sábado, 30 de outubro de 2010

Teresa Lopes Alves


É tudo um sonho. Não há nada que se possa dizer: bom, isto aqui talvez pudesse ser diferente. Reparem na cor combinada da sandália e da saia, na abertura consentida da blusa, no cabelo que é de mulher deitada na areia em dia de sol, nos olhos que condescendem em nos olhar, no sorriso que é convite - recusa de ouvir mais uma palavra que seja.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Maria Leonor de Barros


É a mais genial de nós. Mas está em fase de construção. Junta peças de Lego sem parar. Ela sabe que este é um tempo difícil. O mundo espera-a e ela está consciente disso mesmo. Por isso é que quando sozinha fecha-se na zona de obras consigo e com as amigas mais íntimas. Falta pouco. Está a surgir a Leonor mulher. Que hoje faz 11 anos. Mas já com a consciência da complexidade do tempo que aí vem. Uma coisa é certa: a Leonor tem consigo todas as ferramentas de que necessita para vencer. E não, não são os diplomas de mérito escolar que obtém todos os anos. Ultrapassa muito isso — é a argúcia, a intuição, a capacidade de perceber os outros. 
E depois o famoso temperamento que a caracteriza em tudo. Chora, ri, barafusta, gargalha — tudo na mesma frase. É fadada para o exagero. Nas relações sociais como na criação artística ou no raciocínio científico. O mesmo se passa no amor, suspeito. Por isso é que venha a ser o que vier a ser, advogada, assessora da Assembleia da República, caixa do Pingo Doce, de uma coisa podem estar certos: ela vai mandar, não pela vontade de ser melhor que os outros, mas antes pela necessidade de imprimir o cunho pessoal àquilo em que mexe. 
Por último, a qualidade maior da Leonor: o carinho, o amor, o beijo, o abraço que dispensa em permanência a todos de quem gosta. 
 Acredito em ti, minha querida Leonor, na tua felicidade, no teu amor pelos outros. Logo que acabem as obras. Está quase. Tem calma. 
Um beijo de parabéns do teu Pai.

domingo, 24 de outubro de 2010

Monica Bellucci


Há três espécies de seres humanos: os homens, as mulheres, e a Monica Bellucci.
Ela nasceu pecado, transgressão. E colo. E carinho. Muito.

A recusa


Percorri várias vezes a A28 durante este fim-de-semana e confirmei a pior das minhas suspeitas: os bimbos, os patos bravos, os sarrafeiros, os amantes da “fruta fresca” do Norte do nosso querido Portugal, não pagaram a portagem daquela auto-estrada.
Prosseguindo deste modo a têmpera dos homens e das mulheres de carácter de que descendem, de uma cara só, de antes quebrar que torcer, de gente que abre os braços com a mesma garra para o amor, para a festa, ou, se for caso disso, para a batalha.
Enfim, gente do Norte...
Bravo.

sábado, 9 de outubro de 2010

A FILOSOFIA NO DIVÃ

Achegas para o advento do novo paradigma especulativo
e da sua utilização em contexto de consulta



A complexificação da sociedade actual


A sociedade actual é muito diferente daquela que nos habituamos a considerar. Aliás, pouco tem a ver com ela. A vida colectiva mudou, complexificou-se, tornou-se difícil de perceber e de prever. As próprias pessoas estão diferentes: na sua maioria têm objectivos difusos, formas de estar intermitentes, percursos de vida aleatórios, numa clara contradição em relação à maior consciência cultural entretanto adquirida por via da massificação do ensino.
Claro que muitos poderão contestar estas afirmações argumentando que a fugacidade dos comportamentos e dos ideários sempre se manifestou desta forma, apenas variando o modo como as gerações perspectivavam as anteriores. Mas a verdade é que as alterações de hoje caracterizam-se pela profundidade, alcance e rapidez das suas materializações. Veja-se, por exemplo, o caso da desvalorização da política enquanto centro inquestionável do poder organizacional ou da ontologia enquanto vértice teórico da nossa segurança existencial.
Há, pois, uma complexidade nova que se inaugura, em termos simbólicos, com manifestações de grande envergadura como o 11 de Setembro de 2001 ou a crise financeira de 2008, sendo que estas não são, contudo, as que mais contribuíram em termos individuais para a redefinição das metas e das perplexidades do homem actual. O ponto de partida é anterior e mais difuso em termos de extensão e gravidade das suas consequências. Os efeitos, esses, estão à vista. Parece faltar a certeza de tudo e de qualquer coisa a cada um; a relativização moral, a crise identitária dos arquétipos, a indefinição ideológica, a dúvida da fé religiosa, a supremacia da economia face às outras actividades humanas, constituem exemplos disso mesmo.


