sexta-feira, 28 de julho de 2017

A Cuca Roseta e os gelados Magnum



Desde que casou que não a via. Há um mês, portanto. Rumei a Mirandela para assistir a um espectáculo dela. E perceber como estava. Milhares de pessoas à espera da Cuca Roseta num anfiteatro de granito ao ar livre em frente ao Rio Tua. Cenário lindo. Nunca tinha estado naquela cidade transmontana e gostei. Muito bem organizada em termos urbanísticos e com gente bonita. Este último pormenor já eu sabia. Principalmente nos olhos grandes que só podem ter explicação genética.

Mal me viram as autoridades da festa disseram-me para ocupar uma das cadeiras que estavam reservadas não sei para quem. Simpática a gente de Mirandela.

A actuar em parceria com a minha amiga uma orquestra sinfónica lá da terra fundada a partir de uma escola profissional de música (Esproarte). Realidade que se está a espalhar pelo país através da criação de conservatórios regionais. Lisboa não sabe de nada. Que se cuide. Portugal em matéria de educação está a mudar muito.

E eis que sobe ao palco a Cuca Roseta. Está igual. O corpo não mudou. Há algum tempo que sei que mesmo que uma mulher deixe de ser virgem as alterações físicas não são visíveis a olho nu. A verdade é que dançou, percorreu o palco com a elegância de sempre. Bem, também é verdade que já tem dois filhos. Mas mesmo tendo em conta que o novo amor é preparador físico o corpo mantém-se intocado.

Também é notório que não está grávida. Notava-se bem este facto de palpável importância por causa do vestido: amarelo, brilhante e vaporoso, feito a partir da parte de dentro do papel-alumínio que envolve os gelados Magnum. Era tão celofane e colado ao corpo (se exceptuarmos as pernas) que permitia ver que não está de esperanças. O preparador físico está em férias e a Cuca está com a agenda muito preenchida.

O cabelo, esse, se não tivesse sido convidado para as cadeiras das pessoas ilustres, este vosso amigo tinha caído de admiração. Foi sempre das coisas que mais gostei nela. Comprido, muitíssimo bem penteado, liso, belo, muito belo. Mesmo como eu gosto de ver nas mulheres. Não sei porque nem todas usam o cabelo assim. Talvez por não saberem que uma das graças maiores do género feminino está no cabelo. É para onde os homens de bom gosto olham em primeiro lugar.

E, depois, quando fazem como a Cuca que mexe no cabelo instante sim instante não, ai abençoadas cadeiras dos convidados que fui salvo por uma delas. Aprendam senhoras, o cabelo e as meias e a estabilidade do lugar sentado dos homens têm uma importância crucial caso queiram ou não um determinado cavalheiro.

Quanto ao resto, a minha amiga distinguiu-se pela simpatia de sempre e o porte aristocrático desprendido que a caracterizam. Ah! E cantou bem.

quinta-feira, 27 de julho de 2017

BJornal

Desde sempre a fazer jornais. 
A minha grande paixão (às vezes maior que a das mulheres).
Aos 9 anos brincava aos jornais recortando fotografias, colando-as numa folha branca grande e escrevendo os respectivos textos.
Aos 20 ajudei a fundar -- com o meu pai -- um jornal que ainda dura e há-de durar. 
Outros se seguiram. 
Hoje saiu este.

terça-feira, 25 de julho de 2017

Carlos Drummond de Andrade


– Vocês ainda não sabem, mas não há nada melhor na vida que isso que estão fazendo. É como se o fogo-de-artifício caísse sobre Guanabara. A brisa amainasse o calor. O mar se tornasse de todas as cores. O corpo tremesse de emoção boa. Os lábios fossem o corpo inteiro. E eu fosse mais novo um dia.

domingo, 23 de julho de 2017

Doce por doce



Pronto. Aqui está o problema da minha vida. Já o tenho discutido vezes sem conta com médicos e outros técnicos de saúde. Sem conseguir obter uma resposta conclusiva: uns dizem que sim outros que não.

Mas, afinal, a Coca-Cola (e eu bebo a Zero) faz mal à saúde? A última médica que consultei disse-me que se for uma ou duas vá lá três por dia não traz prejuízos de maior.

A questão está toda no açúcar, no sabor a doce de que a vida tanto precisa.

