sábado, 22 de julho de 2023

Inauguração do Verão


Ó p’ra mim a inaugurar o Verão. Acabo de me sentar na esplanada da praia, olho em volto, vejo moscas em pleno voo de reconhecimento, duas jovens nórdicas com as faces avermelhadas, cabelos cor d’ouro, lindas de morrer afogado no mar do desejo — a baterem convictas nas pernas, na tentativa de matarem os vis insectos. 
Olho para a cena e percebo que alguma coisa não condiz com o imaginado pelo português médio.
Não sei bem o quê. 

sexta-feira, 7 de julho de 2023

Os professores


Vêm das berças, das casas humildes de trabalhadores que investiram tudo nos filhos para um dia serem respeitados, cumprimentados por todos, o senhor abade a falar com eles como se fossem iguais.

Estudaram muito, nunca tinham lido livros só com palavras, deram tudo de si, pagaram para ir trabalhar para o Alentejo, Algarve — os filhos, os maridos e por último os casamentos a ficarem para trás.

Ganhavam muito mal mas os mais velhos sempre a incentivá-los para não desistirem: “a partir do oitavo escalão (numa carreira de dez) então começará a valer a pena”. Era um investimento de longo prazo, a reforma ia compensá-los.

E eles a acreditarem. Até que chegou a Maria de Lurdes Rodrigues, o José Sócrates e o Partido Socialista — e os professores nunca mais tiveram descanso: insultados na comunicação social, na opinião pública, no comportamento desbragado dos alunos ansiosos por deixarem de o ser.

E os inimigos da escola para todos a conseguirem atingir os seus intentos. Actualmente, os professores que atingem a reforma, na sua quase totalidade, não têm forma de pagar o mais miserável dos lares para velhos. Só com a incerteza da ajuda da Segurança Social. Partiram a espinha a esses malandros. A carreira onde ingressaram já não existe. E eles, obedientes, a aceitarem tudo.

Desta forma, o estado português pôde poupar muito dinheiro. E a escola do futuro, dos nossos filhos e dos nossos netos, o que vai ser dela? Calma, cada coisa a seu tempo, ou se investe na escola privada ou então nos professores brasileiros, angolanos, moçambicanos, cabo-verdianos, guineenses.

Esse problema já não é nosso.

O tempo da escola ficou para trás, os cabelos brancos fazem-nos interessar pela exploração do hidrogénio verde e do lítio, pelo crescimento da bolsa de Madrid e o florescimento dos offshores do Panamá. O resto não interessa nada.

sexta-feira, 30 de junho de 2023

Luís Aleluia


No tempo em que a noite era o meu dia ceava eu num restaurante de noctívagos, deveriam ser duas da manhã. Na mesa ao lado estava o menino Tonecas acompanhado pela trupe que logo se via ser aquela com quem com ele trabalhava. Comiam depois de terem dado um espetáculo, percebia-se.

Do aluno batoteiro da televisão, nada. Era o actor Luís Aleluia que ali estava, notava-se no rosto cansado, taciturno, em silêncio o tempo todo. Palhaço triste como todos os que cumprem aquela função. Metido consigo mesmo depois de ter levado às gargalhadas a plateia durante a representação.

Aos nove anos, o pai divorciado e doente no Caramulo morreu e é nessa altura confiado à Casa do Gaiato de Setúbal. Assegura que aqueles foram os melhores tempos que viveu. Aprendeu que é em comunidade, uns com os outros, que tudo vale a pena. 

Mas as marcas ficaram. Nota-se no medo da solidão – embora precise dela como pão para a boca. É como se nunca tivesse deixado de ser o menino carente, abandonado pela ventura de ser feliz.

Por isso é que se dedicou à causa dos outros ajudando um sem número de organizações solidárias. Procurou o bem e raramente o encontrou em si. Deu alegria aos outros e só. A ferida aberta, agora sabemos, nunca se fechou. 

Nem mesmo na passada sexta-feira, dia vinte e três. Apenas foi para intervalo. 

Num ímpeto montou o cavalo negro e galgou os horizontes à procura da paz apenas reconhecível na paisagem verde do Caramulo.

domingo, 25 de junho de 2023

A partida


“Mas que mania esta gente tem de me achar esquisito. O que é que tem de mal estacionar o veículo de locomoção ao lado da esplanada onde me sentei a beber uma Coca-Cola Zero? Provavelmente é por não ser um Opel Corsa ou um Renault Megane. Mas agora também somos obrigados a escolher o de sempre, que não destoe daquele que a D. Engrácia Antunes — vizinha e bisbilhoteira-mor do bairro onde moro — comprou há uns tempos?
Vou abandonar por umas semanas este pó puxado a muito sol. Ibiza me espera. ‘Mas lá não podes acompanhar as reuniões das comissões de inquérito’, disse-me preocupado um colega. Quero lá saber dos Costas, do Montenegro e da ‘entourage’ imbecil que os acompanha. À minha espera está a viscondessa de Ferrol e a sua linda descendente. E também a areia e o mar e a noite, meus velhos conhecidos.
Ligar os motores, o painel de instrumentos diz que está tudo ok, partida — que já só vejo a gente ainda mais pequena que costume. Vou encontrar-me e já volto.”

sábado, 10 de junho de 2023

10 de Junho


Castanheiro milenar em Lagarelhos, Vinhais. Catorze metros de diâmetro, pode-se entrar dentro dele e namorar. Árvore de Interesse Público. Testemunho da perenidade da natureza.

