domingo, 20 de agosto de 2017

É hoje

 



- Lurdes, traz-me os calções de banho vermelhos. 
- (...)
- Hoje vou finalmente reencontrar-me com o mar. 
- É p'ra já, senhor doutor.

***

- És capaz de me dar uma sugestão de um sítio diferente, com pessoas realmente interessantes, onde não se fale só do clima e do vídeo-árbitro?
- Sou sim, senhor doutor, e o autocarro pára mesmo em frente.
- Levas-me a esse autocarro, Lurdes?
- Levo, claro.

***

- Tens mesmo a certeza que os calções vermelhos vão fazer sucesso?
- Sem qualquer dúvida, senhor doutor. Olhe, está aí o autocarro. E é da Barraqueiro. São aqueles de que o senhor doutor mais gosta. 
- Adeus, Lurdes. Diz à menina Sílvia Alberto que espere até ao meu regresso.
- E o que faço à Senhora Dona Catarina?
- (…)

 



O que pensam os outros de nós? Quem somos para eles? Kant falava-nos da impossibilidade de estarmos à janela a vermo-nos passar na rua. Em termos objectivos não vale muito a pena pensarmos nisso. Nunca nos conheceremos de modo absoluto.

Também não tem a importância que alguns dão. É verdade que os outros são o espelho de nós mesmos (Levinas escreveu maravilhosamente sobre isto). Mas quantas vezes somos vistos de forma deturpada. Umas vezes por culpa nossa; outras não. Interessa, por isso, fazermos uma introspecção daquilo que achamos de nós. Mas com verdade e espírito crítico.

Tantas vezes reflicto sobre mim. E nem sempre gosto das conclusões a que chego. É natural que assim seja. Não somos máquinas. Temos desejos próprios e gostos só nossos. 

Sei que sou egoísta, cínico, manipulador, egocêntrico, dissimulado. E outras coisas igualmente más. Mas não sou mau tipo. Tenho a certeza disso. Sabem porquê? Porque gosto dos outros. Muito mesmo.

Primeiro das mulheres, depois dos cães e por último dos homens. Claro que nem sempre respeitando esta ordem. Trata-se de uma generalidade e há pessoas excepcionais, que escapam a qualquer sistematização.

Vem isto a propósito das pessoas que me fazem companhia no Facebook – através de fotografias, dizeres, textos. Nem sempre me relaciono com elas tanto quanto mereciam. Digo sempre que sim, convencido que assim será, o tempo passa, outras tarefas e problemas aparecem, e o pedido de desabafo, de ajuda em alguns casos escorrega nas águas do rio que não aguarda por ninguém. 

E a minha vontade é estar com as pessoas. Abraçá-las algumas. Às vezes olho uma fotografia e o desejo de passar os dedos pelos cabelos daqueles seres é (quase) real. Por isso é que a D. Lurdinhas me faz tanta falta. Ela ordena o que para mim não tem ordem possível.

Moral deste desabafo: desculpem-me aqueles que têm mensagens por ver respondidas, pedidos a que não dei andamento. Não é por mal. Gosto de cada um dos amigos do Facebook. Se pudesse fazia todos felizes – ouvia cada um, desaparecia cumprindo o desejo daqueles que não gostam de mim, daria a mão à mão sem dizer nada ao mar e à lua, faria um filho a quem o quisesse. Por gosto, como diz a canção. Desculpem.

sábado, 19 de agosto de 2017

O cruzamento


A vida é uma longa viagem, percorrida através de caminhos de terra batida ou de autoestradas. Não é linear, não obedece a percursos predestinados. Muda sempre que a coragem, a derrota ou a vontade de mudança determinar. Nessas alturas deparamo-nos com o cruzamento. Obrigando-nos à situação mais difícil da tal viagem. A escolha. Do caminho a prosseguir, da capacidade de discernirmos acerca de nós mesmos.