Será que os amigos do face me podem ajudar com as vossas opiniões?

É que se acharem que não devo consumir a Coca-Cola, então eu como a rapariga do lado. Doce por doce… 

sexta-feira, 21 de julho de 2017

A esplanada


Aí está. O meu mundo. A esplanada. Janela de ver os outros. A desfaçatez e a vontade envergonhada. O glamour e o sórdido. A perna cruzada debaixo da saia e os olhos no chão com medo dos outros. A vida toda. Na esplanada.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

De algo ou alguém


À espera. Do sol, das horas, de Godot. À espera. Do fim da tese, do mar encapelado, do FCP campeão. À espera. Da avó outra vez viva, do leite amargo dado a beber por ele, do último número da New Yorker. À espera. Das luzes que não param na noite embriagada de música e de álcool, das ondas que vão e vêm, do corpo ritmado dele. À espera. De saber o que é ser feliz, das lágrimas compostas de átomos, da lua e do sol. À espera. De mim.  

Nastassja Kinski



Por causa dela morri alguns anos da minha adolescência.

domingo, 16 de julho de 2017

Luís Montez


Não há bem que sempre dure. Acabou o Super Bock Super Rock. O Luís Montez vai deixar de aparecer todos os dias na televisão. Com a sua casa como cenário. O Pavilhão Atlântico. E os jardins em frente ao Tejo, as obras de arquitectura e de arte urbana. A pala do Siza Vieira. Tudo dele. Assim como os jornais e as televisões. Um visionário da mediocridade portuguesa. O introdutor das pulseiras de cores diferentes. Que teve a avareza desmedida de acabar com o único festival mítico do nosso país: Vilar de Mouros. Um dos indivíduos mais antipáticos de Portugal. 

 

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Rostos da RTP


Em 2011 fugiram da RTP como ratos de um navio prestes a afundar. Director e Directora-adjunta de Informação, muito bem relacionados com a direcção do PSD, mal ouviram falar da privatização do canal público abandonaram a estação onde aprenderam tudo e sempre foram bem tratados. 
Algo me diz que nesta altura tentam o regresso à RTP mais uma vez com medo do que aí vem. A Altice não é gerida por gente conhecida das sedes partidárias, da noite ou das tertúlias que se sentam à volta do whiskey Jameson. A cobardia vai uma vez mais fazer das suas.

sábado, 8 de julho de 2017

Convidadas de última hora

 


- Maria dos Anjos!!! Quanto tempo... Estás igual... Que felicidade a minha... Deus é grande... E trouxeste as tuas sobrinhas... (Vou já servir-lhes um Porto Barros enquanto nós os dois conversamos)... Estou tão contente...

O enlace matrimonial seguido de lua de mel na Nazaré

 

Muito obrigado a todos. 
Eu e a Elza estamos cansados mas felizes. Foi um casamento muito bonito e abençoado com a presença de tantos amigos. Neste momento chegamos ao hotel da Nazaré onde vamos passar oito dias de felicidade celestial. A Elza está um bocado nervosa mas julgo ser normal nestas ocasiões. Adeus amigos, até ao nosso regresso.

sábado, 1 de julho de 2017

A MONICA E EU



É todos os dias isto. A vida tão difícil e a cidade a gozar comigo. O dia inteiro a preencher papéis no escritório de contabilidade. À noite os debates sobre futebol. E o sono a chamar-me para o quarto. Sento-me na cama e na casa em frente, a da Monica Bellucci, a vida a começar. Isto não se faz a alguém que passa o tempo a fazer contas. Sr. Fernando Medina faça alguma coisa para que eu volte a poder descansar. A cidade de Lisboa deixou de ser para quem trabalha. 


quinta-feira, 29 de junho de 2017

Eu, a esplanada e a coca-cola



Servia-me a Coca-Cola Zero todos os dias na esplanada onde eu sentava a olhar o mundo. Que saudades da Coca-Cola Zero.  

(Foto de Bernardo Coelho)

sexta-feira, 23 de junho de 2017

A minha intervenção no Parlamento Europeu

                     Nenhuma descrição de foto disponível.

