhã a uma missa de acção de graças pelo sucesso do programa de ajustamento hoje terminado. 
À frente vê-se o presidente do conselho. Para trás ficou Camilo Lourenço que mostrou vontade de cumprir o sacramento da confissão. 
No semblante de todos a vontade de que os Espíritos Santos Salgados guardem a nossa Pátria. 

sábado, 12 de abril de 2014

Biblioteca Café


Uma das coisas que me diverte mais na vida é ler. Em qualquer sítio. Em casa, na areia, no café. Nessas ocasiões, perco-me completamente do tempo e do mundo. Chego a parecer uma criança. Ou, então, um lunático sem poiso. Por vezes perigoso outras inofensivo. Mas sempre estranho.

Foi o que me aconteceu outro dia num café. Que por ironia dos seus donos se chama Biblioteca. Lá estava eu, cabeça baixa sobre a revista, os olhos a acompanharem as letras e as fotografias, a cabeça num sítio qualquer. Na mesa espraiava-se a Adriana Ugarte, impressa em papel mate, e ao lado, um copo cheio de gelo, limão e coca-cola zero.

As luzes acesas daquele café em tarde de sol acrescentavam coisa nenhuma ao espaço. Talvez alguma aura de filme. Ou nem isso. Deve ter sido a empregada que se esqueceu de as apagar. À minha leitura e à Adriana as luzes nem estavam a menos nem a mais. Simplesmente não faziam parte daquele momento.

Os meus olhos jogaram a vida inteira ao gato e ao rato comigo. Ao longe vi sempre mal; ao perto ria-me dos outros que precisavam dos óculos. Nunca me importei muito com isso – não via a três metros os defeitos, as rugas das mulheres. Estavam quase sempre bem. A Adriana Ugarte e a professora de francês do meu filho são testemunhas disso.

Na página seguinte da revista anunciava-se a nova colecção da Cerruti. Fotografias grandes de gravatas, camisas, blazers desafiavam agora o meu olhar. A roupa e as luzes do café em tarde de sol. Que estava a deixar de o ser no horizonte que a montra deixava ver. A noite aproximava-se. A Adriana tirara já os óculos pretos da moda.

Só eu continuava longe da noite e do dia. Estava a ler. Concentrado como sempre. Rodeado de luzes por todo o lado. Que mais pareciam holofotes.

Dizem que foi por essa altura que a noite baixou definitivamente sobre o Biblioteca. Quem mo disse foi a Adriana e a professora de francês do meu filho. Que eu não reparei em nada para além do texto engraçado do João Tordo que estava naquela revista e eu devorava longe da mesa onde estava.

Por fim fez-se luz em mim. O café estava agora às escuras. As luzes foram desligadas. Era hora de servir as mistas grandes cheias de queijo. E de afastar os clientes que liam e não comiam as mistas grandes cheias de queijo. Vamos embora Adriana, mais a colecção da Cerruti e o texto sobre a vila alentejana engendrado pelo Tordo, que o café Biblioteca não é para nós. E a própria professora de francês do meu filho merece melhor. Merece a areia em frente ao mar onde eu estive a tarde toda. Agora eu sei.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

A propósito de uma fotografia


O tempo, esse escultor de emoções novas, passou por aqui. E fez estragos. E trouxe consciência ao olhar inicial. 
Conheci-os a todos. Todos bons miúdos. Com a coragem que naquela altura as circunstâncias partidárias exigiam. Principalmente quando o exercício político se desenvolvia à direita. Dois deles já não são do CDS. Militam num outro partido. Mais à esquerda. O próprio professor já não pensa da mesma forma em termos políticos. 
É o tempo a trazer maturidade e mudança. Mas, felizmente, a manter o sonho no olhar daqueles jovens prontos a mudar o mundo. 

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Em tempo de aniversário do jornal O Vianense


O tempo não é uma linha linear, contínua, sempre igual. Vive de sobressaltos, disrupções, mudanças de sentido. O mesmo acontece com a vida das pessoas e dos povos. Aquilo porque estamos a passar neste momento inscreve-se nesta alteração de rumo. Na Europa, e muito particularmente em Portugal, vive-se uma época de crise e de mudança.

Não é por acaso que estas duas últimas palavras normalmente surgem associadas uma à outra. Crise e mudança são, efectivamente, duas faces de uma mesma realidade. Elas revezam-se e explicam-se. Na maioria das vezes com efeitos positivos, outras nem tanto.

Aquilo que tem acontecido em Portugal é a materialização da segunda possibilidade. A crise no nosso país e, principalmente, a forma como se tem procurado resolvê-la, nada tem de regenerador, de virtuoso. O nível de destruição da teia social e económica que nos aproximou durante estes séculos todos é de tal ordem que o retrocesso em vez do avanço parece ser a consequência natural desta crise.

Na Europa as coisas também não estão muito melhores. A desunião entre as nações é evidente, a compreensão do carácter global das razões deste tempo não tem feito caminho. E isto num continente reconhecido pelo alto grau cultural das suas elites!

É em plena vivência deste tempo de perplexidade que se comemoram os 34 anos de vida do jornal O Vianense. Não é fácil administrar uma publicação periódica numa altura assim. Ainda por cima quando o jornal em causa se insere numa cidade e numa região também ela mergulhada numa profunda crise económica e no vazio da materialização de desígnios. Viana há muito tempo que sabe que o seu futuro passa pelas indústrias ligadas ao mar, ao turismo e às actividades criativas de cariz cultural e etnográfico. Pois é exactamente ao arrepio destas metas de desenvolvimento que o governo central retirou nos últimos dois anos a auto-estrada livre de portagens – e que tinha sido a única coisa que verdadeiramente tinha patrocinado em termos políticos durante todo o século XX –, os estaleiros navais que foram desde sempre o esteio do progresso industrial, o comboio de ligação directa ao Porto e a Vigo – numa atitude que chega a parecer de desaforo, de gozo mesmo – para não falar da velha questão da não autorização de funcionamento de um único curso universitário que seja, de que a engenharia naval é o exemplo mais chocante.

