sexta-feira, 3 de fevereiro de 2023

Quando um automóvel vira vedeta


Sempre fui um defensor da participação popular nas redes da internet. Mesmo quando alguns, logo nos inícios da actual revolução mediática, chamavam a atenção para os perigos que daí poderiam advir. 

Ultimamente venho percebendo que ao meu optimismo vão faltando alicerces demonstrativos que o justifiquem. Na semana passada, uma situação relacionada com as redes sociais — vivida na primeira pessoa — parece ter dissipado em mim os últimos laivos de esperança numa sociedade racionalmente emancipada.

O sucedido, contado muito resumidamente, foi assim: alguns amigos enviaram para uma das minhas casas – situada no interior do país – mensagens, todas mais ou menos ao mesmo tempo, a dar conta da publicação de fotografias do meu automóvel no Facebook. Soube depois que tal desaforo tinha sido escarrapachado na página Operação STOP (o título fica completo com a indicação da cidade correspondeste). Um must. O grupo que a havia criado, constituído por um administrador e quatro moderadores, copiou outras iniciativas do género espalhadas pelas cidades de Portugal com o objectivo de denunciar os locais onde as forças policiais colocam radares para apanhar os incautos condutores. 

A razão da exposição pública do meu carro tinha a ver com o facto, explicado pelo denunciante, dele estar habitualmente estacionado num sítio que os outros não utilizam e onde, na apreciação do mesmo, é proibido estacionar. 

E para sustentar o seu ponto de vista, chama a atenção de que devido a este abusivo estacionamento os carros em circulação têm de pisar um traço contínuo. Até que seria aceitável este reparo se houvesse naquela rua algum… traço contínuo. Bem sei que não está ao alcance de todos a distinção entre uma linha contínua e descontínua!

E havia de acontecer isto a mim que durante tanto tempo me bati pela importância crescente do cidadão-jornalista na sociedade racionalizada de Jürgen Habermas! Se é para isto, o melhor é os candidatos à argumentação comunicacional estarem quietos e preocuparem-se com os assuntos do futebol.

Para piorar as coisas, numa das duas fotografias publicadas é visível a matrícula (embora tremida devido ao nervosismo do repórter fotográfico), incorrendo, assim, tanto o delator como os administradores da página, nos crimes de violação da privacidade e de perturbação da paz e do sossego pessoal e social. Imagine-se o que aconteceria se a publicação se referisse ao carro oficial que me está adstrito! Felizmente que tinha mandado para casa o motorista, o fiel Armando.  

As pessoas que vivem comigo, querendo menorizar a gravidade do caso, disseram, e com alguma razão, que carros iguais ao meu (ver imagem que acompanha este texto)) é o que mais há em qualquer lugarejo deste país. 

Perguntei quem era o informador, na expectativa de que fosse um inimigo meu, provavelmente do gabinete do Pedro Nuno ou mesmo do Costa.

“Não, não conheces, é um indivíduo da classe média”. Aqueles que têm alguma intimidade comigo sabem bem que o grupo social que mais detesto não é o dos pobres nem o dos ricos: é mesmo o da classe média, de tal forma que não tenho amigos, nem na vida real nem no Facebook, daquela casta sempre igual e cinzentona – e que têm no Big Brother o seu programa de televisão preferido, sentem-se na obrigação de ler Dostoiévski mesmo sem o perceber, são inimigos declarados das reivindicações dos pilotos da TAP, bebem compulsivamente cerveja Sagres, desprezam quem escreve, cospem para o chão, vestem fatos da marca Facho e são benfiquistas.

Sendo assim — disse à pessoa que me descrevia o Belzebu das redes sociais — vamo-nos deitar que amanhã cedo tenho reunião com a CEO da TAP. Entretanto, o discípulo do João Catatau deve estar a tentar ler Dostoiévsky.

