quarta-feira, 14 de março de 2018

Camisas Façonnable

A vida exige tantas vezes salvo-condutos para se atingir metas. Muitas das vezes são pertences relativamente óbvios: a inteligência, a beleza, o savoir-faire, a linhagem familiar, as notas escolares, etc. 
Mas há senhas de admissão que estão para lá de qualquer paradigma racional. A entrada nas discotecas da moda é um bom exemplo desta subjectividade sem explicação. 

Tudo isto começou com o alargamento dos círculos anteriormente confinados à classe média-alta. Portugal desenvolveu-se de forma rápida com os dinheiros da Europa, corriam os anos de 1990, o que fez com que novas gentes acedessem à prosperidade económica. 

As discotecas por essa altura estavam com filas imensas de jovens a tentar entrar pensando que o dinheiro compra tudo. Do outro lado da barricada estavam os porteiros das casas de diversão. Idiotas de cabeça geralmente rapada e tronco de árvore milenar. É evidente que de psicologia sabiam apenas que ela se aplica nalgumas actividades de pesca, chamadas de piscícolas. 

Nas discotecas Kapital, Kremlin, Plateau os enganos cometidos por aquelas cabeças ao vento são ainda hoje motivo de anedota. No ginásio era tudo mais fácil. À noite, as turbes ansiosas a olharem a porta de acesso, e as coisas a complicarem-se. 

No caso das raparigas a coisa mesmo assim era mais fácil: anos de actividade hormonal vivida na margem sul e na Damaia e as mini-saias das jovens ajudavam a tarefa. No caso dos rapazes, bem... aí... aí... não sabiam o que fazer!


Até que descobriram o tal salvo-conduto de que falávamos no início destas linhas, sem lógica mas eficaz: as camisas Façonnable envergadas pelos clientes. 
Ainda hoje me dá saudade recordá-las. Criadas por um costureiro de Nice, chamado Albert Goldberg, caracterizavam-se particularmente pela utilização do patchwork, uma espécie de junção muito bem feita de padrões diferentes. 


Resultado desta história: eram um sucesso aquelas camisas: os políticos, a gente do espectáculo, os banqueiros e os rapazes que queriam entrar nas discotecas, usavam-nas à noite. 

As consequências de tudo isto nem sempre eram divertidas: dificilmente não se encontrava nas festas uma camisa com o mesmo padrão da nossa e nas revistas lá estavam as vedetas com as camisas iguais às que tínhamos lá em casa. Eu então tinha um azar com um figura muito conhecida da televisão, coincidência que aliás constituía motivo de gozo por parte dos meus colegas. 


Uma vez, num hotel, eu e o Belmiro de Azevedo cruzamo-nos na entrada de uma sala, olhamos um para o outro, e lá estava a minha Façonnable no corpo dele e a dele no meu. Igualzinhas. 
No ano 2000, Goldberg vendeu a marca por 370 milhões de dólares a uns americanos que depressa adulteraram o ADN das colecções que se seguiram. 


Outros logotipos e outros nomes entretanto substituíram aquele, embora nunca com o mesmo impacto. 


Qual não foi o meu espanto, este mês, quando vi o catálogo Primavera-Verão da Façonnable. As camisas patchwork voltaram. E mais baratas que há vinte anos. A da fotografia que acima se publica custa 165 euros. Não tem o desenho do Albert Goldberg mas é o que se pode arranjar. Já podemos ir outra vez à discoteca. Só espero que as raparigas continuem igualzinhas. 

segunda-feira, 12 de março de 2018

O gato


É nosso às vezes e quase nunca. Só quando ele quer. Esgueira-se por qualquer lado e volta e vai outra vez. Arranha quando quer brincar e sorri o malandro. Ronrona deitado ao lado do dono como se fosse o ser mais dócil de todos. Mia quando quer seduzir e obter alguma coisa. Gosta do calor desde que não seja demasiado. Nunca se sabe o que vai fazer a seguir. E olha terno quando está para aí virado; outras vezes levanta em curva o corpo e olha em desafio. Nesses momentos fica em posição de ataque. Até lhe dar vontade de roçar as pernas do dono num vai-vem de quem sabe namorar. Deita-se no colo das crianças como se fosse uma delas. E lambe o rosto das pessoas explicando-lhes que é assim mas não é mau tipo. Sabe-a toda. Parece as mulheres. Por isso é que elas gostam tanto de gatos. Revêem-se neles. Olha, já se escapou! Como eu gosto de cães.