 











Vou discursar no Parlamento Europeu! Pouso os óculos, olho a Marisa Matias a ver se ela está atenta, e digo: "Quero voltar a ter uma Europa como a de Helmut Kohl, Olof Palme, Mário Soares, François Mitterrand, Willy Brandt, Felipe Gonzalez, Helmut Schmidt, Hans Dietrich Genscher."
Ponho outra vez os óculos para ver a Marisa.

quinta-feira, 15 de junho de 2017

DIA DO CORPO DO HENRIQUE


Há dois anos vivi o dia de Corpo de Deus numa esplanada de Paris, no ano passado junto ao mar com a Julia Roberts, este ano na primeira comunhão do meu filho D. Henrique. 

Na Catedral cheia, dezenas de crianças felizes -- cabelo penteado com escova e secador, roupas esmeradas -- esperavam por integrar nos seus corpos pequenos o corpo do Senhor. 

O padre (muito conhecido por ter uma coluna de opinião num dos jornais mais lidos do País), em vez de explicar isto mesmo às crianças, ralhou às 1000 pessoas que assistiam à celebração por não cumprirem os mandamentos de Deus não vindo à missa dominical.  

Quem também levou com a má disposição do sacerdote foi um fotógrafo profissional que disparou uma vez a máquina enquanto o clérigo discursava -- e assim perturbou com o barulho do obliterador a brilhantez do raciocínio metafísico -- e os dois sacristãos que com o medo já não sabiam o momento de levar o livro das leituras junto do representante de Deus. 

Claro que a assistência não reparou em nada disto, tão atenta estava nos seus rebentos e nos telemóveis que iam registar para a posterioridade aqueles momentos inesquecíveis. 

À cerimónia nem o fantasma de Ettore Scola faltou mais a família que o celebrizou -- o grupo a tirar a fotografia de conjunto, todos disformes, a mulher de olho tapado com gaze e adesivo e o ar colectivo de quem acaba de sair do estabelecimento prisional. 

No meio das mil pessoas havia vestidos vaporosos, corpos que nasceram para serem amados mas que o músculo sóleo (aquele que desce pela perna e se aproxima do tornozelo) diz a verdade e traduz trabalho de força e não devaneio de esplanada ou vaidade de passerelle. 

E depois o meu D. Henrique de Barros. O meu clone. Muito melhor que eu -- assim espero!

Hoje lembrei-me da minha primeira comunhão. Fato branco feito por uma modista, bonito de diferente mas simples, sapato de verniz. As pessoas devem ter gostado porque algum tempo depois, um casal de noivos que não conhecia veio pedir aos meus pais se eu poderia participar do casamento levando as alianças. 

E a verdade é que lá fui e lá me apaixonei pela menina que comigo fazia par. 

Hoje é a vez do Henrique. Um aviso a Deus Nosso Senhor: Trate bem dele porque a par das suas irmãs são a maior riqueza que eu tenho. Se não cumprir o meu pedido vamo-nos ver -- eu verdadeiramente zangado e Deus sabendo-se sem razão a justificar-se perante mim. 

Fica o aviso.  


terça-feira, 30 de maio de 2017

Perfumes Azzaro


Para os homens que gostam de mulheres que gostam de homens.

(Tal e qual para este senhor artista)

sábado, 27 de maio de 2017

Relógios Patek Philippe


Nunca somos verdadeiramente donos de um Patek Phili...,
perdão, de um guarda-sol de 12 varetas.

Apenas cuidamos dele
para a geração seguinte.

A viagem


– A menina importa-se de me dizer a que horas sai o próximo navio?
– Não sei, também estou à espera de partir nele – respondeu a minha tetravó ao meu tetravô.

sábado, 13 de maio de 2017

Finalmente: Portugal vence o festival da Eurovisão


Ao mesmo tempo que nas três últimas décadas os jornalistas e os líderes de opinião diziam mal da escola e dos professores – ao contrário do que acontecia com o serviço nacional de saúde –, os jovens portugueses iam mudando a uma velocidade estonteante. Mais cosmopolitas, mais criativos, mais sabedores. A saberem ler música e a escreverem bem. A investigarem em laboratórios matérias complexas. Mesmo com os políticos a fazer asneiras no ensino. E os jornalistas a odiarem os professores.

Um dia vai ser preciso fazer a história de tudo isto e dizer os nomes dos iluminados que tantas idiotices disseram nas mais diversas tribunas mediáticas. Mesmo sabendo que nem todos os jovens chegaram aonde todos gostaríamos. Nem eles nem a sociedade em geral. Mas a verdade é que os novos portugueses não diferem dos outros europeus. É vê-los em qualquer areópago internacional.