sábado, 28 de janeiro de 2023

O palco das jornadas mundiais da juventude em Lisboa


“Magoou-me muito saber o preço do altar. Estragou-me mesmo o dia. Um solinho destes e eu a reflectir acerca do que se há-de fazer. Ou melhor, a pensar quem o vai pagar. Ele é lindo, eu sei. Fui eu que o propus assim, a pensar nos Santo Padre e na cadeira de rodas, e também em mim: se o projecto não contemplasse aquelas pistas de skate como é que subiria até ao altar sem poder usar a trotinete que tanto me tem ajudado nos percursos difíceis da vida? Eu e a menina Madalena Norton de Barros, que é guia de Portugal, e tem sido minha pendura nas viagens de trotinete. Os dois, cabelos ao vento no mesmo veículo, e os meus sapatos vermelhos impecavelmente preservados. A Manuela Ferreira Leite pediu-me boleia por interposta pessoa, mas mandei dizer que já me tinha comprometido. Ainda algum dos dois mil convidados que vão pisar o altar lhe roubava o colar de pérolas e acabava por culpar a velocidade estonteante da viagem por aquelas rampas. Eu e Deus Nosso Senhor sabemos muito.”

quarta-feira, 25 de janeiro de 2023

As Leis do Amor


Maldito seja quem se lembrou de criar o Amor. Se ele não existisse desfrutávamos, sem ponta de remorso, do homem ou da mulher que nos apetecesse. Hoje, aquele ser magnífico da esplanada, amanhã outra pessoa, passando de amanhã alguém de quem sentimos saudade. Livres e felizes.
E aos 85 anos, então sim, voltávamos a casa para constituir família.

domingo, 22 de janeiro de 2023

Instruções para casa

                                          















- Rosinha, meu anjo… Escrevo-te desde Unhais da Serra, onde vim dar uma palestra, mas volto hoje para Lisboa. Vou com vontade de comer bouef bourguignon. Diz à Irene para me preparar o jantar para as 8.37. Mas abram já uma garrafa de Château Petrus e deixem-no respirar. Deve estar com falta de ar como eu...

- Vou então dizer à D. Lurdinhas que o menino vem hoje e para cuidar da confecção do jantar...

- Não, não... A Irene dá conta do recado na cozinha. Estou muito cansado e preciso de deixar os meus pensamentos pularem a cerca. Diz à D. Lurdinhas que só chego amanhã. 

- Agora é que eu não percebo nada. Mas afinal o menino vem hoje ou amanhã?

- Ó mulher! Vou hoje, mas quero estar sozinho. Ah! É verdade! Faz-me a cama com os lençóis de seda, mas sem as pétalas que alguém tem lá colocado.

- E de que cor o menino quer os lençóis?

- Da cor que quiseres, que tenha a ver com os teus gostos...

- Mais alguma coisa?

- Continuas com as insónias, Rosinha?

- Nem queira saber, menino. Passo a noite a olhar para o teto e a pensar em coisas.

- Vamos hoje tratar disso. Entretanto fico à espera de que não tenhas fumado na minha ausência. Sabes bem que não gosto da casa a cheirar a cigarro.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2023

À minha mãe e ao meu irmão


Hoje a minha mãe e o meu irmão fazem anos. Dantes era dia de festa esperado na minha casa. Agora nada disto parece ter mais razão de ser. A alegria abandonou-nos, os anos de cada um transformaram-se em motivo de lembrança de um tempo irrecuperável.

A minha mãe e o meu irmão estão vivos e com saúde. Mas em tudo o resto, as coisas não são mais as mesmas. Eu parti de Viana há vinte anos num exílio forçado e ainda não resolvido. 

Vivo longe, numa terra onde a incompreensão das diferenças 
entre o forasteiro e a população do sítio é recíproca – eu não os percebo e eles também não me reconhecem como igual.

Dos meus quatro filhos, dois já partiram para a segunda etapa das suas viagens, iniciadas nas cidades grandes para onde foram estudar. A Leonor, a terceira, vai em Setembro. A Vodka, a gata, é a única que continua sem mudar de sítio e sem perceber nada disto.

Mas a solidão dos sítios e das gentes atingiu no ano passado o grito maior de dor de que me lembro, no dia em que o meu pai morreu. Ele era o alicerce do nosso aconchego familiar. A casa de todos parece hoje não ser de ninguém. Mesmo os quadros ou os livros deixaram de ser os mesmos agora que ninguém os explica com a mesma graça e o mesmo prazer no olhar.

É claro que conheço as palavras que normalmente se dizem nestas circunstâncias: “Chegou a altura de seres tu a tomar conta das novas vidas e das novas histórias de que há muito és responsável e não percebeste isso ainda”. 

Está tudo certo. Na teoria, pelo menos. O pior é o vazio que nos acompanha visitemos nós o Pólo Norte ou a Associação de Jornalistas e Homens de Letras na cidade do Porto.