sexta-feira, 9 de março de 2018

Meu Deus

Tenho-o dito muitas vezes: gostava de acreditar numa realidade transcendente que me trouxesse conforto mas também inquietude. Na resposta aos meus limites e, principalmente, na descoberta de quem sou. Pedi a sábios da igreja que me ajudassem nessa tarefa. De nada valeu. Não consegui ouvir ninguém absolutamente outro chamar por mim. Dar-me a mão e explicar. Continuo, por isso, um ser limitado pelo tempo e pelo espaço, impossibilitado de ser mais do que isto que sou. Um ser condenado a ter um fim, um adeus até sempre.  Tenho assim muita pressa. Tanta que às vezes não consigo fazer nada. Fico tolhido pela angústia de nunca o conseguir. De nada deixar que sirva de marca de mim. De escrever bem, de ser bom pai, de primar pela capacidade de perceber tudo, de deixar um sinal nos demais. Para mim a imortalidade é isso. Não no sentido de vencer o tempo. Isso seria ser religioso e isso não consigo, já o disse. Mas antes de ter sido o melhor que é possível. E a angústia reside aqui. Não deixa tempo para nada. Para pararmos para pensar. Para nos sentarmos na esplanada e olharmos.Temos de apanhar a auto-estrada e voarmos a caminho da conferência, do lançamento do nosso livro, da entrevista na televisão. Ou então de nada disto. Da mera inscrição imorredoira do nosso nome na árvore, da publicação da quadra que fizemos a São João no jornal local. Custa tanto sermos mais que a terra e a época que nos couberam em sorte. Sermos deus de nós mesmo. Maiores do que sempre fomos. Eu quero ser forte para aspirar a ser simplesmente eu. Escritor de reconhecido mérito, sábio de tanto saber sobre a vida e sobre os outros. Só. Mas isto é tanto. Seria quase ser religioso. E eu não sou. Sou apenas alguém que quer gostar de si. É isso. É esta a imortalidade possível. 

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Patrícia Carvalho


Veio do Barreiro estudar jornalismo para Lisboa. Não foi fácil o tempo do curso. Queria aprender tudo, ao mesmo tempo que se esforçava para ajudar a custear os estudos.  
Lia, ouvia os outros e, principalmente, perscrutava em redor com aqueles olhos grandes, da mesmo forma que faz hoje. 
Há 11 anos que trabalha em televisão. Entrou na SIC sem pedidos encomendados, só ela e o Barreiro, cidade que nunca abandonou e de onde é originário um carácter próprio, da mesma argamassa da Muralha D’Aço. 
Parece franzina e é um ciclone que aprendeu a soprar a bordo do cacilheiro entre as duas margens. 
Defende-se sem precisar da ajuda de ninguém, a ela e à família, o seu bem mais precioso. 
Continua a esforçar-se no trabalho tal como se tivesse começado agora a ser pivô. Informa-se das matérias, mergulha nas notícias sejam elas políticas ou de futebol. 
E depois aquele ar de menina que continua fascinada com o castelo encantado, mesmo que, todos o sabem, o mundo da televisão por vezes se assemelhe mais à casa dos horrores. 
Talvez que a sua genuína simplicidade desarme os outros: fala e ri com a cabeleireira, com o coordenador, com a operadora de câmara, com a vida. Sempre com um sentido de humor desarmante. 
Não se acha especialmente bonita. Diz que é a maquilhagem que a transforma. 
Só não sei se será também esse o motivo de continuar a parecer uma boneca que todos gostariam de ter como parceira dos momentos menos bons, sempre que precisam de desabafar. 
Meus senhores, apresento-vos a mais bonita pivô da televisão portuguesa: Patrícia Carvalho.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

O senhor do adeus

Entre as figuras que preenchem o meu imaginário, o Senhor do Adeus ocupa um lugar especial. Alto, de porte aristocrático, sobretudo comprido assertoado, cachecol a condizer, mão direita a acenar a ele mesmo, à noite, ao taxista rezingão, ao homem que viaja ao lado da melhor amiga da mulher, à lua e aos anúncios de néon, aos irmãozinhos que no banco de trás absorvem o mundo todo que corre veloz ao lado do automóvel. 
Mas, principalmente, o Senhor do Adeus escarnece da vertigem sempre a mesma dos dias que se repetem. Provoca a diferença, sacode o marasmo que é sonífero das vidas sem esperança. 
E faz por momentos esquecer aos transeuntes os objectivos propostos pela direcção comercial, o dossier encostado ao peito à espera de ser revisto noite adentro, as parcelas do orçamento familiar que é curto. 
O Senhor do Adeus nunca trabalhou. Não precisava. A família no seio da qual nasceu era abastada, felizmente. O que seria dele se tivesse de cumprir a monotonia do escritório, as horas para abrir e fechar, as aulas para dar? Não aguentaria. 
Nasceu poeta, um performer nato. Capaz de rir na cara da solidão. E de querer fazer parte da vida de todos. Mas por que hão-de os adultos estacar perante a vontade de saber quem é aquela senhora-desejo que desfila a caminho do emprego, de calar a vontade de participar na conversa sobre arquitectura dos dois jovens que olham a cidade, de abraçar o mais só dos velhos?
João Manuel Serra, o Senhor do Adeus, gostava de parar o tempo particularmente na Praça do Saldanha, onde passavam e passam as mulheres mais bonitas de Lisboa. Tinha bom gosto. E inteligência para saber que no fundo todos precisamos uns dos outros. “Eles fazem-me melhor a mim do que eu a eles” disse uma vez referindo-se aos que saudava. 
Morreu em 2010. A voragem da mediocridade campeia agora à vontade. É urgente outro Senhor do Adeus. 
Eu não me importava. Sempre gostei de cumprimentar os pessoas que não conheço. À custa disso os meus filhos gritam de vergonha e dizem que querem sair quando eu conduzo e digo adeus e toco a buzina a toda a gente. 
Não percebem nada. Um dia destes visto o meu sobretudo Gucci, na mão direita levo o saco da Rosa&Teixeira com o cachecol Scarf que vou usar no Saldanha. Ai vou, vou.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