Hoje passei por ele e resolvi sentar-me num dos bancos a olhá-lo.


No dia das efemérides. Uma que corresponde a uma ideia geral, a um conceito que há novecentos anos tem vindo a fazer caminho – a maior parte das vezes de forma sinuosa. Refiro-me, naturalmente, a esse belo país, dolente e magistral, remediado e opulento, que se chama Portugal.


A outra que se refere à mais concreta das realidades, de abrangência pessoal e, por isso, intransmissível. Rosa-dos-ventos da minha vida, esteio seguro num percurso inconstante, garante de futuro onde parece haver só passado.


A primeira, utopia transformada em terra e mar. A segunda, mulher que nasceu para ser corpo e mente materializados numa utopia em formação. Saber-fazer em substância viva. 


Uma que vem de, outra que vai para – ambas com o tempo como horizonte de explicação. 


As duas comemoram em 10 de Junho o seu dia. Amo uma e outra. Mais do que isso: elas são o leitmotiv da minha vida. A ideia e a realidade. Às vezes o contrário. E aí reside o assombro de tudo isto.


Adeus, castanheiro – história e fruto, sombra e alimento. E sobrevivência.


Feliz dia, meus amores. 

sexta-feira, 26 de maio de 2023

No primeiro aniversário da morte do meu Pai


Dia de escrever com o meu pai no escritório da Casa da Pata, onde eu nasci. “Pai, hoje vamos falar de quê?”. “Vamos falar dos dois, de mim e do Serginho que tem uma vida toda pela frente”.

Na altura não percebi. Para mim o meu pai viveria para sempre, pelo menos tanto quanto eu. Mas não disse nada. Era preciso escrever com urgência, os leitores estavam por certo à espera. 

“Pai, eu quero viver contigo, com a mãe e com o Rogério”, não resisti em dizer. O meu pai olhou para mim, sorriu e não disse nada. 

Folheou o velho álbum de fotografias e pegou numa. Era ele a passear com um amigo numa rua do Rio de Janeiro, à noite, tinha dezasseis ou dezassete anos, os dois a imitarem o Visconde de Valmont e o Don Juan. Mas sobre isso ainda eu não sabia nada. 

* * *

 

“Vamos então ser, uma vez mais, escritores. Olhando para o rosto deste dois solitários rapazes, o que vês, Serginho?”, perguntou-me. “Sonho, vontade de chegarem a um sítio que não conheço”, disse num ápice, quase sem pensar. 

“É isso mesmo, para quem como o teu pai havia chegado há pouco tempo de Viana, sozinho num navio grande, a cidade do Rio de Janeiro apresentava-se como um mundo novo”.

A maioria das coisas que ele me dizia eu não entendia, mas, ainda assim, gostava daqueles dias de escrita na Casa da Pata. 

“Vamos lá então começar, anunciou o meu pai:

À noite, às ruas eram palmilhadas por aqueles que procuravam nos botequins e outros estaminés a vontade de matarem o desejo de carinho, nem que fosse apenas de alguma atenção.”

(…)

***

“Serginho, faz hoje um ano que recomecei essa viagem iniciada por volta dos meus dezasseis anos. Naquela altura descobri um mundo novo e um miúdo que eu próprio desconhecia. 

Interrompi esse devaneio para vos amar e ajudar a criar um grupo novo de pessoas capazes de prosseguirem o caminho. Esse grupo é coeso, tem gente de valor, já ninguém tem razões para se perder no percurso. 

Chegou, por isso, a altura de recomeçar a viagem. Estou neste momento nas esplanadas de Guanabara a olhar para ti, meu filho. Domingo vou a Istambul ver como as coisas correm depois das eleições. 

Mas sempre atento à tua vida. Pronto para actuar se necessário for. Embora acreditando sem hesitação em ti. 

Os escritores sabem quase sempre tudo. 

Um beijinho do teu pai."