E depois, no meu caso, é a falta do cenário da maior parte das histórias que me marcaram para sempre: a cidade de Viana. Não que aquelas ruas e cafés mereçam tanta saudade assim. Nem sequer as gentes que ali vivem. 

Mas é o meu poiso, o meu berço, o meu colo. É a terra de onde se vem e para onde sempre se vai. Nem que seja de um modo inconsciente. Traduzível apenas a partir da assunção da nossa identidade. 

E depois é a cidade onde vivem a minha mãe e o meu irmão que hoje fazem anos. Com quem vou jantar em pensamento e vontade. No final cantaremos os parabéns a vocês acompanhados do meu pai no seu lugar vazio e das vozes novas dos netos contentes com o futuro que está a começar.

Parabéns Mãe e Rogério.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2023

Negociações a fingir


“Estou só a descansar um bocadinho antes das reuniões com os sindicatos. Vai ser uma tarde de grande aborrecimento! Eu a querer reformular a Educação em 
Portugal e aqueles despenteados a tratarem o tempo todo de questões menores: a carreira a dever ser considerada carreira, o atropelo aos direitos adquiridos, a vinculação a uma profissão previsível e proporcional. A falarem com um especialista em pedagogia como eu da mesma forma que o fariam com um colega de faculdade. Ainda se fossem dirigentes da TAP ou morassem no Monte Estoril… ou então escrevessem uns artigos de opinião no Correio da Manhã!”

sexta-feira, 13 de janeiro de 2023

Inquérito ético-moral aos novos membros do governo


— Costa, esquece… não preencho inquérito nenhum. Os cidadãos que não façam parte da mediania não irão mais para o governo. Já lhes chega a devassa mediática a que vão ser sujeitos sem poderem, quando o exercício governativo terminar, regressar à actividade profissional de sempre e pela qual foram convidados a ocupar o cargo político. Vão ter muitos e bons candidatos, vão sim senhor…

quinta-feira, 12 de janeiro de 2023

A nova médica de família


Hoje é um dia com alguma importância na minha vida mais recente: vou conhecer a minha nova médica de família, a Dra. Catarina Moreira de Sá, e ter a primeira consulta com ela. A este propósito, o centro de saúde que frequento resolveu organizar uma série de eventos comemorativos do facto.
Assim:
15 h - Recepção ao insigne utente com banda de música e foguetório a acompanhar o início das cerimónias;
15:10 h - Discurso proferido pelo Ministro da Saúde evocando a alegria do governo por se ter conseguido reatar o serviço de proximidade com tão ilustre utente;
15:50 h - Palavras de júbilo ditas por mim próprio;
15:51 h - Início da consulta com a nova médica de família;
17:10 h - Conferência de imprensa com a referida médica durante a qual será divulgado o meu boletim de saúde das 17 horas;
17:30 h - Segunda e última actuação da banda de música ao mesmo tempo que serão lançados novamente foguetes.

domingo, 8 de janeiro de 2023

Alto-Minhota de gema


A voragem mediática dos últimos tempos não tem permitido o vagar que a notícia da normalidade das instituições exige. É o caso da escolha da ministra da habitação. Marina Gonçalves não tem marido que possa fazer asneiras, é boa pessoa, tem 34 anos (Jaime Gama tinha 31 quando foi nomeado ministro), fez a licenciatura e o mestrado na Faculdade de Direito do Porto. Tem outra particularidade que os especialistas do costume ainda não repararam: a Marina é de… Caminha, não constando que a falta do centro de exposições luso-galaico tenha constituído um entrave na sua formação pessoal. 
Esperemos que esta nomeação não a faça esquecer do pôr-do-sol único de Caminha — seguindo o exemplo de outros que quando chegam a Lisboa logo esquecem as suas raízes.

sábado, 31 de dezembro de 2022

Aquele almoço


A fotografia parece ter vindo ter comigo. Os netos (falta uma neta que na altura estava a estudar no estrangeiro) com os avós, pouco tempo antes de o meu pai ser operado. Era uma espécie de almoço de despedida – eu sentia isso e a realidade veio confirmar o presságio.

Só hoje à tarde ganhei coragem e resolvi olhar para trás, para o ano que hoje acaba, o malfadado 2022. O ano em que o patriarca da família morreu, em que tudo parece ter ficado pedaço de um todo que não existe mais.