Ser jornal e ser cidade assim não é fácil. Resta esperar que a tal palavra normalmente associada ao conceito crise – mudança – ocupe a sua vez na realidade que tarda em chegar. E se integre num contexto de maior discernimento e de maior felicidade para estes homens e estas mulheres de Viana que há muito o merecem porque nunca tiveram nada.

domingo, 5 de janeiro de 2014

Notícia do dia


Esta manhã, quando um funcionário público saía de uma conhecida pastelaria lisboeta, depois de ter terminado o turno de urgência no hospital de St.ª Maria, foi detido pelas brigadas de recalibragem ideológica. O indivíduo em causa, médico de profissão, é conhecido pelo seu reaccionarismo na recusa de integração no processo de ajustamento em curso no nosso país.

Após curta audiência no tribunal plenário de S. Bento, o clínico foi enviado para o centro de reeducação de Monsanto, onde poderá redimir-se dos desmandos a que o Estado para o qual trabalhou – e tirou proveito disso – conduziu o nosso povo. A revolução não pode parar sob pena de as liberdade individuais de escolha e de fomento do êxito pessoal serem postas em causa. Viva o Estado mínimo, abaixo os funcionários públicos.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

O Rapaz da Camisola Verde


O mar de Viana (ou de Afife, como quiserem!) levou com ele os segredos todos de Pedro Homem de Mello. Até mesmo o do rapaz da camisola verde. Que hoje anda por aí de camisola grená. À procura das moças do surf para com elas experimentar o mar revolto e a paz adulta da casa de família acabada de estrear. Com as janelas abertas para deixar o sol e o barulho das ondas entrar. Calando deste modo o choro das crianças que um dia vão tricotar outra vez a cor verde do mar.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Ana Moura


Ana Moura,

No momento em que estiveres a ler estas palavras estarei a sobrevoar o Mediterrâneo a caminho do Dubai. Apeteceu-me mergulhar noutras paragens, procurar o mar e a esperança que nascem a oriente. Não poderei assim olhar-te no espectáculo que darás esta noite. Eu sei que terias vontade que as coisas não corressem assim. Disseste-me isso no último fax que me enviaste dando-me notícia de hoje e de que aceitaste a actuação por saberes que decorrerá no teatro vizinho do meu apartamento. E de que vestirás o corpo de lantejoulas azuis tal como sabes que eu gosto.

É verdade que por momentos pensei em corresponder ao teu desejo. Cheguei mesmo a debruçar a minha hesitação no parapeito da bilheteira do teatro municipal. Mas o funcionário disparou traiçoeiro as palavras que não nos pertencem: “lotação esgotada”. Perdoa-lhe, Ana, que ele não sabe de nós. Nem ele nem eu.  És rio que corre para a nascente. E eu com os olhos fitos no mar. Salva-se a noite que ri soberba das nossas mãos a procurarem-se.

Vou agora no avião à procura por alguns dias de uma terra onde o dinheiro corra pelas ruas e pelos balcões. Deixei para trás o Passos mais o Portas mais o Camilo. E a ti também. Se amanhã aí estivesse iríamos por certo almoçar ao restaurante do Abel, comer a posta mirandesa e beber o vinho Casal Garcia fresquinho. No final pediríamos o pudim do intermaché enquanto me contavas pela milésima vez o desfado em que a tua vida se transformou.

E tu simpática a pagares-me a consulta transformada em conta do restaurante. E a tua voz sensual de fazer inveja ao Barry White a soar-me cá por dentro. Dizendo que gostas de mim. Meu Deus, mas eu porquê? pensaria mais uma vez. Como é possível teres descoberto deste modo tão arguto o enorme interesse que me enforma? E a hospedeira a olhar para mim sem perceber nada de nós dois enquanto me pergunta se já escolhi o jantar.

Adeus, Ana. Até um dia destes. No teu Ribatejo ou no meu mundo todo. Ah! É verdade: a Cuca Roseta que fez questão de me acompanhar nesta peregrinação por terras sem troika pede-me para te mandar um beijinho. Um dia destes vamos ver o rio a chegar ao mar os três juntinhos. Bom espectáculo.

domingo, 1 de dezembro de 2013

De língua de fora


Nunca gostei de ginásios, de suor, de runnings, de desporto. Sempre gostei mais de ver do que fazer. Em tudo o que se mova. Ultimamente as coisas tiveram que mudar: aos poucos e poucos fui impelido por todos a fazer umas caminhadas. Uma tortura. Ando de vez em quando mas detesto. O ar a faltar e a esplanada sem mim. Já me sinto cansado só de pensar nisto.

Ontem andei mais uns quilómetros. A necessidade de ser bonito a isso me obriga. O fato Zegna merece um dono como deve ser. Só mais um bocado. Já só faltam seis quilómetros. A esplanada ao dobrar da esquina. E eu a suar e a andar. Foi nisto que apareceu ao meu lado um rafeiro em forma de cão com pêlo longo e sujo e língua de fora. A língua de fora reconheci-a eu de algum lado. O resto do retrato – eu e mania dos retratos – também me era familiar. A verdade é que desde sempre atraio os cães. Vêm todos ter comigo. Parecem conhecer-me, confiar em mim. Nunca percebi porquê. Talvez por, tal como eles, achar que os outros todos os conheço há muito tempo. Que faço parte da vida deles. Que não precisamos de ser apresentados. Engano meu tantas vezes arrependido.

E o rafeiro de porte pequeno a andar o tempo todo ao pé de mim. Contente, notava-se. A língua de fora e o fumo do calor a sair da boca. E a rir. Eu sei. Fez-me lembrar um outro que há muito tempo também caminhava repetindo os meus passos. Por um instante traiçoeiro saiu do passeio e foi cheirar a rua. Veio um carro e matou-o. Ali à minha beira. Nunca mais recuperei de vez daquilo.

