Servia-me a Coca-Cola Zero todos os dias na esplanada onde eu sentava a olhar o mundo. Que saudades da Coca-Cola Zero.
(Foto de Bernardo Coelho)
quinta-feira, 29 de junho de 2017
Eu, a esplanada e a coca-cola
sexta-feira, 23 de junho de 2017
A minha intervenção no Parlamento Europeu

Vou discursar no Parlamento Europeu! Pouso os óculos, olho a Marisa Matias a ver se ela está atenta, e digo: "Quero voltar a ter uma Europa como a de Helmut Kohl, Olof Palme, Mário Soares, François Mitterrand, Willy Brandt, Felipe Gonzalez, Helmut Schmidt, Hans Dietrich Genscher."
Ponho outra vez os óculos para ver a Marisa.
quinta-feira, 15 de junho de 2017
DIA DO CORPO DO HENRIQUE
Há dois anos vivi o dia de Corpo de Deus numa esplanada de Paris, no ano passado junto ao mar com a Julia Roberts, este ano na primeira comunhão do meu filho D. Henrique.
Na Catedral cheia, dezenas de crianças felizes -- cabelo penteado com escova e secador, roupas esmeradas -- esperavam por integrar nos seus corpos pequenos o corpo do Senhor.
O padre (muito conhecido por ter uma coluna de opinião num dos jornais mais lidos do País), em vez de explicar isto mesmo às crianças, ralhou às 1000 pessoas que assistiam à celebração por não cumprirem os mandamentos de Deus não vindo à missa dominical.
Quem também levou com a má disposição do sacerdote foi um fotógrafo profissional que disparou uma vez a máquina enquanto o clérigo discursava -- e assim perturbou com o barulho do obliterador a brilhantez do raciocínio metafísico -- e os dois sacristãos que com o medo já não sabiam o momento de levar o livro das leituras junto do representante de Deus.
Claro que a assistência não reparou em nada disto, tão atenta estava nos seus rebentos e nos telemóveis que iam registar para a posterioridade aqueles momentos inesquecíveis.
À cerimónia nem o fantasma de Ettore Scola faltou mais a família que o celebrizou -- o grupo a tirar a fotografia de conjunto, todos disformes, a mulher de olho tapado com gaze e adesivo e o ar colectivo de quem acaba de sair do estabelecimento prisional.
No meio das mil pessoas havia vestidos vaporosos, corpos que nasceram para serem amados mas que o músculo sóleo (aquele que desce pela perna e se aproxima do tornozelo) diz a verdade e traduz trabalho de força e não devaneio de esplanada ou vaidade de passerelle.
E depois o meu D. Henrique de Barros. O meu clone. Muito melhor que eu -- assim espero!
Hoje lembrei-me da minha primeira comunhão. Fato branco feito por uma modista, bonito de diferente mas simples, sapato de verniz. As pessoas devem ter gostado porque algum tempo depois, um casal de noivos que não conhecia veio pedir aos meus pais se eu poderia participar do casamento levando as alianças.
E a verdade é que lá fui e lá me apaixonei pela menina que comigo fazia par.
Hoje é a vez do Henrique. Um aviso a Deus Nosso Senhor: Trate bem dele porque a par das suas irmãs são a maior riqueza que eu tenho. Se não cumprir o meu pedido vamo-nos ver -- eu verdadeiramente zangado e Deus sabendo-se sem razão a justificar-se perante mim.
Fica o aviso.
terça-feira, 30 de maio de 2017
sábado, 27 de maio de 2017
Relógios Patek Philippe
Nunca somos
verdadeiramente donos de um Patek Phili...,
perdão, de um guarda-sol
de 12 varetas.
Apenas cuidamos dele
para a geração seguinte.
A viagem
– A menina importa-se de me dizer a que horas sai o próximo navio?
– Não sei, também estou à espera de partir nele – respondeu a minha tetravó ao
meu tetravô.
sábado, 13 de maio de 2017
Finalmente: Portugal vence o festival da Eurovisão
Ao
mesmo tempo que nas três últimas décadas os jornalistas e os líderes de opinião
diziam mal da escola e dos professores – ao contrário do que acontecia com o
serviço nacional de saúde –, os jovens portugueses iam mudando a uma velocidade
estonteante. Mais cosmopolitas, mais criativos, mais sabedores. A saberem ler
música e a escreverem bem. A investigarem em laboratórios matérias complexas.
Mesmo com os políticos a fazer asneiras no ensino. E os jornalistas a odiarem
os professores.
Um dia
vai ser preciso fazer a história de tudo isto e dizer os nomes dos iluminados
que tantas idiotices disseram nas mais diversas tribunas mediáticas. Mesmo
sabendo que nem todos os jovens chegaram aonde todos gostaríamos. Nem eles nem
a sociedade em geral. Mas a verdade é que os novos portugueses não diferem dos
outros europeus. É vê-los em qualquer areópago internacional.
