
Logo a
mim que não faço mal a ninguém se não puder. Tinha acabado de dar como exemplo
dos conhecimentos básicos a exigir aos deputados da próxima legislatura o
posicionamento crítico acerca das obras musicais de Jorge Peixinho e de
Graciano Saga. Da provocação resultou a concordância de quase ninguém e a
recusa do hemiciclo todo. Era o que pretendia. Estava por isso contente comigo
mesmo. O dia corria-me bem. Uma manhã de sol branco de Lisboa, as pernas de
seda preta a desfilarem em frente à Bénard e eu sentado na esplanada
acompanhado de ninguém. Uma maravilha!
À tarde seguiu-se a tal prelecção sobre as qualidades a serem consideradas nos
parlamentares de Outubro próximo. O edifício da Assembleia a servir-me de
cenário ao acerto da postura de quase cientista político. Logo depois, os corredores,
os passos perdidos, as escadas, as muitas escadas e, catrapuz! – cabeça rachada
e algum sangue a escorrer-me pela testa.
Lá se foi o sol branco mais a passerelle da Bénard! De repente estava a andar
às voltas num carrossel. E os altifalantes a anunciar a próxima paragem:
gabinete médico da assembleia.
Voltei a percorrer os corredores agora em direcção à minha possibilidade de
salvação. Pelo caminho as pessoas olhavam-me com cara de deputados. As manas
Mortágua quase deram um grito. É do BES – dizia a Mariana. É nada, respondeu a
Joana – é um latifundiário que não aceitou entregar as terras. Um pouco mais
adiante estava, anafado e orgulhoso de si mesmo, o parlamentar do CDS Raúl
Almeida e as suas suíças bem aparadas a mostrarem o palácio a um grupo de
meninos de um colégio bem. De repente viu-me e juro-vos que gritou para dentro
- eu ainda ouvi - "Outro 25 de Abril !?"
Já dentro do espaço branco do gabinete com maca e enfermeira respirei de
alívio. Nem mais um deputado nem mais um passo perdido. Comecei a recuperar a
esplanada da manhã. Por pouco tempo. Até ter chegado em meu socorro a primeira
directora. “Entre senhora doutora, está aqui o nosso doente.”, disse aquela que
mais tarde viria a saber ser uma mulher e uma enfermeira excepcionais. E pronto.
Adeus Bénard, sol branco, Peixinho e Saga, e eu próprio.
Primeiro, os sapatos de salto alto pretos a completarem as meias de comungar,
depois o vestido a tentar cobrir as pernas sem fim ao mesmo tempo que, por
esquecimento do costureiro, certamente, revelava num círculo sem tecido a pele
abaixo do peito. Quanto ao cabelo, já sabem como é, cabelo e penteado de
directora. O rosto, esse, estão a ver o da doutora Assunção Esteves? Não tem
nada a ver. Era absolutamente lindo.
Então, o que lhe aconteceu? “Já não me lembrava que as directoras eram assim”,
respondi-lhe. Sorriu. Do lanho na testa não me lembrei mais. Até que chegaram
mais funcionárias, e directoras, e a mulher-polícia da entrada da Assembleia da
República. E agora, quem o vai levar ao hospital?
Foi aí que que eu conheci o outro lado do parlamento nacional. Formou-se ali um
grupo de pessoas fantásticas e amigas. Todas se ofereceram para me transportar
até ao centro de negócios da saúde mais próximo – o da CUF. Isto num dia de
trânsito insuportável com a greve do metro.
Enquanto caminhávamos em passo lento para o exterior do edifício, corria num
sprint desenfreado por entre aquela gente a fama que há muito me persegue: a de
que vejo para além do rosto das pessoas e lhes adivinho o futuro. Uma desgraça!
E eu ali, sem a minha proverbial D. Lurdinhas, que é quem gere o meu gabinete e
a vez das clientes. A mulher-polícia, essa, estava desesperada. Já me contava
os últimos quatro meses da vida dela que não foram fáceis. Sorte a minha que a
deputada Isabel Moreira, que decididamente “gosta de homens que gostam de
mulheres”, muito bem vestida naquele dia, e de conversa fugaz no grupo, tinha
mais que fazer. Logo ela que é toda dada a devaneios aparentemente esotéricos…
De uma coisa fiquei certo: é bom trabalhar na assembleia com um grupo daqueles.
Digo mais: é melhor que no Pingo Doce, na Primark, na Siderurgia Nacional ou
mesmo na sociedade de advogados Cuatrecasas.
No hospital fui atendido por uma médica muito jovem. Disse-lhe que deixasse o
namorado juiz e levei cinco pontos na testa. À noite dormi no 8º andar de um
hotel com uma vista única sobre Lisboa. E sabem quem pagou a estadia? O
caríssimo leitor que neste momento está a passar os olhos por estas linhas.
Ah! Já me esquecia! Falta dizer o que esteve na origem de tudo isto. Quando eu
ia a utilizar as escadas do parlamento para ir dali para fora, estava nesse
momento a descê-las o deputado Carlos Abreu Amorim. Quando me viu, sabendo que
nasci na cidade capital do Alto-Minho, caminhou num passo mais rápido em minha
direcção para anunciar as novidades dos Estaleiros Navais de Viana. Mais
navios, mais trabalhadores e mais peso em cima de mim: o do ilustre parlamentar
que acabava de assentar arraiais em cima do meu corpo estendido no chão.