O cão pequeno de língua de fora olhava para mim e para a relva do jardim. Parecia orgulhoso do novo amigo. E a esplanada à minha espera. É tempo de parar. A casa veio ter comigo. Abri a porta, entrei. Olhei para trás. Lá estava ele sentado no passeio a ver-me. Olhei melhor. Sim, o rafeiro estava mais magro. Ao contrário de mim.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Maria Leonor


A Leonor faz hoje oito anos. Eu faço dezoito. Ou vinte e oito. Ou trinta e oito. Ou mais. Nem sei. Só sei que também faço hoje anos. Nem de outra forma poderia ser. Quando um filho faz anos os pais também fazem. Começam outra vez. São outra vez. Com a esperança renovada. Pelo menos de serem tão bonitos como os seus filhos. Com o mesmo brilho nos olhos. Com o mesmo sorriso nos lábios.
Quase e nunca preparados para serem substituídos. Mas com a esperança de um dia os filhos serem eles outra vez. Se possível melhores que eles.
É aqui que a Leonor entra na minha história. A Leonor que faz hoje anos vai ser melhor do que o pai. O tal que também faz hoje anos. Mais bonita, mais inteligente, tão feliz. É vê-la a fazer contas, a falar no skype com as amigas, a comandar tudo e todos. E, principalmente, a olhar. Não deixa dúvida alguma.
Estamos, por isso, de parabéns os dois. Apenas um bocadinho mais a Leonor. Por uma única razão: ela faz oito anos. Está a começar a vida. O pai nem tanto. Maldito calendário. Bendita Leonor. Meu amor.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

O meu pai


O meu pai faz hoje anos. Não muitos. Apenas os necessários para viver muitas coisas. Uma boas outras nem tanto. Mas viver. De modo pleno. Como convém viver. Sem tibiezas ou medos de não ser assim. A vida é isto. Ou deveria ser. Um percurso cheio de pedras no caminho que se contornam ou se moldam nas nossas mãos. Fazendo-as nossas. Trazendo-as para o nosso lado. Para que juntas à beleza de tudo o resto preencham o cenário das nossas vidas. O mar, as mulheres, as palavras escritas sabem de tudo isto. Parabéns, meu querido pai.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

A Leonor e a Margarida

Na foto: a Leonor e a Margarida no recreio da escola

A Leonor de repente desistiu de olhar as casas e as pessoas que o carro deixava para trás e perguntou:
— Posso dar o teu número de telemóvel à Margarida?
— Para quê? – perguntei distraído da conversa.
— Ela vai viver para Guimarães e assim pode telefonar-me.
Calei-me eu e a Leonor. As casas e as pessoas da viagem estacaram. A Margarida também vai embora. Parece que, de uma vez só, toda a gente decidiu mudar o cenário das suas vidas. É a “mobilidade estatutária” transformada em esperança imposta.
Coitado do País. Coitadas da Leonor e da Margarida que cedo vão perceber a contingência de os dias nem sempre sucederem aos dias.
Os homens são maus – mas elas ainda são muito novas para saber isso.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Jardins distantes


Estão distantes os jardins de nós os dois. Não falamos as mesmas palavras, não olhamos a mesma lua. E o caminho é o mesmo de sempre. Perdemo-lo hoje, eu sei, mas quem sabe amanhã? O amor está à nossa espera – que nos lembremos dele, ingénuo, branco, gargalhada em cascata. As mãos de ambos sabem tudo isto. São sábias de se quererem juntas. Outra vez. Da mesma forma que as soltamos de suor novos de tudo experimentar. Doce inocência. Tal como deveríamos ser sempre. Meninos novos de rosto belo e velho. Quase tanto como a lua.

domingo, 28 de abril de 2013

"Este País não é para velhos"


Uma mulher velha tentava ao balcão da farmácia iludir a realidade. "O médico disse-me que o número de glóbulos vermelhos estava bem". A funcionária jovem expressava-se numa voz firme e ao mesmo tempo suave. "Estes comprimidos só pode tomá-los depois de comer alguma coisa!". "Mas eu não tenho apetite", lamuriava-se a mulher doente ao mesmo tempo que imprimia pequenos ziguezagues na postura do corpo na tentativa de esconder-se de mim que assistia à cena.

A cara da menina saudável de bata branca ia ficando mais severa. "Mas não toma o pequeno-almoço?” insistia a recém-formada farmacêutica. O corpo da mulher doente e o balcão eram já um só, tão colados estavam um ao outro. " Não", consegui decifrar a partir de um esgar esforçado de voz sumida.

Vim-me embora nesse momento porque já tinha sido aviado no meu pedido de cliente e porque não queria perturbar mais a intimidade reclamada por aquela mulher que se recusava a assumir a anemia que a natureza má lhe impôs.

Este país não é para velhos nem para aqueles que um dia também o vão ser, pensava eu enquanto entrava no carro. Nunca vou querer anemias nem pequenos-almoços por servir. O noticiário no rádio do carro entretanto fazia-se anunciar através do jingle estafado de tanto tocar.

Foto: Margherita Vitagliano

João Tordo


Ainda sou do tempo em que os escritores se endeusavam a si próprios. Embora fingissem não o fazer de propósito. Frequentavam as livrarias e os cafés dos outros mas não se misturavam. À volta deles havia como que uma áurea diferenciadora do comum dos mortais. Assinavam os livros com uma condescendência sacrificada. Olhavam as pessoas com a bonomia própria de quem reconhece que nem todos podem ser iguais.

Noutro dia conheci o João Tordo. Que diferença! Foi como se privasse com ele há muito tempo. Simpático, sedutor nato, experiente na vida e no mundo real (como não poderia deixar de ser uma vez que é escritor), capaz de partilhar de forma genuína o interesse e a proximidade que sente pelos outros, sejam eles quem forem.


É, provavelmente, o mais democrático dos escritores que tenho conhecido. E a verdade é que João Tordo tem tudo para, também ele, se alcandorar a um plano superior ao da vulgaridade de alguma escrita literária que por aí se faz. Tanto sob o ponto de vista formal, em que é de um rigor assinalável, como no domínio do enredo e das personagens a quem sabe transmitir um interesse crescente, ele integra por mérito próprio um grupo muito restrito de novos valores do panorama cultural português.

A diferença está no facto de perceber, porque é boa pessoa, porque gosta dos homens e, principalmente, das mulheres, que a arte da escrita necessita da normalidade traduzível em páginas admiráveis que só os grandes escritores sabem produzir.

quinta-feira, 7 de março de 2013

Em Directo


Três horas de reunião. Dezanove pessoas: blá, blá, blá. Um dos presentes lê com voz monocórdica um documento qualquer. Ninguém parece interessado no que se está a passar. Os homens são feios. As mulheres são feias. Menos uma. A deputada. A boazona. Cruza os braços e também não diz nada. Nem ela nem eu. Quando é que acaba este martírio? Alguém propõe uma votação. Acho que vou votar ao lado da maioria. Não sei o quê. Também não deve ser muito importante. Sorte a minha: a proposta foi aprovada por unanimidade. Provavelmente referia-se à viagem longa da boazona deputada de braços cruzados comigo para longe da reunião.

