domingo, 29 de março de 2020

A esplanada vazia


Exilarmo-nos em quarentena não é tarefa fácil. Mesmo que de início tenhamos a genuína vontade de estarmos sós. Mas essa determinação pessoal não pode nunca ser imposta. Traduzir em letra de lei a inutilidade das cadeiras da minha solitária esplanada é ferir a liberdade de acção. Mesmo que não fizesse tenção de me sentar nelas.
E isto porque a epidemia provocada pelo maldito vírus coincidiu com um tempo difícil da minha vida. Por isso é que não tenho escrito quase nada, limito-me a procurar nos despojos da memória algum texto que não me deixe mal.
Na doença do meu pai reside a razão principal deste estado de espírito. No dia da operação a que foi sujeito senti debaixo dos meus pés o terramoto de Lisboa, no coração um enfarte a caminho, e nos olhos uma tristeza sem fim.
Está neste momento em convalescença e o pior parece já ter passado. Mas estes meses reafirmaram a certeza de que o meu pai é ainda, passado este tempo todo, o esteio da estrutura de mim e do meu mundo. E que ainda não estou pronto a ser definitivamente pai.
O resto do sofrimento tem a ver com a quarentena ela mesma. Na altura em que alinhavo estas linhas, estou fechado em casa há 24 dias. A santa da Dona Lurdinhas ralha-me de hora a hora, às vezes chego a pensar que o braço levantado lá detrás das costas vai ter como destino alguma parte de mim, chama-me a atenção para a lista de consultantes que esperam para escutar o meu saber, a fortuna que estou a perder e coisas do género.
O problema é que já não sei se quero continuar com este tipo de vida, as aulas, mais as consultas, a paixão do jornalismo e a esplanada vazia por ordem do governo. Começo a sentir-me cansado de tudo.
E em casa, neste tempo de quarentena, a família não parece estar melhor. Nos primeiros dias era um autêntico milagre, os meninos entusiasmados a meu lado a escolherem filmes para ver, a jogar ao Monopoly. Depois, bem depois estourou em pleno remanso do lar a bomba de Hiroshima, a de Nagasaki também, além de que a central de Chernobyl se lembrou de explodir na sala de estar.
O meu escritório foi desde os primeiros dias do exílio ocupado pela Matilde que estuda Direito, os mais novos fecharam-se nos quartos, devem ter-se concentrado nos trabalhos da escola e eu fiquei sem saber para onde ir. Na sala da televisão não podia ser que era pertença da vontade de todos e dos youtubers da moda também. Restava-me criar um escritório no quarto. Inventei uma secretária que colocada junto à janela ficou muito bem, o computador a debitar a minha música, o silêncio e o sol a proporcionarem o sossego que me faz falta. Só até ao dia seguinte. Acordei com o novo escritório transformado em estúdio de televisão. No centro da secretária o microfone e o tripé da RTP, o computador grande para gravar os áudios mesmo ao lado.
Nesse dia desisti. Voltei-me ainda mais para mim, penso e recordo o percurso que me trouxe aqui, sonho com a esplanada e sou acordado do alheamento pela voz forte da Dona Lurdinhas que me chama a atenção para o dinheiro que ando a perder.
Coitada, ela não sabe, e eles também não, que o conforto material não substitui a areia alisada da praia dos dezassete anos numa noite de Verão.

segunda-feira, 23 de março de 2020

Oliveira Martins e os portugueses


Oliveira Martins foi — para além de outras coisas — uma das figuras mais respeitadas da ciência histórica, ainda muito romanceada mas com influência na identidade colectiva portuguesa durante os séculos XIX e XX. 
Em 2015, o historiador Amândio Barros zurze em Oliveira Martins a propósito da escolha que este faz do local de nascimento de Fernão Magalhães. E cita, no livro que então publica, o influente escritor da Geração de 70 ironizando acerca da caracterização que ele faz dos transmontanos — “afirmativos e duros” —, dos minhotos — meigos e celtas — e dos alentejanos — capazes de “violência quase semita”. 
Sobre estas afirmações de Oliveira Martins nada vou comentar. Tenho as minhas ideias, mas estou de tal modo envolvido no viver das três regiões que mal me ficaria dizer qualquer coisa que seja.

