quarta-feira, 6 de junho de 2018

Fim de um tempo

E pronto, chegou ao fim o liceu. As aulas acabam hoje, logo à noite desfilaremos os nossos trajes de festa no baile de gala. 
Para trás ficam 12 anos de aulas, de tantas e tantas coisas que se transformaram em memória de nós mesmos. 
Entretanto um novo tempo está a chegar. Em Outubro estudaremos numa outra cidade, numa universidade que será a porta de entrada num mundo novo. 
Na certeza de que algumas portas se fecharam já. Mas muitas outras estão ainda por abrir. 
O sonho é para já uma imensa possibilidade. Poderemos vir a ser muitas coisas. Médicos, engenheiros, presidentes de câmara, empresários, técnicos de muitas máquinas. Tudo menos professores. Isso não. E, principalmente, homens e mulheres felizes.  
Com uma saudade danada dos tempos de liceu que agora deixamos para trás. Um dia vamos perceber tudo isto. Nessa altura recordaremos o rosto quase esfumado na lembrança dos nossos colegas, o cheiro das salas de aula, o nascimento de um sentimento que desconhecíamos — o amor —, o Descartes, o Pi, o professor de francês, os 17 anos.  
Só aí seremos verdadeiramente caloiros de um tempo de sabedoria e de vida adulta. 
Enquanto esse tempo não chega o melhor é aproveitar o mais possível a segunda etapa da vida de homens e mulheres que agora iniciamos. 
Até sempre, liceu!

sábado, 5 de maio de 2018

Eu e o ténis


Não tem interesse, mas digo-vos na mesma: finalmente assumi o ténis como um assunto sério na minha vida e faço dele passatempo. À conta disso tenho tentado recuperar a memória mais recente da modalidade. E, naturalmente, dos seus melhores praticantes.
Em primeiríssimo lugar o inigualável Bjorn Borg, depois o fleumático Ivan Lendl e a poderosa Martina Navratilova.
A propósito dela, que saudades senti ao ver fotografias do seu casamento com Julia Lemigova, antiga Miss Rússia.
Não há dúvida, isto de ser miss traz muita sorte... 

quarta-feira, 2 de maio de 2018

Rádio Zoela


Todos o sabem: a vida não é uma linha recta, contínua, linear. Ela percorre curvas, cruzamentos, caminhos de terra batida, ziguezagues sem fim, auto-estradas sem portagem e, por vezes, arranca em obediência aos semáforos verdes. Nessas alturas, quanta alegria!, o mundo parece-nos ter saído no Euromilhões. Tudo em nós estremece de euforia.  

Foi o que aconteceu quando vi o meu filho Henrique a falar aos microfones da rádio que eu inventei, a Rádio Zoela (estás aqui estás a levar com ela!). 

A sensação é indescritível. A mãe do Henrique é jornalista da televisão, está a dizer coisas no ecrã e ninguém liga nada.

Noutro dia, um grupo de rapazes atirou ao ar — literalmente — a distinta progenitora em pleno directo televisivo. Então sim, foi um festival lá em casa. 

Por um momento nem quiseram saber dos YouTubers. 

Se a vida fosse a tal estrada plana nenhuma desta coisas faria sentido. Mas não é. De tal modo que não sei se verei o Henrique um dia a beijar uma rapariga linda, a escrever no jornal do avô, ou a ter a cabeça do emplastro encostado ao seu ombro num qualquer directo televisivo. 

Mas nada disso será igual em termos de vertigem feliz ao dia em que ele falou aos microfones da Rádio Zoela. Ah raio de rapaz! É danado o meu filho! Espero sinceramente que se um dia fizer uma revolução não pare no semáforo vermelho.

segunda-feira, 30 de abril de 2018

Coitadas

O Sr. Dr. Barros e Barros, ontem à noite, quando chegou ao Chiado.

sexta-feira, 27 de abril de 2018

À GUISA DE EXPLICAÇÃO (E depois de alguma polémica)

Em 1* lugar importa dizer que gosto de pessoas. De todos os géneros. Se possível das que são mais diferentes das outras, que possuam algo que lhes é próprio.

E entre entre essa amálgama humana, verdade seja dita, as mulheres ocupam um lugar especial na atenção que dedico ao que vive em minha volta. Porquê? Nem eu sei bem. 

Uma coisa é certa. Nada é tão bonito quanto o ser feminino. Nem igrejas, nem esculturas, nem montes e vales e os rios que neles serpenteiam. 

Claro que esta é apenas a minha opinião. Tão pouco válida como qualquer outra. Há gente a sentir verdadeiras paixões por selos, por flores, por cavalos. 