É neste
contexto que aparecem jovens como o Salvador Sobral ou a irmã. Altivos, sem
serem arrogantes, simpáticos porque inteligentes, cultos e diferentes. A
falarem inglês e a saberem música. Com noção elevada do bom gosto. A terem
consciência que o simples é o mais difícil. E que a qualidade reside na
imaginação e não no visual feérico.
Salvador
Sobral percebendo tudo isto criou no entanto um boneco. Bem engendrado. Minimalista
mas verdadeiro. A apelar ao sentimento que a música e o poema juntos conseguem na
perfeição. Mexendo com as pessoas. Todas. De qualquer língua. A partir do
português. Essa língua que é um sentir próprio de um povo muito antigo. E
moderno também. Que mistura a saudade do mar e a vontade de descobrir a
ciência. Que continua a escrever poesia como poucos. E passo a passo começa a
perder a vergonha de si mesmo, imposta por tempos de miséria e de ignorância.
Servindo o poder de poucos.
Seria
uma lição se os portugueses vissem a conferência de imprensa para estrangeiros
que se seguiu ao festival. Os nossos políticos não conseguiriam uma prestação
como a do Salvador Sobral. Falou com uma desenvoltura e um sentido de humor que
conquistou todos. Da mesma forma que antes tinha criado um dos momentos mais
altos da história do Eurofestival: a interpretação da canção vencedora ao lado
da irmã que provavelmente os europeus nem sabiam que cantava. Portugal e o Salvador
estão de parabéns. E a União Europeia também.
Francisco Sérgio de Barros
e Barros
(Carteira profissional
de jornalista TE-02)quinta-feira, 11 de maio de 2017
As aparições e a minha vida
O
transcendente visitou-me algumas vezes. Como a qualquer um dos leitores. Nessas
ocasiões algo provoca em nós espanto. E por vezes muda-nos. É como se houvesse
um corte com o passado.
Esse
encontro com o passado acontece muitas das vezes com a visão ou mesmo com a
aparição. Eu sei que o encontro com o sobrenatural tem diversos graus de
impacto emocional. Falarmos com Deus não entra nestas minhas cogitações, os
meus amigos jesuítas fiquem descansados acerca da minha saúde mental.
Até
porque infelizmente não sou religioso. Quando falo em acontecimentos marcantes,
próximos da ruptura com o que já se foi, falo da leitura de um bom livro, de
uma conversa que não se esquece. Coisas assim.
Por
exemplo, de quando li O Homem que Olha do Moravia, ou vi no cinema o A Filha de
Ryan de David Lean. Ou quando toquei pela primeira vez o corpo nu de uma
mulher.
O que é
que estás a dizer? Não te ouço, Zuckerberg... Ah! Descansa. Apenas vou falar de
testemunhos pessoais mas partilháveis por todos. Que toda a gente possa
traduzir para a sua própria vida.
Deixa-me
pensar, Zuckerberg. Já sei o que escolher: a aparição de 1990 – era eu um adolescente.
O hotel onde hoje estou hospedado, o Beverly Wilshire, em Los Angeles, também
não me deixa muita margem de manobra em matéria de recordações marcantes.
Lembro-me
de nesse ano, uma mulher linda "mais brilhante do que o Sol" olhar
nos meus olhos, sorrir nos seus olhos, e dizer com os lábios mais fantásticos
que alguma vez o Chiado viu: "Qual a cor do preservativo que queres?”
Olhei para aquele anjo e não sei porquê lembrei-me da deputada comunista muito
em voga naquele tempo – a Odete Santos. Não tinha nada a ver.
Sei que
no dia seguinte, depois de uma noite de oração e muita descoberta metafísica,
dei à Vivian (era esse o nome dela) o cartão da minha mãe do Continente para
comprar roupa no Rodeo Drive. O vestido de cor castanha e fogo-de-artifício
branco foi nesse dia que caiu do céu.
À noite
fomos à ópera em São Francisco. Ela levou uma toilette vermelha que tinha usado
no filme Pretty Woman e fomos na camioneta do Barraqueiro. Durante a viagem
conversamos muito. A Vivian era uma mulher muito experiente e quis dar-me
alguns conselhos sobre o sexo feminino. Que nunca me deixasse seduzir pelas
mulheres russas. Principalmente quando louras de cabelo comprido e a tocar
piano. Primeiro tinha de usar o meu charme – que ela achava eu possuir às
carradas – e assim proceder à conversão delas aos meus princípios. Depois revelou-me
algo de trágico a acontecer no meu futuro mas que não poderia dizer mais porque
era segredo. Prometi-lhe o cartão da minha mãe da Loja das Meias e ela então
falou-me que alguém iria atentar contra a minha vida. Preveniu-me ainda que via
armas no meio daquele presságio. Não percebi nada até uns anos mais tarde uma
mulher apontar uma pistola à minha cabeça por eu não querer mais nada com ela.
Mas
voltando à Vivian e à ópera: ela em forma de anjo com o rosto em cima do meu ombro,
a música a ecoar naquele teatro, e as lágrimas… Sérgio… Sérgio… Acorda que são
horas da escola! Abri os olhos e vi a minha mãe como sempre preocupada comigo.