Perante isto, a ciência e os intelectuais em geral tardam em responder. Publicam-se livros de auto-ajuda avidamente procurados pelos leitores, os meios de comunicação difundem todos os dias propostas de actuação, os líderes de opinião falam a propósito de todas as coisas e, para espanto de alguns, ninguém se sente esclarecido, a indefinição e a perplexidade aumentam e os indivíduos continuam à procura de um consenso interpretativo sistematicamente adiado.
A busca de um novo paradigma civilizacional para o século XXI é demonstrativa desta realidade, porventura em resultado da “preferência radicalmente anti-metafísica e anti-ontológica do discurso pós-moderno” (Pires, 2004, p. 9), carente conforme se reconhece de fundamentação especulativa de âmbito eminentemente universal.
É verdade que o tempo actual se cumpre através de percursos sistémicos, em que cada realidade se auto-regula e se alimenta a partir de si mesmo, num processo identitário não partilhado, acrescentando complexidade à estrutura social. Por isso é que a economia percorre caminhos muitas vezes diferentes dos reivindicados pela política, o mesmo acontecendo com a saúde e a educação, a cultura e a comunicação social, o feminismo e o amor, a ciência e a verdade, por exemplo.
Deste modo se explica a crescente necessidade de ser implementada uma observação do real que se distinga pela capacidade de relacionação e de envolvimento interdisciplinar. Ou, por outras palavras, que seja capaz de ultrapassar o aparente fechamento a que, numa fase primeira de análise, os sistemas autopoiéticos normalmente conduzem.
É essa a função reclamada da filosofia. A de ser maior que as partes em confronto. Mas para a “efectivação desta tarefa há que remover obstáculos que provêm de uma cultura filosófica decadente, voltada para si mesma, desinteressada do real e baseada quase exclusivamente em técnicas de investigação próprias do conhecimento histórico-filológico” (Pires, 2004, p. 7).
Quer isto significar que da mesma forma que a sociedade também a filosofia necessita de se repensar nos seus pressupostos interpretativos e nas suas práticas de âmbito público.

O lugar da filosofia

Herdeira de uma tradição secular, a filosofia actual vive uma encruzilhada de percursos possíveis. Recolhida habitualmente na atmosfera discreta dos gabinetes universitários, a sua divulgação processa-se de modo quase exclusivo nos livros destinados a especialistas das matérias em análise. Vive, assim, a solidão escolhida do diálogo impresso em tese académica, transformado à custa da não condescendência democrática, em solilóquio de efeito circular.
A filosofia que o público conhece dos bancos da escola é mais ou menos esta. Destina-se a um grupo relativamente restrito de iniciados no saber contemplativo, ciosos da altivez própria daqueles que professam a verdade não profanada pela partilha popular.
Como se isto bastasse à filosofia do século XXI. Para agravar o estado das coisas, recu-sa-se a responder às questões - algumas de natureza imperiosa - uma vez que a função declarada desta disciplina é, ao invés, fazer perguntas. Alienando desta forma a vocação maior da filosofia: a de esclarecer convicções, fundamentar modos de existir, dirimir argumentos, numa só palavra, dizer.
E aqui reside, então, o moderno dilema da filosofia. Ela tem que optar pelo engajamento das suas opções, pelo empenhamento participativo dos seus personagens mais relevantes, ou, então, pela passividade costumeira que o público contemporâneo não compreende mais.
Caso escolha a primeira das hipóteses, a filosofia deve integrar as infinitas possibilidades do mundo da comunicação. Só assim “o saber dos saberes” deixará a penumbra dos gabinetes e sairá à rua. Participará nos programas de debate televisivos, ocupará espaço de opinião nos jornais, integrará as novas plataformas de conhecimento presentes na blogosfera, ao mesmo tempo que continuará a patrocinar conferências, colóquios, congressos, etc.



Deste modo, a filosofia poderá finalmente responder aos anseios das pessoas, àquilo que segundo Ortega Y Gasset elas continuam a procurar: “uma ideologia orientadora para as suas vidas” (Dias & Rastrojo, 2009, p. 116).
Simultaneamente, tornará mais visível a produção filosófica e o labor dos seus agentes. Nessa altura os filósofos serão tratados como tal pelos meios de comunicação social, e não, como acontece hoje - fruto da ignorância colectiva sobre a disciplina - pela designação de pensadores, antropólogos, sociólogos, historiadores e tudo mais que a imaginação dos profissionais dos mass media quiser.
Só assim a ciência filosófica estará apta a recuperar o seu estado original, praticado há muitos séculos atrás nas ruas de Atenas, por todos aqueles que, sempre que solicitados para tal, discorriam sobre os modos de estar e de ser na vida de cada um.