Eu não sou bem assim: a minha cidade de eleição é Florença, não tanto pelos belíssimos monumentos que a caracterizam, antes sim pelas mulheres que desfilam naquelas ruas cheias de história com vestidos de alta costura e o sorriso de vitória a embelezar-lhes o rosto. 

Uma última nota, esta de carácter mais pessoal — os homens nunca gostaram de mim, sempre me fizeram mal. As mulheres desde aquele dia em que me escolheram para delegado de turma no liceu não mais deixaram de me proteger e mesmo às vezes de me amar. 

quarta-feira, 18 de abril de 2018

À espera


O Eng. José Sócrates, no seu apartamento de Paris, à espera do início do julgamento do Processo Marquês, no ano da graça de 2038.

sábado, 14 de abril de 2018

A propósito do dia do beijo


Só hoje posso dizer-vos, caros aprendizes, e a pedido de muitos, como se deve levar a bom termo o ósculo amoroso. Eu sei que a comemoração era ontem mas passei as últimas 24 horas em Damasco, numa operação ultra-secreta, e nem do beijo me lembrei. 

Vamos lá então: O cavalheiro deve aproximar-se delicadamente do rosto da senhorita e solicitar a toma dos lábios. 

Respondido que sim, e perante aquelas protuberâncias carnudas entreabertas, o amante toca deslizando devagar o vermelho da sua boca na boca da mulher. Nessa altura ambos vão começar a sentir as línguas tímidas a procurarem-se e a secreção salivar a fazer de mar encapelado em dia de Verão. 

É então que os corpos devem aproximar-se ainda mais ao mesmo tempo que os seios fazem de rolo de máquina de escrever no corpo do cavalheiro. 

Resta à senhorita perder a vergonha que propriamente nunca teve e já nua de adereços normativos e outros ordenar ao macho tremeluzente que se dispa.

terça-feira, 27 de março de 2018

A menina Vera

Agente Policial - Como é que te chamas, minha filha?

Menina delinquente - Vera. 

A. P. - Sabes que caminhas nas trevas mas se acreditares no teu interior ainda estás a tempo de encontrar a Luz?

V. - Eu já lá fui uma vez mas o Benfica perdeu.

domingo, 25 de março de 2018

Mudança da hora


Não, não e não. Uma hora a menos! Mas quem se arvora em dono do tempo? Não gosto que usurpem o que é meu. Ainda não esqueci aquela vez que me roubaram um guarda-chuva caríssimo da Lacoste numa sala de professores. Ou que um docente catedrático atribuiu-me uma nota à frequência de Filosofia Social e Política sem sequer a ter visto. 

Não, comigo não. Numa hora o presidente Marcelo deixa de derrubar vinte pinheiros, a Marisa Matias de seduzir sete eurodeputados, a Joana de Vasconcelos de fazer pela milésima sétima vez o Coração de Viana, o Rui Veloso de musicar mais um poema do Carlos Tê, o António Costa de atrasar a sua ascensão ao cargo de chefe da Europa.  

Não, não e não. Uma hora é o tempo de ver as ondas do mar morrerem enquanto desenham os meus pés arregaçados na areia, é a página que se segue à outra e à outra para terminar de ler pela centésima terceira vez O Doidinho do José Lins do Rego, é o bocado da noite que me resta para procurar dentro de ti o grito que fará seres minha.

Nessa hora que nos querem roubar, o amor surgirá quando os teus olhos derem uma volta ao céu e a tua boca recuperar o vai e vem da respiração.

Será esse o tempo de pedirmos ao tempo que não ande mais. 

quinta-feira, 22 de março de 2018

Eu tinha prometido

E o que prometo cumpro. Hoje não vou falar de gatos. Vou falar de cães. E tudo porque malbaratam o investimento feito pelo Estado a pensar neles. Um WC que não utilizam. Chegam a alçar a perna pelo lado de fora e a regar de urina a estrutura exterior. Um desprezo. Já pensei em falar com eles e manifestar-lhes o meu desagrado. Tanto dinheiro dos portugueses deitado aos cães...