É neste contexto que aparecem jovens como o Salvador Sobral ou a irmã. Altivos, sem serem arrogantes, simpáticos porque inteligentes, cultos e diferentes. A falarem inglês e a saberem música. Com noção elevada do bom gosto. A terem consciência que o simples é o mais difícil. E que a qualidade reside na imaginação e não no visual feérico.

Salvador Sobral percebendo tudo isto criou no entanto um boneco. Bem engendrado. Minimalista mas verdadeiro. A apelar ao sentimento que a música e o poema juntos conseguem na perfeição. Mexendo com as pessoas. Todas. De qualquer língua. A partir do português. Essa língua que é um sentir próprio de um povo muito antigo. E moderno também. Que mistura a saudade do mar e a vontade de descobrir a ciência. Que continua a escrever poesia como poucos. E passo a passo começa a perder a vergonha de si mesmo, imposta por tempos de miséria e de ignorância. Servindo o poder de poucos.

Seria uma lição se os portugueses vissem a conferência de imprensa para estrangeiros que se seguiu ao festival. Os nossos políticos não conseguiriam uma prestação como a do Salvador Sobral. Falou com uma desenvoltura e um sentido de humor que conquistou todos. Da mesma forma que antes tinha criado um dos momentos mais altos da história do Eurofestival: a interpretação da canção vencedora ao lado da irmã que provavelmente os europeus nem sabiam que cantava. Portugal e o Salvador estão de parabéns. E a União Europeia também.

Francisco Sérgio de Barros e Barros
(Carteira profissional de jornalista TE-02)

quinta-feira, 11 de maio de 2017

As aparições e a minha vida


O transcendente visitou-me algumas vezes. Como a qualquer um dos leitores. Nessas ocasiões algo provoca em nós espanto. E por vezes muda-nos. É como se houvesse um corte com o passado.

Esse encontro com o passado acontece muitas das vezes com a visão ou mesmo com a aparição. Eu sei que o encontro com o sobrenatural tem diversos graus de impacto emocional. Falarmos com Deus não entra nestas minhas cogitações, os meus amigos jesuítas fiquem descansados acerca da minha saúde mental.

Até porque infelizmente não sou religioso. Quando falo em acontecimentos marcantes, próximos da ruptura com o que já se foi, falo da leitura de um bom livro, de uma conversa que não se esquece. Coisas assim.

Por exemplo, de quando li O Homem que Olha do Moravia, ou vi no cinema o A Filha de Ryan de David Lean. Ou quando toquei pela primeira vez o corpo nu de uma mulher.

O que é que estás a dizer? Não te ouço, Zuckerberg... Ah! Descansa. Apenas vou falar de testemunhos pessoais mas partilháveis por todos. Que toda a gente possa traduzir para a sua própria vida.

Deixa-me pensar, Zuckerberg. Já sei o que escolher: a aparição de 1990 – era eu um adolescente. O hotel onde hoje estou hospedado, o Beverly Wilshire, em Los Angeles, também não me deixa muita margem de manobra em matéria de recordações marcantes.

Lembro-me de nesse ano, uma mulher linda "mais brilhante do que o Sol" olhar nos meus olhos, sorrir nos seus olhos, e dizer com os lábios mais fantásticos que alguma vez o Chiado viu: "Qual a cor do preservativo que queres?” Olhei para aquele anjo e não sei porquê lembrei-me da deputada comunista muito em voga naquele tempo – a Odete Santos. Não tinha nada a ver.

Sei que no dia seguinte, depois de uma noite de oração e muita descoberta metafísica, dei à Vivian (era esse o nome dela) o cartão da minha mãe do Continente para comprar roupa no Rodeo Drive. O vestido de cor castanha e fogo-de-artifício branco foi nesse dia que caiu do céu.