O PSD e Elina Fraga

 

O PSD continua a ser um saco de gatos muito maus. Afastado do poder e, em consequência disso, sem um caudilho que ponha e disponha à livre vontade, afunda-se em lutas internas sem qualquer interesse extra-partidário. É a disputa dos egos que se sobrepõe a tudo o resto. 
No Domingo passado assistiu-se a mais um episódio desta triste história de 42 anos. Aliás é por estas e por outras que muitos dos portugueses não querem saber dos partidos. Preferem a universidade, o mundo empresarial ou, então, a cultura. 
De quando em quando lá aparece um elemento novo neste emaranhado patético de emoções. Dá a cara, apresenta ideias próprias que dificilmente serão aceites e põe em causa a família e a vida pessoal que era até então a razão de quase tudo. 
Foi assim que Elina Fraga viveu estes últimos dias. Convidada pelo presidente do partido e de seguida apupada pelos correligionários. Só porque tem ideias próprias e luta por elas. Tal como fez sempre. 
Mas não é de pessoas desta estirpe que a política precisa? É, desde que não ensombre o protagonismo mediático dos medíocres. Nem contradiga a paixão clubística que envolve cada um dos governos.  
E estes parecem ter sido os pecados de Elina Fraga: enquanto bastonária pôs em causa uma reforma judicial recusada pelos advogados, que tinha em vista retirar ao interior do país um dos últimos bastiões de pertença a um todo nacional. 
Exactamente o que agora em uníssono se sentem na obrigação de defender, um ano depois de os fogos terem posto a nu os erros clamorosos praticados pelos diversos governos ao longo de muitos anos, quando esvaziaram de gente e de instituições uma parte considerável do país. 
No dia a seguir a ter sido vaiada pelos elementos do aparelho partidário veio a Procuradoria-Geral da República a terreiro deitar achas para a fogueira: que sim senhora, a antiga bastonária estava a ser investigada pelos senhores procuradores. 
Quem mandou Rui Rio pôr em causa o trabalho imaculado da procuradoria? Tudo isto é muito triste. Portugal avançou em quase tudo menos em arestas por limar da vida democrática e do sistema judicial. 
Mas que o velho PSD não se engane: as adversidades fazem mais por Rui Rio e por Elina Fraga que os discursos dos deputados que o são há três décadas e que pululam no Partido ou os artigos escritos pelos saudosos da União Nacional no jornal Observador. 
Conheci a antiga bastonária meses antes de ter sido eleita para aquele cargo. Mulher de princípios, combativa, esforçada, competentíssima, advogada dos pés à cabeça, diferente para melhor que a grande maioria dos seus colegas de profissão. 
O PSD, que não é o meu partido, vai ter de apelar ao que tiver de melhor nas suas reservas patrimoniais. Elina Fraga é uma mulher sem medo tanto da disputa intelectual quanto de uma qualquer manifestação de violência física.
Uma vez, na assembleia geral onde se ia decidir a agregação da escola onde estudava a filha (aconteceu o mesmo por esse país fora, sem que a comunicação social tomasse conhecimento da não-democraticidade do processo, tal era o deslumbramento dos opinion-maker acerca do consulado de M. Lurdes Rodrigues), a nova vice-presidente do PSD viu-se de forma crescente rodeada de indivíduos que a queriam intimidar e ao mesmo tempo impossibilitá-la de intervir em público. De nada valeu o caciquismo contra a razão e a lei. 
O melhor é os arautos de um tempo que ninguém mais quer — só eles é que não perceberam — buscarem no estudo e na inteligência colectiva estratégias novas de luta.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

O tempo sem retorno

 