Nas situações-limite queremos deixar tudo para trás, começar de novo. Como se isso fosse possível. A escolha acertada nasce da viagem já percorrida. Do que ela nos ensinou. Somos nós enquanto transformados pelo tempo e pelas vicissitudes da vida que podemos fazer uso da liberdade. Não é fácil. Muitos acham-se incapazes de olhar o mapa na procura do que está para vir. Mas têm que o conseguir. Para que a viagem ainda valha a pena.

Galgando as linhas da ferrovia em 1ª classe ou na carruagem das encomendas. Mas sempre de modo integral. Sem nada esquecido, apenas valorizando na proporção certa o que nos derrubou. Nem mais nem menos.

Se assim for, essa mudança de itinerário na viagem ainda nos vai fazer bem. Vivendo a liberdade de sermos nós na rua onde nascemos ou na 5ª avenida nova-iorquina.

Uma vez mais: inteiros, não lobotomizados de parcelas da viagem que ninguém tem o direito de nos expurgar. São as derrotas e as vitórias e os momentos assim-assim que nos tornam interessantes aos olhos dos outros e, principalmente, dos nossos.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Festas D'Agonia




Raras vezes a mulher é homenageada de modo tão expressivo como em Viana por este tempo de Agosto. São as Festas da Nossa Senhora D'Agonia. Esta noite as mulheres de Viana preparam o traje com que vão estrear a romaria. Com o fato completo ou uma simples blusa e os obrigatórios brincos demonstram o orgulho de serem desta parte de Portugal.

A História explica. Em Viana, por culpa da economia centrada na casa, tanto no espaço rural como na que decorre da faina marítima, o mando do dia-a-dia é feminino. A emigração dos anos 1960 e 70 fez o resto.

A consagração da mulher nas festas que começam amanhã é assim encarada como natural. A beleza do traje à vianesa (e não minhoto como os lisboetas chamam) é um prolongamento desta realidade de mando e de chieira.

Mas atenção: a roupa bordada com vidrilhos a imitar as estrelas e o ouro de ver a Deus não estão ao alcance de todas. Só daquelas que nasceram nas terras de Viana, que entregaram o coração a alguém do campo ou do mar dali e, na última das hipóteses, que mantêm alguma relação familiar com o passado alto-minhoto.

Não por uma razão de segregação: apenas porque só elas sabem vestir o passado celta de serem depositárias de uma alma própria.

sábado, 12 de agosto de 2017

Ferrari


Tem calma: a Ferrari vai fazer mais Sergios. Só para quem merecer. As mulheres mesmo mulheres, carinhosas sem serem peganhentas, sexuais sabendo além disso ler, companheiras só porque lhes apetece, com um corpo que é universo também. Aí vou aprovar.

domingo, 6 de agosto de 2017

Eu sou o Pablo Picasso

Arranjei-me para a praia num instante: foi só vestir os calções brancos que comprei na Hermès e pegar na primeira toalha que estava à mão. Nem levo a camisola às riscas. Tenho pressa do sol. E tu, Pulcinella? Queres a água, eu sei. Eu vou ver a vida. As prostitutas, os velhos, os ladrões, as meninas sem beira. As mulheres. Mas com os olhos nivelados e os seios-laranjas da Andaluzia. Apetece-me provocá-las. Desconstruí-las no corpo e no génio. Fazer-lhes mal e bem. Vamos tourear esta gente, Pulcinella. E o destino também. Eu sou Pablo Picasso.