À noite fomos à ópera em São Francisco. Ela levou uma toilette vermelha que tinha usado no filme Pretty Woman e fomos na camioneta do Barraqueiro. Durante a viagem conversamos muito. A Vivian era uma mulher muito experiente e quis dar-me alguns conselhos sobre o sexo feminino. Que nunca me deixasse seduzir pelas mulheres russas. Principalmente quando louras de cabelo comprido e a tocar piano. Primeiro tinha de usar o meu charme – que ela achava eu possuir às carradas – e assim proceder à conversão delas aos meus princípios. Depois revelou-me algo de trágico a acontecer no meu futuro mas que não poderia dizer mais porque era segredo. Prometi-lhe o cartão da minha mãe da Loja das Meias e ela então falou-me que alguém iria atentar contra a minha vida. Preveniu-me ainda que via armas no meio daquele presságio. Não percebi nada até uns anos mais tarde uma mulher apontar uma pistola à minha cabeça por eu não querer mais nada com ela.

Mas voltando à Vivian e à ópera: ela em forma de anjo com o rosto em cima do meu ombro, a música a ecoar naquele teatro, e as lágrimas… Sérgio… Sérgio… Acorda que são horas da escola! Abri os olhos e vi a minha mãe como sempre preocupada comigo. Que horas são? – perguntei. Oito horas. Dentro de meia hora tinha a minha professora de francês a lembrar-me que no mundo não há só corpos celestes.

Se fui o mesmo de sempre na aula de francês? Não, não fui. Nunca falei tanto francês na minha vida e em feux d'artifice e na apparition de la Sainte Vivian. Uma autêntica epifania aquele sonho.


terça-feira, 9 de maio de 2017

A vida devagar


Éramos e somos três. De todos o mais vivo eu mesmo. Só se for agora, que naquela altura não. Todos bons miúdos na fotografia, ao contrário de agora – Hoje tenho a consciência de o não ser. Dois irmãos e uma amiga quase irmã. A bonita Melita. Hoje são pais, escrevem e vivem de modo autónomo. Com saudades de serem como na fotografia. O Rogério com o dedo no nariz e um jeito muito grande para o futebol. Ela coquete a dar os primeiros passos na capacidade de comunicação. E eu sonhador e observador de você que lê estas linhas. O facto de sermos os três filhos de directores de jornais de Viana, uma das cidades mais bonitas de Portugal talvez explique alguma coisa.

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Joana Amaral Dias


Meninas:
Este Francisco Sérgio é um misógino, um machista da pior espécie e um narcisista incorrigível. Se o virem, fujam dele. Telefonem-me imediatamente indicando o local onde o poderei encontrar. Para a frente é que é o caminho.
Agradecida!

Ainda não apareceu...


– E o Francisco Sérgio que nunca mais chega!

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Janela para o mundo


–  Olha Pirolito quem vai ali, a desavergonhada da Alzira! Organizou a viagem a Benidorm e ficou com parte do dinheiro.
– Esperta foi ela, Dona Cândida. Combinou com o Soares da agência receber por cada cabeça. E ainda por cima andou com o motorista durante o passeio, como é que ele se chama?, o Zé da Madalena.
– E a filha? Experimentou os rapazes todos de uma escola de Vigo que estavam lá de férias.
– Dona Cândida... não se sabe... diz-se.
–  Pelo meu falecido Albano. Quem me conhece sabe que não gosto de falar da vida dos outros, mas que é autêntico, lá isso é... E só não foi com o professor porque a directora da escola já o tinha arrebanhado.
– E a Dona Cândida não protestou durante a viagem?
–  Ó Pirolito, sabes lá... O Sr. Américo insistiu muito para eu não dizer nada, que ia ser um escândalo e a fama de todos ia ser prejudicada.
–  O que vale a esta rua é ainda haver pessoas como a Dona Cândida. Ainda ontem o Sr. Américo falava disso quando a veio visitar.
– Sabes Pirolito, ainda está para nascer alguém tão honesta como eu.
–  Lá isso é verdade – disse o Camilo Lourenço quando leu esta crónica.

O meu Pai


A fotografia é minha. O rosto, as mãos, a casa e eu próprio são o meu pai.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Mulher à Chuva


 – Ana Teresa: chega, anda para casa, pareces uma criança.

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Rosa Ramalho


O tempo e os meus calções cresceram. Obedeceram ao movimento da vida. O carrossel não parou e passei a assinar cheques e a usar gravata. E a lembrar-me.

Este fim de semana fui a casa dos meus pais. Vi o álbum de fotografias dos calções. De quando a memória tinha um suporte material. Hoje, com os telemóveis, nada fica. Sobra o Facebook e a nuvem que guardam o passado até um dia.