Há dias fui ao funeral da mãe de uns amigos. Viajei 300 quilómetros para me reencontrar com um tempo da minha vida. O da adolescência. Éramos cerca de 20 rapazes que estávamos dia e noite juntos numa casa. Que pertencia à senhora que agora morreu e ao marido também já levado pelo fim do caminho.  
O quanto aquela mulher de excepção aturou dos tais 20 seres cheios de sangue na guelra! Maratonas de jogos de King que duravam vinte e quatro horas, noites sucessivas de conversa sem destino (destiladas com a ajuda de litros de álcool), os primeiros corpos de mulher dançados à razão de três bailes por semana, entre tantos outros momentos que nos fizeram bem e mal. Como não podia deixar de ser tratando-se da vida a ser experimentada por adolescentes. 
A importância da Dona Adelina Painhas em todo este ritual muito demorado de passagem para o tempo adulto foi crucial.  
Ela geria aquela casa. Discreta, mal se via mas controlava tudo dentro do possível. A vida dos filhos, da família toda e daqueles 20 jovens.  
Ainda por cima, como se tratasse de uma partida do destino, à senhora que nunca saía do lar-mater (apenas via as ruas por detrás dos vidros do carro sempre que ia ao cabeleireiro), o marido — um empresário muito popular e amigo das coisas boas da vida — proporcionou-lhe uma casa feita a pensar na festa. Grande, muito grande, com divisões que nunca mais acabavam, e um rés-do-chão, todo ele, destinado ao convívio. 
Tinha um bar — bar mesmo, numa sala destinada para o efeito, e não um simples arremedo encostado a uma parede — e um enorme salão de dança que fazia inveja a muitas discotecas da altura. 
Claro que os 20 mânfios aproveitaram aquelas condições únicas: compraram um sistema de luzes daquelas que se usavam nos locais públicos licenciados para o efeito e fizeram concorrência desleal a eles.
Resultado, na altura das mais célebres festas organizadas por particulares (nós mesmos) da geração de que fazíamos parte, a polícia era chamada à casa da Dona Adelina pelas discotecas da região, mas a conclusão da vistoria era sempre a mesma: aquela era a habitação do dono da empresa de transportes de passageiros que os agentes utilizavam gratuitamente para se deslocarem às suas habitações, além de que os filhos do governador civil, chefe hierárquico máximo deles, também faziam parte do grupo dos 20.  
Não lhes restava outra coisa que velarem pela segurança das festas, exactamente ao contrário do pretendido pelos empresários da noite. 
E a Dona Adelina Painhas todo o tempo acordada a velar na sombra por aquilo. Uma vez estava eu “cansado”, eram para aí sete da manhã, e deitei-me no quarto naquele dia vazio da criada, que ficava perto do bar. A senhora de excepção que o tempo levou há dias veio ver o que se passava comigo, e é nessa altura que o meu irmão diz uma das frases mais célebres da vida dos 20: “Nunca pensei ver um Barros e Barros nessas condições!”
É em tudo isto que penso enquanto faço a viagem para ir ao funeral em Viana. Estive na cerimónia do adeus talvez uma hora e retomei o caminho de volta logo depois. 
Mas enquanto lá estive confirmei o que sempre soube. Que os 20 estão bem mais gordos e velhos, que têm filhos e, imaginem, mulheres (algumas bem chatas) a acompanhá-los e que as festas acabaram. 
Resta a casa grande. Ou melhor, restava. Com a morte da mãe dos meus amigos desapareceu a alma daquela casa.  
E sem um sítio comum, as famílias e os amigos acabam. Podem encontrar-se esporadicamente mas não é a mesma coisa. Nós somos de um lugar. De um espaço que em certos momentos se torna uma autêntica epifania. 
Naquele funeral senti que tinha terminado um ciclo. O da minha adolescência. Resta-me a partir de agora ser adulto. 
E velar um dia, eu e a polícia, pelas festas dos meus filhos. 
Até sempre, juventude minha. Até sempre, Dona Adelina Painhas.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Noite de Carnaval