 

(No dia do primeiro aniversário do passamento de Matias de Barros)

 

sábado, 20 de maio de 2023

O pedido da D. Lurdinhas


Há dias que a D. Lurdinhas anda a falar nisto, não sei onde foi buscar a ideia, porventura às telenovelas que passam na televisão portuguesa. “Se o doutor não se importasse, gostava de passar a ser tratada de chefe de gabinete em vez de, simplesmente, gerente” – o rosto dela sério e constrangido a olhar para mim, sinal de que era coisa séria o pedido.
Anuí. Afinal, como poderia dizer que não a um pedido daquela mulher-santa que surgiu na vida deste vosso amigo? Ficou tão contente que os braços logo rodearam o meu pescoço e deu-me um furtivo beijo na face. Quase me emocionei.

terça-feira, 16 de maio de 2023

Ser escritor


Sempre achei que escrever bem é o exercício criativo mais difícil de todos. Não estou a falar de juntar letras numa folha de papel com um recado para alguém. É mesmo da arte nascida da adesão de ideias a palavras, ao som que elas produzem no fim da frase, à reflexão que provocam em nós, à imagem de cada um refletida no texto (mesmo que recusada), ao ato da procura ansiosa do desenlace da história que lemos – isso sim, escrever bem é isto.

Mas aqui reside a dificuldade daquilo que dizíamos. Por isso é que fazer de uma ideia, de uma metáfora, por exemplo, o dilema que conhecemos bem de o termos vivido já sem nunca o termos resolvido, contado em poucas palavras, sem grandes arranjos florais, com palavras fáceis, não está ao alcance de todos. Por isso é que não é escritor quem simplesmente o quer ser.

Na maioria das vezes pressupõe um jeito que não se explica, associado à técnica aprendida à custa do treino incessante da escrita, mas, além disso, ao olhar perscrutador confundido com voyeurismo, à solidão impraticável para o homem comum, à desordem emotiva com que vive algumas situações.

Neste dois últimos meses tive o privilégio de ouvir do escritor João Tordo, numa sequência programada, alguns dos segredos da produção literária. Li textos escolhidos por ele, discutimo-los, acompanhei a dificuldade da escrita ficcional.

Garanto-vos que se desde criança promovi em mim o defeito de endeusar os escritores, depois deste tempo de estudo fiquei a admirá-los ainda mais. Preciso urgentemente de alcançar a simplicidade que é traço aparentemente inacessível na escrita daqueles homens e mulheres.


Na foto: o escritor Javier Marias no escritório da sua casa.

quarta-feira, 26 de abril de 2023

Amor condicionado


“Vocês, mulheres, nasceram para dar cabo da cabeça aos homens...” 
“Ai, não, senhor Raimundo, desta vez é a sério. Finalmente encontrei o homem da minha vida. É bem parecido, faz consultoria no ministério, tem três carros e não falha um jogo em Alvalade. Além disso é escritor”, diz a Lola com um pontinha de vaidade.
“Escritor? Então o serviço é mais caro. Não demora nem três meses e a menina está aqui outra vez. Os escritores querem estar sempre a experimentar o mundo no corpo das mulheres. Saltam de um vale para uma montanha depois mergulham no rio para se anicharem por fim na planície. Não se pode acreditar neles”, diz o sábio do senhor Raimundo.

quinta-feira, 20 de abril de 2023

González e o socialismo actual


Sinto-me chocado ao ver Felipe González na festa de um partido que nada tem a ver com aquele que um dia conheceu. Não sabe o que se passa em Portugal mas eu lembro-me de o ver (nunca esquecerei o tamanho daquele nariz) ao lado de Mário Soares num tempo em que a Europa contava com um naipe de políticos de excepcional qualidade. 
O PS português é hoje um partido populista, sem ideologia e sem desígnio claro. Esquecido que nasceu com homens e mulheres que se distinguiam na área da cultura, do direito e da docência.  
Actualmente os seus apoiantes votam no PS, amanhã no Chega, resultando a sua volubilidade da ignorância programática e da preferência manifesta no bota-abaixismo vertido nas caixas de comentários a propósito dos outros, a quem culpam pelas suas frustrações pessoais. 

Foto Público

sábado, 15 de abril de 2023

Reconversão do centro histórico de Viana





Esta semana recebi uma grande notícia em Viana: a antiga Pastelaria Caravela foi comprada e ainda este Verão reabrirá. Para quem, como eu, sentia enorme tristeza quando visitava a Praça da República – vazia de gente e de bulício –  a reabertura da Caravela reveste-se de uma grande importância. 

 

Foi-me também dito que uma empresa de grande sucesso no sector da pastelaria e panificação tentou alugar o espaço dantes ocupado pelo Café Américo, o que seria a cereja no topo do bolo. Os mais novos que não entendam a importância da restituição à praça do Café Américo, pensem no equilíbrio estético conseguido com uma esplanada no flanco oposto ao da Caravela. Lembrem-se que actualmente a Praça, em termos de indústria de cafés e restaurantes pende apenas para um dos lados, o que a empobrece em termos visuais e não só.

 

Por último, uma provocação: a última reconversão urbanística da Praça da República data de 1989. O centro histórico foi, todo ele, nessa altura, pensado de acordo com a ambiência de uma cidade medieval, tal como acontece em Guimarães e nalgumas zonas de Braga. Só que Viana tem o seu apogeu histórico não na Idade Média, mas sim na Idade Moderna, traduzida ao nível artístico no Renascimento e nos seus desdobramentos, Maneirismo e Barroco, o que a torna muito diferente na concepção urbanística. 