domingo, 3 de março de 2013

Papa Bento XVI


Ninguém o compreendeu. Foi ignorado, apenas tolerado por todos. Até que resolveu recusar o lugar ao qual os homens da igreja aspiram nos sonhos mais inconfessados. Aí, sim. Finalmente reconheceram-lhe a grandeza de alma. Um verdadeiro príncipe da comunidade de Cristo, disseram em uníssono. Idiotas. Como se o esplendor da racionalidade só se adivinhasse a partir dos grandes gestos, do espectáculo gratuito.
Esquecendo-se, todos eles, que a base teórica daquilo que mais importante se escreveu e se implementou na igreja nos últimos 50 anos, em grande parte se deve a ele.
Em Fátima os peregrinos não compravam os “santinhos” do papa-filósofo. Podem agora ficar descansados os donos das lojas do comércio religioso. O espectáculo vai começar outra vez.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

A esplanada (I)


Às vezes o paraíso parece-nos estar muito longe. Outras vezes sentimo-lo ao nosso lado, quando olhamos para o longe sentados numa esplanada que nos aproxima da terra e das pessoas. Uma coisa é certa: o paraíso somos nós e os outros de quem gostamos. Tudo o resto é mentira.

terça-feira, 8 de maio de 2012

David Hockney e Lucien Freud


David Hockney e Lucien Freud. Dois dos pintores contemporâneos de que mais gosto. O primeiro ainda felizmente vivo, o segundo (neto do célebre psicólogo) falecido o ano passado.
Eram amigos, o que é raro na actividade artística. Entre muitas outras coisas havia uma que os aproximava e outra que os afastava. Ambos gostavam de retratar as pessoas e os seus contextos de vida. Hockney (homossexual assumido) pintava predominantemente o universo masculino; Freud (amante inveterado de mulheres – pai de cerca de 40 filhos) pintava essencialmente o nu feminino.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

José Luís Peixoto


Gosto muito de ler o José Luís Peixoto: cinzela cada palavra como se de uma escultura se tratasse – mas de uma forma aparentemente fácil, tal como fazem aqueles que escrevem verdadeiramente bem.
(Fotografia de Helena Canhoto)

E a campainha ali tão perto...


Trriiimmmm! Fujam que o mundo está todo contra nós… O mundo e o Sr. Augusto, o dono da casa… Se ao menos a Teresa aparecesse à janela!
(Fotografia de Robert Doisneau )

domingo, 29 de abril de 2012

Garota de Ipanema


Difícil é escrever fácil. É dizer as coisas com a leveza de um dia de sol. Sem ponta de vento a fazer-nos cerrar o olhar. Dizendo bonito sem pensar em tal. Gostando das palavras e do que elas representam. Usando da naturalidade com que damos a mão à pessoa que sempre quisemos. Fazendo da palavra amor e corpo numa tarde de Verão.

Vinicius de Moraes é exemplo disto mesmo ao escrever o poema que mais tarde se tornou célebre em todo o mundo, inspirado no andar leve e divino de Helô Pinheiro, a mulher linda que fazia virar a cabeça de todos em sua direcção sempre que passava perto das mesas do Bar do Veloso, hoje justamente chamado Garota de Ipanema.

O poema é este:

Olha que coisa mais linda
Mais cheia de graça
É ela menina
Que vem e que passa
No doce balanço, a caminho do mar
Moça do corpo dourado
Do sol de Ipanema
O seu balançado é mais que um poema
É a coisa mais linda que eu já vi passar
Ah, porque estou tão sozinho
Ah, porque tudo é tão triste
Ah, a beleza que existe
A beleza que não é só minha
Que também passa sozinha
Ah, se ela soubesse
Que quando ela passa
O mundo inteirinho se enche de graça
E fica mais lindo
Por causa do amor

Vinicius de Moraes

Texto de Francisco Sérgio de Barros e Barros

(A fotografia retrata a Helô Pinheiro com 16 anos, um ou dois anos antes de ser descoberta por Vinicius de Moraes e por Tom Jobim. Desconheço o nome do autor da fotografia.)

Celmira Macedo


Eu vou arriscar e dizer uma coisa que não deveria dizer em público. Se não gostares, perdoa-me, por favor. Uma vez estavas tu entre um grupo de pessoas que iam ser entrevistadas por uma televisão. Quando chegou a tua vez levantaste-te, tiraste o casaco que trazias, mostraste ao mundo todo a blusa branca (ligeiramente transparente) que tinha sido feita para ser tua e só tua, e falaste... foi aí que os operadores de câmara ficaram petrificados, os outros convidados emudeceram, um senhor em Singapura teve uma síncope mortal, outro em Alfândega desmaiou e eu próprio não fiquei muito bem...

Homens e mulheres


Tonta. As mulheres de que os homens mais gostam são aquelas que dizem que eles são bons. Só isso.

Foto: PARIS - 1992
© Martin Parr -
Magnum Photos

Whitney Houston


Não era feliz. Despediu-se de nós com 48 anos provando que a beleza só não basta. Faltou-lhe um guarda-costas capaz de a proteger dos golpes baixos que a vida lhe pregou. E, já agora, que não a abandonasse depois de o filme acabar.

Discoteca Pôr de Sol


Hoje à noite há festa. O Chico e a Zé estão prontos. Os músicos da banda Estrela d’Alva também. A tia Conceição mais a danada da sobrinha de olhos bonitos puseram-se agora a caminho. A cerveja e o sumol não vão faltar. Nem o rafeiro quitoso do Jolly. Nem eu.

Adeus


Vocês são o elo mais fraco. Adeus.

O elo mais forte


Tu ficas.

Gostar


O amor é... sem fazermos algo por isso – perante a entrada na sala de alguém com quem não contávamos – sorrir com o corpo inteiro (principalmente através do olhar), ver o dia cinzento transformar-se num dia radioso, esquecer a vontade de sucesso a todo o custo e do carro de marca desejados pouco antes, agradecer a um Deus em quem infelizmente não acreditamos o facto de termos nascido e, para além disso, não sabermos dizer uma única palavra das mil e uma que tínhamos para dizer.

O que fizeram de ti


Da  Moody's à chanceler Merkel, passando pelo inefável Miguel Relvas, todos mandam no desgraçado governo português. Todos menos o Sr. José Torres Pereira, de Mondim de Basto, e a Sr.ª Rosa Esteves, de Almeirim. Ah!  E o ministro das finanças Vítor Gaspar também.
Pobre e triste Portugal. O que fizeram de ti!

