domingo, 23 de agosto de 2020

Festas D'Agonia - a despedida



Hoje à noite aconteceria com a Serenata o fecho da edição de 2020 das Festas D’Agonia. A pandemia, como em quase tudo o resto, não permitiu a realização da edição deste ano. Os vianenses sofreram com o facto, há um desgosto colectivo que tomou conta do Agosto habitual. 

Mas não vale a pena pensar mais nisso. Há realidades que nos ultrapassam tal é a força que as move. Nestas circunstâncias deve-se aproveitar o que de negativo não podemos controlar para assim extrairmos lições para o presente e para o futuro. E de facto aconteceram nestes dias de festa adiada coisas demasiadamente importantes para serem subvalorizadas.

A título de contextualização convém dizer que o mais preocupante, a nosso ver, de tudo o que vem acontecendo relativamente às festas de Viana tem a ver com o progressivo desaparecimento (ou retirada forçada pela doença) de figuras notáveis do saber etnográfico alto-minhoto.

Mas atenção: elas não se revelaram só excepcionais sob o ponto de vista da erudição; eram, também, personalidades aparentemente insubstituíveis ao nível do poder do discurso, fosse ele exercido na televisão ou na festa do traje, só para citar dois exemplos. Não é fácil encontrar pessoas com o conhecimento e a qualidade comunicacional de Francisco Sampaio, Maria Emília de Vasconcelos, António Manuel Couto Viana, Maria Manuela Couto Viana, Diogo Pacheco d’Abreu Teixeira, Amadeu Costa, António de Sousa Gomes, Manuel Freitas, Francisco Cruz e Pedro Homem de Melo.

Repare-se que só falamos daqueles que connosco viveram nos últimos cinquenta anos. Antes deles, outras gerações em muito contribuíram para a divulgação da riqueza dos trajes, das danças e das tradições de Viana. 

Veja-se o caso de Manuel Couto Viana, autor daquilo que hoje seria conhecido como a “imagem institucional” das Festas D’Agonia, para além da divulgação do traje, dos costumes ancestrais e ainda da criação do formato que conhecemos das festividades. Aquilo que ele retratou ainda subsiste em termos de “design” e faz lei na actualidade.

Este ano, mesmo sem festa, tem-se assistido a sinais que parecem auspiciosos ao nível da renovação de gerações. Nomes novos de gente jovem que ama as festas e que quer fazer coisas. Sejam elas quais forem desde que relacionadas com a cidade e com a sua festa maior. Foi o caso de vídeos que surgiram nas últimas semanas com motivos originais, músicas tradicionais recriadas, roupas reinventadas, motivos diferentes de exaltação popular genuína.

Claro que tudo isto é possível, e bem-vindo, desde que não colida com a autenticidade histórica. E aqui surge o último dos receios: a de que esta geração embora preparada nas universidades tenha na sua formação conteúdos marcadamente tecnocráticos e desconheça as ciências necessárias para o estudo exaustivo, e complexo, das vicissitudes etnográficas e antropológicas do noroeste português.

Mas vamos acreditar que sim. Aquilo que preocupou os vianenses mais conhecedores, nomeadamente no que se refere ao modo como o poder autárquico geriu os assuntos da etnografia e da festa nos últimos anos, parece estar ultrapassado.

Agora falta patrocinar doutoramentos e a publicação de obras na área dos rituais de celebração colectiva no Alto-Minho, no estudo das origens celtas deste povo, nas particularidades da economia rural, marítima e tecnológica que estiveram desde sempre presentes na vida da população vianense. 

E depois trazer os novos saberes para a organização das festas juntando-os ao conhecimento etnográfico. Então sim, tudo poderá ser feito, desde a renovação do desenho de Couto Viana até à criação de novo repertório musical ou a divulgação de um modo original de escrever as festas. 

quarta-feira, 12 de agosto de 2020

À procura de tubarões


Milésimo dia de férias. Já não sei o que fazer para voltar a pensar, tal tem sido a preguiça dos dias. Convenceram-me a andar mar adentro à procura de golfinhos, baleias, tubarões-tapete e tubarões-cobra. Enfim, algo de entusiasmante. Mesmo aquilo de que estou a precisar. 
No barco as pessoas não eram alentadoras nem à vista nem à conversa. A não ser, esperem, estou ver qualquer coisa: já repararam naquelas unhas tão bem tratadas? Mais tarde vou perguntar-lhe onde as “aplainou”. 

Dos animais prometidos o mar presenteou-me só com os golfinhos. Os tubarões-tapete, pelos quais tenho uma predilecção antiga, devem ter rumado a Arraiolos, que por aqui não andam. 

No barco, os marinheiros de água-doce estão contentes com os golfinhos, quer dizer, quase todos, que no grupo da Rosalía das unhas vistosas alguém está mal disposto. Parece que vai vomitar. Qual deles será? Se for a Rosalía vou ajudá-la. 