quarta-feira, 21 de março de 2018

O facebook, eu e os gatos

O prometido texto sobre os gatos é um dos mais difíceis que tive de escrever ultimamente. Por várias razões: exige argumentação complexa (filosófica mesmo), concisão nas ideias e polémica porventura desnecessária. O problema é que é no Facebook em que estamos nada do que atrás referi pode ser considerado atractivo para os seus utilizadores.
Vou por isso tentar ser o mais breve e linear possível no que a seguir escrever. 
Há duas correntes em discussão nos dias de hoje: uma que diz que ainda vivemos na modernidade e outra que afirma já termos mudado de paradigma e que atingimos a pós-modernidade.  
Esta segunda das visões interpretativas assegura que a racionalidade fragmentou-se e encaminha-se para o fim das visões sociais totalitárias. O advento da internet, do jornalista-cidadão, da democratização no acesso (e posse) dos meios de comunicação parece confirmar esta ruptura com a visão única da realidade de nós e dos outros. 
Sempre defendi que a interacção de ideias fomentada pelas redes sociais inevitavelmente traria vantagens para uma sociedade cada vez mais consciente, em virtude de as novas gerações configurarem um avanço na posse generalizada de instrumentos teóricos e técnicos. 
Por esta razão sorri sempre com desdém dos líderes de opinião que na televisão e nos jornais abespinhavam as redes sociais, como se só a opinião deles contasse. 
Há uns meses encontrei-me com Mark Zuckerberg no clube de Bilderberg. Disse-me ele que não desgostava do que eu escrevia mas para mantermos a hegemonia do pensamento e da moral globais sugeria temas menos disruptivos. 
Pedi-lhe para ser mais concreto. Ele então explicou: deve continuar a escrever para as mulheres (são os grandes consumidores do Facebook) mas não sobre as mulheres ou sobre o corpo delas. 
Não resisti a desafiá-lo para me sugerir temas. E então vejam só: comece pelos gatos, é sucesso garantido, depois vá progredindo sempre em torno dos assuntos aceites pela nova ordem global — a guerra na Síria, a crítica aos professores, a defesa dos interesses dos homossexuais, a condenação da importância nuclear da família, o elogio de um presidente da república que beije todos e defenda o interesse de alguns. 
Todos temas consensuais. 
A maioria dos leitores provavelmente não me conhece. Sou mau, cínico e defensor acérrimo da liberdade. 
Nos jornais já não se pode escrever de forma independente. Restam as plataformas digitais, pensava eu. 
Enganei-me. Vamos então escrever sobre gatos até o Mark se sentir enfadado. 
Por essa altura resolvi fazer a vontade solicitada há anos pelos meus filhos: aceitar um felino doméstico lá em casa.  
Chama-se Vodka e é uma gata. Foge e corre de nós e procura-nos a todo o momento. Os meus filhos chegam da escola e a primeira coisa que perguntam é onde ela está. Na semana passada perguntaram-me a medo: “Então, já gostas da Vodka?” Não disse nada. Que ingénuos! Sempre adorei animais. Aliás, o problema está exactamente aí. Gosto demasiado deles — sofro e divirto-me com eles como se eles fossem eu. Esse o motivo porque nunca os quis. 
Se uma prova disto mesmo fosse necessária basta olhar para as minhas mãos: arranhadas de conversar com a Vodka.  
De todos apenas o Sebastião não gosta dela (é o periquito lá de casa, que enviuvou há pouco tempo da Carlota, e sente a solidão e a sua vida ameaçadas pela gata). 
Ah, sim! O Sebastião e a minha inestimável assistente, a Dona Lurdinhas, que sempre que vem despachar ao meu gabinete vocifera baixinho sobre o aspecto das minhas mãos. 
Acerca dos temas a tratar proximamente no Facebook lembrei-me agora de um, consensual e condizente com a nova ordem global que todos queremos implementar: a necessidade de os jardins de infância funcionarem até às 23 horas para que os pais possam estar mais tempo nas empresas.  
Ora aí está. 

quarta-feira, 14 de março de 2018

Camisas Façonnable

A vida exige tantas vezes salvo-condutos para se atingir metas. Muitas das vezes são pertences relativamente óbvios: a inteligência, a beleza, o savoir-faire, a linhagem familiar, as notas escolares, etc. 
Mas há senhas de admissão que estão para lá de qualquer paradigma racional. A entrada nas discotecas da moda é um bom exemplo desta subjectividade sem explicação. 

Tudo isto começou com o alargamento dos círculos anteriormente confinados à classe média-alta. Portugal desenvolveu-se de forma rápida com os dinheiros da Europa, corriam os anos de 1990, o que fez com que novas gentes acedessem à prosperidade económica. 

As discotecas por essa altura estavam com filas imensas de jovens a tentar entrar pensando que o dinheiro compra tudo. Do outro lado da barricada estavam os porteiros das casas de diversão. Idiotas de cabeça geralmente rapada e tronco de árvore milenar. É evidente que de psicologia sabiam apenas que ela se aplica nalgumas actividades de pesca, chamadas de piscícolas. 