 

A minha sugestão é repensar,  com o engenho de Siza Vieira ou de Souto Moura, ou dos dois, o centro histórico da cidade capital do Alto-Minho. Guimarães é o que é hoje em termos de reconhecimento nacional por causa do plano de reabilitação urbana levado a cabo por Fernando Távora nos anos 1980 (ao contrário do que aconteceu em Braga onde se construiu sem um projecto geral definido).

 

Viana está a precisar de uma reflexão urbanística de monta urgentemente e, muito em particular, do casco histórico. Quem sabe se não serão recuperadas as cores branco e negro do calcário da placa central (ou algo assim) da Praça da República? Ou mesmo retirados os painéis envidraçados nos baixos dos antigos Paços do Concelho. Ou ainda proibidas as longas tiras publicitárias que tapam as varandas de ferro forjado das casas do centro de Viana.

 

FOTOS:

1 - Pastelaria Caravela;

2 - Café Américo (naquele espaço comercial com as montras tapadas com painéis publicitários );

3 - Exemplo do que não se deve fazer;

4 - A praça nos inícios do século XX.

sábado, 1 de abril de 2023

Os amores nunca contados de Roberto Cotrim e seus companheiros na ilha deserta


Este é o relato da sobrevivência de três indivíduos, iguais a muitos de nós, numa ilha do mar das Caraíbas, perto de Trinidad. São eles o Roberto Cotrim, de origem portuguesa e emigrante em Hamburgo, o Wednesday Saliou, descendente de camaroneses nascido em Berlim, e a Camila May, inglesa a viver há muitos anos em Munique. Quando o destino os juntou na ilha, nenhum deles se conhecia, e muito menos suspeitava que as suas vidas se iam entrecruzar de um modo tão intenso.
Em frente às cabanas de madeira onde dormiam, as areias muito brancas espraiavam-se até ao mar. Mais nenhum ser humano andava por aquelas paragens, a vida manifestava-se na natureza de origem  tropical e na enorme quantidade de bichos que por ali apareciam. Sem contar com o viveiro natural de peixes, mariscos e moluscos de toda a espécie que as águas caribenhas albergam.

Roberto e Wednesday foram os primeiros a chegar à ilha. O português logo se revelou o mais influente na tomada das decisões e o menos operoso nas tarefas do dia a dia. Inteligente, com quarenta e alguns anos, diretor de um jornal destinado à emigração e eterno candidato a escritor, notava-se nele o cansaço de situações vividas que queria deixar para trás. A maior parte das vezes manifestava a vontade de estar só com os seus pensamentos.

O Wednesday era muito diferente. Dócil, operoso, pescava o peixe, caçava as presas, cozinhava, e suportava os desvarios de Roberto. Impressionava pelo seu porte físico, qual Adónis negro, rosto harmonioso e corpo preenchido por músculos herdados de gerações de camaroneses habituados ao trabalho braçal. Sofria em segredo, no entanto, desde adolescente por ter um pénis pequeno. Chamava-se Wednesday, numa homenagem do seu pai à vitória do Porto, na final da Liga dos Campeões Europeus, disputada em 27 de Maio de 1987, uma quarta-feira, dois dias antes do seu nascimento. Era professor de matemática num liceu de Berlim.

Só depois surgiu a Camila, um alvoroço em forma de gente, como sempre acontece quando uma mulher invade um reduto masculino. Não era bonita, longe disso, era magra como uma inglesa das antigas, tinha uma espécie de malota, salve seja, no cimo das costas e um andar desconjuntado. Fora isso, destacava-se pela boa disposição, acerto das sentenças que proferia a propósito de todas as coisas, capacidade organizativa e, claro, visão prática do mundo efabulado em que aqueles dois tinham andado atá ela aparecer.

Para além disso, conforme se veio a verificar mais tarde, era versada em matéria de amor e de sexo, coisas que não se podem considerar despiciendas numa ilha deserta. Ainda por cima, sabendo-se que os três habitantes daquele espaço andavam permanentemente nus. 

A verdade é que, logo na noite em que a Camila chegou, depois de o Wednesday lhe ter oferecido uma galho florido que colheu enquanto caçava, dormiu na cabana dele e durante todas as noites que se lhe seguiram.

A este respeito convém esclarecer que as noites com o negro Adónis só aconteceram na sequência da recusa continuada do Roberto Cotrim em deitar-se com ela. Camila tentou desde o primeiro momento, mal o apanhou sozinho:

– Nem vale a pena tentares, nunca o aceitarei – disse o jornalista com voz compassada, própria de quem sabe o que afirma  – hoje seria só sexo, amanhã também, daqui a uns tempos poderia ser outra coisa. E não quero mais, a minha vida foi toda isso. Vou conservar a liberdade que encontrei nesta ilha.

– É a primeira vez que vejo alguém confundir o amor com a falta de liberdade. Pelo contrário, o autodomínio só acontece quando sentimos que gostam de nós. Sem isso não é possível  sermos livres do medo, do futuro, da morte. E felizes, claro...