É esse vazio que caracteriza o tempo em que vivo atualmente. Não tenho a quem pedir confirmação do que aconteceu no passado e que faz parte da minha história e da dos outros. É como se a rede do trapezista tivesse sido retirada. 

Fui largado só e triste. E o tempo não me tem feito recuar no pavor da ausência. Às vezes parece que sim, mas logo vem a memória requerer nova contextualização dos limites interpretativos da circunstância. 

Ninguém tem culpa de me sentir assim. Sou eu que me vejo usurpado de uma parte grande da minha identidade. Continuo a ser eu, mas sem o relógio e sem o cigarro entre os dedos – uma mera cópia adulterada de mim mesmo pela ausência do assentimento dos que me antecederam.

Dentro de poucas horas entraremos em 2023. Vamos esperar que o novo ano signifique mesmo um novo tempo, de felicidade sem termo de prazo. Para todos.

domingo, 25 de dezembro de 2022

Natal em Viena


Tarde em Viena, chuvosa, de inverno. Procurei algum aconchego numa das muitas feiras de Natal espalhadas pela cidade. Nada. Todas elas vazias de gente, dos deliciosos bolos e chocolates que lhes dão fama e do vinho quente que renova a alma do mais empedernido dos homens.
Daquela ausência divina fugi à procura do Natal que não tive.

Resolvi procurá-lo na mansão da minha amiga advogada Dra. Luciane. Estava muito confortável a ilustre causídica brasileira.

domingo, 4 de dezembro de 2022

Ai estes malditos Domingos


“Aborreço-me de morte nos domingos de inverno. As horas passam por mim num ritmo exasperadamente lento. É como se fossem sempre a mesma. Dez da manhã ou quatro da tarde, tanto faz. Lá fora o cinzento da atmosfera tem na claridade da luz do candelabro o contraste possível. Dentro de mim a ansiedade do que não vai suceder, das pessoas que gostaria que estivessem agora aqui. Como se eu soubesse quem são – só conheço as que não me apetecem. O dificilmente alcançável é o que mais vontade nos dá.
Ai estes malditos Domingos. Ler, corrigir os trabalhos dos alunos, ouvir o podcast da moda, não me apetece nada disso. Só quero viver algo diferente do habitual. Ou então conhecer alguém oposto a mim. Mas onde poderá estar esse vulto constante na imaginação e nunca visível perto de nós? Vou esperar pela segunda-feira a ver se o encontro. Um dia há-de ser.”

quarta-feira, 30 de novembro de 2022

Rapariga só


Tanto tempo a adiar e afinal não foi difícil. Despediu-se do Alberto como se estivesse a dar as boas-vindas a algo em vez de dizer adeus a um parceiro de vida. Ele olhou incrédulo para ela quando a sentença costumeira surgiu: “Lamento, mas já não gosto de ti”. O marido cada vez mais pálido sem força para dizer coisa alguma. “Falaste com os teus pais?” – a pergunta de um derrotado a surgir com a inevitabilidade de sempre.
Já há algum tempo que ela tinha tomado a decisão. Ver o Alberto provoca-lhe cada vez mais cedo, no fim de mais um dia no escritório, asco: tudo nele a enfadava, o trabalho à frente de tudo, a conversa à volta do jogo do Sporting ou da política partidária ou do livro que andava a ler. O resto parece que não existia. Principalmente a vida lá fora.
Para além disso, já não a entusiasmava em nada: era feio como a maioria dos homens, o corpo nu a anos-luz da harmonia que o das mulheres transmite, a hora do sexo transformada num tormento, a voracidade traduzida em movimentos de posse animalesca e ritmo desenfreado, a conversa idiota concluída a batalha. 
No resto não era má pessoa. Interessava-se por tudo o que lhe acontecia. “Joana, não te esqueças de marcar consulta para a tua irmã, achei-a triste noutro dia...”. E insistia na certeza de que não se lembraria de o fazer. Tratava das contas da casa, contratava nova empregada logo que a actual se despedia, comprava os livros que achava que a Joana devia ler.
No dia seguinte vai estar fora daquela vida sempre igual. Combinou com uma colega do trabalho ficar por uns dias na sua casa até arranjar um sítio que lhe agradasse. Sabia que nada ia ser fácil nos primeiros tempos. Desde muito nova que a ideia de estar só a horrorizava. Tinha medo da solidão.
Quando a tal colega e o marido dela a receberam na residência que haveria ser a do exílio, sentiu-se pela primeira vez livre do vagar enfadonho em que tinha vivido. Só ao serão o casal teve coragem de dizer a verdade que tinham adiado a contragosto: “O Alberto há mais de um ano que anda com a directora de pessoal da empresa.” 
Foi nessa altura que o choro sem justificação irrompeu no rosto descido sobre as pernas, ao mesmo tempo que o sufoco vindo de dentro não a deixava falar. 
Não conseguiu dormir naquela noite nem em muitas outras noites.