Que horas são? – perguntei. Oito horas. Dentro de meia hora tinha a minha
professora de francês a lembrar-me que no mundo não há só corpos celestes.
Se fui
o mesmo de sempre na aula de francês? Não, não fui. Nunca falei tanto francês
na minha vida e em feux d'artifice e na apparition de la Sainte Vivian. Uma
autêntica epifania aquele sonho.
terça-feira, 9 de maio de 2017
A vida devagar
Éramos e somos três. De todos o mais vivo
eu mesmo. Só se for agora, que naquela altura não. Todos bons miúdos na
fotografia, ao contrário de agora – Hoje tenho a consciência de o não ser. Dois irmãos e uma
amiga quase irmã. A bonita Melita. Hoje são pais, escrevem e vivem de modo autónomo.
Com saudades de serem como na fotografia. O Rogério com o dedo no nariz e um
jeito muito grande para o futebol. Ela coquete a dar os primeiros passos na
capacidade de comunicação. E eu sonhador e observador de você que lê estas
linhas. O facto de sermos os três filhos de directores de jornais de Viana, uma
das cidades mais bonitas de Portugal talvez explique alguma coisa.
sexta-feira, 5 de maio de 2017
Joana Amaral Dias
Meninas:
Este Francisco Sérgio é um misógino, um machista da pior espécie e um narcisista incorrigível. Se o virem, fujam dele. Telefonem-me imediatamente indicando o local onde o poderei encontrar. Para a frente é que é o caminho.
Agradecida!
Este Francisco Sérgio é um misógino, um machista da pior espécie e um narcisista incorrigível. Se o virem, fujam dele. Telefonem-me imediatamente indicando o local onde o poderei encontrar. Para a frente é que é o caminho.
Agradecida!
quarta-feira, 3 de maio de 2017
Janela para o mundo
– Olha Pirolito quem vai ali, a desavergonhada
da Alzira! Organizou a viagem a Benidorm e ficou com parte do dinheiro.
– Esperta foi ela, Dona Cândida. Combinou com o Soares da agência receber por cada cabeça. E ainda por cima andou com o motorista durante o passeio, como é que ele se chama?, o Zé da Madalena.
– E a filha? Experimentou os rapazes todos de uma escola de Vigo que estavam lá de férias.
– Dona Cândida... não se sabe... diz-se.
– Pelo meu falecido Albano. Quem me conhece sabe que não gosto de falar da vida dos outros, mas que é autêntico, lá isso é... E só não foi com o professor porque a directora da escola já o tinha arrebanhado.
– E a Dona Cândida não protestou durante a viagem?
– Ó Pirolito, sabes lá... O Sr. Américo insistiu muito para eu não dizer nada, que ia ser um escândalo e a fama de todos ia ser prejudicada.
– O que vale a esta rua é ainda haver pessoas como a Dona Cândida. Ainda ontem o Sr. Américo falava disso quando a veio visitar.
– Sabes Pirolito, ainda está para nascer alguém tão honesta como eu.
– Lá isso é verdade – disse o Camilo Lourenço quando leu esta crónica.
– Esperta foi ela, Dona Cândida. Combinou com o Soares da agência receber por cada cabeça. E ainda por cima andou com o motorista durante o passeio, como é que ele se chama?, o Zé da Madalena.
– E a filha? Experimentou os rapazes todos de uma escola de Vigo que estavam lá de férias.
– Dona Cândida... não se sabe... diz-se.
– Pelo meu falecido Albano. Quem me conhece sabe que não gosto de falar da vida dos outros, mas que é autêntico, lá isso é... E só não foi com o professor porque a directora da escola já o tinha arrebanhado.
– E a Dona Cândida não protestou durante a viagem?
– Ó Pirolito, sabes lá... O Sr. Américo insistiu muito para eu não dizer nada, que ia ser um escândalo e a fama de todos ia ser prejudicada.
– O que vale a esta rua é ainda haver pessoas como a Dona Cândida. Ainda ontem o Sr. Américo falava disso quando a veio visitar.
– Sabes Pirolito, ainda está para nascer alguém tão honesta como eu.
– Lá isso é verdade – disse o Camilo Lourenço quando leu esta crónica.
segunda-feira, 1 de maio de 2017
sexta-feira, 28 de abril de 2017
Rosa Ramalho
O tempo
e os meus calções cresceram. Obedeceram ao movimento da vida. O carrossel não parou
e passei a assinar cheques e a usar gravata. E a lembrar-me.
Este
fim de semana fui a casa dos meus pais. Vi o álbum de fotografias dos calções.
De quando a memória tinha um suporte material. Hoje, com os telemóveis, nada
fica. Sobra o Facebook e a nuvem que guardam o passado até um dia.