– Pode ser que um dia te venha a dar razão, por agora quero quebrar o ciclo que parece não ter fim de um percurso feito de algumas alegrias, mas também de enorme sofrimento. Sinto-me cansado – rematou a conversa o Roberto quase escritor.

Os dias seguiram tranquilos no paraíso em que aqueles três habitavam. O mar transparente entabulava conversa com eles todos os dias, umas vezes a aquietá-los quando nele avançavam a nado, outras falando lá longe, mas manifestando-se sempre atento. O sol muito claro fazia o mesmo, já os tratava como amigos.

Mas a passagem do tempo ainda que parecendo nada modificar, acaba por deixar a sua marca. 

Num fim de tarde, estava o Wednesday a pescar para o jantar, no mar em frente às cabanas, enquanto o Roberto pensava deitado na areia. A Camila aproximou-se do jornalista e deitou-se ao seu lado. O silêncio foi a linguagem adotada pelos dois durante alguns minutos até que ela voltou ao assunto de sempre:

– Não sei como é possível alguém recusar o amor com um cenário destes, a tranquilidade e o sol a envolver-nos.

Nessa altura, Wednesday vê-os e agita os braços em jeito de saudação. Camila responde-lhe  esbracejando também. Roberto continua calado e quieto.

– Sabes uma coisa? – insiste ela –Vou inscrever-te num curso de inteligência emocional com um grande psicólogo, o Dr. Quintino Aires. Talvez seja a melhor forma de redescobrires o amor, seja pelas pessoas que participam nas sessões virtuais com ele, seja pelos livros que veneram. Ou então pela sabedoria do formador nestas matérias. 

O português continua mudo. Ela resolve finalmente não dizer nada e aproveitar o sol a percorrer o corpo de ambos. A sensação de quietude torna-se agradável, a paz envolve-os e do resto a natureza encarrega-se. A representante do género feminino naquela ilha olha de soslaio para o centro do mundo do homem a seu lado e vê-o erguido em direção ao sol. Levanta-se sem disso fazer alarido, pega no promontório, baixa o corpo de forma lenta e mete-o dentro de si. 

Segue-se um vai vem dominado pelas ancas e pelas coxas experientes da Camila, num movimento vagaroso, mas firme, enquanto o Wednesday detém-se imobilizado pela surpresa no mar em frente dos amantes.

As mãos dos dois fincam com cada vez mais força as areias que lhes servem de leito, o coração bate ansioso e, nesse momento, aproxima-se pelo ar um helicóptero da RTL5, a estação televisiva organizadora do reality show em que os três magníficos participam.

Da aeronave em forma de pássaro saem homens, mulheres e um sem número de máquinas. É a noite do espetáculo final da 48ª edição do programa. A praia ilumina-se com potentes holofotes, um homem vestido fala para as câmaras, entrevista os concorrentes e anuncia o vencedor escolhido pelos telespectadores: Wednesday Saliou.

No dia seguinte já a ilha é apenas saudade. Camila May vai viver com o alemão-camaronês, e de tempos a tempos visita a cama do jornalista português. Cada um deles procurando no outro a liberdade.

 

quarta-feira, 29 de março de 2023

O Assessor do Presidente


Há muito que percebi ter um sentido de humor diferente do das outras pessoas. Chego mesmo a divertir-me com situações a que quase ninguém acha piada.
Foi o que aconteceu naquela noite em que resolvi assistir a uma conferência de Marcelo Rebelo de Sousa. Corria o ano de 2015 e o professor ainda não tinha anunciado a candidatura à presidência da república embora a decisão estivesse já tomada. 
Talvez por esse motivo, a sala onde Marcelo discorria sobre a beatitude de João Paulo II não parava de encher. Os próprios corredores ao lado da plateia estavam a ser tomados. E eu à frente daquela gente toda, muito próximo do púlpito do orador — como sempre, aliás. 
Mas houve um momento em que o discurso estava a interessar-me menos, para além de que o calor daquela gente toda começava a fazer-se sentir e, por isso, resolvi tomar conta da situação. Encaminhei os presidentes de câmara e de junta que chegavam para os últimos lugares do auditório, mandei sair da frente dos corredores os candidatos a políticos que ali pululavam.  
A seriedade com que exerci as minhas novas funções foi de tal ordem que as pessoas já vinham ter comigo a perguntar se podiam sentar-se em determinado lugar. 
Um ou dois dos presentes ainda me questionaram acerca do estatuto para tanto, ao que eu respondi, num tom muito grave — aliás condizente com o secretismo da função — integrar o gabinete do senhor professor.  
Quando a conferência acabou, e já depois de eu ter cessado as minhas atribuições, Marcelo dirigiu-se aos jornalistas presentes e — surpresa! — teve o desplante de durante cerca de vinte minutos fazer-se passar por primeiro-ministro. 
Fiquei chocadíssimo com a atitude daquele homem.