Entre as diversas fotografias esta chamou-me a atenção. Fixei-a na memória com a ajuda do telemóvel. Por isso é que a nitidez não é a melhor. Mas dá para reconhecer: eu de calções, a minha mãe, o meu irmão e uma senhora velha que na altura era tão-só um dos ícones nacionais. Rosa Ramalho de seu nome, ceramista e artista popular de eleição.

Nos olhos dela via-se tudo. O génio, a capacidade de ver as coisas de sempre de outra forma.

Nunca foi à escola. Quando se diz que o talento nasce do esforço, quase nunca é só assim. Durante 50 anos, enquanto foi vivo o pai dos seus sete filhos, não moldou o barro com as suas mãos. Havia que fazer face à vida difícil. Só depois, aos 68, pôde então dar largas à imaginação.

Os especialistas falam que sem o saber, Rosa Ramalho fazia arte surrealista, tal o modo como traduzia o seu imaginário acrescentando a cabeça de um bicho ao corpo de gente, aumentando ou diminuindo as partes de uma estatura física que via de forma singular.

Lembro-me bem daquela tarde. Fomos à casa dela com um escultor nosso amigo que queria fazer um busto da artista tornada mito pela televisão e pelo poder político do tempo.

Parecia uma avó. Gostou do meu irmão e de mim, mas no meu caso não fez favor algum. Foi à oficina onde modelava e trouxe debaixo do avental – podia algum dos familiares estar a ver – um Cristo que nos ofereceu.
Não sei se o miúdo do lado esquerdo da fotografia (o meu irmão) se apercebeu da qualidade artística da peça. Eu apercebi-me logo e de quanto poderia valer no ano de 2017.

Às vezes era bom podermos voltar atrás e recuperarmos algumas coisas. Nós e o País. Por exemplo, o Estado cumprindo o prometido: a recuperação do terreiro da fotografia e da casa da artista criando assim o Museu Rosa Ramalho.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Eduardo Souto Moura


O meu fim de tarde de hoje foi diferente. Estive em amena cavaqueira com o Souto Moura. Eu e mais cem pessoas. Ao fim de hora e meia de histórias contadas com sentido de humor, a conclusão de sempre – as pessoas quando são cultas entregam-se ao auditório, fazem de tudo para agradar. Podia ter falado de arquitectura na sua variante teórica, no sortilégio do traço ou da luz. Souto Moura preferiu falar daquilo que ele sabe que o público gosta mais. De onde surgiu a ideia de escolher aquela área de estudos, a família, o irmão procurador-geral, a pedreira de Braga transformada em auditório greco-romano. E a Ana Sousa Dias, esperta, a espevitar essa intimidade entre os assistentes e ele. O prémio Pritzke a rir do prémio Pritzke, a falar do risco que não sabia fazer enquanto estudante de arquitectura. Por fim, o elogio humilde do discípulo ao mestre Siza Vieira que lhe ensinou muito do que sabe. Da bondade e misticidade do Álvaro enquanto homem e artista. Gostei muito de o ouvir sozinho comigo. Percebi-o principalmente quando um colega meu no final da rábula, num outro espaço mais resguardado, perguntou-lhe “Cansado?” e olhei para a cara dele e vi um homem com vontade de estar isolado com ele mesmo, bom tipo mas ansioso de amainar os nervos e voltar a ter um lápis na mão.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Vídeo comemorativo dos 25 anos da SIC


Sei que não é consensual a minha opinião mas acho ridículo o vídeo comemorativo dos 25 anos da SIC. Logo na estação de televisão que maior culto faz da imagem. Seja em reportagens seja em espectáculos. Desta vez parece que encomendaram o trabalho aos alunos de uma escola C+S. Então os Balsemão pai e filho à espera dos profissionais avençados é de rir. Salva-se no meio desta desgraça a Ana Patrícia Carvalho. Um beijo para ti.

Photo by SIC

domingo, 16 de abril de 2017

O pecado e a redenção


Era a terceira paróquia daquele dia, em terras do interior, sem gente e a pouca que ali vivia à espera do passamento para a eternidade.

Trinta e três graus no céu e trinta e três botões na sotaina. Quantas saudades de Salamanca e do tempo da Páscoa que lá se vivia. Festejava-se a Ressurreição de Cristo e a chegada à vida adulta das jovens tresmalhadas.