Entre
as diversas fotografias esta chamou-me a atenção. Fixei-a na memória com a
ajuda do telemóvel. Por isso é que a nitidez não é a melhor. Mas dá para
reconhecer: eu de calções, a minha mãe, o meu irmão e uma senhora velha que na
altura era tão-só um dos ícones nacionais. Rosa Ramalho de seu nome, ceramista
e artista popular de eleição.
Nos
olhos dela via-se tudo. O génio, a capacidade de ver as coisas de sempre de
outra forma.
Nunca
foi à escola. Quando se diz que o talento nasce do esforço, quase nunca é só
assim. Durante 50 anos, enquanto foi vivo o pai dos seus sete filhos, não
moldou o barro com as suas mãos. Havia que fazer face à vida difícil. Só
depois, aos 68, pôde então dar largas à imaginação.
Os
especialistas falam que sem o saber, Rosa Ramalho fazia arte surrealista, tal o
modo como traduzia o seu imaginário acrescentando a cabeça de um bicho ao corpo
de gente, aumentando ou diminuindo as partes de uma estatura física que via de
forma singular.
Lembro-me
bem daquela tarde. Fomos à casa dela com um escultor nosso amigo que queria
fazer um busto da artista tornada mito pela televisão e pelo poder político do
tempo.
Parecia
uma avó. Gostou do meu irmão e de mim, mas no meu caso não fez favor algum. Foi
à oficina onde modelava e trouxe debaixo do avental – podia algum dos
familiares estar a ver – um Cristo que nos ofereceu.
Não sei
se o miúdo do lado esquerdo da fotografia (o meu irmão) se apercebeu da
qualidade artística da peça. Eu apercebi-me logo e de quanto poderia valer no
ano de 2017.
Às
vezes era bom podermos voltar atrás e recuperarmos algumas coisas. Nós e o
País. Por exemplo, o Estado cumprindo o prometido: a recuperação do terreiro da
fotografia e da casa da artista criando assim o Museu Rosa Ramalho.
sexta-feira, 21 de abril de 2017
Eduardo Souto Moura
O meu
fim de tarde de hoje foi diferente. Estive em amena cavaqueira com o Souto
Moura. Eu e mais cem pessoas. Ao fim de hora e meia de histórias contadas com
sentido de humor, a conclusão de sempre – as pessoas quando são cultas
entregam-se ao auditório, fazem de tudo para agradar. Podia ter falado de
arquitectura na sua variante teórica, no sortilégio do traço ou da luz. Souto
Moura preferiu falar daquilo que ele sabe que o público gosta mais. De onde surgiu
a ideia de escolher aquela área de estudos, a família, o irmão
procurador-geral, a pedreira de Braga transformada em auditório greco-romano. E
a Ana Sousa Dias, esperta, a espevitar essa intimidade entre os assistentes e
ele. O prémio Pritzke a rir do prémio Pritzke, a falar do risco que não sabia
fazer enquanto estudante de arquitectura. Por fim, o elogio humilde do
discípulo ao mestre Siza Vieira que lhe ensinou muito do que sabe. Da bondade e
misticidade do Álvaro enquanto homem e artista. Gostei muito de o ouvir sozinho
comigo. Percebi-o principalmente quando um colega meu no final da rábula, num
outro espaço mais resguardado, perguntou-lhe “Cansado?” e olhei para a cara
dele e vi um homem com vontade de estar isolado com ele mesmo, bom tipo mas
ansioso de amainar os nervos e voltar a ter um lápis na mão.
quarta-feira, 19 de abril de 2017
Vídeo comemorativo dos 25 anos da SIC
Sei que não é consensual a minha opinião
mas acho ridículo o vídeo comemorativo dos 25 anos da SIC. Logo na estação de
televisão que maior culto faz da imagem. Seja em reportagens seja em
espectáculos. Desta vez parece que encomendaram o trabalho aos alunos de uma
escola C+S. Então os Balsemão pai e filho à espera dos profissionais avençados
é de rir. Salva-se no meio desta desgraça a Ana Patrícia Carvalho. Um beijo para ti.
Photo
by SIC
domingo, 16 de abril de 2017
O pecado e a redenção
Era a
terceira paróquia daquele dia, em terras do interior, sem gente e a pouca que
ali vivia à espera do passamento para a eternidade.
Trinta
e três graus no céu e trinta e três botões na sotaina. Quantas saudades de
Salamanca e do tempo da Páscoa que lá se vivia. Festejava-se a Ressurreição de
Cristo e a chegada à vida adulta das jovens tresmalhadas.
Ao
mesmo tempo discutia-se o pecado e a redenção. Era considerado pelos pares um
padre promissor. A tentação e o diabo encarregaram-se de o mandar para aquele
fim do mundo.
E o
calor que não dava tréguas. O calor e as mulheres velhas que queriam o
salvo-conduto para o céu.
Ao seu
lado uma delas falava e falava cumprindo o sacramento da confissão. Não a ouvia
porque diziam todas mais ou menos a mesma coisa. Que a vida era difícil, os
filhos fora a fazerem pela vida, o marido enterrado naquela terra de satanás.