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

O amor existe

Não, não é verdade. O amor existe. De muitas formas possíveis mas existe. E é imorredoiro. Pode ir e ir e parecer que não vem mais. Algumas vezes nem virá materializado em situações da vida. Mas o sentimento está lá. Escondido, amarfanhado, odiado. Até um dia em que haja a possibilidade de sentar connosco na esplanada. É muito difícil gostar verdadeiramente de alguém. De alguém que não somos nós. Que lê outros autores, que não viaja, que gosta do campo. Que diz mal de nós. Que nos é indiferente. E, de repente, não podemos passar um sem o outro. Ora uma coisa assim não acaba com um simples esfumar-se. Com um estalar dos dedos. Da mesma forma que não começou assim. Juntaram-se muitas coisas, sinapses, discussões, noites sem sono, emoções neurológicas não repartidas, para terminar assim. Por isso é que é sempre possível recuperar um verdadeiro amor. Como? Por favor, contactem a minha assistente, a D. Lurdinhas, para marcarem consulta comigo. Mas desse já vos digo que a agenda está preenchida até fins de Novembro. Até lá, meus amores.

sábado, 29 de julho de 2017

O aniversário da minha amiga



Não faço anos desde os 27. Mas tenho amigos que insistem em fazer. É o caso de uma mulher linda, de covas nas faces, minha amiga dos tempos da adolescência e que comemora o aniversário hoje. 27 anos, tal como eu. 

Explico sempre isto aos meus alunos de Psicologia: o savoir-faire de um conquistador das graças femininas depende em muito dos êxitos ou não das primeiras tentativas.

E o que é isto tem a ver com a aniversariante de hoje? Eu explico: Na altura éramos 20 rapazes que começávamos a suspeitar que a praia não servia apenas para apanhar banhos de mar e que passados uns anos teríamos que pagar um imposto chamado IMI. 

Pois bem -- todos eles, mas todos mesmo -- estavam apaixonados pela mulher hoje em festa. 

Agora adivinhem quem foi o primeiro a chegar à meta? Pois claro, eu mesmo. Ambos sabíamos, o escrevinhador destas linhas e a menina-mulher desejada que se anunciássemos ao grupo dos 20 o vencedor da medalha de ouro, acabava o Verano Azul daquele ano. Então, sempre que estávamos acompanhados, dávamos as mãos debaixo da mesa, despedíamo-nos com um beijo que preenchia um terço do rosto e dois terços dos lábios. Dificilmente sou capaz de repetir nos dias de hoje um beijo assim tão delicioso.

Actualmente é casada, tem filhos e é imensamente feliz. O marido é profissional da comunicação social com notoriedade nacional. Por isso guardo algum recato na identificação da mulher bonita, com covas nas faces, que fez de mim conselheiro perante os meus colegas das tácticas a cumprir para conseguir um sim feminino. 

Resta de toda esta história uma grande saudade repartida mais ou menos de igual modo pelos 19 rapazes mais eu mesmo.

Parabéns, mulher minha de um tempo irrepetível.

sexta-feira, 28 de julho de 2017

A Cuca Roseta e os gelados Magnum



Desde que casou que não a via. Há um mês, portanto. Rumei a Mirandela para assistir a um espectáculo dela. E perceber como estava. Milhares de pessoas à espera da Cuca Roseta num anfiteatro de granito ao ar livre em frente ao Rio Tua. Cenário lindo. Nunca tinha estado naquela cidade transmontana e gostei. Muito bem organizada em termos urbanísticos e com gente bonita. Este último pormenor já eu sabia. Principalmente nos olhos grandes que só podem ter explicação genética.

Mal me viram as autoridades da festa disseram-me para ocupar uma das cadeiras que estavam reservadas não sei para quem. Simpática a gente de Mirandela.

A actuar em parceria com a minha amiga uma orquestra sinfónica lá da terra fundada a partir de uma escola profissional de música (Esproarte). Realidade que se está a espalhar pelo país através da criação de conservatórios regionais. Lisboa não sabe de nada. Que se cuide. Portugal em matéria de educação está a mudar muito.

E eis que sobe ao palco a Cuca Roseta. Está igual. O corpo não mudou. Há algum tempo que sei que mesmo que uma mulher deixe de ser virgem as alterações físicas não são visíveis a olho nu. A verdade é que dançou, percorreu o palco com a elegância de sempre. Bem, também é verdade que já tem dois filhos. Mas mesmo tendo em conta que o novo amor é preparador físico o corpo mantém-se intocado.