terça-feira, 29 de novembro de 2022

Jornalista Cláudia Garcia


O melhor que podia acontecer aos amantes do esférico a rolar nos relvados de Qatar: a jornalista Cláudia Garcia a debitar os seus conhecimentos sobre futebol na televisão italiana. É já milanesa em quase tudo, até mesmo no corpo e no modo de dizer sensualidades ao falar da corrupção da FIFA. Talvez o facto de ser de V. N. Gaia, tripeira até à medula, explique muita coisa.

quinta-feira, 24 de novembro de 2022

Cristiano Ronaldo e o campeonato do mundo do Qatar


Na vida de Cristiano Ronaldo nada fazia prever que alguma vez aquele miúdo saído da Madeira com apenas 11 anos de idade viesse a tornar-se o português mais famoso de todos os tempos. Mais conhecido do que o próprio país: na Chéquia ou no Camboja; na Côte d’Azur ou em Times Square; no deserto do Saara ou nas estepes da Sibéria. 
Como em tudo na existência humana, é chegado também para ele o tempo do ocaso da sua genialidade — o corpo teimoso insiste em traí-lo, os homens fracos querem agora vingar-se do que nunca tiveram e desde sempre invejaram nele. 
Há no entanto, algo que o Cristiano Ronaldo ainda tem em doses sobre-humanos: a força de vontade capaz de provocar nele o último assomo de superioridade extra-terrestre. O campeonato do mundo da Qatar é, de facto, o palco da derradeira luta de Cristiano consigo mesmo e com as almas-daninhas. 
Não, não, desta vez não se trata de uma competição da equipa de Portugal. O nosso país terá muitas outras oportunidades de se revelar enquanto campeão. Aquilo em que vamos participar a partir de hoje é na homenagem a uma criança-homem que durante vinte anos representou algumas das coisas que os portugueses têm de melhor.  
O resto não interessa nada.

terça-feira, 8 de novembro de 2022

Notting Hill


Unidos na descrença eu e o Hugh Grant. Cansados da lufa-lufa do dia, da chuva incessante, do café vazio, do imperdoável ralhete do presidente à ministra mais simpática do governo, de mais um anunciado falhanço na cimeira do clima. Nem o bairro de Notting Hill nos salva do cansaço de tudo isto.

quarta-feira, 2 de novembro de 2022

A pecadora inconformada


“Perdoa-me, Senhor Deus, que eu não paro de pecar. São os homens, é a noite, é a festa… e eu não sei ficar quieta a adiar aquilo que me faz realmente feliz. Talvez não seja forte o suficiente, talvez a vida a que me obrigam não seja para mim. A monotonia cansa-me, as pessoas no trabalho cansam-me, chego ao fim do dia frustrada pelo tempo que não vivi. Que me perdoe o Artur, o Américo e o pai dele, o Zé Manel, o Benjamim e o Ribeiro e todos os outros a quem prometi o que não dependia só de mim. Sim, porque eu não sou dona do meu corpo nem do meu pensamento.”

domingo, 30 de outubro de 2022

Dia de eleições nesse imenso Portugal que se chama Brasil


“Estava-se tão bem… mas o dever chama-me — as mesas de voto vão fechar e a Senhora D’Aparecida não me perdoaria se não votasse !!”

sábado, 22 de outubro de 2022

Saneamento à chinês


— Está? É da segurança? Por favor venham buscar o Dr. António Costa que ele a partir de hoje deixa de fazer parte da Comissão Nacional. “Hasta la vista, baby”.

quinta-feira, 29 de setembro de 2022

Mulher de bom gosto


— Este Tolentino Mendonça cada vez escreve melhor. Estou a adorar "A Noite Abre Meus Olhos". É como se ele falasse comigo. Adoro.