Que eu não gosto de dançar!? Mas quem disse uma coisa assim...? Não há quem não goste. Pelo menos de ver. E de ouvir. De se sentir estonteado pela noite. São as luzes ou então a lua que nos fazem cambalear. Ou será que é a beleza daquela e daquela mulher? 
Não sei nem importa. O que interessa é dançar. Com o corpo, com o pensamento ou simplesmente com os olhos. 
Logo à noite vou tentar dançar. Com a Isabel que sempre quis e nunca tive não sei porquê. Se ela aceitar vou trazê-la mão na mão para dançar o tango, a minha especialidade. Gostava que fosse. Logo eu, nascido e criado no Monte Estoril, toda a vida habituada às noites de tango, de perfume e de Absolut Citron.
Com as mulheres tão maquilhadas que não são elas. Os lábios pintados com o encarnado que é mentira em quem o usa. E a fala afectada. 
Todas menos a Isabel. Por isso é que gosto dela. O seu corpo não precisa de ser vestido nem os lábios retocados. Tudo o que se lhe acrescente torna-se supérfluo. Ela é verdade e noite. Dos seus olhos nasce a lua. E as luzes da festa. 
Logo vou tentar dançar. A Isabel colada a mim, eu a pegar-lhe na perna que me envolve, o corpo dela a adivinhar-se centímetro por centímetro. 
Os seios dela provocam-me, o tango dá-me a conhecer o tamanho deles, a forma, os dois entumecidos. Os corpos, o meu e o dela ouvem a música e procuram-se no triângulo do Monte Estoril. 
Logo à noite vou tentar dançar o tango com a Isabel. Ou então rezar com ela. À noite, virados para o céu escuro da madrugada. O tango ou a reza vão dar ao mesmo. Ambos fazem-nos galgar horizontes. À procura de nós mesmos.
Seja o que Deus quiser. 

domingo, 28 de janeiro de 2018

Na esplanada

Dois homens e um cão. Há muito tempo que estão a ler. Menos o cão. Parece que não sabe ler. Ninguém é capaz de identificar de onde são, o que fazem. Das suas bocas não sai uma palavra. O cão também não ladra. Assim fica difícil descobrir qual a nacionalidade do trio. Se ao menos o cão ladrasse. Uma coisa é certa: nenhum deles está aqui. Provavelmente imaginam-se no mundo traduzido em escrita nos livros de ambos. O cão, esse, deve estar a percorrer os prados verdejantes do norte da Europa. Quem o mandou não aprender a ler?

sábado, 20 de janeiro de 2018

Voltar a casa

 

Ao contrário do que a maioria pensa há muito que me habituei a estar só. Na esplanada, na plateia do teatro, em frente ao mar. De tal forma que às vezes assusto-me comigo mesmo. Não, não quero que aquela pessoa se sente a meu lado — teremos de falar de futebol, do Rui Rio. Prefiro estar eu e as minhas coisas. 
Claro que para se estar bem assim é preciso que haja gente por detrás. Eu explico: olhar o mar só não significa solidão; solidão é querer falar com alguém, aproximar-nos do telefone e não nos lembramos de ninguém. 
E então sim, desembocamos no mais grave dos problemas que alguém pode ter de enfrentar (esse e o da falta de objectivos).
Mas eu não sou uma pessoa só. Tenho, cada em seu sítio, uma família que me ama. E a quem quero muito. 
A família — a base de quase tudo. O que somos e o que poderemos vir a ser. Tudo começou com ela. E vai acabar com ela. Sem que alguma vez a tenhamos escolhido; nós é que fomos escolhidos. No entanto aqueles que verdadeiramente sabem querem ser no final dos dias enterrados com ela. 
Este é um dos muitos mistérios por desvendar.
Vêm estas linhas a propósito do meu começo de vida. Fazem hoje anos a minha mãe e o meu irmão. Nasceram com uma diferença no tempo de vinte anos. No dia vinte de Janeiro. Com eles nasci também. 
Por isso comemoro hoje o meu aniversário. É desta união que eu falava. Que me permite estar na esplanada só. 
Porque amo e sou amado. E então posso olhar os outros, adivinhar-lhes a vida, ao mesmo tempo que gosto deles. Sem querer que se sentem ao meu lado. 
Sinto-me próximo das pessoas mas não sou igual a elas. 
Esta é a grande diferença da multidão em relação à família. Da família eu sou mais um; da multidão não sou nada. 
Parabéns Mãe e Rogério. Estamos e estaremos sempre juntos. Porque somos um só. 
Um beijo a vocês e à vida.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Conselho para os noivos

Que a felicidade combine com o ordenado mínimo de ambos, em empregos sem término definido, mais o aluguer do ninho de amor por 800 euros mensais.

E ainda que cada um per si seja capaz de resistir às tentações do Facebook, dos colegas de trabalho e das missas do Padre Bruno. 
Porque senão já sabem: lá vem o veado. E o diabo também.

sábado, 13 de janeiro de 2018

Vitória interna de Rui Rio na liderança do PSD


Começam a chegar os convidados para a festa da vitória de Rui Rio no Hotel Sheraton, no Porto. Na foto, Cátia de Jesus Muralha de Aço, vendedora da marca Intimissimi em Aveiro, acompanhada de Armando Coelho, empresário de barbearia e presidente da concelhia do PSD em Vale de Cambra. 

A cor laranja do vestido é “uma homenagem ao partido do Sr. Rui”, disse a Cátia à nossa reportagem.