Também é notório que não está grávida. Notava-se bem este facto de palpável importância por causa do vestido: amarelo, brilhante e vaporoso, feito a partir da parte de dentro do papel-alumínio que envolve os gelados Magnum. Era tão celofane e colado ao corpo (se exceptuarmos as pernas) que permitia ver que não está de esperanças. O preparador físico está em férias e a Cuca está com a agenda muito preenchida.

O cabelo, esse, se não tivesse sido convidado para as cadeiras das pessoas ilustres, este vosso amigo tinha caído de admiração. Foi sempre das coisas que mais gostei nela. Comprido, muitíssimo bem penteado, liso, belo, muito belo. Mesmo como eu gosto de ver nas mulheres. Não sei porque nem todas usam o cabelo assim. Talvez por não saberem que uma das graças maiores do género feminino está no cabelo. É para onde os homens de bom gosto olham em primeiro lugar.

E, depois, quando fazem como a Cuca que mexe no cabelo instante sim instante não, ai abençoadas cadeiras dos convidados que fui salvo por uma delas. Aprendam senhoras, o cabelo e as meias e a estabilidade do lugar sentado dos homens têm uma importância crucial caso queiram ou não um determinado cavalheiro.

Quanto ao resto, a minha amiga distinguiu-se pela simpatia de sempre e o porte aristocrático desprendido que a caracterizam. Ah! E cantou bem.

quinta-feira, 27 de julho de 2017

BJornal

Desde sempre a fazer jornais. 
A minha grande paixão (às vezes maior que a das mulheres).
Aos 9 anos brincava aos jornais recortando fotografias, colando-as numa folha branca grande e escrevendo os respectivos textos.
Aos 20 ajudei a fundar -- com o meu pai -- um jornal que ainda dura e há-de durar. 
Outros se seguiram. 
Hoje saiu este.

terça-feira, 25 de julho de 2017

Carlos Drummond de Andrade


– Vocês ainda não sabem, mas não há nada melhor na vida que isso que estão fazendo. É como se o fogo-de-artifício caísse sobre Guanabara. A brisa amainasse o calor. O mar se tornasse de todas as cores. O corpo tremesse de emoção boa. Os lábios fossem o corpo inteiro. E eu fosse mais novo um dia.

domingo, 23 de julho de 2017

Doce por doce



Pronto. Aqui está o problema da minha vida. Já o tenho discutido vezes sem conta com médicos e outros técnicos de saúde. Sem conseguir obter uma resposta conclusiva: uns dizem que sim outros que não.

Mas, afinal, a Coca-Cola (e eu bebo a Zero) faz mal à saúde? A última médica que consultei disse-me que se for uma ou duas vá lá três por dia não traz prejuízos de maior.

A questão está toda no açúcar, no sabor a doce de que a vida tanto precisa.

Será que os amigos do face me podem ajudar com as vossas opiniões?

É que se acharem que não devo consumir a Coca-Cola, então eu como a rapariga do lado. Doce por doce… 

sexta-feira, 21 de julho de 2017

A esplanada


Aí está. O meu mundo. A esplanada. Janela de ver os outros. A desfaçatez e a vontade envergonhada. O glamour e o sórdido. A perna cruzada debaixo da saia e os olhos no chão com medo dos outros. A vida toda. Na esplanada.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

De algo ou alguém


À espera. Do sol, das horas, de Godot. À espera. Do fim da tese, do mar encapelado, do FCP campeão. À espera. Da avó outra vez viva, do leite amargo dado a beber por ele, do último número da New Yorker. À espera. Das luzes que não param na noite embriagada de música e de álcool, das ondas que vão e vêm, do corpo ritmado dele. À espera. De saber o que é ser feliz, das lágrimas compostas de átomos, da lua e do sol. À espera. De mim.  