Não é. Quem está pálido, com a cabeça encostada à borda da embarcação — agora vejo — é o rapaz que acompanha a Rosalía e as amigas. 

Pobre mundo este. Já nada se parece com antigamente. Desde que a tropa acabou que os homens andam assim. A  Rosalía das unhas bonitas ainda vai mandar nisto tudo.

sexta-feira, 17 de julho de 2020

Os idiotas


O servilismo de alguns homens perante as mulheres sempre me causou repulsa. “Diga menina, o que meu anjo escolher...” - Deus arrependido do estado a que chegaram os chefes de família. Não era assim que tinha pensado no páter de rosto grave, e o povo quieto à espera de um gesto seu. “Ou vens embora agora ou então escusas de me procurar mais” dizem elas desprendidas de tudo mais. E o palerma, cabeça baixa a seguir aquela saia que, por sinal, sempre achou curta. “ Então o qu’é que a senhora decide?” pergunta o gerente do banco ao casal que se senta na frente da secretária. A vida não está fácil para o sexo forte. O Benfica a perder campeonatos, o Chega ainda longe de mandar nisto tudo. 
 
“A senhora quer acender o cigarro?” É p’ra já já. Basta fazer da fragilidade o pavio de um mundo louro e lindo.

segunda-feira, 29 de junho de 2020

Em memória do meu liceu


Uma vez li num livro que um miúdo francês disse à mãe: “Não vou voltar à escola; lá só ensinam coisas que eu não sei”. Nunca mais esqueci isto. A afirmação fez ecoar em mim uma série de recordações da escola que frequentei. E não eram felizes as memórias desse tempo.
A escola nunca gostou de mim; e eu devolvi-lhe com igual ênfase aquele sentimento. Frequentava as aulas, mas não escutava uma só palavra do que nelas se dizia. Lembro-me de os professores queixarem-se desse comportamento aos meus pais, de quem eram amigos: “Não percebo o vosso filho. Ele está sempre com a cabeça na lua.”
Retribuo-lhes agora, passados estes anos todos, o epíteto com que provavelmente me brindavam nas reuniões de avaliação: “Mau aluno.” Pois também eles eram maus, muito maus professores. Eram arquitetos, engenheiros quase formados (mas que nunca completaram o curso; não precisavam), contabilistas que sabiam apenas da vida que aos números sucedem os números, mulheres muito velhas que esperavam pela reforma que não mais chegava (fui a alguns velórios de professores).
Contas feitas, cheguei ao 11º ano de escolaridade sem saber nada do que se ensinava naquele liceu. Nada ou quase nada. Claro que as notas eram tão tristes como as minhas aulas. Um autêntico desastre. Sobravam as meninas de olhos bonitos nos intervalos. Aí sim, acordava para a vida. E nesses minutos compensava o desfiar monossilábico das palavras que os professores diziam naqueles cinquenta minutos de tortura.
Ainda por cima esses engenheiros e arquitetos e velhas de pantufas por causa dos diabetes desconheciam algo de que não fazia segredo, mas ninguém quis saber: desde os nove anos de idade que devorava os livros todos que pelos meus olhos passavam. Aos onze anos tinha lido já os principais autores brasileiros, a maioria dos livros deles, aos doze e treze os americanos e os russos. Isto no tempo em que não ouvia nada do que os velhos mestres diziam nas aulas. Uma ou outra professora de português desconfiaram de qualquer coisa naquele miúdo que estava, mas ao mesmo tempo não estava, na aula. A mãe do José Eduardo Agualusa aconselhou-me livros de autores portugueses, falava comigo depois da aula, já os outros se tinham ido embora.
Lembro-me de uma vez me ter vingado a sério da escola, quando os meus colegas de turma tiveram de ler em voz alta um texto do meu pai que estava no manual de Português, sem que alguém naquela sala fosse capaz de nos associar um ao outro.
No décimo segundo ano, deu-se a viragem. 
Nesse tempo, o último ano do secundário era constituído apenas por três disciplinas, e nelas tinha de se investir estudando os temas de forma autónoma, como se fazia na universidade. Não havia um manual único para cada tema. A necessidade de investigar exigia de nós que procurássemos outras fontes, outros autores. E então mudei um pouco a visão que tinha do liceu. A crise de 1383-85 interessava-me, e as raparigas que se esforçavam uma, três, quatro, cinco vezes a dar à perna para pôr o motor da mota a funcionar, conseguiam fascinar-me ainda mais.
Vistas a esta distância, as recordações do liceu fazem-me sorrir e, ao mesmo tempo, deixam-me seriamente preocupado. E tudo porque o ensino de hoje pouco mudou em relação ao daquele tempo. A mesma procura da mediania achada por uma bitola igual para todos. Além de que, e como se isso não bastasse, as motas arrancam de um modo cada vez mais fácil.

domingo, 24 de maio de 2020

Primeiro desconfinamento


O mundo todo resolveu mostrar hoje o movimento de que sempre foi feito — utilizando o léxico da pandemia: desconfinou.