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Ele está no meio de nós

Avé Maria cheia de graça, dai-nos a nós o povo de Portugal, que eles precisam do mando dos tementes a Deus, Nosso Senhor, para que haja segurança, ordem e progresso no mundo, santificados os chefes daqueles que nada sabem, que têm o coração fechado para o amor aos bens materiais, e pensamento aberto à mudança e ao pecado. 

Em nome de nós, dos nossos e da Teté.

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Noite de fim do ano

 




A noite é minha feiticeira. Faz- me muito mal e às vezes bem. Qual génio maligno que me procura enganar. E promover a memória do que melhor aconteceu na vida. 
A noite perturba-me ainda mais que o vício do cigarro. Ambos custaram muito serená-los. Mas a noite nunca acabará em mim. Basta-me sair e cheirar o céu estrelado e o perfume das mulheres.
Na noite de fim de ano, andei muitos quilómetros para beijar de fugida a noite. Vi fogo de artifício, o Rui Reininho mais os GNR a actuarem no palco e a gente da vida vulgar num café anónimo.
Como eu gosto de ver as pessoas! Por isso é que vou à esplanada nas tardes de sol e por isso também é que sinto dor pela noite adiada. Não, não é por causa das estrelas suspensas no céu mas antes pelas que percorrem as ruas e os bares e as praias. 
Ontem à noite revi-as todas. No tal café manhoso e nas palavras do Reininho: “Ó rapariga da janela na rua / Só é pena não estares nua”. Ninguém mais que eu e ele é capaz de ver pessoas bonitas à janela e pedaços de vida que ninguém sonha. 
Ai a noite que me faz tanto mal e tanto bem. 

domingo, 31 de dezembro de 2017

Uma gata aqui em casa


Eu sei. É o declínio. Logo eu que tanto ironizei com os gatos dos outros no Facebook.

Um amante de cães a ter de aceitar a realidade da vida que raras vezes controlamos. 

Não me perguntem como mas o meu fim de ano foi invadido por uma gata de nome Vodka. Que quase ainda não a vi tão escondida ela anda debaixo de móveis e de recantos da casa que ela julga seguros. Mais um ser ingénuo por estas bandas. 

De tal forma ela é esconsa que não a pude ainda fotografar. Deve achar-se vedeta como o dono.

Por tudo isto, deixo-vos a única imagem possível da Vodka: ela apanhada a tirar a tirar selfies.

domingo, 17 de dezembro de 2017

O cargo de Presidente da República

 

Não, assim não. O cargo de Presidente da República tem como principal função a de ser garante da unidade de um povo. Para isso, precisa de estabelecer harmonia entre os três poderes políticos de um País: o executivo, o legislativo e o judicial. A não ser assim, nunca a nação se poderá reconhecer num Estado. Quer dizer, se um presidente estiver, em termos abstratos, ao lado de um povo contra as funções administrativas, políticas e judiciais que organizam um país, ou está a reunir em si todos os poderes exercendo um caudilhismo de consequências imprevisíveis ou, em termos igualmente hipotéticos, conduz os homens e mulheres reais em direção a uma utopia (neste caso de carácter pessoal), a que se chama normalmente de revolução.
Ora, num e noutro caso, ultrapassando em muito os seus deveres. É esta a razão por que não deve haver mistura de funções. O presidente tem o poder da palavra, o governo o de fazer. Claro que dizer e fazer têm natureza distintas. A prática tem mostrado que misturá-las não é um ato inteligente.
Prometer um número determinado de casas reconstruídas e prazos para entrega aos proprietários quando não se tem o poder executivo é no mínimo demagógico. Muito mais quando animadas estas promessas por itinerários repetidos de compaixão filmadas pelas televisões, ou por selfies fotografadas pelos homens e mulheres que viram arder os seus haveres, no caso dos incêndios deste Verão.
É então que aparecem os beijos e beijos, o abraço ao velho que chora dentro do seu papa-reformas. E também os convites da presidente da Associação de Vítimas do Incêndio de Pedrógão Grande, para as diversas cerimónias e para o Natal que está chegar. “Só convidamos os que nos ajudaram”, diz Nádia Piazza, a fogosa dirigente que ainda vai fazer apaixonar muitos políticos neste país (quem o diz é Jorge Amado nos seus livros, mesmo sem ter tido o privilégio de a conhecer).
Para já, será homenageada com o prémio Cidadania 2017, entregue esta quinta-feira pelo Presidente da República. Depois vai fazer política nos discursos que se vão seguir. 
Não que alguma coisa seja criticável nisto. Existe natural revolta e vontade de fazer o luto que a intimidade de cada um exige. O problema é que já vimos esta cena demasiadas vezes. Muito recentemente até. Alguns partidos e aspirantes a cargos públicos a aproximarem-se e as figuras em ascensão a perderem a cabeça.
Entretanto o governo – todo ele - promove uma das operações mais rápidas e mais difíceis tendo em conta a complexidade que a mesma envolve, construindo casas e promovendo a recuperação económica das indústrias devoradas pelos fogos.
Enquanto isso, a associação da Nádia apresenta ao povo uma pintura acabadinha de fazer, a qual reproduz um presépio no qual participa o Presidente da República vestido de verde e vermelho – qual pastorinho a adorar o deus-menino, e a oferecer uma casa em nome dos portugueses. Iríamos jurar que ao lado está retratada a presidente da associação das vítimas.
E o António Costa? Não foi convidado nem para figurar no quadro nem para estar presente no Natal. Ele que ande pelos corredores de Bruxelas a pedir dinheiro e mande os seus ministros fazer os projetos de reconstrução daquelas zonas e, no fim, diga ao supremo magistrado da nação para ir entregar as casas pintadinhas. Moços, toquem o hino que os foguetes já estouram no ar.