O eu e os outros

A propósito do que acabou de ser dito, importa sublinhar o facto de a filosofia não se debruçar em termos exclusivos acerca das realidades de índole colectiva. Pensar assim constituiria um enorme erro. O indivíduo que é único nas suas singularidades físicas, mentais, culturais, vivenciais, também é tema de análise desta ciência, de forma directa ou não. Nem de outra forma poderia ser: sem se conhecer as particularidades da pessoa em concreto que ama, sofre, tem objectivos, gosta e não gosta, é vilipendiado e mau, e vive entre nós, não é possível elaborar o retrato necessário de cada um e de todos em abstracto.
A filosofia é a ciência dos universais desde que essas entidades abstractas integrem - mesmo que apenas do ponto de vista hipotético - as particularidades irrepetíveis do indivíduo que se resolve na vivência com os outros. A metafísica, por exemplo, parte do retrato do homem concreto, igual e diferente da realidade social envolvente - porque pecador e, ao mesmo tempo, possivelmente bom - para finalmente encontrar o ser dos seres que é representativo de todos nós.
Por esse motivo é que o interesse pela especificidade do eu, enquanto realidade próxima e ao mesmo tempo sistémica, esteve desde sempre presente na história da filosofia, confirmando-se assim ter a filosofia nascido para resolver os problemas das pessoas, para as ajudar a escolher, para definir caminhos, para lhes descobrir uma identidade.


Descartes reconheceu essa singularidade de ser no cogito, Levinas no eu que se descobre no rosto do outro, Habermas no sujeito comunicacional, Luhmann na identidade que resulta da auto-observação da consciência pela consciência.
A própria psicologia nasceu da filosofia, conforme é sabido; derivou mais tarde para caminhos de actuação diferente, mas a tentativa de racionalização do fenómeno mental e comportamental nunca desapareceu de vez daquela ciência. Repare-se, a propósito, que todos os primeiros grandes psicólogos foram inicialmente filósofos.
A acrescentar a isto importa referir um tema que desde sempre tem integrado a reflexão filosófica, mesmo quando perspectivado a partir das idiossincrasias de tipo individual: a questão da felicidade. Os filósofos gregos detiveram-se arduamente na sua definição e na actualidade o tema volta a ser alvo de análise conceptual e prática.
Nesta temática, com particular ênfase na felicidade de âmbito pessoal, a filosofia aplicada e, mais concretamente a consultoria filosófica, têm obtido progressos consideráveis.

A consulta filosófica

O indivíduo que pretenda resolver-se a si próprio, ao nível das lacunas de sentido que o inquietam, tem hoje ao seu dispor perfis novos de ajuda profissional. Uma dessas possibilidades é-lhe proporcionada pela filosofia prática (ou aplicada, conforme se quiser dizer). Utilizada no resto do mundo desde os anos 1980, a consultoria filosófica é um método de trabalho recente em Portugal, sendo, por esse motivo, ainda alvo de muita curiosidade e de igual susceptibilidade, o que até certo ponto se compreende, tal é o grau de desconhecimento da natureza e dos objectivos desta alternativa de análise individual. Mas afinal o que é a consulta filosófica?
Se pensarmos que a vida de cada um de nós deveria corresponder a um percurso mais ou menos consciente, escolhido ou rejeitado em função de uma decisão pessoal, começaremos a entender o alcance do método de consulta em questão. E se juntarmos a este processo de decisão, o exercício de racionalidade necessário à estruturação do projecto de felicidade e de bem-estar intelectual de cada um, então mais nos aproximamos da essência da entrevista filosófica.
A utilidade desta alternativa de consulta profissional está na capacidade para promover no interlocutor a necessidade “de pensar sobre a sua vida, as suas acções, os conceitos, sentimentos, crenças, projectos e tantos outros aspectos significativos” (Dias & Rastrojo, 2009, p. 114), proporcionando-lhe a oportunidade de se olhar como se fosse a primeira vez.
Neste processo de diálogo, o consultante envolve-se num percurso não linear de racionalização, a partir do qual procura obter uma perspectiva fundamentada de si mesmo e das necessidades que o afectam.
Ora é exactamente neste patamar de inteligibilidade que se pode alcançar a diferença entre este método e os outros, em particular o psicanalítico. Enquanto neste último, a viagem que traduz o percurso de vida toma o sentido eminentemente retrospectivo, a fim de nele serem descobertas mazelas por sarar, no filosófico a viagem é preferencialmente prospectiva, quer dizer, é direccionada para um objectivo, para um querer modelado em termos o mais possível racionais.
Para além disso, deve ser realçada a especificidade do comportamento pró-activo do consultante, num índice mais elevado do que é requerido noutros métodos de análise, uma vez que o objectivo tentado se refere a uma opção pessoal.
Obviamente que essa escolha encontrada em contexto de entrevista individual é resultante de um trabalho colaborativo entre consultor e consultante. Apenas desse modo se pode reconhecer a mais-valia da assessoria filosófica, enquanto processo maiêutico de auto-descoberta partilhada.