Relembrou a alguém como eu, que tem estado em casa e na internet desde meados de Março, que a vida prossegue, as mulheres continuam lindas e os homens assim assim. 

E, por momentos, vi o o mundo sem ventiladores nem intensivistas a ajudá-lo a respirar. 

Agora só falta eu sair do confinamento.

terça-feira, 14 de abril de 2020

Ser do Norte é ser menos educado, segundo a TVI


O iniciado nas lides jornalísticas que fez a peça televisiva do Jornal das 8 de ontem, na TVI, queria dizer “menos escolarizada” em vez de “menos educada”, quando se referiu à população do Norte. Mas mesmo este último dado não está comprovado através das estatísticas oficiais.  
Na área da saúde, aquela que estava na origem da reportagem em questão, é por todos reconhecida a excelência das escolas médicas do Porto, dos profissionais que trabalham na região e a qualidade internacional dos diversos centros de investigação em genética, cancro e novas tecnologias em saúde, só para citar alguns exemplos. 
Além de que o facto de a Covid-19 ter sido disseminada na Europa a partir do Norte da Itália, não faz da Lombardia e das suas cidades, o berço dos cidadãos menos educados daquele país. 
Solução para um desaforo destes? É fácil: a administração da TVI deve escolher com urgência para a função de director de informação alguém que perceba verdadeiramente de jornalismo (e que saiba distinguir escolarização de educação). 

domingo, 12 de abril de 2020

A Páscoa, a quarentena e eu


Pensei não escrever nada este ano. O tempo que estou a viver é tudo menos feliz. Nem a Páscoa nem mesmo a quarentena têm culpa, mas esta é verdade. 

De tal forma que a redenção, o voltarmos a ser mas agora diferentes — a que tradicionalmente apelo — desta vez não estão na gaveta onde guardo os desejos por cumprir. 

Por agora basta-me que tudo continue como era antes. Com os defeitos que abomino, eu sei, mas que tornam possível o espanto perante as coisas positivas. Tal como a imbecilidade é o único critério a partir do qual se mede uma pessoa sofrível ou a aberração neo-nacionalista torna aceitável a política actual portuguesa. 

Eu quero a empregada da esplanada que não reconhece a diferença em mim, o homem embriagado que vocifera contra tudo e todos, a mulher que pensa que vai ser mais feliz quando tiver no seu regaço o rosto adormecido do maior bandido da cidade.  

Tudo isto na esperança de que melhores tempos hão-de chegar. Se possível dentro de dias. Ou então de horas. E tu e tu vão estar juntos a mim. 

segunda-feira, 6 de abril de 2020

O chefe das polícias


— É a avó, a esposa, o filho ranhoso, a amante e o Zé Tó a conduzir o carrinho na Páscoa. Comigo não! Vou pôr os polícias no itinerário para Viana, nas estradas para a Serra da Estrela, para o Guincho e para a Praia Verde. E se me chatearem mando a GNR cercar Alcácer-Quibir. Comigo ninguém brinca!