Nastassja Kinski



Por causa dela morri alguns anos da minha adolescência.

domingo, 16 de julho de 2017

Luís Montez


Não há bem que sempre dure. Acabou o Super Bock Super Rock. O Luís Montez vai deixar de aparecer todos os dias na televisão. Com a sua casa como cenário. O Pavilhão Atlântico. E os jardins em frente ao Tejo, as obras de arquitectura e de arte urbana. A pala do Siza Vieira. Tudo dele. Assim como os jornais e as televisões. Um visionário da mediocridade portuguesa. O introdutor das pulseiras de cores diferentes. Que teve a avareza desmedida de acabar com o único festival mítico do nosso país: Vilar de Mouros. Um dos indivíduos mais antipáticos de Portugal. 

 

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Rostos da RTP


Em 2011 fugiram da RTP como ratos de um navio prestes a afundar. Director e Directora-adjunta de Informação, muito bem relacionados com a direcção do PSD, mal ouviram falar da privatização do canal público abandonaram a estação onde aprenderam tudo e sempre foram bem tratados. 
Algo me diz que nesta altura tentam o regresso à RTP mais uma vez com medo do que aí vem. A Altice não é gerida por gente conhecida das sedes partidárias, da noite ou das tertúlias que se sentam à volta do whiskey Jameson. A cobardia vai uma vez mais fazer das suas.

sábado, 8 de julho de 2017

Convidadas de última hora

 


- Maria dos Anjos!!! Quanto tempo... Estás igual... Que felicidade a minha... Deus é grande... E trouxeste as tuas sobrinhas... (Vou já servir-lhes um Porto Barros enquanto nós os dois conversamos)... Estou tão contente...

O enlace matrimonial seguido de lua de mel na Nazaré

 

Muito obrigado a todos. 
Eu e a Elza estamos cansados mas felizes. Foi um casamento muito bonito e abençoado com a presença de tantos amigos. Neste momento chegamos ao hotel da Nazaré onde vamos passar oito dias de felicidade celestial. A Elza está um bocado nervosa mas julgo ser normal nestas ocasiões. Adeus amigos, até ao nosso regresso.

sábado, 1 de julho de 2017

A MONICA E EU



É todos os dias isto. A vida tão difícil e a cidade a gozar comigo. O dia inteiro a preencher papéis no escritório de contabilidade. À noite os debates sobre futebol. E o sono a chamar-me para o quarto. Sento-me na cama e na casa em frente, a da Monica Bellucci, a vida a começar. Isto não se faz a alguém que passa o tempo a fazer contas. Sr. Fernando Medina faça alguma coisa para que eu volte a poder descansar. A cidade de Lisboa deixou de ser para quem trabalha. 


quinta-feira, 29 de junho de 2017

Eu, a esplanada e a coca-cola



Servia-me a Coca-Cola Zero todos os dias na esplanada onde eu sentava a olhar o mundo. Que saudades da Coca-Cola Zero.  

(Foto de Bernardo Coelho)

sexta-feira, 23 de junho de 2017

A minha intervenção no Parlamento Europeu

                     Nenhuma descrição de foto disponível.

 











Vou discursar no Parlamento Europeu! Pouso os óculos, olho a Marisa Matias a ver se ela está atenta, e digo: "Quero voltar a ter uma Europa como a de Helmut Kohl, Olof Palme, Mário Soares, François Mitterrand, Willy Brandt, Felipe Gonzalez, Helmut Schmidt, Hans Dietrich Genscher."
Ponho outra vez os óculos para ver a Marisa.

quinta-feira, 15 de junho de 2017

DIA DO CORPO DO HENRIQUE


Há dois anos vivi o dia de Corpo de Deus numa esplanada de Paris, no ano passado junto ao mar com a Julia Roberts, este ano na primeira comunhão do meu filho D. Henrique. 