E é aqui que se integram alguns dos factores mais importantes para o sucesso da consulta: a capacidade intelectual e científica, a personalidade, a experiência de vida, a vocação conciliatória, o bom senso, o modo de estar, a posição corporal, a bonomia da expressão facial, a capacidade de sedução cultural do assessor filosófico.
É mesmo nossa convicção que na consulta filosófica, mais importante que o método - que não pode deixar de ser considerado -, se deve reconhecer a capacidade do consultor em abrir o baú onde o interlocutor guarda aquilo que não previa alguma vez dizer ou conceptualizar.
Claro que se poderá dizer: mas isso acontece em todos os diálogos de procura hermenêutica. Só que a diferença reside no grau de exigência com que tanto consultor como consultante envolvem aquele momento de partilha, talvez em razão de serem trabalhadas ideias, projectos, mais do que estados de alma.
Por isso é que mantemos a convicção de que um escritor, um poeta, um realizador cinematográfico, com conhecimentos medianos de ordem especulativa, poderia eventualmente ser consultor filosófico, tendo em conta a enorme experiência de vida que o tempo e a inteligência se encarregaram de modelar neles.
Não é por acaso que “mais do que o seu carácter instrumental, o aconselhamento filosófico pretende oferecer ao consultante um trabalho original de produção filosófica, como se a consulta fosse uma autêntica obra de arte, motivada pela liberdade individual que, com a utilização de metodologias próprias da disciplina, contribui para a autonomia e para a felicidade do consultante” (Dias & Rastrojo, 2009, p. 137).
De facto, em nenhuma outra entrevista de alcance sistematizador, nem mesmo naquela que é protagonizada pelo psicólogo, se reconhece a necessidade tão imperiosa da utilização de um sem número de qualidades pessoais por parte do profissional em exercício.
Só assim o assessor filosófico será capaz de junto do consultante, proporcionar-lhe marcos de orientação na viagem muitas vezes atribulada, que a pessoa sentada na sua frente, mãos suadas de tanto serem esfregadas sem razão, quer fazer em direcção ao mais desejado dos destinos: o da felicidade.

Francisco Sérgio de Barros e Barros



Bibliografia
DIAS, J. H., & RASTROJO, J. B. (2009). Felicidad o Conocimiento - La Filosofía Aplicada como la Búsqueda de la Felicidad y del Conocimiento. Sevilha: Doss Ediciones.
GIDDENS, A., BAUMAN, Z., LUHMANN, N., & BECK, U. (2007). Las Consecuencias Perversas de la Modernidad. Barcelona: Anthropos.
HABERMAS, J. (2001). Teoria de la Acción Comunicativa, Racionalidad de la acción y racionalización social, volumes I e II. s/l: Taurus Humanidades.
LUHMANN, N. (1998). Sistemas Sociales, Lineamentos para una teoria general. Barcelona: Anthropos.
MARCOS, M. L. (2001). Sujeito e Comunicação - Perspectiva tensional da alteridade. Porto: Campo das Letras.
PIRES, E. B. (2004). A Sociedade sem Centro. Azeitão: Autonomia 27.

sexta-feira, 19 de março de 2010

No dia do pai



A minha mão já não é assim. Cresceu. Tornou-se adulta. O tempo, o malandro do tempo, encarregou-se de a mudar. Porque é que as coisas não param um bocadinho que seja? O comboio não pode sair da estação outra vez. Eu quero a minha mão pequenina, Pai.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Coração de vidro



Hoje voltei a ver a Debbie Harry. No YouTube, claro está. Fiquei impressionado: da mulher que cantava Heart of Glass já pouco resta. A velhice tomou conta dela. É pena. Julgo mesmo que não merecia coisa assim. Dir-se-á, ninguém merece. Está bem, mas a vocalista dos Blondie era linda. E as mulheres como ela deveriam permanecer sempre iguais, como no dia em que as vemos pela primeira vez. A decadência é danada: corrompe a natureza de sermos aquilo que queremos ser. Obriga-nos a lutar contra o tempo que é vencedor anunciado.

Os mais optimistas dizem que as mulheres bonitas não têm idade. Agora sei que isso é mentira, a Debbie tem idade, faz em Julho sessenta e cinco anos, e isso nota-se. Poderia estar melhor conservada. Ou não: quem viveu com a intensidade que ela viveu dificilmente poderia estar diferente. Uma coisa é certa: não deve nada à vida. Nós é que lhe devemos alguma coisa - a beleza de menina travessa que cantava vezes sem conta no gira-discos lá de casa.