sábado, 7 de março de 2020

Homens complicados


De um modo mais ou menos sofisticado respondo o mesmo, desde muito jovem, às mulheres lavadas em lágrimas: “Escolheste o mais complicado dos homens, agora choras, claro...”, “Ah mas os outros não me acrescentavam nada, só queriam comida na mesa e os telefonemas da mãezinha”, “Ok, mas devias saber que os mais interessantes causam sobressaltos permanentes”, “Sim, mas eu prefiro sofrer a ver o mesmo programa de televisão todas as noites.” “Ai é? Então acho melhor arranjares alguém que ande à tua volta... e se um dia ele vier a ter ciúmes podes manter a esperança de ele vir a ser teu... se não, esquece-o, ele que abra as asas e voe.”

sexta-feira, 6 de março de 2020

Em busca da tranquilidade


Na vida há dias especialmente difíceis. A espera pelo resultado da cirurgia de que ontem vos falei custou-me muito. Valeu-me no final do dia o regresso majestoso do meu amigo de sempre: o mar. Num perpétuo movimento que explica a relatividade do momento, por mais doloroso ele seja.

quinta-feira, 5 de março de 2020

À espera


Na sala de espera um grupo de pessoas sem idade. E sem vida também. Duas mulheres falam sem parar. Os outros não pensam em nada. Estão tão anestesiados como os familiares que logo depois das portas brancas estão a ser operados. 
Tal como a Patrícia. Durante muitos anos não pensei em viver este momento. A vida  parecia a dos filmes que víamos na tela. Apenas com mais contas para pagar, alguns parentes que não simpatizavam connosco, o carro que reclamava cuidados paliativos. 

No resto — no mar, nos dias de praia, nos fins de tarde de trabalho amaciados no Tekas Bar, na casa alugada com os filhos quando nasceram — tudo parecia ser infinito, e nós espécies de uma realidade transcendente, só nossa. 

Até que o maldito diagnóstico apareceu numa tarde de Inverno. De muita chuva. E eu quase a morrer naquele momento. E a Patrícia a dar-me a mão tentando transmitir-me a serenidade que vinha do olhar. 

Penso em tudo isto enquanto espero. A sala continua imóvel próxima do estado letal. As duas mulheres falam Um homem sentado perto de mim olha o meu telemóvel enquanto escrevo estas linhas (é o primeiro leitor deste arrazoado). Fico com a ideia de que lhe pareço um tolo. Adivinhou. 

As batas brancas entram e saem empurrando aquelas portas com uma roda de vidro a parecer as dos navios. 

Vejo uma enfermeira jovem que regressa da realidade atravessando a fronteira. Dirijo-me a ela. Quero saber como está a decorrer a operação. Anseio pelo momento de abraçar a Patrícia, recuperar o amor dos primeiros tempos. — Enfermeira, é capaz de me prestar uma informação?

A enfermeira sorri. Vou falar-lhe do meu amor.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Coitadinhos


Há dias em que não se pode sair de casa... ia eu absorto nos meus pensamentos, todos eles muito sérios, relacionados com as minhas amigas leitoras, quando de repente... deparo-me com estes senhores em grupo na escadaria... os polícias a aproximarem-se cada vez em maior número, disseram-me que não poderia estar ali, mostrei o meu cartão VIP, pediram desculpa... mas não quis ver mais... de certeza que aqueles homens e mulheres iam ser presos... e não sei porquê, não gosto de ver ninguém a ser algemado e a ser levado para a carrinha celular. Coitadinhos dos senhores.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