Nas discotecas Kapital, Kremlin, Plateau os enganos cometidos por aquelas cabeças ao vento são ainda hoje motivo de anedota. No ginásio era tudo mais fácil. À noite, as turbes ansiosas a olharem a porta de acesso, e as coisas a complicarem-se. 

No caso das raparigas a coisa mesmo assim era mais fácil: anos de actividade hormonal vivida na margem sul e na Damaia e as mini-saias das jovens ajudavam a tarefa. No caso dos rapazes, bem... aí... aí... não sabiam o que fazer!


Até que descobriram o tal salvo-conduto de que falávamos no início destas linhas, sem lógica mas eficaz: as camisas Façonnable envergadas pelos clientes. 
Ainda hoje me dá saudade recordá-las. Criadas por um costureiro de Nice, chamado Albert Goldberg, caracterizavam-se particularmente pela utilização do patchwork, uma espécie de junção muito bem feita de padrões diferentes. 


Resultado desta história: eram um sucesso aquelas camisas: os políticos, a gente do espectáculo, os banqueiros e os rapazes que queriam entrar nas discotecas, usavam-nas à noite. 

As consequências de tudo isto nem sempre eram divertidas: dificilmente não se encontrava nas festas uma camisa com o mesmo padrão da nossa e nas revistas lá estavam as vedetas com as camisas iguais às que tínhamos lá em casa. Eu então tinha um azar com um figura muito conhecida da televisão, coincidência que aliás constituía motivo de gozo por parte dos meus colegas. 


Uma vez, num hotel, eu e o Belmiro de Azevedo cruzamo-nos na entrada de uma sala, olhamos um para o outro, e lá estava a minha Façonnable no corpo dele e a dele no meu. Igualzinhas. 
No ano 2000, Goldberg vendeu a marca por 370 milhões de dólares a uns americanos que depressa adulteraram o ADN das colecções que se seguiram. 


Outros logotipos e outros nomes entretanto substituíram aquele, embora nunca com o mesmo impacto. 


Qual não foi o meu espanto, este mês, quando vi o catálogo Primavera-Verão da Façonnable. As camisas patchwork voltaram. E mais baratas que há vinte anos. A da fotografia que acima se publica custa 165 euros. Não tem o desenho do Albert Goldberg mas é o que se pode arranjar. Já podemos ir outra vez à discoteca. Só espero que as raparigas continuem igualzinhas. 

segunda-feira, 12 de março de 2018

O gato


É nosso às vezes e quase nunca. Só quando ele quer. Esgueira-se por qualquer lado e volta e vai outra vez. Arranha quando quer brincar e sorri o malandro. Ronrona deitado ao lado do dono como se fosse o ser mais dócil de todos. Mia quando quer seduzir e obter alguma coisa. Gosta do calor desde que não seja demasiado. Nunca se sabe o que vai fazer a seguir. E olha terno quando está para aí virado; outras vezes levanta em curva o corpo e olha em desafio. Nesses momentos fica em posição de ataque. Até lhe dar vontade de roçar as pernas do dono num vai-vem de quem sabe namorar. Deita-se no colo das crianças como se fosse uma delas. E lambe o rosto das pessoas explicando-lhes que é assim mas não é mau tipo. Sabe-a toda. Parece as mulheres. Por isso é que elas gostam tanto de gatos. Revêem-se neles. Olha, já se escapou! Como eu gosto de cães.

sexta-feira, 9 de março de 2018

Meu Deus

Tenho-o dito muitas vezes: gostava de acreditar numa realidade transcendente que me trouxesse conforto mas também inquietude. Na resposta aos meus limites e, principalmente, na descoberta de quem sou. Pedi a sábios da igreja que me ajudassem nessa tarefa. De nada valeu. Não consegui ouvir ninguém absolutamente outro chamar por mim. Dar-me a mão e explicar. Continuo, por isso, um ser limitado pelo tempo e pelo espaço, impossibilitado de ser mais do que isto que sou. Um ser condenado a ter um fim, um adeus até sempre.  Tenho assim muita pressa. Tanta que às vezes não consigo fazer nada. Fico tolhido pela angústia de nunca o conseguir. De nada deixar que sirva de marca de mim. De escrever bem, de ser bom pai, de primar pela capacidade de perceber tudo, de deixar um sinal nos demais. Para mim a imortalidade é isso. Não no sentido de vencer o tempo. Isso seria ser religioso e isso não consigo, já o disse. Mas antes de ter sido o melhor que é possível. E a angústia reside aqui. Não deixa tempo para nada. Para pararmos para pensar. Para nos sentarmos na esplanada e olharmos.Temos de apanhar a auto-estrada e voarmos a caminho da conferência, do lançamento do nosso livro, da entrevista na televisão. Ou então de nada disto. Da mera inscrição imorredoira do nosso nome na árvore, da publicação da quadra que fizemos a São João no jornal local. Custa tanto sermos mais que a terra e a época que nos couberam em sorte. Sermos deus de nós mesmo. Maiores do que sempre fomos. Eu quero ser forte para aspirar a ser simplesmente eu. Escritor de reconhecido mérito, sábio de tanto saber sobre a vida e sobre os outros. Só. Mas isto é tanto. Seria quase ser religioso. E eu não sou. Sou apenas alguém que quer gostar de si. É isso. É esta a imortalidade possível. 