A canção Heart of Glass ainda hoje é uma das músicas da minha vida. Não me perguntem porquê; teria muitas dificuldades em explicar a razão de assim ser. Mas uma coisa é certa: a imagem da vocalista dos Blondie explica muita da saudade que aquela música me provoca. Por isso me recuso a aceitar a passagem do tempo transformada em rosto velho da Debbie Harry. Talvez porque isso signifique a vertigem da vida também em mim.

Decididamente ela sabia do que falava quando cantava o coração de vidro.



sábado, 16 de janeiro de 2010

Jornal O Vianense: 30 anos ao serviço da imprensa regional


Trinta anos na vida de um jornal significam muito tempo, ao contrário do que acontece na vida das pessoas. As vicissitudes são outras, a maioria das vezes de natureza institucional, traduzindo-se na prática quotidiana em obstáculos difíceis de ultrapassar, principalmente quando considerada a especificidade dos jornais regionais.
O percurso d’ O Vianense ao longo deste tempo é a prova disso mesmo. O jornal nasceu numa conjuntura histórica bem diferente da actual, com contornos políticos, sociais e económicos difíceis de contextualizar na actualidade. Em três décadas quantas coisas se modificaram! O país é outro, o mundo é outro, e os meios de comunicação social - esses então - pouco têm a ver com os daquela época (repare-se que estamos a falar de um tempo em que o uso do telemóvel era ainda uma miragem).
E aqui se reconhece um dos problemas maiores da imprensa regional: os condicionalismos humanos e financeiros que se interpõem na vontade de modernizá-la. A questão é de penosa resolução se tivermos em conta a velocidade da mudança, muitas das vezes ditada pela vertiginosa evolução tecnológica.
Ora, os jornais raramente possuem os meios para fazer face a essa necessidade de renovação. E se esta era uma realidade incontornável em 1980 quando surgiu O Vianense, trinta anos depois ela apresenta-se ainda mais gravosa se tivermos em conta a crise financeira que se abateu sobre o mundo, e sobre Portugal em particular, tolhendo os passos aos que fazem os jornais.
Entretanto, a mudança ocorre de um modo avassalador: a digitalização pouco a pouco vai rivalizando com o papel, as publicações apostam cada vez mais na diversificação das suas plataformas de difusão e os consumidores adquirem um crescente grau de exigência cultural. Como se vê, todos eles sinais positivos de evolução mas de complicada concretização.
A última década foi, a este nível, especialmente difícil. Às dificuldades financeiras juntaram-se a indeterminação política e a mudança do paradigma mundividencial a que estávamos habituados. O optimismo do mercado deixou de existir e, para agravar as coisas, a força das causas públicas que normalmente fundavam os alicerces da imprensa regional, foi sendo substituída, pouco a pouco, pela preocupação exclusiva de cada um por si.
É contra este estado de coisas que o jornal O Vianense tem vindo a lutar, procurando prosseguir uma linha de rumo estabelecida desde a sua fundação. Mas sem que essa procura de verticalidade signifique anacronismo na acção: a procura da actualização possível tem sido uma constante no seu percurso, de que é testemunho, por exemplo, a página do jornal na Internet.
Outras conquistas terão de se seguir ao nível da utilização das novas tecnologias e do saber fazer jornalístico. Mas sempre na procura de uma modernidade escolhida pelos alto-minhotos e nunca por aquela que os centros de decisão quiserem impor; sabendo conjugar o melhor do que aí vem com a tradição da imprensa regional portuguesa. Se assim for, o futuro do jornal estará assegurado. Num tempo em que os títulos das publicações periódicas são cada vez mais equiparadas a marcas de consumo, a marca O Vianense será sinónimo de coerência e de dedicação, valores fundamentais numa época como aquela em que vivemos. Parabéns.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Ao amigo Ricardo Gonçalves


Ricardo,
Escrevo-te em razão dos tempos que partilhamos na faculdade de filosofia, da saudade que esse tempo provoca. Hoje lembrei-me de ti. E não pude deixar de te escrever.
Se é verdade que nem sempre concordei com as tuas posições políticas enquanto deputado, nomeadamente sobre as matérias educativas, também é um facto que nem por uma vez a amizade que me liga a ti foi beliscada por motivos dessa ordem.
Não posso, assim, deixar de te dizer, tendo em conta os factos ocorridos hoje, que há deputados que ainda não perceberam a diferença entre estar na Assembleia Nacional ou na Assembleia da República, a jantar com o Dr. Salazar ou a discorrerem no âmbito de uma comissão parlamentar.
Já reparaste, a propósito, quantos familiares da Dr.ª Maria José Nogueira Pinto continuam a ocupar - do mesmo modo que antigamente - lugares próximos do poder na indústria, na banca, na universidade ou na comunicação social, com a mesma altivez e a mesma desfaçatez de sempre?
Parece que o tempo e a mudança ideológica não passaram por eles. Estoril e Cascais reconhecem isto. Quem não o percebe nem o reconhece é o país real. Até ao momento em que desistir de não o dizer mais. Com todos os perigos que isso pode acarretar.
Ricardo,
É com a solidariedade que é apanágio de quem se quer bem, que te manifesto o desejo de que a frontalidade que te distingue seja colocada cada vez mais ao serviço de todos.
Um abraço amigo.