Laetitia Pinto


Nasceste para fazer o bem e o mal. Espero que mais vezes o bem.
Mas mesmo que seja o mal a tua escolha, voluntários não te vão faltar. 
Eu, por mim, ofereço-me já.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Catarse


A vida não se percorre de forma linear. Por vezes ela muda de direcção, escapa-se-nos do controle, nega a racionalidade pretendida. Parece um carrossel cheio de altos e baixos onde nos limitamos a rodar na chávena gigante à espera que o homem do altifalante anuncie a última viagem.

Por isso é que algumas pessoas não aceitam ser uma só. Tornam-se actores, escritores, políticos, poetas, realizadores de cinema, membros do clero, da maçonaria, da vida social tornada profissão. A vontade de galgar horizontes novos, diferentes dos de sempre obriga-as a isso.

Outras nunca serão capazes de lá chegar. O sonho nelas nunca deixará de ser apenas sonho. Transformam-se assim em mentirosos frustrados pelo desespero de viverem de maneira sempre igual. Ainda por cima de uma vez só porque não há duas vidas, duas oportunidades.

Os heterónimos são formas de estar e de dizer que correspondem à vontade de não ser um só. De escapar a esta realidade imperiosa. De serem de ninguém e muito menos deles mesmos. Todos os que se integram naquele primeiro grupo de pessoas sabem bem disto.

Normalmente não são pessoas felizes. Não se pode ser ora assim ora de outra forma qualquer. Nem os outros deixam nem eles próprios conseguem suportar a toda a hora o facto de não saberem quem vão ser no instante seguinte. Quem vão amar agora ou depois. Se vão ser estudiosos de profissão firmada ou meros observadores da vida que passa bonita na rua.

O pior é a mentira em que naturalmente tropeçam ao quererem ser como são. Ninguém lhes perdoa esse desejo de serem mais que a realidade. E são castigados e castigam-se por causa disso. E são votados ao desprezo por não serem iguais a todos. Logo eles que amam mais que ninguém um a um os outros sem deixarem ninguém de fora.

Se são as vítimas, ou inocentes crivados pelo desprezo dos demais, não o são. Nem os outros são os maus. A vida é que provavelmente não precisava de ser assim. A escolha do itinerário da viagem no carrossel em que se transformou tudo isto deveria, isso sim, ser livre e reescrita sempre que alguém o quisesse. Cada um poderia, desse modo, continuar ou mudar de estrada no próximo cruzamento. Outra vez. Sem que nenhuma das que foram já percorridas e sobre a qual continuamos a viajar deixasse alguma vez de ser a estrada da nossa vida.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

António Lobo Antunes


Lembro-me de uma vez o ter ouvido durante horas numa sessão pública. Na altura achei que falou apenas uns minutos. A magia das suas palavras matou em mim todos os preconceitos que tinha sobre ele. Não que deixasse de ser o homem vaidoso que sempre pareceu ser. Mas antes que o merecia ser.

(Cartoon de André Carrilho)

quarta-feira, 22 de junho de 2011

A filha


Há alguns dias atrás andava pelas ruas da cidade onde vivo. Era noite e ninguém partilhava os meus passos. De vez em quando ouvia-se o som de uma televisão, o motor de um carro que passava, um cão que ladrava. Ao longe nada. Até que comecei a distinguir vozes cada vez mais próximas. O longe, de repente, desenhava na penumbra três vultos, os donos das vozes que me tinham despertado do entorpecimento com que muitas vezes percorro as ruas da cidade.

Era um homem, uma mulher, ambos relativamente jovens, e uma rapariga, para aí de sete anos de idade. A voz que mais me chamou a atenção, pela intensidade do sofrimento que a produzia, era da rapariga, vi-a agora, franzina, perdida, cheia de medo, que se voltava ora para um ora para outro dos adultos.

Pai! Pai! Gritava a miúda aquela palavra que eu conheço tão bem. Maldita palavra. Tão pequena e tão intensa ao mesmo tempo. Tão cortante em mim e na noite que ninguém quis percorrer. Pai! E o homem jovem a encaminhar-se para o carro, a mulher a dizer umas coisas com vontade de dizer coisa nenhuma.

Pareceu-me que ele a recriminava por algo que se tinha passado. Ela a subir as escadas sem responder sequer. Pai…! Insistia a rapariga. A voz cortava a noite em duas partes. Uma que me pertencia, a mim e à pequena que gritava derrotada de querer que o tempo parasse, e a outra que estava cada vez mais longe de nós os dois e mais perto do inferno que as pessoas atiçam.

O pai não volta, pequena! Hoje não volta. Da mesma forma que amanhã provavelmente não vai voltar. Mas isso a pequena faz-me crer que ela não sabe. Ou se recusa a querer saber. Pai…! Pai…!

sábado, 9 de abril de 2011

Que 47 impávidos marotos!



Que 47 impávidos marotos! A menorizarem a inteligência de cada um dos portugueses. A acharem-se donos da verdade única, lógica, pública. Como se isto tudo fosse (só) deles. Não perceberam ainda que as elites são cada vez mais amplas, mais democráticas, mais transversais à sociedade no seu todo. E que já não se sentam apenas às mesas do Frágil, do Gambrinus ou das cátedras das universidades bolorentas de tanta janela por abrir.
Ah! E já agora podem juntar a este auto-denominado grupo de notáveis o quase-presidente da república que vamos tendo...

sábado, 5 de fevereiro de 2011

É tempo de parar e repensar o jornalismo de proximidade que se faz em Portugal


Vive-se, hoje, um tempo de grande indefinição ideológica e governativa. Aparentemente ninguém percebe nada do que se está a passar: os políticos não conseguem resolver os problemas mais comezinhos, as famílias vivem dificuldades que julgavam definitivamente ultrapassadas, as empresas lutam contra sistemas económicos desiguais. E, no meio de tudo isto, cada um de nós procura interpretar os sinais de um futuro, que é já hoje, e que não se deixa adivinhar.

São dias difíceis estes que estamos a viver. A todos os níveis. Nas escolas, nos tribunais, nos hospitais, nas instituições em geral sente-se a necessidade urgente de repensar tudo, desde os alicerces que lhes serviram de base durante décadas até aos desígnios do que aí há-de vir. E isto, com incidência acrescida, num país como Portugal, fragilizado historicamente nos diversos sectores por práticas permanentes de sustentabilidade duvidosa.