Ao mesmo tempo discutia-se o pecado e a redenção. Era considerado pelos pares um padre promissor. A tentação e o diabo encarregaram-se de o mandar para aquele fim do mundo.

E o calor que não dava tréguas. O calor e as mulheres velhas que queriam o salvo-conduto para o céu.

Ao seu lado uma delas falava e falava cumprindo o sacramento da confissão. Não a ouvia porque diziam todas mais ou menos a mesma coisa. Que a vida era difícil, os filhos fora a fazerem pela vida, o marido enterrado naquela terra de satanás.

O padre resolveu despertar daquela letargia e finalmente perguntou qual a sua contrição. A mulher velha pôs a mão no sacerdote e disse-lhe: “Eu o absolvo dos seus pecados em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”.
Os trinta e três botões e o cabeção cada vez mais sufocavam o homem de Deus e dos dias de Salamanca, mas mesmo conseguiu responder: “Ámen".

"Vá em paz e reze três Ave Marias e dois Padre Nossos" – sentenciou a velha.

O padre levantou-se resignado, pensou na casa paroquial, nos trinta e três botões de que finalmente se ia livrar e na ceia cozinhada com fé pela santa da Rosalina.

Photo by Cristina Garcia Rodero, 1980

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Furgoneta com vista para a dentista


O problema de tantas vezes. Rua de sentido único e uma furgoneta parada na minha frente. O tempo a passar e ninguém para além do condutor. Apitei.

Foi nesse instante que saiu pela porta do lado direito do veículo uma senhora baixa, aldeã, vestida com a roupa de usar nos casamentos, carteira debaixo do braço (só para enfeitar que o dinheiro trazia-o junto ao sutiã), passo em direcção ao consultório da dentista que ficava logo em frente. Mas antes fez algo que me impressionou muito.

Estacou desafiadora na minha direcção, olhou com desprezo misturado com altivez, uma verdadeira lição de moral por causa daquela buzinadela. E deu meia-volta sem precisar de dizer nada.

A bofetada em mim teria sido mais intensa se nesse momento ela não tivesse tropeçado numa daquelas bolas pós-modernas que delimitam os passeios das ruas. Escusado será dizer que a altivez raras vezes usada espalhou-se ao comprido naquele chão amanhado pelo diabo. A última coisa a cair foram as pernas que tentaram escapar ao desastre mantendo-se o mais possível de tempo viradas para o céu. A carteira, essa, a mão não a largou. Só a dignidade se foi com o olhar de antes.

Virei a cara para a frente. O marido procurava no retrovisor a imagem da mulher sem a encontrar. Já entrou no consultório, pensou ele, e arrancou. Por isso é que a escolheu para mãe dos seus sete filhos. Sempre foi despachada. Que o diga a lua grande da festa da Sr.ª das Neves quando a conheceu.

sábado, 8 de abril de 2017

A noite e o sono


A todos uma noite serena, feliz, na companhia de Deus Nosso Senhor. Aos casais que pensam fazer o amor, não se esqueçam que Ele está no meio de nós.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

PSSSTTT… FAZ FAVOR!