O padre
resolveu despertar daquela letargia e finalmente perguntou qual a sua
contrição. A mulher velha pôs a mão no sacerdote e disse-lhe: “Eu o absolvo dos
seus pecados em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”.
Os
trinta e três botões e o cabeção cada vez mais sufocavam o homem de Deus e dos
dias de Salamanca, mas mesmo conseguiu responder: “Ámen".
"Vá
em paz e reze três Ave Marias e dois Padre Nossos" – sentenciou a velha.
O padre
levantou-se resignado, pensou na casa paroquial, nos trinta e três botões de
que finalmente se ia livrar e na ceia cozinhada com fé pela santa da Rosalina.
Photo by Cristina Garcia Rodero, 1980
quinta-feira, 13 de abril de 2017
Furgoneta com vista para a dentista
O
problema de tantas vezes. Rua de sentido único e uma furgoneta parada na minha
frente. O tempo a passar e ninguém para além do condutor. Apitei.
Foi
nesse instante que saiu pela porta do lado direito do veículo uma senhora
baixa, aldeã, vestida com a roupa de usar nos casamentos, carteira debaixo do
braço (só para enfeitar que o dinheiro trazia-o junto ao sutiã), passo em
direcção ao consultório da dentista que ficava logo em frente. Mas antes
fez algo que me impressionou muito.
Estacou
desafiadora na minha direcção, olhou com desprezo misturado com altivez, uma verdadeira
lição de moral por causa daquela buzinadela. E deu meia-volta sem precisar de
dizer nada.
A
bofetada em mim teria sido mais intensa se nesse momento ela não tivesse
tropeçado numa daquelas bolas pós-modernas que delimitam os passeios das ruas.
Escusado será dizer que a altivez raras vezes usada espalhou-se ao comprido
naquele chão amanhado pelo diabo. A última coisa a cair foram as pernas que
tentaram escapar ao desastre mantendo-se o mais possível de tempo viradas para
o céu. A carteira, essa, a mão não a largou. Só a dignidade se foi com o olhar
de antes.
Virei a
cara para a frente. O marido procurava no retrovisor a imagem da mulher sem a
encontrar. Já entrou no consultório, pensou ele, e arrancou. Por isso é que a
escolheu para mãe dos seus sete filhos. Sempre foi despachada. Que o diga a lua
grande da festa da Sr.ª das Neves quando a conheceu.
sábado, 8 de abril de 2017
A noite e o sono
A todos uma noite
serena, feliz, na companhia de Deus Nosso Senhor. Aos casais que pensam fazer o
amor, não se esqueçam que Ele está no meio de nós.
quarta-feira, 5 de abril de 2017
PSSSTTT… FAZ FAVOR!
Eu sei que muitos dirão que isto é um não-tema. Os
tempos são outros e não vale a pena lutar contra a realidade feita norma. Mas
não desisto em nada assim tão fácil.
Em primeiro lugar porque a vida tem regras que a
tornam possível em sociedade. Em segundo porque há coisas que são nossas e não
podem ser de mais ninguém.
Entre estas
últimas está o nome. É ele que nos identifica em primeiríssimo lugar. Por isso
tem tanta importância a forma como é dito. E aqui entram as regras. Vou
falar-vos de algumas.
Pensei consultar a Bíblia do Palácio das Necessidades
– o manual sobre protocolo de Estado da autoria do embaixador Calvet de
Magalhães – ou mesmo o Código Bobone, mas achei que o assunto não merecia
tanto.
De modo resumido, então: aqueles que me chamarem de
Sr. Francisco, em Lisboa ou no interior do País, ou Sr. Sérgio no litoral
norte, lanço sobre eles mau-olhado que vai perdurar até à 5ª geração. E
atenção. Sou bom nisto. Que o digam os alentejanos que tantas vezes solicitaram
os meus serviços para lhes tirar o diabo do corpo.
Como devem então chamar-me? É fácil. Se não quiserem
dar-se ao trabalho de me chamarem senhor embaixador, que é o título que mais
condiz comigo, basta juntar o apelido ao meu nome próprio. Por exemplo: Sr.
Francisco de Barros, Sr. Sérgio de Barros, ou mesmo Sr. Barros e Barros. Se não
quiserem usar o termo senhor, porque dá algum trabalho, também não faz mal. Dispenso-o
com a bonomia com que normalmente prazenteio a Monica Bellucci.
Mais. Se por acaso se cruzaram comigo mais que duas
vezes, ou forem meus amigos no Facebook, agradeço que me nomeiem simplesmente
de Francisco ou, então, de Sérgio. Há muito que a Monica sabe disto e não lhe
custou nada.
Agora como me aconteceu outro dia na esplanada, com
uma empregada dos seus 20 anos, que me disse “e o amigo vai querer o quê?”,
não, mas não mesmo.
Ainda lhe perguntei se era minha amiga no Facebook,
mas perante a resposta negativa, logo ali lhe lancei a maldição a todos os seus
namorados, filhos, netos e por aí fora, tal o destempero da moça.