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Patrícia Carvalho


Veio do Barreiro estudar jornalismo para Lisboa. Não foi fácil o tempo do curso. Queria aprender tudo, ao mesmo tempo que se esforçava para ajudar a custear os estudos.  
Lia, ouvia os outros e, principalmente, perscrutava em redor com aqueles olhos grandes, da mesmo forma que faz hoje. 
Há 11 anos que trabalha em televisão. Entrou na SIC sem pedidos encomendados, só ela e o Barreiro, cidade que nunca abandonou e de onde é originário um carácter próprio, da mesma argamassa da Muralha D’Aço. 
Parece franzina e é um ciclone que aprendeu a soprar a bordo do cacilheiro entre as duas margens. 
Defende-se sem precisar da ajuda de ninguém, a ela e à família, o seu bem mais precioso. 
Continua a esforçar-se no trabalho tal como se tivesse começado agora a ser pivô. Informa-se das matérias, mergulha nas notícias sejam elas políticas ou de futebol. 
E depois aquele ar de menina que continua fascinada com o castelo encantado, mesmo que, todos o sabem, o mundo da televisão por vezes se assemelhe mais à casa dos horrores. 
Talvez que a sua genuína simplicidade desarme os outros: fala e ri com a cabeleireira, com o coordenador, com a operadora de câmara, com a vida. Sempre com um sentido de humor desarmante. 
Não se acha especialmente bonita. Diz que é a maquilhagem que a transforma. 
Só não sei se será também esse o motivo de continuar a parecer uma boneca que todos gostariam de ter como parceira dos momentos menos bons, sempre que precisam de desabafar. 
Meus senhores, apresento-vos a mais bonita pivô da televisão portuguesa: Patrícia Carvalho.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

O senhor do adeus

Entre as figuras que preenchem o meu imaginário, o Senhor do Adeus ocupa um lugar especial. Alto, de porte aristocrático, sobretudo comprido assertoado, cachecol a condizer, mão direita a acenar a ele mesmo, à noite, ao taxista rezingão, ao homem que viaja ao lado da melhor amiga da mulher, à lua e aos anúncios de néon, aos irmãozinhos que no banco de trás absorvem o mundo todo que corre veloz ao lado do automóvel. 
Mas, principalmente, o Senhor do Adeus escarnece da vertigem sempre a mesma dos dias que se repetem. Provoca a diferença, sacode o marasmo que é sonífero das vidas sem esperança. 
E faz por momentos esquecer aos transeuntes os objectivos propostos pela direcção comercial, o dossier encostado ao peito à espera de ser revisto noite adentro, as parcelas do orçamento familiar que é curto. 
O Senhor do Adeus nunca trabalhou. Não precisava. A família no seio da qual nasceu era abastada, felizmente. O que seria dele se tivesse de cumprir a monotonia do escritório, as horas para abrir e fechar, as aulas para dar? Não aguentaria. 
Nasceu poeta, um performer nato. Capaz de rir na cara da solidão. E de querer fazer parte da vida de todos. Mas por que hão-de os adultos estacar perante a vontade de saber quem é aquela senhora-desejo que desfila a caminho do emprego, de calar a vontade de participar na conversa sobre arquitectura dos dois jovens que olham a cidade, de abraçar o mais só dos velhos?
João Manuel Serra, o Senhor do Adeus, gostava de parar o tempo particularmente na Praça do Saldanha, onde passavam e passam as mulheres mais bonitas de Lisboa. Tinha bom gosto. E inteligência para saber que no fundo todos precisamos uns dos outros. “Eles fazem-me melhor a mim do que eu a eles” disse uma vez referindo-se aos que saudava. 
Morreu em 2010. A voragem da mediocridade campeia agora à vontade. É urgente outro Senhor do Adeus. 
Eu não me importava. Sempre gostei de cumprimentar os pessoas que não conheço. À custa disso os meus filhos gritam de vergonha e dizem que querem sair quando eu conduzo e digo adeus e toco a buzina a toda a gente. 
Não percebem nada. Um dia destes visto o meu sobretudo Gucci, na mão direita levo o saco da Rosa&Teixeira com o cachecol Scarf que vou usar no Saldanha. Ai vou, vou.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