Foto Web Summit

sexta-feira, 3 de março de 2023

Família portuguesa


Portugal a olhar de frente a lente fotográfica. A timidez atávica misturada com a humildade costumeira a dar sinais de si. Os mais velhos ciosos da solenidade que o momento exige. Os mais novos assustados com o relâmpago que aí vem. 
É a típica família portuguesa dos inícios do século XX. Da pobreza que viveram desde sempre até à situação de lavradores remediados. Suportando o sacrifício do trabalho quase comparável em grau de violência à escravidão. Tudo para para deixarem à geração seguinte um património maior. Capaz de assegurar a sobrevivência eterna e não apenas provisória. Que foi aquela com que sempre viveram. 
E foi assim que se fez Portugal durante os últimos cem anos. País remediado, governado por uma elite que não merecia a bonomia com que o povo lhes obedeceu. Desde sempre até aos dias de hoje. 
Quanto à família retratada, a criança loura é avó da juíza conselheira do tribunal constitucional (com carreira académica assinalável em Direito Administrativo), a irmã de olhar perscrutador tem na actual presidente da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (casada com um antigo presidente da Assembleia da República) a sua descendente mais conhecida, e a terceira das raparigas (à esquerda na imagem) é tia avó por afinidade daquela que historicamente continua a ser reconhecida como a fundadora do Bloco de Esquerda. 
As outras duas foram felizes. 


(Nota: Os factos aqui descritos são produto da imaginação do autor. Não é, portanto, verdade o descrito no texto; podia ser, mas não é. Mesmo a fotografia depois de analisada com mais atenção, parece referir-se a uma família estrangeira (talvez dos balcãs ou eslava) e não portuguesa.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2023

Jantar de trabalho


— O Sr. Alfredo é muito cómico, faz-me rir. Nunca tive um chefe assim tão divertido. 
— Ainda não viste nada, Carlinha. Quando estivermos sozinhos aí sim, vais conhecer-me melhor, sem esta gente toda a olhar. 
— Ó que pena… se eu soubesse! Hoje não vai poder ser. Quando como sapateira espalha-se-me por todo o corpo uma alergia que só passa no dia seguinte. 
— Carago pró marisco que me custou os olhos da cara e ainda por cima faz isso. E logo hoje que estava a pensar levar-te à minha mansão e oferecer-te uma coisa que comprei na ourivesaria.  
— E há alguma farmácia no caminho? Talvez se eu usar uma pomada isto passe…

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2023

A camisola dos semáforos


Houve um tempo na minha vida em que Lisboa servia de ponto de paragem na viagem muito longa que fazia até ao Sul. Durante umas horas buscava na luz branca da cidade a disposição anímica para a semana que estava a começar. Passeava então pela Avenida da Liberdade e, invariavelmente, procurava nas montras da Rosa & Teixeira as novidades na roupa masculina de que, aliás, gostava quase sempre. Lá dentro, os funcionários atendiam clientes aos quais sentiam necessidade de etiquetar com algum título. Senhor ministro e senhor embaixador eram aqueles que ouvia com maior frequência. Não vos digo o meu — a modéstia obriga-me a tal. Gostava daquilo tudo. Principalmente da roupa que estava exposta por todo o espaço da loja. 
Na semana passada vi a fotografia que acompanha este texto numa publicidade da Rosa & Teixeira. Senti um arrepio. Aquelas camisolas com losangos e camisas de cor alaranjada fizeram-me lembrar as que comprei há trinta anos na mesma casa. Faziam um conjunto lindíssimo. Pelo menos eu achava, os outros não tenho a certeza, chamavam à camisola “a dos semáforos”, a mim o que importava…! Quem me vendeu as tais peças flamejantes foi a proprietária da loja, uma senhora perspicaz e muito elegante.  
Um destes dias tenho de lá voltar para comprar a nova versão da camisola dos semáforos e da camisa cor de vida feliz. 

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

O tempo, esse demiurgo implacável


Olhar a Malu Mader nessa fotografia é revisitar a atriz de quem todos se enamoraram e, também, o tempo que medeia a nossa adolescência da atualidade. Ninguém está igual, nem nós nem a dileta Malu. Passaram os dias, os meses, os anos. Muito tempo já.

Embora, vistas friamente as coisas, parece que tudo se resume ao dia de ontem. Namoramos, estudamos, ganhamos o primeiro ordenado, reconstituímos a vida uma e outra vez, e tudo isso passou muito rápido.

Que o diga o leitor. Por certo, garante não sentir diferença em relação ao período da vida em que via a Malu Mader na televisão. Por dentro somos os mesmos. Sonhamos, congeminamos aventuras por cumprir, estabelecemos projetos. Até ao momento em que nos olhamos no espelho. Ou festejamos os anos. Ou, então, desejamos alguém que não tem idade.

Por isso é que a pele do corpo da Malu é irrepetível. E aquele olhar de menina também. A alvura que ela transmite nenhum creme da marca da moda ou o bisturi do mais célebre cirurgião consegue replicar. Nem isso, nem a firmeza dos seios ou o desenho das ancas saídas da escultura de Rodin.