domingo, 20 de janeiro de 2008

A propósito do amor... II


É muito bonita esta mulher. Olha interrogando, fala sem dizer, corre como uma gazela tão perto e tão longe de nós.

Nasceu de Deus e do diabo. É doce e amarga ao mesmo tempo. Carinhosa e severa. E amiga. Muito amiga daqueles com quem ela quiser ser.

E nós a gostarmos tanto dela. E ela esquiva a ser só dela própria.

Ou então dos homens que a merecerem tão esforçados de a merecerem.

Para que lado fica afinal o amor? Para o lado do coração ou do corpo sedento de amor rude e fácil?

Fácil de difícil que é. Tão fácil como o sonho que não mais a deixa de perseguir: o de ser simplesmente feliz. Connosco ou com aquele que souber dizer melhor do que qualquer um de nós.

Ela tem de continuar assim. Mas com calma. Devagar.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

A propósito do amor...


Um soldado tomou-se de amores por uma jovem princesa. Ciente dos seus brios resolveu dar conta da paixão que o consumia a sua majestade o rei.
Que sim, que o deixaria desposar a princesa se conseguisse ficar de guarda ao palácio real durante cem dias e cem noites sem se mexer. O soldado ufano de tanta valentia aceitou o desafio. Aguentou vinte, trinta, quarenta, cinquenta dias. A força-estátua do soldado permanecia valente de tanto amor no seu posto enquanto chovia, ventava, nevava.
Setenta, oitenta dias. O corpo da princesa a ser cada vez mais corpo.
Noventa. O sonho a deixar de ser apenas sonho.
Noventa e cinco. O amor ainda se vai cumprir.
Noventa e sete dias. O sofrimento e a felicidade juntos a chegarem ao destino. As lágrimas de raiva de si a enregelarem de frio.
Noventa e oito. Vai conseguir. O soldado merece tanto amor assim.
Noventa e nove. Desistiu... Foi-se embora.

(inspirado no filme "Cinema Paraíso")


sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Tempo de Natal


"O grande caminho", pintura de Fridensreich Hundertwasser, 1955.

Quase sem darmos por isso, o tempo que é ausência de novidade, fez-se tempo de Natal. A vontade de sermos outra vez interpela-nos de um modo intenso.
Com o advento do Natal parece que sentimos, cada um de nós e todos, necessidade de nos voltarmos a pensar, de nos questionarmos acerca das escolhas de vida que fizemos ou que nos fizeram crer termos feito.
É um pouco como se nascêssemos uma vez mais. Aliás, o Natal é isso mesmo. É a festa do nosso nascimento. De Jesus Cristo, filósofo, de Deus e de cada um de nós. Sejamos homens de fé ou não.
Por isso é que o Natal - festa da universalidade, por excelência - transforma-se, ano após ano, em contradição não resolvida, ao significar a celebração da nossa singularidade partilhada e, simultaneamente, a da pertença a uma colectividade que nos distingue. E a verdade é que nós somos ambas as coisas. Irrepetíveis de não haver igual, para o bem e para o mal, e solidários de não conseguirmos viver com o egoísmo de sermos só nós. Por isso é que precisamos do rosto do outro, que nos olha e diz o que lhe vai na alma ou a mentira que os lábios balbuciam. Pouco importa.
Porque aquilo que realmente necessitamos é de sermos com os outros, revisitados a partir da palavra e do beijo com que nos dizem gostar de nós. No teatro – verdade de todos os dias, no dealbar que começa e recomeça dos tempos que estão por acontecer.
O Natal é isto, e só isto. Como se nascêssemos outra vez. Melhores do que já fomos, porventura. Ou então, não. A felicidade não se faz assim. Faz-se de coisas simples, da sinceridade de sermos quem somos. No trabalho, na vida, no amor.
Talvez seja, esta, afinal, a mensagem principal de Natal. A da celebração do nascimento de cada um de nós e de todas as coisas, como se disséssemos uma vez mais, obrigado, e a da aceitação consciente da verdade de sermos assim hoje e eternos amanhã. De mãos dadas com aqueles de quem mais gostamos, cirandados no carrossel – vertigem da vida de todos os dias.

domingo, 2 de dezembro de 2007

Ser com os outros

























Há duas espécies de pessoas: As que querem a todo o custo serem diferentes sendo mediocramente iguais; e as que querem a todo o custo serem iguais sendo irremediavelmente diferentes.