O PSD e Elina Fraga

 

O PSD continua a ser um saco de gatos muito maus. Afastado do poder e, em consequência disso, sem um caudilho que ponha e disponha à livre vontade, afunda-se em lutas internas sem qualquer interesse extra-partidário. É a disputa dos egos que se sobrepõe a tudo o resto. 
No Domingo passado assistiu-se a mais um episódio desta triste história de 42 anos. Aliás é por estas e por outras que muitos dos portugueses não querem saber dos partidos. Preferem a universidade, o mundo empresarial ou, então, a cultura. 
De quando em quando lá aparece um elemento novo neste emaranhado patético de emoções. Dá a cara, apresenta ideias próprias que dificilmente serão aceites e põe em causa a família e a vida pessoal que era até então a razão de quase tudo. 
Foi assim que Elina Fraga viveu estes últimos dias. Convidada pelo presidente do partido e de seguida apupada pelos correligionários. Só porque tem ideias próprias e luta por elas. Tal como fez sempre. 
Mas não é de pessoas desta estirpe que a política precisa? É, desde que não ensombre o protagonismo mediático dos medíocres. Nem contradiga a paixão clubística que envolve cada um dos governos.  
E estes parecem ter sido os pecados de Elina Fraga: enquanto bastonária pôs em causa uma reforma judicial recusada pelos advogados, que tinha em vista retirar ao interior do país um dos últimos bastiões de pertença a um todo nacional. 
Exactamente o que agora em uníssono se sentem na obrigação de defender, um ano depois de os fogos terem posto a nu os erros clamorosos praticados pelos diversos governos ao longo de muitos anos, quando esvaziaram de gente e de instituições uma parte considerável do país. 
No dia a seguir a ter sido vaiada pelos elementos do aparelho partidário veio a Procuradoria-Geral da República a terreiro deitar achas para a fogueira: que sim senhora, a antiga bastonária estava a ser investigada pelos senhores procuradores. 
Quem mandou Rui Rio pôr em causa o trabalho imaculado da procuradoria? Tudo isto é muito triste. Portugal avançou em quase tudo menos em arestas por limar da vida democrática e do sistema judicial. 
Mas que o velho PSD não se engane: as adversidades fazem mais por Rui Rio e por Elina Fraga que os discursos dos deputados que o são há três décadas e que pululam no Partido ou os artigos escritos pelos saudosos da União Nacional no jornal Observador. 
Conheci a antiga bastonária meses antes de ter sido eleita para aquele cargo. Mulher de princípios, combativa, esforçada, competentíssima, advogada dos pés à cabeça, diferente para melhor que a grande maioria dos seus colegas de profissão. 
O PSD, que não é o meu partido, vai ter de apelar ao que tiver de melhor nas suas reservas patrimoniais. Elina Fraga é uma mulher sem medo tanto da disputa intelectual quanto de uma qualquer manifestação de violência física.
Uma vez, na assembleia geral onde se ia decidir a agregação da escola onde estudava a filha (aconteceu o mesmo por esse país fora, sem que a comunicação social tomasse conhecimento da não-democraticidade do processo, tal era o deslumbramento dos opinion-maker acerca do consulado de M. Lurdes Rodrigues), a nova vice-presidente do PSD viu-se de forma crescente rodeada de indivíduos que a queriam intimidar e ao mesmo tempo impossibilitá-la de intervir em público. De nada valeu o caciquismo contra a razão e a lei. 
O melhor é os arautos de um tempo que ninguém mais quer — só eles é que não perceberam — buscarem no estudo e na inteligência colectiva estratégias novas de luta.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

O tempo sem retorno

 