domingo, 29 de março de 2020

A esplanada vazia


Exilarmo-nos em quarentena não é tarefa fácil. Mesmo que de início tenhamos a genuína vontade de estarmos sós. Mas essa determinação pessoal não pode nunca ser imposta. Traduzir em letra de lei a inutilidade das cadeiras da minha solitária esplanada é ferir a liberdade de acção. Mesmo que não fizesse tenção de me sentar nelas.
E isto porque a epidemia provocada pelo maldito vírus coincidiu com um tempo difícil da minha vida. Por isso é que não tenho escrito quase nada, limito-me a procurar nos despojos da memória algum texto que não me deixe mal.
Na doença do meu pai reside a razão principal deste estado de espírito. No dia da operação a que foi sujeito senti debaixo dos meus pés o terramoto de Lisboa, no coração um enfarte a caminho, e nos olhos uma tristeza sem fim.
Está neste momento em convalescença e o pior parece já ter passado. Mas estes meses reafirmaram a certeza de que o meu pai é ainda, passado este tempo todo, o esteio da estrutura de mim e do meu mundo. E que ainda não estou pronto a ser definitivamente pai.
O resto do sofrimento tem a ver com a quarentena ela mesma. Na altura em que alinhavo estas linhas, estou fechado em casa há 24 dias. A santa da Dona Lurdinhas ralha-me de hora a hora, às vezes chego a pensar que o braço levantado lá detrás das costas vai ter como destino alguma parte de mim, chama-me a atenção para a lista de consultantes que esperam para escutar o meu saber, a fortuna que estou a perder e coisas do género.
O problema é que já não sei se quero continuar com este tipo de vida, as aulas, mais as consultas, a paixão do jornalismo e a esplanada vazia por ordem do governo. Começo a sentir-me cansado de tudo.
E em casa, neste tempo de quarentena, a família não parece estar melhor. Nos primeiros dias era um autêntico milagre, os meninos entusiasmados a meu lado a escolherem filmes para ver, a jogar ao Monopoly. Depois, bem depois estourou em pleno remanso do lar a bomba de Hiroshima, a de Nagasaki também, além de que a central de Chernobyl se lembrou de explodir na sala de estar.
O meu escritório foi desde os primeiros dias do exílio ocupado pela Matilde que estuda Direito, os mais novos fecharam-se nos quartos, devem ter-se concentrado nos trabalhos da escola e eu fiquei sem saber para onde ir. Na sala da televisão não podia ser que era pertença da vontade de todos e dos youtubers da moda também. Restava-me criar um escritório no quarto. Inventei uma secretária que colocada junto à janela ficou muito bem, o computador a debitar a minha música, o silêncio e o sol a proporcionarem o sossego que me faz falta. Só até ao dia seguinte. Acordei com o novo escritório transformado em estúdio de televisão. No centro da secretária o microfone e o tripé da RTP, o computador grande para gravar os áudios mesmo ao lado.
Nesse dia desisti. Voltei-me ainda mais para mim, penso e recordo o percurso que me trouxe aqui, sonho com a esplanada e sou acordado do alheamento pela voz forte da Dona Lurdinhas que me chama a atenção para o dinheiro que ando a perder.
Coitada, ela não sabe, e eles também não, que o conforto material não substitui a areia alisada da praia dos dezassete anos numa noite de Verão.

segunda-feira, 23 de março de 2020

Oliveira Martins e os portugueses


Oliveira Martins foi — para além de outras coisas — uma das figuras mais respeitadas da ciência histórica, ainda muito romanceada mas com influência na identidade colectiva portuguesa durante os séculos XIX e XX. 
Em 2015, o historiador Amândio Barros zurze em Oliveira Martins a propósito da escolha que este faz do local de nascimento de Fernão Magalhães. E cita, no livro que então publica, o influente escritor da Geração de 70 ironizando acerca da caracterização que ele faz dos transmontanos — “afirmativos e duros” —, dos minhotos — meigos e celtas — e dos alentejanos — capazes de “violência quase semita”. 
Sobre estas afirmações de Oliveira Martins nada vou comentar. Tenho as minhas ideias, mas estou de tal modo envolvido no viver das três regiões que mal me ficaria dizer qualquer coisa que seja.

sábado, 7 de março de 2020

Homens complicados


De um modo mais ou menos sofisticado respondo o mesmo, desde muito jovem, às mulheres lavadas em lágrimas: “Escolheste o mais complicado dos homens, agora choras, claro...”, “Ah mas os outros não me acrescentavam nada, só queriam comida na mesa e os telefonemas da mãezinha”, “Ok, mas devias saber que os mais interessantes causam sobressaltos permanentes”, “Sim, mas eu prefiro sofrer a ver o mesmo programa de televisão todas as noites.” “Ai é? Então acho melhor arranjares alguém que ande à tua volta... e se um dia ele vier a ter ciúmes podes manter a esperança de ele vir a ser teu... se não, esquece-o, ele que abra as asas e voe.”

sexta-feira, 6 de março de 2020

Em busca da tranquilidade


Na vida há dias especialmente difíceis. A espera pelo resultado da cirurgia de que ontem vos falei custou-me muito. Valeu-me no final do dia o regresso majestoso do meu amigo de sempre: o mar. Num perpétuo movimento que explica a relatividade do momento, por mais doloroso ele seja.

quinta-feira, 5 de março de 2020

À espera


Na sala de espera um grupo de pessoas sem idade. E sem vida também. Duas mulheres falam sem parar. Os outros não pensam em nada. Estão tão anestesiados como os familiares que logo depois das portas brancas estão a ser operados. 
Tal como a Patrícia. Durante muitos anos não pensei em viver este momento. A vida  parecia a dos filmes que víamos na tela. Apenas com mais contas para pagar, alguns parentes que não simpatizavam connosco, o carro que reclamava cuidados paliativos. 

No resto — no mar, nos dias de praia, nos fins de tarde de trabalho amaciados no Tekas Bar, na casa alugada com os filhos quando nasceram — tudo parecia ser infinito, e nós espécies de uma realidade transcendente, só nossa. 

Até que o maldito diagnóstico apareceu numa tarde de Inverno. De muita chuva. E eu quase a morrer naquele momento. E a Patrícia a dar-me a mão tentando transmitir-me a serenidade que vinha do olhar. 