No meio de toda esta volatilidade, a área da comunicação social não poderia constituir excepção no processo de questionamento e de crise. A verdade é que a informação actual pouco tem a ver com aquela que se produzia nas velhas redacções dos jornais que nos habituamos a ler. Os leitores são outros, as exigências são maiores, os meios tecnológicos, esses, então, situam-se numa dimensão inimaginável há pouco tempo atrás.

Basta dizer que a comunicação moderna deixou de ser unidireccional. Ela pode ser feita, é certo, através de uma plataforma única - por exemplo, a digital -, mas as aplicações terão de ser diversas; quer dizer, o mesmo título jornalístico deverá ser difundido através do jornal, rádio e TV digitais, do iPad, dos smartphones e de toda a gama imensa de gadgets que não param de chegar ao mercado. Isto, naturalmente, se os órgãos de informação quiserem contrariar a dispersão de estímulos que envolvem o consumidor final e assim chegar até ele.

Não é fácil a tarefa, ainda para mais tendo em conta a crise económica – mas também anímica – em que o país, hoje, se reconhece. E se esta é a realidade da imprensa de expansão nacional, imagine-se a gravidade da situação vivida pelos órgãos de informação regional. Esses, então, enfrentam ainda dificuldades maiores. Falta-lhes o apoio financeiro e humano capaz de os aproximar do novo leitor. E, principalmente, falta-lhes tempo para se poderem questionar, reformular, situar num mundo global e próximo ao mesmo tempo.

O resto virá depois. Estamos certos disso. Até porque o futuro não se compagina da mesma forma que antes em termos de regionalismo ou cosmopolitismo. O mundo vai ser um só. E com uma vantagem acrescida para a imprensa local: a democraticidade crescente na utilização e posse dos meios tecnológicos indispensáveis ao exercício informativo.

sábado, 30 de outubro de 2010

Teresa Lopes Alves


É tudo um sonho. Não há nada que se possa dizer: bom, isto aqui talvez pudesse ser diferente. Reparem na cor combinada da sandália e da saia, na abertura consentida da blusa, no cabelo que é de mulher deitada na areia em dia de sol, nos olhos que condescendem em nos olhar, no sorriso que é convite - recusa de ouvir mais uma palavra que seja.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Maria Leonor de Barros


É a mais genial de nós. Mas está em fase de construção. Junta peças de Lego sem parar. Ela sabe que este é um tempo difícil. O mundo espera-a e ela está consciente disso mesmo. Por isso é que quando sozinha fecha-se na zona de obras consigo e com as amigas mais íntimas. Falta pouco. Está a surgir a Leonor mulher. Que hoje faz 11 anos. Mas já com a consciência da complexidade do tempo que aí vem. Uma coisa é certa: a Leonor tem consigo todas as ferramentas de que necessita para vencer. E não, não são os diplomas de mérito escolar que obtém todos os anos. Ultrapassa muito isso — é a argúcia, a intuição, a capacidade de perceber os outros. 
E depois o famoso temperamento que a caracteriza em tudo. Chora, ri, barafusta, gargalha — tudo na mesma frase. É fadada para o exagero. Nas relações sociais como na criação artística ou no raciocínio científico. O mesmo se passa no amor, suspeito. Por isso é que venha a ser o que vier a ser, advogada, assessora da Assembleia da República, caixa do Pingo Doce, de uma coisa podem estar certos: ela vai mandar, não pela vontade de ser melhor que os outros, mas antes pela necessidade de imprimir o cunho pessoal àquilo em que mexe. 
Por último, a qualidade maior da Leonor: o carinho, o amor, o beijo, o abraço que dispensa em permanência a todos de quem gosta. 
 Acredito em ti, minha querida Leonor, na tua felicidade, no teu amor pelos outros. Logo que acabem as obras. Está quase. Tem calma. 
Um beijo de parabéns do teu Pai.

domingo, 24 de outubro de 2010

Monica Bellucci


Há três espécies de seres humanos: os homens, as mulheres, e a Monica Bellucci.
Ela nasceu pecado, transgressão. E colo. E carinho. Muito.

A recusa


Percorri várias vezes a A28 durante este fim-de-semana e confirmei a pior das minhas suspeitas: os bimbos, os patos bravos, os sarrafeiros, os amantes da “fruta fresca” do Norte do nosso querido Portugal, não pagaram a portagem daquela auto-estrada.
Prosseguindo deste modo a têmpera dos homens e das mulheres de carácter de que descendem, de uma cara só, de antes quebrar que torcer, de gente que abre os braços com a mesma garra para o amor, para a festa, ou, se for caso disso, para a batalha.
Enfim, gente do Norte...
Bravo.

sábado, 9 de outubro de 2010

A FILOSOFIA NO DIVÃ

Achegas para o advento do novo paradigma especulativo
e da sua utilização em contexto de consulta



A complexificação da sociedade actual


A sociedade actual é muito diferente daquela que nos habituamos a considerar. Aliás, pouco tem a ver com ela. A vida colectiva mudou, complexificou-se, tornou-se difícil de perceber e de prever. As próprias pessoas estão diferentes: na sua maioria têm objectivos difusos, formas de estar intermitentes, percursos de vida aleatórios, numa clara contradição em relação à maior consciência cultural entretanto adquirida por via da massificação do ensino.
Claro que muitos poderão contestar estas afirmações argumentando que a fugacidade dos comportamentos e dos ideários sempre se manifestou desta forma, apenas variando o modo como as gerações perspectivavam as anteriores. Mas a verdade é que as alterações de hoje caracterizam-se pela profundidade, alcance e rapidez das suas materializações. Veja-se, por exemplo, o caso da desvalorização da política enquanto centro inquestionável do poder organizacional ou da ontologia enquanto vértice teórico da nossa segurança existencial.
Há, pois, uma complexidade nova que se inaugura, em termos simbólicos, com manifestações de grande envergadura como o 11 de Setembro de 2001 ou a crise financeira de 2008, sendo que estas não são, contudo, as que mais contribuíram em termos individuais para a redefinição das metas e das perplexidades do homem actual. O ponto de partida é anterior e mais difuso em termos de extensão e gravidade das suas consequências. Os efeitos, esses, estão à vista. Parece faltar a certeza de tudo e de qualquer coisa a cada um; a relativização moral, a crise identitária dos arquétipos, a indefinição ideológica, a dúvida da fé religiosa, a supremacia da economia face às outras actividades humanas, constituem exemplos disso mesmo.