Eu sei que muitos dirão que isto é um não-tema. Os tempos são outros e não vale a pena lutar contra a realidade feita norma. Mas não desisto em nada assim tão fácil.
Em primeiro lugar porque a vida tem regras que a tornam possível em sociedade. Em segundo porque há coisas que são nossas e não podem ser de mais ninguém.
Entre estas últimas está o nome. É ele que nos identifica em primeiríssimo lugar. Por isso tem tanta importância a forma como é dito. E aqui entram as regras. Vou falar-vos de algumas.
Pensei consultar a Bíblia do Palácio das Necessidades – o manual sobre protocolo de Estado da autoria do embaixador Calvet de Magalhães – ou mesmo o Código Bobone, mas achei que o assunto não merecia tanto.
De modo resumido, então: aqueles que me chamarem de Sr. Francisco, em Lisboa ou no interior do País, ou Sr. Sérgio no litoral norte, lanço sobre eles mau-olhado que vai perdurar até à 5ª geração. E atenção. Sou bom nisto. Que o digam os alentejanos que tantas vezes solicitaram os meus serviços para lhes tirar o diabo do corpo.
Como devem então chamar-me? É fácil. Se não quiserem dar-se ao trabalho de me chamarem senhor embaixador, que é o título que mais condiz comigo, basta juntar o apelido ao meu nome próprio. Por exemplo: Sr. Francisco de Barros, Sr. Sérgio de Barros, ou mesmo Sr. Barros e Barros. Se não quiserem usar o termo senhor, porque dá algum trabalho, também não faz mal. Dispenso-o com a bonomia com que normalmente prazenteio a Monica Bellucci.
Mais. Se por acaso se cruzaram comigo mais que duas vezes, ou forem meus amigos no Facebook, agradeço que me nomeiem simplesmente de Francisco ou, então, de Sérgio. Há muito que a Monica sabe disto e não lhe custou nada.
Agora como me aconteceu outro dia na esplanada, com uma empregada dos seus 20 anos, que me disse “e o amigo vai querer o quê?”, não, mas não mesmo.
Ainda lhe perguntei se era minha amiga no Facebook, mas perante a resposta negativa, logo ali lhe lancei a maldição a todos os seus namorados, filhos, netos e por aí fora, tal o destempero da moça.
Quando se me dirigem com o epíteto de jovem – merecido, por sinal – bom, aí sou mais condescendente. Coitado do rapaz, vem de famílias pobres, teve péssimos professores. E por aí fora.
Já a mesma sorte não têm os meus clientes. Quando a minha assistente, a D.ª Lurdinhas, os ouve a chamarem-me de setôr e não de senhor doutor, logo o sangue do Minho sobe ao rosto, e manda-lhes um bofetão que faz a cadeira giratória rodar no mínimo 23 vezes.
Facto que, conforme calcularão os meus amigos leitores, muito me desgosta. A mim e à companhia de seguros que começa a fartar-se do pagamento de tantos cuidados de ambulatório. Abençoada hora em que fiz o seguro de acidentes de trabalho!

(Ilustração de René Magritte)

sábado, 1 de abril de 2017

Sérgio Barros e Barros


Chegou a vez do Porto. No centro da cidade. Muito em breve

Aconselhamento de pessoas. Porque precisamos de pensar em voz alta. Se possível escutados por alguém com formação filosófica. E experiência na resolução dos problemas concretos que a todos afligem. Com a colaboração de especialistas em diversas áreas.


É a si que eu quero ouvir. Ajudando-o a tomar decisões em termos de projecto de vida.

Até já.

(Imagem: Hooper, 1940)

terça-feira, 28 de março de 2017

Quem quer ser mais louco?


Há muito que não me ria tanto com uma notícia de jornal. Digo-o vezes sem conta à minha assistente, a D. Lurdinhas: quando alguém lhe parecer sofrer dalgum mal patológico mande-o para a psiquiatria. O caso não é da minha conta. Os políticos em corrida a ver quem produz o projecto de lei que torne mais rápido o intervalo entre um casamento e o que vem a seguir, incluem-se no grupo dos doentes. E são tantos. Num país como o nosso com o maior índice de divórcios em toda a Europa, com um número médio de três casamentos por vida, discute-se com tanto afinco se a espera do próximo matrimónio deve ser de 180 ou de 30 dias. Ou de nenhum. Inseridos como estamos no domínio da loucura, a última hipótese mesmo assim parece-me a melhor. Termina-se os trâmites do divórcio, não se muda de sala, apenas se troca a roupa interior na casa de banho ou no carro (o decoro nestas coisas é muito importante), e o novo conjugue pode entrar no outrora território do divórcio. Se há filhos para nascer, saber quem é o pai, que interesse tem? O que interessa é a felicidade do momento. O depois só é depois. O curioso disto é estar em causa uma instituição que ainda há pouco era renegada por aqueles que hoje se batem por todos os meios pela sua implementação geral. Todos se lembrarão de o casamento ser um ritual escusado, produto de uma sociedade hipócrita, com contornos burgueses. Agora são os mais interessados em reclamarem o casamento seguido de casamento. Está tudo doido.

Photo by Observador

domingo, 19 de março de 2017

Chega! Agora falando de coisas sérias...




Os meus filhos de 9 e 11 anos presentearam-me ao acordar com música clássica escolhida por eles, um pequeno-almoço como deve ser, poemas escritos e musicados pela genética de ambos e ainda a banda sonora que me acompanhou o dia todo. Escusado será dizer que fui às lágrimas com esta música.