Na Catedral cheia, dezenas de crianças felizes -- cabelo penteado com escova e secador, roupas esmeradas -- esperavam por integrar nos seus corpos pequenos o corpo do Senhor. 

O padre (muito conhecido por ter uma coluna de opinião num dos jornais mais lidos do País), em vez de explicar isto mesmo às crianças, ralhou às 1000 pessoas que assistiam à celebração por não cumprirem os mandamentos de Deus não vindo à missa dominical.  

Quem também levou com a má disposição do sacerdote foi um fotógrafo profissional que disparou uma vez a máquina enquanto o clérigo discursava -- e assim perturbou com o barulho do obliterador a brilhantez do raciocínio metafísico -- e os dois sacristãos que com o medo já não sabiam o momento de levar o livro das leituras junto do representante de Deus. 

Claro que a assistência não reparou em nada disto, tão atenta estava nos seus rebentos e nos telemóveis que iam registar para a posterioridade aqueles momentos inesquecíveis. 

À cerimónia nem o fantasma de Ettore Scola faltou mais a família que o celebrizou -- o grupo a tirar a fotografia de conjunto, todos disformes, a mulher de olho tapado com gaze e adesivo e o ar colectivo de quem acaba de sair do estabelecimento prisional. 

No meio das mil pessoas havia vestidos vaporosos, corpos que nasceram para serem amados mas que o músculo sóleo (aquele que desce pela perna e se aproxima do tornozelo) diz a verdade e traduz trabalho de força e não devaneio de esplanada ou vaidade de passerelle. 

E depois o meu D. Henrique de Barros. O meu clone. Muito melhor que eu -- assim espero!

Hoje lembrei-me da minha primeira comunhão. Fato branco feito por uma modista, bonito de diferente mas simples, sapato de verniz. As pessoas devem ter gostado porque algum tempo depois, um casal de noivos que não conhecia veio pedir aos meus pais se eu poderia participar do casamento levando as alianças. 

E a verdade é que lá fui e lá me apaixonei pela menina que comigo fazia par. 

Hoje é a vez do Henrique. Um aviso a Deus Nosso Senhor: Trate bem dele porque a par das suas irmãs são a maior riqueza que eu tenho. Se não cumprir o meu pedido vamo-nos ver -- eu verdadeiramente zangado e Deus sabendo-se sem razão a justificar-se perante mim. 

Fica o aviso.  


terça-feira, 30 de maio de 2017

Perfumes Azzaro


Para os homens que gostam de mulheres que gostam de homens.

(Tal e qual para este senhor artista)

sábado, 27 de maio de 2017

Relógios Patek Philippe


Nunca somos verdadeiramente donos de um Patek Phili...,
perdão, de um guarda-sol de 12 varetas.

Apenas cuidamos dele
para a geração seguinte.

A viagem


– A menina importa-se de me dizer a que horas sai o próximo navio?
– Não sei, também estou à espera de partir nele – respondeu a minha tetravó ao meu tetravô.

sábado, 13 de maio de 2017

Finalmente: Portugal vence o festival da Eurovisão


Ao mesmo tempo que nas três últimas décadas os jornalistas e os líderes de opinião diziam mal da escola e dos professores – ao contrário do que acontecia com o serviço nacional de saúde –, os jovens portugueses iam mudando a uma velocidade estonteante. Mais cosmopolitas, mais criativos, mais sabedores. A saberem ler música e a escreverem bem. A investigarem em laboratórios matérias complexas. Mesmo com os políticos a fazer asneiras no ensino. E os jornalistas a odiarem os professores.

Um dia vai ser preciso fazer a história de tudo isto e dizer os nomes dos iluminados que tantas idiotices disseram nas mais diversas tribunas mediáticas. Mesmo sabendo que nem todos os jovens chegaram aonde todos gostaríamos. Nem eles nem a sociedade em geral. Mas a verdade é que os novos portugueses não diferem dos outros europeus. É vê-los em qualquer areópago internacional.