Penso em tudo isto enquanto espero. A sala continua imóvel próxima do estado letal. As duas mulheres falam Um homem sentado perto de mim olha o meu telemóvel enquanto escrevo estas linhas (é o primeiro leitor deste arrazoado). Fico com a ideia de que lhe pareço um tolo. Adivinhou. 

As batas brancas entram e saem empurrando aquelas portas com uma roda de vidro a parecer as dos navios. 

Vejo uma enfermeira jovem que regressa da realidade atravessando a fronteira. Dirijo-me a ela. Quero saber como está a decorrer a operação. Anseio pelo momento de abraçar a Patrícia, recuperar o amor dos primeiros tempos. — Enfermeira, é capaz de me prestar uma informação?

A enfermeira sorri. Vou falar-lhe do meu amor.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Coitadinhos


Há dias em que não se pode sair de casa... ia eu absorto nos meus pensamentos, todos eles muito sérios, relacionados com as minhas amigas leitoras, quando de repente... deparo-me com estes senhores em grupo na escadaria... os polícias a aproximarem-se cada vez em maior número, disseram-me que não poderia estar ali, mostrei o meu cartão VIP, pediram desculpa... mas não quis ver mais... de certeza que aqueles homens e mulheres iam ser presos... e não sei porquê, não gosto de ver ninguém a ser algemado e a ser levado para a carrinha celular. Coitadinhos dos senhores.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

Ainda sobre a eutanásia

A propósito do tema da eutanásia, ultimamente tão debatido na sociedade portuguesa, e em resposta a mensagens que recebi a este respeito, gostaria de aclarar o meu ponto de vista sobre dois pontos a meu ver essenciais: 
1 - O exercício e o pensamento políticos têm em vista numa fase primeira e decisiva o colectivo. Só depois de se actuar em nome do bem comum é que se poderá ter em vista outros patamares de reflexão. 
Assim sendo, nada nem ninguém pode desvalorizar, amputar, amesquinhar o valor de todos os valores, aquele que serve de fundamento a todos os outros. E qual é ele? O que tem em vista a inviolabilidade de todos e de cada um de nós, nos anos da vida e nos minutos da morte. 
2 - Mas então a questão da auto-liberdade do homem que decide o que fazer de si não deve ser considerado? Claro que sim, embora com as condicionantes que a liberdade dos outros impõe ao horizonte das nossas possibilidades. Quer isto dizer que se a decisão individual abrir uma brecha na regularidade necessária aos interesses do bem comum, uma vez mais aquela que é obra do eu, vai subalternizar-se aos desígnios do nós. 
Mas então não há lugar para a escolha individual? Há, na sentença que se espera inteligente dos agentes do Direito, na consciente utilização do testamento vital e, porque não? — na prática do segredo que a experiência de vida nos ensinou a usar.  
Tudo isto sem proporcionar nesga alguma à vulgarização da vida e da morte, sem impor limites de idade para uma ou para outra, ou transferir poderes para o sistema hospitalar português, em que o autor destas linhas não confia. 

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

O novo desígnio nacional: a eutanásia


Não matem”: Em duas palavras apenas o velho metalúrgico, secretário-geral do PCP, disse tudo sobre a eutanásia. Sem teorias filosóficas ou religiosas a toldar o raciocínio; apenas com o saber adquirido ao longo de uma vida assente em palcos bem diferentes entre si. 
Nunca fui nem serei comunista. Quem me conhece sabe que a minha forma de ser é contrária a uma ideologia uniformizadora. Mas neste tema não entra o mero jogo partidário, nem sequer o discurso da fé. Apenas pode, e deve, integrar a linha de raciocínio que identifica os deveres do estado na contribuição para um fim de vida digno dos seus cidadãos.  
De resto, não acredito na bondade do sistema hospitalar português na implementação da eutanásia. 
Por favor, “não matem”. O Jerónimo de Sousa tem toda a razão. 