Há dias fui ao funeral da mãe de uns amigos. Viajei 300 quilómetros para me reencontrar com um tempo da minha vida. O da adolescência. Éramos cerca de 20 rapazes que estávamos dia e noite juntos numa casa. Que pertencia à senhora que agora morreu e ao marido também já levado pelo fim do caminho.  
O quanto aquela mulher de excepção aturou dos tais 20 seres cheios de sangue na guelra! Maratonas de jogos de King que duravam vinte e quatro horas, noites sucessivas de conversa sem destino (destiladas com a ajuda de litros de álcool), os primeiros corpos de mulher dançados à razão de três bailes por semana, entre tantos outros momentos que nos fizeram bem e mal. Como não podia deixar de ser tratando-se da vida a ser experimentada por adolescentes. 
A importância da Dona Adelina Painhas em todo este ritual muito demorado de passagem para o tempo adulto foi crucial.  
Ela geria aquela casa. Discreta, mal se via mas controlava tudo dentro do possível. A vida dos filhos, da família toda e daqueles 20 jovens.  
Ainda por cima, como se tratasse de uma partida do destino, à senhora que nunca saía do lar-mater (apenas via as ruas por detrás dos vidros do carro sempre que ia ao cabeleireiro), o marido — um empresário muito popular e amigo das coisas boas da vida — proporcionou-lhe uma casa feita a pensar na festa. Grande, muito grande, com divisões que nunca mais acabavam, e um rés-do-chão, todo ele, destinado ao convívio. 
Tinha um bar — bar mesmo, numa sala destinada para o efeito, e não um simples arremedo encostado a uma parede — e um enorme salão de dança que fazia inveja a muitas discotecas da altura. 
Claro que os 20 mânfios aproveitaram aquelas condições únicas: compraram um sistema de luzes daquelas que se usavam nos locais públicos licenciados para o efeito e fizeram concorrência desleal a eles.
Resultado, na altura das mais célebres festas organizadas por particulares (nós mesmos) da geração de que fazíamos parte, a polícia era chamada à casa da Dona Adelina pelas discotecas da região, mas a conclusão da vistoria era sempre a mesma: aquela era a habitação do dono da empresa de transportes de passageiros que os agentes utilizavam gratuitamente para se deslocarem às suas habitações, além de que os filhos do governador civil, chefe hierárquico máximo deles, também faziam parte do grupo dos 20.  
Não lhes restava outra coisa que velarem pela segurança das festas, exactamente ao contrário do pretendido pelos empresários da noite. 
E a Dona Adelina Painhas todo o tempo acordada a velar na sombra por aquilo. Uma vez estava eu “cansado”, eram para aí sete da manhã, e deitei-me no quarto naquele dia vazio da criada, que ficava perto do bar. A senhora de excepção que o tempo levou há dias veio ver o que se passava comigo, e é nessa altura que o meu irmão diz uma das frases mais célebres da vida dos 20: “Nunca pensei ver um Barros e Barros nessas condições!”
É em tudo isto que penso enquanto faço a viagem para ir ao funeral em Viana. Estive na cerimónia do adeus talvez uma hora e retomei o caminho de volta logo depois. 
Mas enquanto lá estive confirmei o que sempre soube. Que os 20 estão bem mais gordos e velhos, que têm filhos e, imaginem, mulheres (algumas bem chatas) a acompanhá-los e que as festas acabaram. 
Resta a casa grande. Ou melhor, restava. Com a morte da mãe dos meus amigos desapareceu a alma daquela casa.  
E sem um sítio comum, as famílias e os amigos acabam. Podem encontrar-se esporadicamente mas não é a mesma coisa. Nós somos de um lugar. De um espaço que em certos momentos se torna uma autêntica epifania. 
Naquele funeral senti que tinha terminado um ciclo. O da minha adolescência. Resta-me a partir de agora ser adulto. 
E velar um dia, eu e a polícia, pelas festas dos meus filhos. 
Até sempre, juventude minha. Até sempre, Dona Adelina Painhas.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Noite de Carnaval


Que eu não gosto de dançar!? Mas quem disse uma coisa assim...? Não há quem não goste. Pelo menos de ver. E de ouvir. De se sentir estonteado pela noite. São as luzes ou então a lua que nos fazem cambalear. Ou será que é a beleza daquela e daquela mulher? 
Não sei nem importa. O que interessa é dançar. Com o corpo, com o pensamento ou simplesmente com os olhos. 
Logo à noite vou tentar dançar. Com a Isabel que sempre quis e nunca tive não sei porquê. Se ela aceitar vou trazê-la mão na mão para dançar o tango, a minha especialidade. Gostava que fosse. Logo eu, nascido e criado no Monte Estoril, toda a vida habituada às noites de tango, de perfume e de Absolut Citron.
Com as mulheres tão maquilhadas que não são elas. Os lábios pintados com o encarnado que é mentira em quem o usa. E a fala afectada. 
Todas menos a Isabel. Por isso é que gosto dela. O seu corpo não precisa de ser vestido nem os lábios retocados. Tudo o que se lhe acrescente torna-se supérfluo. Ela é verdade e noite. Dos seus olhos nasce a lua. E as luzes da festa. 
Logo vou tentar dançar. A Isabel colada a mim, eu a pegar-lhe na perna que me envolve, o corpo dela a adivinhar-se centímetro por centímetro. 
Os seios dela provocam-me, o tango dá-me a conhecer o tamanho deles, a forma, os dois entumecidos. Os corpos, o meu e o dela ouvem a música e procuram-se no triângulo do Monte Estoril. 
Logo à noite vou tentar dançar o tango com a Isabel. Ou então rezar com ela. À noite, virados para o céu escuro da madrugada. O tango ou a reza vão dar ao mesmo. Ambos fazem-nos galgar horizontes. À procura de nós mesmos.
Seja o que Deus quiser. 