sábado, 17 de setembro de 2022

Viagem ao espaço


É por isso que não caso. Da última vez que fui a Vénus cheguei cansado ao lar onde vivia com a Mafalda, ansioso por lhe contar as novidades daqueles dias, e ela: “Olha que bom foi teres chegado, tenho aqui este lixo para levares ao contentor”. Assim mesmo, nem um “então, correu bem a viagem?”, nem um beijo, nada. 
Na bagagem que arrumei no nosso quarto, estava a lingerie comprada em Vénus mais a respectiva camisa de dormir na expectativa de as ver à noite no corpo da Mafalda. “Ó Zé — disse ela — desta vez acertaste, vou levar este conjunto ao encontro anual da Prozis, obrigado”, e eu mudo de espanto…
Jurei que da próxima vez que fosse a Marte ia trazer-lhe mísseis ar-terra HARM para ela levar ao congresso das vendedoras da Bimby. 
“Deixa-a” — vociferou indignada a Maria José, que Deus a proteja, nua deitada em cima do meu peito, na hora costumeira do amor, no fim das nossas tardes. “Junta as coisas e anda viver aqui para casa. Este fim-de-semana vou à àcção de formação da Remax, mas segunda-feira já podes vir.” — decidiu ela. 

quinta-feira, 15 de setembro de 2022

A morte da professora


A notícia foi dada com todo o cuidado à mesa do jantar. A professora de Biologia que há algum tempo lutava com um cancro tinha morrido. O rosto da minha filha Leonor, que havia sido aluna dela, paralisou por momentos. A expressão do olhar como que emudeceu até que as lágrimas rolaram pela face. Nem um som se ouviu. 
Hoje, a professora vai a enterrar. Excelente profissional, disso sou testemunha. Ensinava como se de um prazer se tratasse a tarefa. Nascera para aquilo.
Tinha, para além disso, uma sólida formação científica adquirida na Faculdade de Ciências do Porto. 
Num tempo em que os governos se definem pelo crescente menosprezo pelos docentes, torna-se impressionante ver uma filha a chorar pela sua professora. 
E dou por mim a pensar que cada vez será mais difícil encontrar profissionais do mesmo nível da malograda professora nas nossas escolas.

terça-feira, 13 de setembro de 2022

Reunião atrás de reunião


“A reunião? É p’ra já. Vou só terminar de beber a Coca-Cola. Depois é molhar-me até ao carro com a chuva que não caiu durante o ano todo. As pessoas vão rir de alegria com o estado em que vou chegar. Que bom p’ra elas! É a única vez que vão rir até à noite do Réveillon. E mesmo aí, não sei. Só espero que a reunião tenha um bocadinho mais de graça que os participantes. Vamos… vamos lá, Irmã Teresa.”

sexta-feira, 26 de agosto de 2022

Ainda no rescaldo das festas


Não vi nada das festas. Aquilo que soube do modo como decorriam foi através da jornalista Emilly Scarlett Walker. Ela ia contando-me ao mesmo tempo que o meu pé partido permanecia quieto conforme recomendação médica.

Em Viana e longe da festa. Os deuses devem andar zangados comigo.

Do bulício daqueles dias já só restam as fotografias publicadas nas redes sociais. Nelas transparece o sentimento que nem sempre se tem revelado com a mesma intensidade: o orgulho de ser Viana. De um modo dificilmente reproduzível no resto do país. Manifestando-se no envergar colectivo dos sinais distintivos da cidade e das suas freguesias — nos trajes, nas danças, nas músicas e na disponibilidade para a festa. Talvez de modo comparável — em termos muito relativos, claro está — à galhardia dos sevilhanos na feira de Abril.

Por isso é que se torna imperioso aproveitar o êxito destes ciclos festivos para, entre outras coisas, relançar a imagem turística de Viana, tão mal gerida tem sido nos últimos tempos pelos seus responsáveis. 

Veja-se, a título de exemplo, o caso da Praça da República, a sala de visitas da cidade. Actualmente não tem um único café, uma única esplanada, estando os espaços anteriormente ocupados pelo Café-Bar, Pastelaria Caravela e Café Américo (pasme-se!) desocupados. Parece mentira, mas não é.