Nem todos se dão conta desta verdade. Tornam-se por via dissso ridículos de tanto folclore imposto aos outros. Vestem-se, mascaram-se de personagens que não são suas. Atrevem-se na postura desabrida que lhes rende protagonismo imerecido.

Os outros aninham-se de tanta cobardia imbecil uma e outra vez. Fogem de si mesmos e dos outros. Disfarçam a inércia dos actos por cumprir com a modéstia que não sentem, vaidosos de se saberem diferentes. Próximos, muito próximos, da tristeza de sofrerem por não serem só.

Não conseguem afinal de maneira parecida com a dos outros que desdenham atingir a felicidade que também é sinal de inteligência.

Desperdiçando o momento que raras vezes a intimidade se lhes oferece de serem mais fáceis de tão difíceis que nunca mais querem ser.


(Ilustração do texto de F S B B: "Retrato do escritor Walter Mehring", pintado por Groz, 1925)

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Escrever




1. Escrever é fácil. Escrever bem é muito difícil. Quase todos o sabem e poucos têm consciência disso. A maioria de nós não possui a faculdade de ser capaz de escolher as palavras que devem seguir-se a outras palavras, numa sequência lógica e estética capaz de descrever o que já foi dito e o que está por dizer.
Escrever bem, preencher no vazio da folha de papel, o espaço imenso das nossas dúvidas, dos nossos anseios, das nossas certezas e dos nossos enigmas que são sinal de inteligência, é tarefa maior que se coloca a todo aquele que faz da escrita arte.
Com a palavra, ao mesmo tempo poderosa e bela porque manipuladora e íntima, a compreensão da nossa mesmidade cresce em termos de horizonte de sentido. Torna-se mais consciente, adquire uma multiplicidade de significações possíveis.
Nisso reside, afinal, o fascínio da palavra escrita. Nela somos e não somos, desvelamos e ocultamos a verdade de nós mesmos.
Mas como fazer então para escrever de um modo cada vez mais conseguido, tanto em termos formais, como em termos estéticos? A verdade é que não há cursos universitários para escritores. Não se aprende, não se ensina a ser escritor. O engenheiro, o médico, o professor, percorre um curriculum de matérias que lhe proporciona as condições necessárias para ser competente naquelas funções; o escritor não. O escritor nasce escritor.
Chama-se-Ihe um dom, uma propensão genética, uma providência de origem além terrena, o que se quiser. Mas, na realidade, aqueles que escrevem arte são seres diferentes. Com todos os custos que essa sina acarreta. Repare-se no olhar prenhe de mistério e de inteligência, na expressividade única dos gestos que dizem sem nada dizer, na atitude complacente e simultaneamente altiva, que ostentam.
Evidentemente que esta forma diferente de ser não se fabrica, não é artificial, tal como alguns gostariam que fosse. Por isso os cultores da escrita, que é competente e bela, sofrem e fazem sofrer, talvez por causa da solidão que lhes é constitutiva da sua essência de ser.





Carlos Drummond de Andrade


2. O escritor é escritor desde sempre. Por exemplo, desde a escola primária. Carlos Drummond de Andrade contou uma vez que nasceu para a escrita numa aula da 3" classe, onde D. Emerenciana Barbosa, a sua professora, descrevia numa tarde quente de Julho cidades e países distantes no espaço e na imaginação. Foi nesse momento que aquele futuro grande escritor da língua portuguesa resolveu pegar num papel e num lápis e galgar os horizontes reféns das paredes daquela sala, num exercício desenfreado de sonho e de aventura por entre palavras e frases de competência primeira, e escrever uma epopeia de viagem em dez curtas linhas.
A professora surpreendeu-o com o rosto reclinado sobre o papel, distraído, com as mãos frenéticas de imaginação empunhando o lápis cúmplice, e resolveu ler o que o aluno havia escrito.
Perante a estupefacção dos colegas, D. Emerenciana disse, alto e bom som: "Você ainda vai ser um grande escritor". Fazer do exercício da escrita uma arte é, com efeito, transformar a solidão pessoal em vontade irreprimível de partilhar com os outros a capacidade visionária de perceber o mundo de forma diferente. É ver o mundo com outros olhos; é ter a capacidade de vislumbrar o insólito, o traço distintivo, por entre a vulgaridade de todos os dias.
Digo-o uma vez mais. A maestria da escrita não está ao alcance de todos. É necessário vocação, sensibilidade estética, imaginação, inteligência, destemor no enfrentar do conformismo estéril dos homens.
Os grandes escritores possuem todas estas competências. É necessário que o saibamos reconhecer, tal como um dia fez Raymond Queneau perante uma Marguerite Duras, ainda em fase de iniciação literária: "Não faça mais nada, escreva".
É através da palavra que os indivíduos entrecruzam informações, normas de comportamento moral e social, objectivos de realização futura, mas não só, também estados de alma, formas de sentir e de desejar.