Quando se me dirigem com o epíteto de jovem –
merecido, por sinal – bom, aí sou mais condescendente. Coitado do rapaz, vem de
famílias pobres, teve péssimos professores. E por aí fora.
Já a mesma sorte não têm os meus clientes. Quando a
minha assistente, a D.ª Lurdinhas, os ouve a chamarem-me de setôr e não de
senhor doutor, logo o sangue do Minho sobe ao rosto, e manda-lhes um bofetão
que faz a cadeira giratória rodar no mínimo 23 vezes.
Facto que, conforme calcularão os meus amigos
leitores, muito me desgosta. A mim e à companhia de seguros que começa a
fartar-se do pagamento de tantos cuidados de ambulatório. Abençoada hora em que
fiz o seguro de acidentes de trabalho!
(Ilustração
de René Magritte)
sábado, 1 de abril de 2017
Sérgio Barros e Barros
Chegou a vez do Porto. No centro da
cidade. Muito em breve
Aconselhamento de pessoas. Porque
precisamos de pensar em voz alta. Se possível escutados por alguém com formação
filosófica. E experiência na resolução dos problemas concretos que a todos
afligem. Com a colaboração de especialistas em diversas áreas.
É a si que eu quero ouvir. Ajudando-o a
tomar decisões em termos de projecto de vida.
Até já.
(Imagem: Hooper, 1940)
terça-feira, 28 de março de 2017
Quem quer ser mais louco?
Há muito que não me ria tanto com uma notícia
de jornal. Digo-o vezes sem conta à minha assistente, a D. Lurdinhas: quando
alguém lhe parecer sofrer dalgum mal patológico mande-o para a psiquiatria. O
caso não é da minha conta. Os políticos em corrida a ver quem produz o projecto
de lei que torne mais rápido o intervalo entre um casamento e o que vem a
seguir, incluem-se no grupo dos doentes. E são tantos. Num país como o nosso
com o maior índice de divórcios em toda a Europa, com um número médio de três casamentos por
vida, discute-se com tanto afinco se a espera do próximo matrimónio deve ser de
180 ou de 30 dias. Ou de nenhum. Inseridos como estamos no domínio da loucura,
a última hipótese mesmo assim parece-me a melhor. Termina-se os trâmites do
divórcio, não se muda de sala, apenas se troca a roupa interior na casa de
banho ou no carro (o decoro nestas coisas é muito importante), e o novo conjugue
pode entrar no outrora território do divórcio. Se há filhos para nascer, saber
quem é o pai, que interesse tem? O que interessa é a felicidade do momento. O
depois só é depois. O curioso disto é estar em causa uma instituição que ainda
há pouco era renegada por aqueles que hoje se batem por todos os meios pela sua
implementação geral. Todos se lembrarão de o casamento ser um ritual escusado,
produto de uma sociedade hipócrita, com contornos burgueses. Agora são os mais
interessados em reclamarem o casamento seguido de casamento. Está tudo doido.
Photo
by Observador
domingo, 19 de março de 2017
Chega! Agora falando de coisas sérias...
Os meus filhos de 9 e 11
anos presentearam-me ao acordar com música clássica escolhida por eles, um
pequeno-almoço como deve ser, poemas escritos e musicados pela genética de
ambos e ainda a banda sonora que me acompanhou o dia todo. Escusado será dizer
que fui às lágrimas com esta música.
O Facebook e eu
Diz-se tão mal das redes sociais e eu
não concordo. Está ali o mundo todo. Qual dos mundos: o da verdade ou o da
mentira? Que Platão não nos ouça mas existe um mundo só. Aquele que mente e diz
a verdade. Às vezes quase ao mesmo tempo. Ninguém é apenas um; eu por mim sou
vários. E quero sê-lo. Que aborrecido seria ser só um.
É isso que tem graça no Facebook: a
diversidade. Há pessoas de todo o género por aqui. A mulher que escreve bem, a
mulher que julga que escreve bem. O homem que acha que vai encontrar
oportunidades que o tornarão feliz. A mulher sonhadora que nunca deixará de o
ser.
Entre os meus amigos virtuais há pessoas
excepcionais. De que nunca me esquecerei. Melhores que muitos dos amigos de
carne e osso. Aliás, são estes os que me criaram mais dissabores nesta rede
social. Fazem de conta que não se lembram, escondem os filhos, não dizem nada,
desamigam-nos. E depois, a decepção: não são iguais ao que já foram, aquilo que
lhes dava graça hoje percebe-se ser causado pela esquizofrenia ou, noutros
casos, pela amargura a que a vida os conduziu.
Em seguida, as mulheres do Facebook.
Pronto, lá vem ele com o tema do costume, pensam todos. E nada disto é verdade.
Eu gosto é de pessoas. Sejam de que sexo forem.