sábado, 25 de janeiro de 2020

Polica e futebol: essa mistura explosiva


Este país, por vezes, parece uma anedota. Grande nalgumas áreas e depois rasteiro nas coisas relativas à volatilidade e ao egoísmo. É o que tem acontecido com os chamadas Leaks, também conhecidos por fugas de informação. Especialmente quando estes rombos na confidencialidade se referem ao futebol português.
Com a política a reação é pacífica. Mas se este fenómeno se referir ao Benfica, a equipa que ajudou a suportar a guerra de África e a emigração de Paris, então cai S. Bento e a estátua do marquês. 
Em Portugal nenhuma instituição se compara em termos de importância ao clube da Luz. É neste contexto que se integra a história recente de um tipo de cerca de 30 anos, licenciado em História e especialista autodidacta em informática. Chama-se Rui Pinto e é acusado pela direcção benfiquista de ser o autor da invasão no correio electrónico do clube, apropriando-se de informação prejudicial para o sucesso futebolístico encarnado.
É preciso prender o autor de tal desaforo! — vociferaram em coro nas televisões os comentadores do costume. E aqui começa a ingenuidade das instâncias judiciais e da polícia portuguesa. Ouviram dizer que o hacker estava em Budapeste e nem pensaram duas vezes. Mas quem é o rapaz? “Isso não interessa, o povo e o governo vão gostar da nossa eficácia.”
Azar: o tal curioso das coisas da informática e presumido hacker do Benfica é tão só o fundador da plataforma Football Leaks, denunciadora de fenómenos de corrupção do futebol a nível mundial. Quando se deram conta já era tarde demais: os húngaros autorizaram aliviados a sua extradição e os portugueses viram-se obrigados a gizar uma nova estratégia. Expuseram-no à chegada a Lisboa como fizeram um século antes com o rei Gungunhana e, de seguida, prenderam-no numa cela de alta segurança, onde está desde Março de 2019, sem poder contactar outros reclusos e guardado como se fosse cabecilha do Daesh.
Claro que a resposta do “nerd dos computadores” havia de fazer-se sentir, a começar na anunciada divulgação de informações de interesse colectivo. As primeiras aí estão, os Luanda Leaks. “Mas que importância tem Angola comparada com a grandiosidade do Benfica?” — continuam a pensar os responsáveis políticos e judiciais, esquecendo-se que Rui Pinto ainda só disponibilizou uma pequena parte do volume de informação que possui. Vem aí matéria sensível sobre procuradores-gerais, primeiros-ministros, banqueiros, deputados, advogados de firmas muito conhecidas. 
E tudo porque os dirigentes da administração judiciária e policial escolheram a via do sucesso fácil quando foram buscar o Rui Pinto a Budapeste. Isto para além de continuarem com os tiques que os definem pelo menos desde a inquisição. 

domingo, 19 de janeiro de 2020

A morte triste do Giovani


O caso do homicídio do jovem cabo-verdiano Luís Giovani Rodrigues é mais interessante em termos de estudo do inconsciente social do que apressadamente se poderia pensar. O crime ocorrido numa cidade pequena, aparentemente pacata — onde estudam no instituto politécnico local jovens oriundos de 70 países — foi motivo de atenção mediática permanente nas últimas semanas. 
Bragança, o burgo onde as coisas se passaram, é um caso de sucesso no que à integração de diferentes povos e diferentes culturas diz respeito. Mas a morte do rapaz cabo-verdiano fez abanar os alicerces aparentemente sólidos da socialização conseguida até aqui. Não por razões raciais, a questão ultrapassa essa facilidade de catalogação, mas por causa das mudanças que o viver colectivo brigantino vem descobrindo no interior de si mesmo.  
De uma sociedade rural, em que a maioria das pessoas vivia numa situação de pobreza, passou-se em algumas décadas apenas, para uma estratificação comunitária assente no crescente rendimento da agricultura direcionada para alguns produtos de excelência e, principalmente, na revolução proporcionada pela abertura da escola às diferentes classes sociais.  
Claro que nem todos aproveitaram essa democratização do ensino de igual forma: os filhos da emergente classe média foram os grandes beneficiados. Muitos daqueles que provinham de famílias sem hábitos culturais, continuaram irredutíveis às mensagens de incentivo que lhes eram transmitidas pelas escolas e mantiveram-se à margem desta mudança. Sem que a culpa fosse só deles — afinal a progressão social não se faz do dia para a noite. 
Entretanto, os jovens que tinham objectivos bem definidos — tanto por eles como pelas suas famílias — entraram em grande número nas faculdades de medicina, engenharia, biotecnologia, economia, direito e outras.
A somar a este contingente, há a considerar ainda os que escolheram o Instituto Superior Politécnico de Bragança para estudar. E, depois, os estrangeiros: eslavos, africanos, do Médio Oriente , da Ásia, da América do Sul. 
E é aqui que a mais elementar das perguntas ganha sentido: onde se encontram nos períodos de ócio, todos eles, os que frequentam o ensino superior e aqueles que só estudaram enquanto foram obrigados pelas políticas governamentais? Na noite de Bragança, é óbvio. 
De acrescentar, em termos de informação histórica, que tem profunda tradição a vida nocturna da capital nordestina. 
O resto da explicação do triste fim do Giovani é do conhecimento ou intuição de todos. O comportamento ainda originário das tradições rurais que se materializa nas célebres esperas em grupo, na pseudo-honra recuperada pelo exercício da violência, na desconfiança em relação aos que são oriundos de um mundo diverso, no comportamento machista da sociedade brigantina em geral, necessariamente se irá confrontar, numa via de duplo sentido, com aqueles que podem vir a constituir ameaça ao sentimento de posse seja a que matéria, espaço ou pessoas se referir. 
Fica só a faltar o álcool: às duas da manhã, rapazes e raparigas estão em grande número embriagados. E entre eles, conforme seria de esperar, estão os que se sentem à margem de tudo e de todos: das jovens mais bonitas, dos candidatos às profissões invejadas, dos novos doutores, dos objectivos que ultrapassem o efeito da madrugada. Não estudaram, a escola nada lhes dizia e agora pouco há a fazer. A não ser combinar uma espera aos primeiros pobres coitados que saiam na rifa da noite, munidos de um poder que não têm. Mas isso eles fingem não saber.
Em resumo: duas nações, duas culturas, coincidentes no tempo e inconciliáveis entre si. 
Wundt, Jung ou Lévi-Strauss quando trabalharam a psicologia social contactaram com realidades próximas desta.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