Resta a esperança de que a euforia proporcionada pelas Festas d’Agonia dure o ano inteiro e faça do povo vianense uma entidade crítica inadiável. 

(A fotografia é de Paulo Ramunni e expressa os valores e os costumes das gentes de Viana em tempo de romaria)

terça-feira, 23 de agosto de 2022

A propósito da edição das Festas D'Agonia


Quisemos saber a opinião da jornalista inglesa Emilly Scarlett Walker sobre as Festas d’Agonia deste ano. Em serviço de reportagem para o jornal de grande circulação “Neighborhood Tribune” ela acompanhou de perto os diversos números da romaria. Vale a pena ouvi-la. 
— A Emilly gostou das festas?
— Sim, particularmente da vontade manifesta em todas aquelas pessoas de voltarem a estar juntas e de festejar a graça de viver. É como se procurassem obter um efeito catártico de alcance colectivo. 
— Houve algo que lhe tivesse chamado a atenção pelo ineditismo da situação?
— Penso que terá sido o primeiro ano em que as festas verdadeiramente se discutiram. E tudo por causa de motivos menos nobres fomentados pelas redes sociais. As questões da identificação do “vianense de gema” e do bom ou mau gosto da utilização da palavra “chieira” são disso exemplo.  
— Gosta desta palavra ou não? 
— Num primeiro momento disseram-me que se referia ao chiar de uma roda mal oleada; doutra vez contaram-me que “chieira” apelava à memória da matança do porco nas casas rurais, quando o animal chiava na eminência da morte. Confesso que ainda agora hesito acerca do verdadeiro sentido da palavra.  
— De que números do programa das festas gostou mais?
— Do “vamos para o festival”, da “procissão ao mar” e da “festa do traje”, sem dúvida.
— E dos que gostou menos?
— Gostei de todos. Todos têm razão de ser. Podem, no entanto, em alguns casos ser melhorados. Por exemplo, na duração do cortejo — não se pode obrigar o espectador a estar duas horas à espera do espectáculo e mais três horas a assistir à sua evolução. É muito tempo. Outro sector que tem de ser repensado é o dos fogos de artifício. Numa cidade com as tradições históricas na área como é caso de Viana, é triste não assistir a um maior investimento nas exibições da indústria pirotécnica. 
Para além disto, ainda não descobri alguém que esteja à altura de F. Sampaio, M. Freitas, A. Costa, M. E. Vasconcelos, M. M. Couto Viana ou do seu irmão A. M. Couto Viana ou ainda do pai M. Couto Viana, para além, claro está, do muito grande P. Homem de Mello, na narração e explicação dos quadros etnográficos em análise. 
A Universidade Politécnica da cidade deve criar urgentemente estudos de pós-gradução em etnografia, antropologia, sociologia capazes de preparar uma nova geração de investigadores nos assuntos relacionados com a identidade de Viana, o seu folclore, os trajes, a dança, a música, por forma estruturar-se cientificamente uma etnografia renovada.  
— Quer aproveitar para mencionar algo de que não tenhamos falado nesta conversa?
— Quero, com muito gosto, tornar público o quanto gostei de contactar com o charme irrecusável, a inteligência inesquecível e a elegância de sentimentos de você, meu caro Francisco Barros e Barros.

quinta-feira, 18 de agosto de 2022

Estão aí as Festas D'Agonia


Já se canta e dança ao som das concertinas em Viana. São as Festas D’Agonia, meus senhores. As mordomas enchem-se de vaidade trajando da cor do mar, dos campos e do sangue que lhes corre nas veias. À frente delas, o presidente de honra da romaria deste ano: Tiago Brandão Rodrigues. Um must.

segunda-feira, 15 de agosto de 2022

A noite a chegar


O dia aquieta-se. É tempo de recolher às profundezas do insondável e dar lugar à noite. Com ela virá o susto do menino, o rame-rame da novela de televisão, a bem-aventurança dos amantes. E, principalmente, a serenidade dos percursos mais irrequietos. Pelo menos, durante umas horas. Até tudo começar de novo.

domingo, 7 de agosto de 2022

A cultura na RTP


O português comum gosta de dizer mal, seja do que for, um pouco à maneira de compensação das suas falhas. A televisão é um dos alvos preferidos: “nunca dá nada de jeito”, é só telenovelas e Big Brother e futebol, mais os alertas da CMTV".