Claro que gosto mais das mulheres. Mas
eu não tenho culpa. A verdade é que são mais bonitas, mais caprichosas, mais
desafiadoras, andam de uma forma que nem ao diabo lembraria… E as saias a
esvoaçarem por entre as pernas, os cabelos a serem puxados para a frente e logo
de seguida, de uma vez só, a regressarem ao sítio de sempre, levados por um
vento que só as mulheres possuem. Sem que saibam o poder que lhes pertence
quando mexem com os dedos nos cabelos. Raios as partam.
E agora a verdade de Platão e a minha
também. Preparem-se. Nunca me encontrei com alguém que tivesse conhecido no
Facebook, não utilizo os chats de conversação, conheço as pessoas apenas
através das fotografias. Não respondo às mensagens, nem aos pedidos de
aconselhamento.
Tenho-o dito várias vezes: quando
quiserem entrar em contacto comigo devem falar com a minha assistente, a D.
Lurdinhas. Muitas zangas têm resultado disto mesmo. E eu não sei ser de outra
forma. Aliás, quem me conhece sabe da dificuldade que sempre me caracterizou em
demonstrar o que sinto.
Eu gosto é das pessoas, já o disse. Na
escola detestava estudar matérias que não tivessem directamente a ver com o ser
humano. Por isso é que tento resolver os problemas dos homens e das mulheres.
Mesmo que esses dilemas sejam do meu conhecimento apenas através do Facebook. A
resposta vem depois. Superado um mal d’amor de uma mulher, por exemplo, o
marido bloqueia-me ou cria um perfil conjunto com a dita ou ameaça-me através
de mensagem.
Tenho passado por tantas coisas.
Esquecendo-se os homens que controlar as páginas das suas mulheres é um erro
crasso. Por três razões: porque sofrem desnecessariamente, porque todos temos
direito a um tempo e a um espaço só nosso – por mais limitado que seja –, e também
porque não serve de nada. Pode controlar-se algumas coisas. Menos o pensamento.
Mesmo assim vale a pena o Facebook. Há
apenas uma coisa que não perdoo ao Sr. Zuckerberg: o algoritmo que escolhe por
nós as pessoas, os dizeres, os textos, as notícias. Com consequências bem
desagradáveis. Muitos dos que me acompanham nesta estrada virtual desaparecem
durante meses e meses, são substituídos por outros que a fórmula matemática acredita
serem mais do meu agrado. Controlam-me ou tentam controlar-me. E disso não
gosto mesmo nada. Ouviu, senhor do livro na cara? Eu quero apenas continuar a
estudar e a amar aqueles que comigo por aqui andam.
domingo, 12 de março de 2017
Outra vez Viana
Viana, finalmente Viana. Quantas saudades! Vão
ser apenas algumas horas mas vividas com emoção. Sem que ninguém saiba. Haverá
apenas sessão de selfies entre as 7 horas e as 7 horas e cinco minutos da manhã
na Praça da República. Nada de visitas às IPSS, ao Bispo, às bolas de Berlim ou
às empadas de lampreia do Manuel Natário. Em todo o tempo, só eu e o mar. E a Teodora
Cardoso. Vão ser momentos Zen. De paz total. Por isso é que é importante que
não seja do conhecimento público este meu reencontro com Viana. Se eu quisesse
que se soubesse publicava a notícia no Facebook.
quinta-feira, 9 de março de 2017
Agora é a vez dos homens
Hoje comemora-se um dos 364 dias do Homem. Magro reconhecimento da dificuldade de o ser nos dias de hoje. A deusa não quer saber e o escravo tem vergonha de dizer o que lhe vai na alma em público. Além de que lhe falta tempo. Tem de agradar a todos sem parar. E de assinar as contas, os contratos, os processos judiciais, as notas dos filhos que estudam na Católica (a tal que só reconhece a existência legal do pai). Passa tardes na Zara com um calor do deserto -- o suor a cair-lhe pelo rosto -- a acompanhar a mulher nas compras, ao mesmo tempo que lhe ouve as queixas da Tita, da Kika, da Mimi. Manifesta interesse em ver a biografia de Tolstoi e ela a querer assistir ao jogo do Benfica na Sport TV. E depois a conversa do costume, temos de falar mais vezes do que eu gosto na cama, já não gostas de mim, um dia isto vai acabar mal. As ligas a quererem dar um sinal da sua graça debaixo do robe e a Teodora Cardoso a falar na televisão. O telefone toca, querem vender colchões mas só aceitam falar com o homem da casa. O corpo a pedir cama que o dia de amanhã é extenuante. Aturar o chefe, penetrar a intimidade que as pernas da colega Júlia ajudam a encontrar, fazer o cunnilingus à vizinha do 3* esquerdo antes do jantar. À noite assistir ao debate sobre os erros daquelas azémolas dos árbitros do Benfica-Torres Vedras, visitar por volta das três da manhã os aposentos da Lurdes, a empregada da casa que espera furiosa pelo senhor desde a meia-noite e um quarto, acabar de preencher a auto-avaliação que ficou de entregar no departamento de recursos humanos.