Encontro com Deus


Acabo de chegar ao Ritz. Demoras muito?

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Em representação permanente

Se os donos do mundo fossem sempre assim as coisas poderiam ser mais fáceis. Mas não são: é tudo mentira. Naquele bar vietnamita quase ninguém é aquilo que aparenta ser. A representação é o esteio que sustenta as paredes e a conversa dos convivas. A auto-confiança do presidente contrasta com a fragilidade do apresentador da televisão. Mas isso para já ninguém sabe. A verdade só se revelará quando o apresentador morrer enforcado num quarto de hotel em Nice. Nessa altura será preciso arranjar um novo comparsa para a mesa do Obama.

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

Voltou o CR7


Uma coisa tem de se admirar neste puto reguila: a capacidade que tem de perante os momentos menos conseguidos — e que o atormentaram no final de 2019 — começar o ano com um novo corte de cabelo, um iPod fora de moda, uns óculos atrevidos, e, principalmente, uma força cerebral que só está ao alcance dos melhores. Resultado: três golos no primeiro jogo de 2020 e o sorriso de sempre estampado no rosto.

domingo, 29 de dezembro de 2019

Balanço de final de ano


























Mais um ano a chegar ao fim e eu sozinha. Tentei e nada resultou: inscrevi-me nas danças de salão, no curso de alemão, no Instagram... e o lugar ao lado do meu deserto no sofá lá de casa.  
Nada disto tem a ver com solidão. A circunstância de estar só nunca me assustou; pelo contrário, muitas das vezes prefiro ver as pessoas ao longe e imaginá-las no seu viver abnegado de gente simples. Nessas alturas crio-lhes identidade, invento-lhes enredos literários. Mas depois percebo que as histórias dos outros são meros paliativos da minha.  
Sempre quis ter uma família — um homem e filhos. Desejos de gente mediana que os meus pais souberam moldar em mim. 
Estive quase a iniciá-la. Mas depois aconteceu a desgraça que me faz estar tal como me sinto hoje. O único homem de quem verdadeiramente gostei — só o soube depois — foi embora para sempre por culpa minha. 
De então para cá, quando me apetecia ter alguém na cama, trazia mulheres e homens que há algum tempo havia escolhido na noite ou no escritório. Mas sabendo de antemão que nunca passariam de meros fogachos na penumbra em que se havia transformado a vida. 
No Verão deste ano resolvi consultar um conselheiro filosófico prestigiado. 
Disse-me que estava na altura certa de procurar o homem da minha vida. Perguntei-lhe onde achava que o deveria procurar. Olhou para mim e respondeu de forma inequívoca: Assembleia da República. Fiz-lhe ver que uma mulher branca gaga como eu poderia ter dificuldade num meio como aquele. “Qual quê? Lá todos gaguejam de uma forma ou outra”.
E aqui estou eu à espera de 2020, cheia de esperança no tempo que aí vem. Vou iniciar, na segunda semana de Janeiro, as lides parlamentares com uma intervenção sobre “A Política e a Procura do Homem Novo”. 
Uma coisa é certa: se não o encontrar nos corredores ou no restaurante da assembleia, volto a procurá-lo junto do tal conselheiro filosófico. Palavra de mulher apaixonada.