3. Na palavra descobre-se, com efeito, o homem, a sociedade, o mundo que somos e que expressamos de forma descritiva, imperativa, conformista, moralista, poética.
Não é por acaso que os filósofos do século XX foram filósofos da linguagem - "a palavra é a casa do ser", dizia Heidegger. Sem que, contudo, possamos afirmar com absoluta probidade, que a maioria daqueles pensadores, de valia intelectual indiscutível, escrevia bem, pelo menos sob o ponto de vista literário.
É que existe uma grande diferença entre o cientista da palavra e aquele que faz da palavra arte. Pode ser-se extraordinariamente competente no plano científico, na análise sintáctica - formal de um texto, por exemplo, e não se atingir a singularidade no exercício estético da escrita.
O poeta sabe disto de um modo privilegiado. Num poema a palavra que se escreve é aquela e só pode ser aquela! Nenhuma outra a poderia substituir com a mesma riqueza semântica e acerto rítmico. A qualidade de um texto literário não reside na erudição ostensiva daquilo que se escreve, mas antes na capacidade sensitiva e estética de escolher aquilo que se escreve.
Para além da predisposição vocacional, que é marca essencial da personalidade do escritor, conforme vimos já, há um outro factor que contribui para a melhoria da competência discursiva, traduzida em letra de forma. Esse factor é a prática persistente do acto da escrita.
Dizem os entendidos que para se redigir cada vez melhor, a somar à leitura de bons livros, só há uma outra possibilidade: escrever, escrever, deitar fora aquilo que se escreve, e escrever outra vez.




4. Infelizmente, hoje escreve-se cada vez menos. A Escola poderia, aqui, desempenhar um papel privilegiado. Mas raramente o faz; nem sempre por culpa própria. A extensão desmesurada dos programas curriculares, o número excessivo de disciplinas e a obrigatoriedade de se atingir níveis altos de aproveitamento em exames onde a competência científica é tida em consideração quase exclusiva, conduz a este diagnóstico de verdade, de contornos poucos animadores.
É por isso que os jornais, sejam eles escolares, regionais ou de expansão nacional, têm uma importância considerável na promoção de hábitos de leitura e de escrita junto das comunidades onde se inserem. As suas páginas podem ser espaços de exercício literário por parte dos mais jovens e de todos aqueles que gostam de escrever. Cumprindo, assim, a sua vocação de ser. A de constituirem espaços de experimentação e de reprodução da vida que pulula e se reescreve lá fora.

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Deus e a Mulher


Não acredito em Deus. Talvez porque nunca o tenha visto. "Mas não O precisa ver. Confirme-O nas obras que nos deixou", dizem os meus amigos da Igreja. Alguns bem ilustres, por sinal. "Que não, foram os homens que fizeram Roma e não Deus", argumento eu. 

 

Hoje a dúvida assaltou-me quando vi aquela mulher de mão dada com o mar. Na praia que não é obra dos homens. 

Com a alegria no rosto só explicável pela pertença divina. 

 

E Deus fez-se mulher. Pensei eu.

domingo, 11 de novembro de 2007

O Carrossel


O sonho por vezes prega-nos partidas. Convida-nos a embarcar na viagem do carrossel-vertigem que não leva a lado algum. E o homem do altifalante que nunca mais anuncia a última viagem... E os outros lá em baixo, olhos postos na noite e em nós, a desesperarem de tanto esperar.

sábado, 10 de novembro de 2007

Aquela Rapariga


Aquela rapariga matou o amor de todos os homens que gostam do amor. Porque é bonita e é má. Porque não poderia acontecer outra coisa sendo bonita e má tal como é. Até ao dia em que encontrar aquele - o tal - que for mais safado e belo que ela.

 

Aquela rapariga cumprirá então a sina de sofrer pelo amor negado. Esperando idiota o tempo de recuperar a serenidade de ser bonita e má -- naqueles e só naqueles momentos em que vale a pena ser bonita e má.

 

Quando a altura chegar, aí, finalmente, cumprirá o amor em que o amor se merece de tanto prazer para dar.

 

Aquela rapariga ainda vai ser feliz.