O paradoxo de tudo isto vem depois, quando percebemos que aqueles que reclamam são os que correm para a caixa mágica para ver nos quatro canais de informação generalista a triste notícia da demissão do roupeiro do Benfica.  

Só isso pode explicar as audiências confrangedoras de programas onde se reconhece reflexão, crítica, conhecimento sobre os grandes temas actuais.

Vem isto a propósito do programa Grande Entrevista emitido ontem pela RTP. Durante cerca de uma hora, Vitor Gonçalves e Ana Luísa Amaral, numa conversa gravada há uma semana, discorrem sobre a vida e a morte, a escrita e a verdade, o tempo e o vagar. 

Tudo isto mostrado pela primeira vez no dia em que aquela poeta maior da cultura portuguesa morreu.  

Assistir àquele programa foi, deste modo, uma experiência muito particular, inesquecível em diversos momentos da entrevista.  

Na mesma semana em que tínhamos visto, também na RTP, a conversa de Fátima Campos Ferreira com Pedro Burmester, igualmente interessante de acompanhar. Não poderíamos assim calar a vontade de dizer bem.  

terça-feira, 26 de julho de 2022

Noite de Verão


Noite tropical de 25 de julho de 2022. Eu, os canídeos e o castelo. Já vos disse que gosto muito de cães? Desde sempre tive uma relação especial com eles. Quando os vejo, normalmente vou ao seu encontro e converso mais com eles do que com os homens. Às vezes com resultados diferentes dos esperados: lembro-me de aos quinze anos o meu lábio ter sido rasgado por um cão traiçoeiro. Continuei na mesma amigo daqueles seres magníficos com olhos de candura única e fidelidade inultrapassável.
Compreendemo-nos com enorme facilidade. No passeio pelo castelo chamei pelo cão grande, olhou para mim, não disse palavra. Mas deixou-me estar. Logo percebeu que eu precisava do mesmo sossego que ele procurara todos estes anos.
Que quente estava a noite…

domingo, 12 de junho de 2022

Voto de pesar camarário pela morte de Matias de Barros


A pergunta sobre a reacção da Câmara Municipal de Viana do Castelo à morte de Matias de Barros circulou por entre os presentes nas exéquias fúnebres daquele jornalista. 
Em jeito de esclarecimento reproduz-se a carta recebida pela família com o voto de pesar aprovado em reunião camarária de 31 de Maio.

sábado, 4 de junho de 2022

A solidão


A solidão é um monstro de duas cabeças. Uma parece olhar-nos e sorrir, a outra é o retrato do mal e do desespero. Disputam uma à outra o domínio sobre nós. O indivíduo que não sabe falar consigo e tem medo da interioridade depressa se afunda no sofrimento imposto pela cabeça tinhosa. Um outro que escreva, ou crie seja o que for ultrapassa a solidão. A força do mal é, deste modo, vencida pela sabedoria alcançada por aqueles que estando fisicamente sós nunca o estão efectivamente.  

(Na esplanada sem mar)

quarta-feira, 1 de junho de 2022

Na missa do 7º dia de Matias de Barros


O meu pai morreu. Desde criança que tinha medo de ouvir isto e agora aconteceu. Às vezes sentia um medo aterrador da demora enquanto ele não chegava a casa, mas a minha condição de irmão mais velho fazia-me calar perante o Rogério. Agora sei que não volta mais. E estou a sofrer como um adulto perdido num labirinto sem saída. Alguém dizia que com o tempo vamo-nos habituando; não tenho a certeza disso, cada vez sinto mais a morte do meu pai. 

Depois do funeral percebi que a partir dali não teria mais ninguém com quem tirar dúvidas sobre o passado. A vida dos homens importantes que passavam pelo Café-Bar, em Viana, ou as histórias bem-humoradas do passado familiar apenas poderiam sobreviver com a memória do que o meu pai contara. Só que a minha memória está longe de ser perfeita e o Google não serve para estas coisas.

E os netos querem saber. E têm direito a isso. Mas sinto um receio imenso de não conseguir cumprir o legado do meu pai. De não vir a ser o “último cavalheiro” tal como disseram dele nos elogios fúnebres. 

Acho que vou ter de me deixar de formalismos monárquicos e pedir ajuda ao Rogério. A ver se juntos somos capazes de esperar pelo pai sem chorar.