(Foto: Expresso)

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Dias de incumprimento

 E pronto. Lá estou a pedir desculpas outra vez. 

As mensagens sem resposta, os textos que me apetece partilhar com os amigos e não publico, os pedidos de socorro ou apenas de ajuda a que não dou seguimento.

Os tempos não têm sido nada fáceis para mim e eu escondo. Sempre fui reservado. Não gosto de noticiar o que não é brilhante, claro, feliz. O único que vos posso dizer é que alguém contratou um ser demoníaco muito competente que me tem feito frente. Em pouco tempo fracturei um dedo do pé esquerdo, tive uma chamada de atenção de um órgão que temos cá dentro chamado coração, fracturei o pé direito e continuo a viver em Portugal.

A somar a tudo isto, fiquei sem telemóvel. Mudei de operadora – já não aguentava mais aquela que me agonizava a paciência há muitos anos – e agora estou à espera do modelo X que está esgotado. 

Entretanto, descobri que gosto de ajudar os outros desde que eles estejam a meu lado e me apanhem num momento não programado. Aí sim. Volto a olhar e a ouvir e a dizer. 

Ou então, em momento agendado pela minha querida Dona Lurdinhas – desde que deixou de ser ministra da Educação tem sido uma santa para mim. 

Vou passar a semana no Barreiro. Na agência de turismo de aventura do Bernardo Holstein dizem-me que sítio mais bucólico não há. Gosto muito de cada um de vocês.

sábado, 25 de novembro de 2017

Dia de mim mesmo


O leitor de certeza já reparou que todos os dias são dias internacionais de alguma coisa. Alguns têm directamente a ver conosco, outros nem num longínquo vislumbre. Ora eu gosto mais das festas que não são minhas do que as que têm a minha cara. Posso penetrar!? -- essas sim, gosto, sem pulseira VIP no pulso. 
Vem isto a propósito de hoje comemorar-se o Dia Internacional da Eliminação da Violência Contra as Mulheres. Tudo a ver comigo. Claro está: vou penetrar.  
O mesmo se passa no Dia Mundial do Não-Fumador, já fumei quatro maços diários -- hoje não fumo mas continuo a considerar o cigarro a melhor coisa que pode acontecer na vida das pessoas, desde que não constitua um passaporte para a doença --, ou o Dia Mundial da Poupança, logo eu que sou homem de excessos, quando gosto gasto tudo aquilo que tenho, seja através da emoção ou através do dinheiro. 
Como se não bastasse esta minha vontade de ser do contra, acrescente-se o facto de não concordar com a designação do dia de hoje. Então e o homem enquanto vítima? As mulheres não fazem ideia de quão difícil é ser homem nos dias de hoje. Eu próprio posso servir de exemplo: já fui ameaçado por mulheres com um revólver encostado ao meu salve seja córtex pré-frontal, perseguido semanas a fio por um automóvel que esperava horas que eu saísse de casa, ameaçado de um modo verosímil com o envenenamento que ia acontecer a qualquer momento. Não és meu, não hás-de ser de nenhuma outra. A conversa de sempre. 
No resto, não tenho qualquer contacto com a realidade da violência doméstica. Por isso é que o dia de hoje também é meu. Nunca na minha casa de infância e juventude as dificuldades foram resolvidas com violência. O pai e a mãe amavam-se tanto naquele tempo como hoje. Eu e o meu único irmão éramos um só. 
Uma vez ou outra o Dr. Quintino poderia, no entanto, descobrir algum sinal muito remoto de violência familiar, no que à relação entre os irmãos diz respeito. Principalmente quando a mãe me dizia: "Sérgio, vai buscar...", ao que eu respondia prontamente "Ouviste, Rogério?".
Dezasseis meses de vida nos separam. O amor nos juntou para sempre. Os trintas que hoje temos mais os setenta que hão-de vir.
E para o leitor que ainda resiste à leitura deste texto (transformado em desabafo), mostro a fotografia de família em jeito de atestado de tudo aquilo que disse.
Na fila de trás, ao centro e à direita, os meus pais. À esquerda, um primo, Adalberto Rolo Igreja, cidadão honorário do Rio de Janeiro, falecido este ano.
Em primeiro plano, à esquerda, o filósofo Rogério; à direita, o sábio Sérgio. 
Um pormenor que a mim dá umas saudades imensas: nas mãos do sábio, a revista Tintin, adquirida religiosamente todas as semanas, com um preço de capa não comparável com as publicações periódicas actuais. Era muito cara para um país como o nosso.  
E pronto: a nostalgia tomou conta de mim. Acontece muito com as pessoas sensíveis. Já não quero saber do dia da violência das mulheres. Acho que vou instituir o meu dia. A partir da uma da madrugada vou festejá-lo. Adoro a noite. Não há dia como a noite. Mais logo estarei no Urban Beach, eu só e o Paulo Dâmaso de Andrade, dono da discoteca, com quem gosto de conversar, ou então, num registo bem diferente, com a minha amiga Monica Bellucci. Não sei ainda com quem, na hora decido. 