No entanto, se a encontrássemos sentada numa esplanada de Guanabara e nos sentássemos na sua mesa, ela continuaria desejável, podem estar certos disso, mais velha na textura do rosto, mas adorável no modo de falar e no acerto das ideias que transmite.

É uma mulher, a Malu agora. E bonita porque quem o foi nunca deixará de o ser. Só que a somar a tudo o que sempre constituiu a sua aura, dispõe hoje, aos 56 anos, da sabedoria que uma vida preenchida inevitavelmente traz. A inteligência faz-se, da mesma forma que a beleza também pode ser planeada. 

A maturidade consegue, em muitos casos, acrescentar capacidade de sedução. Poucas coisas podem ajudar a descobrir tanto o amor quanto a capacidade de compreender o outro. “Mas esse é outro tipo de amor, produto maior da razão e ínfimo da emoção” – dirão alguns. Pode ser, mas ainda assim bonito, terno, quente sempre. Quase, quase como a verdadeira Malu Mader a um palmo de distância da nossa respiração na esplanada de Guanabara.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2023

A minha turma do liceu


Normalmente são as gavetas que guardam os acontecimentos que já fizeram parte de nós. De vez em quando, por uma razão estranha ao achado, abrimo-las e a surpresa acontece.

Foi o que aconteceu com esta fotografia. Vinte rostos de adolescentes olham para nós a perguntar-nos qualquer coisa que não entendemos. São colegas de turma deste vosso escrevinhador, por altura da frequência do secundário no Liceu de Viana. Entre as muitas turmas que tive não é esta a que recordo com mais nitidez; com estes rapazes e raparigas apenas me arrastei pelas salas de aulas durante dois anos. 

Com raríssimas excepções, não sei o que lhes aconteceu na vida. Nunca mais os vi, provavelmente se os visse não os reconheceria. Sei vagamente que alguns seguiram os caminhos do Direito, dois ou três são hoje professores. E pronto — é só isto o que conheço da vida que se lhes seguiu. 

Para os crentes nas minhas efabulações aviso desde já que não consto da imagem de grupo. Nunca gostei de ser fotografado, o que não traz prejuízos para ninguém.  

Um esclarecimento necessário: alguns daqueles jovens, ainda crentes no futuro que estava a começar, estão decapitados no instantâneo fotográfico. 

Não sei quem foi o artista de tal façanha — com sorte ainda se tornou um dos realizadores do cinema português de que ninguém guarda na memória.

Mesmo com todas as fragilidades técnicas, a imagem vale pelo olhar dos miúdos quase adultos e do que eles traduzem de esperança e de alegria no tempo que está logo ali, depois da curva do liceu. 

domingo, 5 de fevereiro de 2023

O senhor do Santander


— Raul, já me conheces há muito tempo… diz-me, por favor, se o homem do Santander está aqui ou não!
— Já perguntei ao chefe e ele diz que não está nem vem cá hoje.
— Ah, obrigado, posso então jantar em paz com este amigo do meu marido.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2023

Quando um automóvel vira vedeta


Sempre fui um defensor da participação popular nas redes da internet. Mesmo quando alguns, logo nos inícios da actual revolução mediática, chamavam a atenção para os perigos que daí poderiam advir. 

Ultimamente venho percebendo que ao meu optimismo vão faltando alicerces demonstrativos que o justifiquem. Na semana passada, uma situação relacionada com as redes sociais — vivida na primeira pessoa — parece ter dissipado em mim os últimos laivos de esperança numa sociedade racionalmente emancipada.

O sucedido, contado muito resumidamente, foi assim: alguns amigos enviaram para uma das minhas casas – situada no interior do país – mensagens, todas mais ou menos ao mesmo tempo, a dar conta da publicação de fotografias do meu automóvel no Facebook. Soube depois que tal desaforo tinha sido escarrapachado na página Operação STOP (o título fica completo com a indicação da cidade correspondeste). Um must. O grupo que a havia criado, constituído por um administrador e quatro moderadores, copiou outras iniciativas do género espalhadas pelas cidades de Portugal com o objectivo de denunciar os locais onde as forças policiais colocam radares para apanhar os incautos condutores. 

A razão da exposição pública do meu carro tinha a ver com o facto, explicado pelo denunciante, dele estar habitualmente estacionado num sítio que os outros não utilizam e onde, na apreciação do mesmo, é proibido estacionar. 

E para sustentar o seu ponto de vista, chama a atenção de que devido a este abusivo estacionamento os carros em circulação têm de pisar um traço contínuo. Até que seria aceitável este reparo se houvesse naquela rua algum… traço contínuo. Bem sei que não está ao alcance de todos a distinção entre uma linha contínua e descontínua!

E havia de acontecer isto a mim que durante tanto tempo me bati pela importância crescente do cidadão-jornalista na sociedade racionalizada de Jürgen Habermas! Se é para isto, o melhor é os candidatos à argumentação comunicacional estarem quietos e preocuparem-se com os assuntos do futebol.