É neste contexto que aparecem jovens como o Salvador Sobral ou a irmã. Altivos, sem serem arrogantes, simpáticos porque inteligentes, cultos e diferentes. A falarem inglês e a saberem música. Com noção elevada do bom gosto. A terem consciência que o simples é o mais difícil. E que a qualidade reside na imaginação e não no visual feérico.

Salvador Sobral percebendo tudo isto criou no entanto um boneco. Bem engendrado. Minimalista mas verdadeiro. A apelar ao sentimento que a música e o poema juntos conseguem na perfeição. Mexendo com as pessoas. Todas. De qualquer língua. A partir do português. Essa língua que é um sentir próprio de um povo muito antigo. E moderno também. Que mistura a saudade do mar e a vontade de descobrir a ciência. Que continua a escrever poesia como poucos. E passo a passo começa a perder a vergonha de si mesmo, imposta por tempos de miséria e de ignorância. Servindo o poder de poucos.

Seria uma lição se os portugueses vissem a conferência de imprensa para estrangeiros que se seguiu ao festival. Os nossos políticos não conseguiriam uma prestação como a do Salvador Sobral. Falou com uma desenvoltura e um sentido de humor que conquistou todos. Da mesma forma que antes tinha criado um dos momentos mais altos da história do Eurofestival: a interpretação da canção vencedora ao lado da irmã que provavelmente os europeus nem sabiam que cantava. Portugal e o Salvador estão de parabéns. E a União Europeia também.

Francisco Sérgio de Barros e Barros
(Carteira profissional de jornalista TE-02)

quinta-feira, 11 de maio de 2017

As aparições e a minha vida


O transcendente visitou-me algumas vezes. Como a qualquer um dos leitores. Nessas ocasiões algo provoca em nós espanto. E por vezes muda-nos. É como se houvesse um corte com o passado.

Esse encontro com o passado acontece muitas das vezes com a visão ou mesmo com a aparição. Eu sei que o encontro com o sobrenatural tem diversos graus de impacto emocional. Falarmos com Deus não entra nestas minhas cogitações, os meus amigos jesuítas fiquem descansados acerca da minha saúde mental.

Até porque infelizmente não sou religioso. Quando falo em acontecimentos marcantes, próximos da ruptura com o que já se foi, falo da leitura de um bom livro, de uma conversa que não se esquece. Coisas assim.

Por exemplo, de quando li O Homem que Olha do Moravia, ou vi no cinema o A Filha de Ryan de David Lean. Ou quando toquei pela primeira vez o corpo nu de uma mulher.

O que é que estás a dizer? Não te ouço, Zuckerberg... Ah! Descansa. Apenas vou falar de testemunhos pessoais mas partilháveis por todos. Que toda a gente possa traduzir para a sua própria vida.

Deixa-me pensar, Zuckerberg. Já sei o que escolher: a aparição de 1990 – era eu um adolescente. O hotel onde hoje estou hospedado, o Beverly Wilshire, em Los Angeles, também não me deixa muita margem de manobra em matéria de recordações marcantes.

Lembro-me de nesse ano, uma mulher linda "mais brilhante do que o Sol" olhar nos meus olhos, sorrir nos seus olhos, e dizer com os lábios mais fantásticos que alguma vez o Chiado viu: "Qual a cor do preservativo que queres?” Olhei para aquele anjo e não sei porquê lembrei-me da deputada comunista muito em voga naquele tempo – a Odete Santos. Não tinha nada a ver.

Sei que no dia seguinte, depois de uma noite de oração e muita descoberta metafísica, dei à Vivian (era esse o nome dela) o cartão da minha mãe do Continente para comprar roupa no Rodeo Drive. O vestido de cor castanha e fogo-de-artifício branco foi nesse dia que caiu do céu.