Perante isto, a ciência e os intelectuais em geral tardam em responder. Publicam-se livros de auto-ajuda avidamente procurados pelos leitores, os meios de comunicação difundem todos os dias propostas de actuação, os líderes de opinião falam a propósito de todas as coisas e, para espanto de alguns, ninguém se sente esclarecido, a indefinição e a perplexidade aumentam e os indivíduos continuam à procura de um consenso interpretativo sistematicamente adiado.
A busca de um novo paradigma civilizacional para o século XXI é demonstrativa desta realidade, porventura em resultado da “preferência radicalmente anti-metafísica e anti-ontológica do discurso pós-moderno” (Pires, 2004, p. 9), carente conforme se reconhece de fundamentação especulativa de âmbito eminentemente universal.
É verdade que o tempo actual se cumpre através de percursos sistémicos, em que cada realidade se auto-regula e se alimenta a partir de si mesmo, num processo identitário não partilhado, acrescentando complexidade à estrutura social. Por isso é que a economia percorre caminhos muitas vezes diferentes dos reivindicados pela política, o mesmo acontecendo com a saúde e a educação, a cultura e a comunicação social, o feminismo e o amor, a ciência e a verdade, por exemplo.
Deste modo se explica a crescente necessidade de ser implementada uma observação do real que se distinga pela capacidade de relacionação e de envolvimento interdisciplinar. Ou, por outras palavras, que seja capaz de ultrapassar o aparente fechamento a que, numa fase primeira de análise, os sistemas autopoiéticos normalmente conduzem.
É essa a função reclamada da filosofia. A de ser maior que as partes em confronto. Mas para a “efectivação desta tarefa há que remover obstáculos que provêm de uma cultura filosófica decadente, voltada para si mesma, desinteressada do real e baseada quase exclusivamente em técnicas de investigação próprias do conhecimento histórico-filológico” (Pires, 2004, p. 7).
Quer isto significar que da mesma forma que a sociedade também a filosofia necessita de se repensar nos seus pressupostos interpretativos e nas suas práticas de âmbito público.

O lugar da filosofia

Herdeira de uma tradição secular, a filosofia actual vive uma encruzilhada de percursos possíveis. Recolhida habitualmente na atmosfera discreta dos gabinetes universitários, a sua divulgação processa-se de modo quase exclusivo nos livros destinados a especialistas das matérias em análise. Vive, assim, a solidão escolhida do diálogo impresso em tese académica, transformado à custa da não condescendência democrática, em solilóquio de efeito circular.
A filosofia que o público conhece dos bancos da escola é mais ou menos esta. Destina-se a um grupo relativamente restrito de iniciados no saber contemplativo, ciosos da altivez própria daqueles que professam a verdade não profanada pela partilha popular.
Como se isto bastasse à filosofia do século XXI. Para agravar o estado das coisas, recu-sa-se a responder às questões - algumas de natureza imperiosa - uma vez que a função declarada desta disciplina é, ao invés, fazer perguntas. Alienando desta forma a vocação maior da filosofia: a de esclarecer convicções, fundamentar modos de existir, dirimir argumentos, numa só palavra, dizer.
E aqui reside, então, o moderno dilema da filosofia. Ela tem que optar pelo engajamento das suas opções, pelo empenhamento participativo dos seus personagens mais relevantes, ou, então, pela passividade costumeira que o público contemporâneo não compreende mais.
Caso escolha a primeira das hipóteses, a filosofia deve integrar as infinitas possibilidades do mundo da comunicação. Só assim “o saber dos saberes” deixará a penumbra dos gabinetes e sairá à rua. Participará nos programas de debate televisivos, ocupará espaço de opinião nos jornais, integrará as novas plataformas de conhecimento presentes na blogosfera, ao mesmo tempo que continuará a patrocinar conferências, colóquios, congressos, etc.



Deste modo, a filosofia poderá finalmente responder aos anseios das pessoas, àquilo que segundo Ortega Y Gasset elas continuam a procurar: “uma ideologia orientadora para as suas vidas” (Dias & Rastrojo, 2009, p. 116).
Simultaneamente, tornará mais visível a produção filosófica e o labor dos seus agentes. Nessa altura os filósofos serão tratados como tal pelos meios de comunicação social, e não, como acontece hoje - fruto da ignorância colectiva sobre a disciplina - pela designação de pensadores, antropólogos, sociólogos, historiadores e tudo mais que a imaginação dos profissionais dos mass media quiser.
Só assim a ciência filosófica estará apta a recuperar o seu estado original, praticado há muitos séculos atrás nas ruas de Atenas, por todos aqueles que, sempre que solicitados para tal, discorriam sobre os modos de estar e de ser na vida de cada um.

O eu e os outros

A propósito do que acabou de ser dito, importa sublinhar o facto de a filosofia não se debruçar em termos exclusivos acerca das realidades de índole colectiva. Pensar assim constituiria um enorme erro. O indivíduo que é único nas suas singularidades físicas, mentais, culturais, vivenciais, também é tema de análise desta ciência, de forma directa ou não. Nem de outra forma poderia ser: sem se conhecer as particularidades da pessoa em concreto que ama, sofre, tem objectivos, gosta e não gosta, é vilipendiado e mau, e vive entre nós, não é possível elaborar o retrato necessário de cada um e de todos em abstracto.
A filosofia é a ciência dos universais desde que essas entidades abstractas integrem - mesmo que apenas do ponto de vista hipotético - as particularidades irrepetíveis do indivíduo que se resolve na vivência com os outros. A metafísica, por exemplo, parte do retrato do homem concreto, igual e diferente da realidade social envolvente - porque pecador e, ao mesmo tempo, possivelmente bom - para finalmente encontrar o ser dos seres que é representativo de todos nós.
Por esse motivo é que o interesse pela especificidade do eu, enquanto realidade próxima e ao mesmo tempo sistémica, esteve desde sempre presente na história da filosofia, confirmando-se assim ter a filosofia nascido para resolver os problemas das pessoas, para as ajudar a escolher, para definir caminhos, para lhes descobrir uma identidade.