Para piorar as coisas, numa das duas fotografias publicadas é visível a matrícula (embora tremida devido ao nervosismo do repórter fotográfico), incorrendo, assim, tanto o delator como os administradores da página, nos crimes de violação da privacidade e de perturbação da paz e do sossego pessoal e social. Imagine-se o que aconteceria se a publicação se referisse ao carro oficial que me está adstrito! Felizmente que tinha mandado para casa o motorista, o fiel Armando.  

As pessoas que vivem comigo, querendo menorizar a gravidade do caso, disseram, e com alguma razão, que carros iguais ao meu (ver imagem que acompanha este texto)) é o que mais há em qualquer lugarejo deste país. 

Perguntei quem era o informador, na expectativa de que fosse um inimigo meu, provavelmente do gabinete do Pedro Nuno ou mesmo do Costa.

“Não, não conheces, é um indivíduo da classe média”. Aqueles que têm alguma intimidade comigo sabem bem que o grupo social que mais detesto não é o dos pobres nem o dos ricos: é mesmo o da classe média, de tal forma que não tenho amigos, nem na vida real nem no Facebook, daquela casta sempre igual e cinzentona – e que têm no Big Brother o seu programa de televisão preferido, sentem-se na obrigação de ler Dostoiévski mesmo sem o perceber, são inimigos declarados das reivindicações dos pilotos da TAP, bebem compulsivamente cerveja Sagres, desprezam quem escreve, cospem para o chão, vestem fatos da marca Facho e são benfiquistas.

Sendo assim — disse à pessoa que me descrevia o Belzebu das redes sociais — vamo-nos deitar que amanhã cedo tenho reunião com a CEO da TAP. Entretanto, o discípulo do João Catatau deve estar a tentar ler Dostoiévsky.

sábado, 28 de janeiro de 2023

O palco das jornadas mundiais da juventude em Lisboa


“Magoou-me muito saber o preço do altar. Estragou-me mesmo o dia. Um solinho destes e eu a reflectir acerca do que se há-de fazer. Ou melhor, a pensar quem o vai pagar. Ele é lindo, eu sei. Fui eu que o propus assim, a pensar nos Santo Padre e na cadeira de rodas, e também em mim: se o projecto não contemplasse aquelas pistas de skate como é que subiria até ao altar sem poder usar a trotinete que tanto me tem ajudado nos percursos difíceis da vida? Eu e a menina Madalena Norton de Barros, que é guia de Portugal, e tem sido minha pendura nas viagens de trotinete. Os dois, cabelos ao vento no mesmo veículo, e os meus sapatos vermelhos impecavelmente preservados. A Manuela Ferreira Leite pediu-me boleia por interposta pessoa, mas mandei dizer que já me tinha comprometido. Ainda algum dos dois mil convidados que vão pisar o altar lhe roubava o colar de pérolas e acabava por culpar a velocidade estonteante da viagem por aquelas rampas. Eu e Deus Nosso Senhor sabemos muito.”

quarta-feira, 25 de janeiro de 2023

As Leis do Amor


Maldito seja quem se lembrou de criar o Amor. Se ele não existisse desfrutávamos, sem ponta de remorso, do homem ou da mulher que nos apetecesse. Hoje, aquele ser magnífico da esplanada, amanhã outra pessoa, passando de amanhã alguém de quem sentimos saudade. Livres e felizes.
E aos 85 anos, então sim, voltávamos a casa para constituir família.

domingo, 22 de janeiro de 2023

Instruções para casa

                                          















- Rosinha, meu anjo… Escrevo-te desde Unhais da Serra, onde vim dar uma palestra, mas volto hoje para Lisboa. Vou com vontade de comer bouef bourguignon. Diz à Irene para me preparar o jantar para as 8.37. Mas abram já uma garrafa de Château Petrus e deixem-no respirar. Deve estar com falta de ar como eu...

- Vou então dizer à D. Lurdinhas que o menino vem hoje e para cuidar da confecção do jantar...

- Não, não... A Irene dá conta do recado na cozinha. Estou muito cansado e preciso de deixar os meus pensamentos pularem a cerca. Diz à D. Lurdinhas que só chego amanhã. 

- Agora é que eu não percebo nada. Mas afinal o menino vem hoje ou amanhã?

- Ó mulher! Vou hoje, mas quero estar sozinho. Ah! É verdade! Faz-me a cama com os lençóis de seda, mas sem as pétalas que alguém tem lá colocado.

- E de que cor o menino quer os lençóis?

- Da cor que quiseres, que tenha a ver com os teus gostos...

- Mais alguma coisa?

- Continuas com as insónias, Rosinha?

- Nem queira saber, menino. Passo a noite a olhar para o teto e a pensar em coisas.

- Vamos hoje tratar disso. Entretanto fico à espera de que não tenhas fumado na minha ausência. Sabes bem que não gosto da casa a cheirar a cigarro.