À noite fomos à ópera em São Francisco. Ela levou uma toilette vermelha que tinha usado no filme Pretty Woman e fomos na camioneta do Barraqueiro. Durante a viagem conversamos muito. A Vivian era uma mulher muito experiente e quis dar-me alguns conselhos sobre o sexo feminino. Que nunca me deixasse seduzir pelas mulheres russas. Principalmente quando louras de cabelo comprido e a tocar piano. Primeiro tinha de usar o meu charme – que ela achava eu possuir às carradas – e assim proceder à conversão delas aos meus princípios. Depois revelou-me algo de trágico a acontecer no meu futuro mas que não poderia dizer mais porque era segredo. Prometi-lhe o cartão da minha mãe da Loja das Meias e ela então falou-me que alguém iria atentar contra a minha vida. Preveniu-me ainda que via armas no meio daquele presságio. Não percebi nada até uns anos mais tarde uma mulher apontar uma pistola à minha cabeça por eu não querer mais nada com ela.

Mas voltando à Vivian e à ópera: ela em forma de anjo com o rosto em cima do meu ombro, a música a ecoar naquele teatro, e as lágrimas… Sérgio… Sérgio… Acorda que são horas da escola! Abri os olhos e vi a minha mãe como sempre preocupada comigo. Que horas são? – perguntei. Oito horas. Dentro de meia hora tinha a minha professora de francês a lembrar-me que no mundo não há só corpos celestes.

Se fui o mesmo de sempre na aula de francês? Não, não fui. Nunca falei tanto francês na minha vida e em feux d'artifice e na apparition de la Sainte Vivian. Uma autêntica epifania aquele sonho.


terça-feira, 9 de maio de 2017

A vida devagar


Éramos e somos três. De todos o mais vivo eu mesmo. Só se for agora, que naquela altura não. Todos bons miúdos na fotografia, ao contrário de agora Hoje tenho a consciência de o não ser. Dois irmãos e uma amiga quase irmã. A bonita Melita. Hoje são pais, escrevem e vivem de modo autónomo. Com saudades de serem como na fotografia. O Rogério com o dedo no nariz e um jeito muito grande para o futebol. Ela coquete a dar os primeiros passos na capacidade de comunicação. E eu sonhador e observador de você que lê estas linhas. O facto de sermos os três filhos de directores de jornais de Viana, uma das cidades mais bonitas de Portugal talvez explique alguma coisa.

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Joana Amaral Dias


Meninas:
Este Francisco Sérgio é um misógino, um machista da pior espécie e um narcisista incorrigível. Se o virem, fujam dele. Telefonem-me imediatamente indicando o local onde o poderei encontrar. Para a frente é que é o caminho.
Agradecida!

Ainda não apareceu...


– E o Francisco Sérgio que nunca mais chega!

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Janela para o mundo


–  Olha Pirolito quem vai ali, a desavergonhada da Alzira! Organizou a viagem a Benidorm e ficou com parte do dinheiro.
– Esperta foi ela, Dona Cândida. Combinou com o Soares da agência receber por cada cabeça. E ainda por cima andou com o motorista durante o passeio, como é que ele se chama?, o Zé da Madalena.
– E a filha? Experimentou os rapazes todos de uma escola de Vigo que estavam lá de férias.
– Dona Cândida... não se sabe... diz-se.
–  Pelo meu falecido Albano. Quem me conhece sabe que não gosto de falar da vida dos outros, mas que é autêntico, lá isso é... E só não foi com o professor porque a directora da escola já o tinha arrebanhado.
– E a Dona Cândida não protestou durante a viagem?
–  Ó Pirolito, sabes lá... O Sr. Américo insistiu muito para eu não dizer nada, que ia ser um escândalo e a fama de todos ia ser prejudicada.
–  O que vale a esta rua é ainda haver pessoas como a Dona Cândida. Ainda ontem o Sr. Américo falava disso quando a veio visitar.
– Sabes Pirolito, ainda está para nascer alguém tão honesta como eu.
–  Lá isso é verdade – disse o Camilo Lourenço quando leu esta crónica.