domingo, 28 de janeiro de 2018

Na esplanada

Dois homens e um cão. Há muito tempo que estão a ler. Menos o cão. Parece que não sabe ler. Ninguém é capaz de identificar de onde são, o que fazem. Das suas bocas não sai uma palavra. O cão também não ladra. Assim fica difícil descobrir qual a nacionalidade do trio. Se ao menos o cão ladrasse. Uma coisa é certa: nenhum deles está aqui. Provavelmente imaginam-se no mundo traduzido em escrita nos livros de ambos. O cão, esse, deve estar a percorrer os prados verdejantes do norte da Europa. Quem o mandou não aprender a ler?

sábado, 20 de janeiro de 2018

Voltar a casa

 

Ao contrário do que a maioria pensa há muito que me habituei a estar só. Na esplanada, na plateia do teatro, em frente ao mar. De tal forma que às vezes assusto-me comigo mesmo. Não, não quero que aquela pessoa se sente a meu lado — teremos de falar de futebol, do Rui Rio. Prefiro estar eu e as minhas coisas. 
Claro que para se estar bem assim é preciso que haja gente por detrás. Eu explico: olhar o mar só não significa solidão; solidão é querer falar com alguém, aproximar-nos do telefone e não nos lembramos de ninguém. 
E então sim, desembocamos no mais grave dos problemas que alguém pode ter de enfrentar (esse e o da falta de objectivos).
Mas eu não sou uma pessoa só. Tenho, cada em seu sítio, uma família que me ama. E a quem quero muito. 
A família — a base de quase tudo. O que somos e o que poderemos vir a ser. Tudo começou com ela. E vai acabar com ela. Sem que alguma vez a tenhamos escolhido; nós é que fomos escolhidos. No entanto aqueles que verdadeiramente sabem querem ser no final dos dias enterrados com ela. 
Este é um dos muitos mistérios por desvendar.
Vêm estas linhas a propósito do meu começo de vida. Fazem hoje anos a minha mãe e o meu irmão. Nasceram com uma diferença no tempo de vinte anos. No dia vinte de Janeiro. Com eles nasci também. 
Por isso comemoro hoje o meu aniversário. É desta união que eu falava. Que me permite estar na esplanada só. 
Porque amo e sou amado. E então posso olhar os outros, adivinhar-lhes a vida, ao mesmo tempo que gosto deles. Sem querer que se sentem ao meu lado. 
Sinto-me próximo das pessoas mas não sou igual a elas. 
Esta é a grande diferença da multidão em relação à família. Da família eu sou mais um; da multidão não sou nada. 
Parabéns Mãe e Rogério. Estamos e estaremos sempre juntos. Porque somos um só. 
Um beijo a vocês e à vida.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Conselho para os noivos

Que a felicidade combine com o ordenado mínimo de ambos, em empregos sem término definido, mais o aluguer do ninho de amor por 800 euros mensais.

E ainda que cada um per si seja capaz de resistir às tentações do Facebook, dos colegas de trabalho e das missas do Padre Bruno. 
Porque senão já sabem: lá vem o veado. E o diabo também.

sábado, 13 de janeiro de 2018

Vitória interna de Rui Rio na liderança do PSD


Começam a chegar os convidados para a festa da vitória de Rui Rio no Hotel Sheraton, no Porto. Na foto, Cátia de Jesus Muralha de Aço, vendedora da marca Intimissimi em Aveiro, acompanhada de Armando Coelho, empresário de barbearia e presidente da concelhia do PSD em Vale de Cambra. 

A cor laranja do vestido é “uma homenagem ao partido do Sr. Rui”, disse a Cátia à nossa reportagem.