sábado, 26 de outubro de 2019

Aniversário do Henrique de Barros


Está na Amazónia e na galáxia Redshift. Entre vegetação luxuriante e terra seca. Na crista de uma onda na Praia Norte e no remanso da água do banho. 
E junto com ele, na sua página do Instagram, a Vodka. A altiva gata é simpática com todos de quando em vez. Não muitas porque cansa. Mas com o Henrique, ele pode fazer dela boneca de borracha que a bicha não reclama. Mais: beija-o o e lambe-lhe a cara o tempo todo. 
É um sedutor o rapaz. Ele sabe disso. Mas ultimamente vem aprendendo que não podemos agradar o mundo todo. Fazer com que a Marta goste de nós significa que o Artur vai detestar-nos; que ou se seduz a vida lá fora ou a escola onde estudamos — uma e outra, ao mesmo tempo, é difícil.  
E por vezes o Henrique sofre com isso. A liberdade de sermos quem queremos ser é aparente. Alguém controla coisas que deveriam ser só nossas. 
A sua inteligência está agora a avisá-lo desta realidade. 
Também só tem onze anos. Onze?! Não, não... tem doze anos, feitos hoje bem cedo, logo pela manhãzinha.  
Está quase um homem o Henrique. E sonhador e turista e actor. E eu, enquanto pai, cheio de medo — que sina! —, o rapaz tem os mesmos atributos os mesmos pecados de mim. 
Por isso é que gosto tanto dele e, ao mesmo tempo, olho-o com receio de tudo. 
Mas ele há-de ser feliz. Hei-de ter tempo e engenho para avisá-lo de todos os escolhos que vai ter de enfrentar.  
Parabéns Henrique. Não largues nunca a minha mão que só te quero feliz. O resto não interessa nada. 
Um beijo. 
O pai.

quarta-feira, 16 de outubro de 2019

Aniversário da Maria Leonor de Barros


O amor de um pai por um filho é de um tamanho sem fim. Não se pode definir, expressar através de palavras. Ultrapassa a dimensão de racionalidade exigida pela lógica. É vida que se anula em favor de outra. 
Gosto muito da Leonor. Olho para ela e sinto-me ao espelho. Sei tudo o que ela pensa e sente. Como se fosse eu outra vez. 
Faz hoje 14 anos, a Leonor. Em qualidade de raciocínio parece ter já chegado à maioridade. É absolutamente brilhante em tudo o que faz. Aluna do quadro de mérito sem nunca a ter visto estudar. Toca violino, canta, tem aulas no conservatório e no liceu sem se queixar do seu horário transcendente em relação às leis da razão.  
É muito melhor do que eu. Vai ser aquilo que quiser ser. Feliz, assim espero.  
Passei as últimas horas à procura de uma fotografia dela. Sem sucesso. Vi-me obrigado a buscar o rosto desfocado da Leonor em recordações de um jantar de amigos. 
Sem que ela suspeite de tal afronta. Também eu não gosto de estar em fotografias. 
Somos parecidos, Nonô. Por isso é que me sinto tão emocionado quando fazes anos. 
Não consigo escrever mais nada. Se calhar nem devia ter começado este arremedo de palavras. Mas se não o fizesse não estava a cumprir a tradição que impus a mim mesmo há muito tempo. 
Sê feliz, minha querida filha. Se o fores — e só se o fores — também eu serei. Meu amor.

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

A mentira dos homens


Mas que mentira te disseram! Não deves confiar nos homens que choram no teu regaço a afiançarem que sofrem por ti. Só querem saber deles. Nasceram e vão morrer narcisistas. No momento em que lhes disseres que estão perdoados começam logo a pensar na tua melhor amiga ao sol. Dá-lhes um Kleenex e deixa-os chorar à vontade. Só lhes faz bem sentirem a escorrer pela face as impurezas todas.

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Diogo Freitas do Amaral


A vida é preenchida por momentos-chave, situações marcantes e por pessoas. Muitas pessoas. Umas que conhecemos, outras que nos habituamos a ver, a ler ou a desejar. Marcando o tempo ou os tempos. Fazendo com que o ano de de 1989 seja o ano de Tiananmen, do muro de Berlim, da Teresa e da Amélia, do Marcelo a mergulhar no Tejo.
 
Nessa galeria de homens e mulheres que marcaram o meu cenário de vida está Freitas do Amaral. Não que eu fosse seu correligionário político, mas porque ao lado de Soares, Sá Carneiro e Cunhal fundou um novo tempo em Portugal. 
No dia em que ele morre, vem-me à memória a ocasião em que o vi, a ele à mulher, dentro do Volvo cinzento a ser embalado pela turbe enfurecida a gritar “fascista”. Na cidade de Viana, era eu uma criança que adorava a contenda política. 
E Freitas do Amaral imperturbável. Tinha ele 33 anos e já era professor prestigiado de Direito Administrativo. 
Esta história que presenciei associo-a à retirada da sua fotografia da sede do partido que fundou. Por decisão de uns meninos mimados que nasceram com as coisas todas à disposição. 
De então para cá, a qualidade da formação moral e académica dos políticos nacionais tem vindo a degradar-se. Estadistas a sério não apareceram mais. Culturalmente, então, são um deserto de tudo que represente uma visão esclarecida do futuro. Não sendo capazes de se adiantarem ao tempo. Reagindo apenas ao acessório. 
E o sobretudo verde que não voltará. Nem a plasticidade do raciocínio de Soares. Nem a perseverança e a coragem de Cunhal. Ou o poder de sedução de um povo pelo atormentado Sá Carneiro. 
Descanse em paz, Senhor Professor. 

Foto Revista Maria