Tem de ser aprovada a sua prestação profissional assim como a sua performance sexual. Que diria a Teresa e a sua amiga Michelle quando amanhã se encontrar com elas e o desempenho resultar em algo que não corresponda aos mínimos olímpicos. Não que as mulheres não são como os homens. Não se calam. Contam tudo. Destroem o prestígio de um macho em dois tempos. São mais discretos os técnicos do departamento de recursos humanos. Malvadas das mulheres. Os homens têm de estar sempre prontos. Quer queiram quer não. Em pé é a posição natural daquele que usa fato e gravata e tem de lutar pela defesa da honra da mulher e dos filhos. 364 são poucos dias.
segunda-feira, 6 de março de 2017
A senhora deputada
Estou numa sessão pública a ouvir uma
senhora deputada como oradora principal. Conheço-a há muitos anos. Destacava-se
pela beleza e pela serenidade que transmitia. Viajamos no mesmo automóvel
muitas vezes. Protagonizou a história de amor mais bonita de que fui testemunha.
Hoje olho para ela e confirma-se a minha
sensação de repugnância, de desdém consciente. Escrevi um dia que não acredito
na amizade. As pessoas transformam-se, são máscaras estranhas daquilo que um
dia foram. Principalmente se entretanto se tornarem representantes da nação. E
salvo honrosas excepções ser deputado vale muito pouco.
Às vezes a vida é uma tristeza.
quinta-feira, 2 de março de 2017
Isabel Moreira
Primeiro que tudo tem um pai admirável… Que a olha com um
misto de respeito intelectual e de enternecimento. E que sorri perante as
aventuras sem dono da Isabel. A trote ou a galope desenfreado.
Poucos portugueses a conhecem verdadeiramente. Elegante, caprichosa no vestir, é dona de uma sensualidade rara. Gosta de homens que gostam de mulheres que gostam de homens. Tem bom bosto a Isabel. Quase tanto quanto eu quando a escolhi como amiga.
Poucos portugueses a conhecem verdadeiramente. Elegante, caprichosa no vestir, é dona de uma sensualidade rara. Gosta de homens que gostam de mulheres que gostam de homens. Tem bom bosto a Isabel. Quase tanto quanto eu quando a escolhi como amiga.
Photo
by Lux Woman
domingo, 26 de fevereiro de 2017
Ana Moura e o amor
Finalmente resolveste seguir o meu conselho e
namorares. Ninguém pode falar de amor sem o viver. Depois do insucesso com o
Márcio Silva, das tentativas mal sucedidas dos marialvas Ruben Alves e José
Eduardo Agualusa, só mesmo o Ruben da Cruz poderia mostrar-te as estrelas à
noite, deitados de mão dada na praia, a verem chegar as andorinhas e a
Primavera.
Dizes que estás apaixonada há um mês. Que bom um período de tempo tão longo. É necessário conhecermos aqueles a quem autorizamos que a nossa gata se aninhe no seu colo. Entretanto vai aos treinos. E continua a cantar como só tu o sabes fazer. Lá para Abril, então, embarcas em mim.
Dizes que estás apaixonada há um mês. Que bom um período de tempo tão longo. É necessário conhecermos aqueles a quem autorizamos que a nossa gata se aninhe no seu colo. Entretanto vai aos treinos. E continua a cantar como só tu o sabes fazer. Lá para Abril, então, embarcas em mim.
domingo, 19 de fevereiro de 2017
terça-feira, 14 de fevereiro de 2017
Eu e as escadas (No dia dos namorados)
A minha
relação com as escadas sempre foi muito própria. Nunca achei que fossem degraus
que nos levam a um qualquer apartamento. Para mim são leito de amor. Ou então
sítio de transgressão aplainado pela paixão. Por isso é que toda a minha vida
está ligada às escadas.
– Lembras-te do nosso primeiro beijo? Tu um
degrau abaixo do meu. Com os olhos de mulher jovem pronta para o amor. Eu,
malandro de tanto saber, a dizer para subires o degrau. Até ficarmos no mesmo
plano. Quer dizer, mais ou menos. Eu filósofo encartado e tu candidata a
estudante de jornalismo.
E o
beijo aconteceu. Os lábios pareciam carne aveludada que só o amor sabe
distinguir. Tão intenso foi esse beijo que dele nasceram vários filhos.
E
agora, voltarão eles às escadas, mais tarde, quando forem à busca do amor? Por
mim, a reposta é muito clara. Para subirem ao 7º andar do prédio, utilizem o
elevador, a Magirus, o helicóptero.
As
escadas estão reservadas aos pais. Para sempre. Da mesma forma que da primeira
vez.
Quanto
aos filhos... tenho tanto medo do amor dos filhos. Porque esse sentimento tanto
pode doer como pode embriagar-nos de felicidade. Mas o amor é isto mesmo. Eu
sei. E eles são belos e inteligentes.
Não
preciso por isso de me preocupar. Basta estar atento e de cartucheira debaixo
do braço. O resto, o resto é a vida. Que pertence por dever e direito a cada
um.
Feliz
dia dos namorados, meus amores.
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