Descartes reconheceu essa singularidade de ser no cogito, Levinas no eu que se descobre no rosto do outro, Habermas no sujeito comunicacional, Luhmann na identidade que resulta da auto-observação da consciência pela consciência.
A própria psicologia nasceu da filosofia, conforme é sabido; derivou mais tarde para caminhos de actuação diferente, mas a tentativa de racionalização do fenómeno mental e comportamental nunca desapareceu de vez daquela ciência. Repare-se, a propósito, que todos os primeiros grandes psicólogos foram inicialmente filósofos.
A acrescentar a isto importa referir um tema que desde sempre tem integrado a reflexão filosófica, mesmo quando perspectivado a partir das idiossincrasias de tipo individual: a questão da felicidade. Os filósofos gregos detiveram-se arduamente na sua definição e na actualidade o tema volta a ser alvo de análise conceptual e prática.
Nesta temática, com particular ênfase na felicidade de âmbito pessoal, a filosofia aplicada e, mais concretamente a consultoria filosófica, têm obtido progressos consideráveis.

A consulta filosófica

O indivíduo que pretenda resolver-se a si próprio, ao nível das lacunas de sentido que o inquietam, tem hoje ao seu dispor perfis novos de ajuda profissional. Uma dessas possibilidades é-lhe proporcionada pela filosofia prática (ou aplicada, conforme se quiser dizer). Utilizada no resto do mundo desde os anos 1980, a consultoria filosófica é um método de trabalho recente em Portugal, sendo, por esse motivo, ainda alvo de muita curiosidade e de igual susceptibilidade, o que até certo ponto se compreende, tal é o grau de desconhecimento da natureza e dos objectivos desta alternativa de análise individual. Mas afinal o que é a consulta filosófica?
Se pensarmos que a vida de cada um de nós deveria corresponder a um percurso mais ou menos consciente, escolhido ou rejeitado em função de uma decisão pessoal, começaremos a entender o alcance do método de consulta em questão. E se juntarmos a este processo de decisão, o exercício de racionalidade necessário à estruturação do projecto de felicidade e de bem-estar intelectual de cada um, então mais nos aproximamos da essência da entrevista filosófica.
A utilidade desta alternativa de consulta profissional está na capacidade para promover no interlocutor a necessidade “de pensar sobre a sua vida, as suas acções, os conceitos, sentimentos, crenças, projectos e tantos outros aspectos significativos” (Dias & Rastrojo, 2009, p. 114), proporcionando-lhe a oportunidade de se olhar como se fosse a primeira vez.
Neste processo de diálogo, o consultante envolve-se num percurso não linear de racionalização, a partir do qual procura obter uma perspectiva fundamentada de si mesmo e das necessidades que o afectam.
Ora é exactamente neste patamar de inteligibilidade que se pode alcançar a diferença entre este método e os outros, em particular o psicanalítico. Enquanto neste último, a viagem que traduz o percurso de vida toma o sentido eminentemente retrospectivo, a fim de nele serem descobertas mazelas por sarar, no filosófico a viagem é preferencialmente prospectiva, quer dizer, é direccionada para um objectivo, para um querer modelado em termos o mais possível racionais.
Para além disso, deve ser realçada a especificidade do comportamento pró-activo do consultante, num índice mais elevado do que é requerido noutros métodos de análise, uma vez que o objectivo tentado se refere a uma opção pessoal.
Obviamente que essa escolha encontrada em contexto de entrevista individual é resultante de um trabalho colaborativo entre consultor e consultante. Apenas desse modo se pode reconhecer a mais-valia da assessoria filosófica, enquanto processo maiêutico de auto-descoberta partilhada.


E é aqui que se integram alguns dos factores mais importantes para o sucesso da consulta: a capacidade intelectual e científica, a personalidade, a experiência de vida, a vocação conciliatória, o bom senso, o modo de estar, a posição corporal, a bonomia da expressão facial, a capacidade de sedução cultural do assessor filosófico.
É mesmo nossa convicção que na consulta filosófica, mais importante que o método - que não pode deixar de ser considerado -, se deve reconhecer a capacidade do consultor em abrir o baú onde o interlocutor guarda aquilo que não previa alguma vez dizer ou conceptualizar.
Claro que se poderá dizer: mas isso acontece em todos os diálogos de procura hermenêutica. Só que a diferença reside no grau de exigência com que tanto consultor como consultante envolvem aquele momento de partilha, talvez em razão de serem trabalhadas ideias, projectos, mais do que estados de alma.
Por isso é que mantemos a convicção de que um escritor, um poeta, um realizador cinematográfico, com conhecimentos medianos de ordem especulativa, poderia eventualmente ser consultor filosófico, tendo em conta a enorme experiência de vida que o tempo e a inteligência se encarregaram de modelar neles.
Não é por acaso que “mais do que o seu carácter instrumental, o aconselhamento filosófico pretende oferecer ao consultante um trabalho original de produção filosófica, como se a consulta fosse uma autêntica obra de arte, motivada pela liberdade individual que, com a utilização de metodologias próprias da disciplina, contribui para a autonomia e para a felicidade do consultante” (Dias & Rastrojo, 2009, p. 137).
De facto, em nenhuma outra entrevista de alcance sistematizador, nem mesmo naquela que é protagonizada pelo psicólogo, se reconhece a necessidade tão imperiosa da utilização de um sem número de qualidades pessoais por parte do profissional em exercício.
Só assim o assessor filosófico será capaz de junto do consultante, proporcionar-lhe marcos de orientação na viagem muitas vezes atribulada, que a pessoa sentada na sua frente, mãos suadas de tanto serem esfregadas sem razão, quer fazer em direcção ao mais desejado dos destinos: o da felicidade.

Francisco Sérgio de Barros e Barros



Bibliografia
DIAS, J. H., & RASTROJO, J. B. (2009). Felicidad o Conocimiento - La Filosofía Aplicada como la Búsqueda de la Felicidad y del Conocimiento. Sevilha: Doss Ediciones.
GIDDENS, A., BAUMAN, Z., LUHMANN, N., & BECK, U. (2007). Las Consecuencias Perversas de la Modernidad. Barcelona: Anthropos.
HABERMAS, J. (2001). Teoria de la Acción Comunicativa, Racionalidad de la acción y racionalización social, volumes I e II. s/l: Taurus Humanidades.
LUHMANN, N. (1998). Sistemas Sociales, Lineamentos para una teoria general. Barcelona: Anthropos.
MARCOS, M. L. (2001). Sujeito e Comunicação - Perspectiva tensional da alteridade. Porto: Campo das Letras.
PIRES, E. B. (2004). A Sociedade sem Centro. Azeitão: Autonomia 27.