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Galope sem freio


Nem os cavalos do carrossel perpétuo querem o percurso de sentido único. Nova volta nova viagem. O tanas, ninguém a repete anos a fio de livre vontade. O funcionário de manga de alpaca fechado num cubículo sem luz, o dia todo a carimbar papéis, conhece bem este arremedo de vida.

Tal como os cavalos do carrossel eu não aceito a prisão de ser apenas uma escolha. Quero ser várias. Hoje mestre de cerimónias, amanhã só eu e o mar. Operoso e amante das esplanadas de nada fazer. De esquerda no Restelo e de direita no Barreiro. 
Os actores, as personalidades públicas, os escritores estão autorizados a serem diversos num só. Eu também quero. Eu e o Pessoa redivivo.  
É por isso que a mentira para mim não é somente mentira. É outra possibilidade de ser. Se calhar melhor.
Perceberam agora amigos que nunca me entenderam antes?
Eu quero fugir do carrossel sem destino e andar e errar e acertar no caminho. E ter histórias para guardar. As 722 mil que vivi não me chegam.  
Ouviste... deus dos outros?

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Adriana


Lembro-me muito bem de ti. Há anos que não te vejo. Vinhas a minha casa, o mordomo anunciava a tua chegada e íamos logo para o quarto. Despias-te devagar e eu encostado à parede do nirvana olhava-te. As meias, sempre as meias, eras esperta, enrolava-las ao mesmo tempo que desciam as Torres Gémeas. Era nessa altura que eu entrava em casa de nós os dois, bem junto a ti, mãos nas mãos. Uma eternidade depois fechavas os olhos e eu abria os meus para ver os teus fechados. Beijava-te, então. 

Nunca falamos nada de substancial. Sabia o teu nome, Adriana, a tua morada perto da minha e pouco mais. Existíamos juntos para assomarmos à casa imaginada onde éramos felizes. 
Apenas uma vez levei-te a jantar fora, à Capela dos Ossos, em Évora. E tudo porque naquele dia fizeste aquilo de que eu mais gostava: penteaste o cabelo frente a mim, esticaste-o até estar pronto o carrapito, o adereço com que o prendias na boca e eu a voar no céu, qual criança a tomar banho nas águas da praia. 
Agora sei - gostava de atravessar o túnel do Marão outra vez contigo. 
Agora sei. 


sexta-feira, 6 de outubro de 2017

O funeral dos professores

 Uma grande conquista. Pouco a pouco a vida avança. Desistir na vida é desistir na morte.

É sabido que os professores só daqui a muitos anos verão aumentados os seus ordenados. A situação é tão má que um professor ganha menos hoje que no ano 2000. Importa, por isso, encontrar outras regalias que aumentem a qualidade de vida dos professores.

Pois bem, estamos hoje em condições de anunciar o acordo com uma empresa de serviços que vem trazer a alegria e o progresso na carreira dos professores. Aos 72 anos, quando se encontrarem à beira da reforma, passam automaticamente a ter direito a um

FUNERAL DE SONHO

Organizado e realizado pela Servilusa, multinacional líder na prestação de serviços funerários em Portugal. Com funcionários fardados e música de câmara (segmento magno). Funerais espectaculares. Sem pagarem um cêntimo que seja. Um privilégio para os professores que tem em conta o facto de nenhum outro benefício remuneratório ser possível proporcionar-lhes em vida. 

A paz ao virar da esquina.

(Fotografia: revista Sábado)