Ainda sobre a eutanásia

A propósito do tema da eutanásia, ultimamente tão debatido na sociedade portuguesa, e em resposta a mensagens que recebi a este respeito, gostaria de aclarar o meu ponto de vista sobre dois pontos a meu ver essenciais: 
1 - O exercício e o pensamento políticos têm em vista numa fase primeira e decisiva o colectivo. Só depois de se actuar em nome do bem comum é que se poderá ter em vista outros patamares de reflexão. 
Assim sendo, nada nem ninguém pode desvalorizar, amputar, amesquinhar o valor de todos os valores, aquele que serve de fundamento a todos os outros. E qual é ele? O que tem em vista a inviolabilidade de todos e de cada um de nós, nos anos da vida e nos minutos da morte. 
2 - Mas então a questão da auto-liberdade do homem que decide o que fazer de si não deve ser considerado? Claro que sim, embora com as condicionantes que a liberdade dos outros impõe ao horizonte das nossas possibilidades. Quer isto dizer que se a decisão individual abrir uma brecha na regularidade necessária aos interesses do bem comum, uma vez mais aquela que é obra do eu, vai subalternizar-se aos desígnios do nós. 
Mas então não há lugar para a escolha individual? Há, na sentença que se espera inteligente dos agentes do Direito, na consciente utilização do testamento vital e, porque não? — na prática do segredo que a experiência de vida nos ensinou a usar.  
Tudo isto sem proporcionar nesga alguma à vulgarização da vida e da morte, sem impor limites de idade para uma ou para outra, ou transferir poderes para o sistema hospitalar português, em que o autor destas linhas não confia. 

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

O novo desígnio nacional: a eutanásia


Não matem”: Em duas palavras apenas o velho metalúrgico, secretário-geral do PCP, disse tudo sobre a eutanásia. Sem teorias filosóficas ou religiosas a toldar o raciocínio; apenas com o saber adquirido ao longo de uma vida assente em palcos bem diferentes entre si. 
Nunca fui nem serei comunista. Quem me conhece sabe que a minha forma de ser é contrária a uma ideologia uniformizadora. Mas neste tema não entra o mero jogo partidário, nem sequer o discurso da fé. Apenas pode, e deve, integrar a linha de raciocínio que identifica os deveres do estado na contribuição para um fim de vida digno dos seus cidadãos.  
De resto, não acredito na bondade do sistema hospitalar português na implementação da eutanásia. 
Por favor, “não matem”. O Jerónimo de Sousa tem toda a razão. 

sábado, 25 de janeiro de 2020

Polica e futebol: essa mistura explosiva


Este país, por vezes, parece uma anedota. Grande nalgumas áreas e depois rasteiro nas coisas relativas à volatilidade e ao egoísmo. É o que tem acontecido com os chamadas Leaks, também conhecidos por fugas de informação. Especialmente quando estes rombos na confidencialidade se referem ao futebol português.
Com a política a reação é pacífica. Mas se este fenómeno se referir ao Benfica, a equipa que ajudou a suportar a guerra de África e a emigração de Paris, então cai S. Bento e a estátua do marquês. 
Em Portugal nenhuma instituição se compara em termos de importância ao clube da Luz. É neste contexto que se integra a história recente de um tipo de cerca de 30 anos, licenciado em História e especialista autodidacta em informática. Chama-se Rui Pinto e é acusado pela direcção benfiquista de ser o autor da invasão no correio electrónico do clube, apropriando-se de informação prejudicial para o sucesso futebolístico encarnado.
É preciso prender o autor de tal desaforo! — vociferaram em coro nas televisões os comentadores do costume. E aqui começa a ingenuidade das instâncias judiciais e da polícia portuguesa. Ouviram dizer que o hacker estava em Budapeste e nem pensaram duas vezes. Mas quem é o rapaz? “Isso não interessa, o povo e o governo vão gostar da nossa eficácia.”
Azar: o tal curioso das coisas da informática e presumido hacker do Benfica é tão só o fundador da plataforma Football Leaks, denunciadora de fenómenos de corrupção do futebol a nível mundial. Quando se deram conta já era tarde demais: os húngaros autorizaram aliviados a sua extradição e os portugueses viram-se obrigados a gizar uma nova estratégia. Expuseram-no à chegada a Lisboa como fizeram um século antes com o rei Gungunhana e, de seguida, prenderam-no numa cela de alta segurança, onde está desde Março de 2019, sem poder contactar outros reclusos e guardado como se fosse cabecilha do Daesh.
Claro que a resposta do “nerd dos computadores” havia de fazer-se sentir, a começar na anunciada divulgação de informações de interesse colectivo. As primeiras aí estão, os Luanda Leaks. “Mas que importância tem Angola comparada com a grandiosidade do Benfica?” — continuam a pensar os responsáveis políticos e judiciais, esquecendo-se que Rui Pinto ainda só disponibilizou uma pequena parte do volume de informação que possui. Vem aí matéria sensível sobre procuradores-gerais, primeiros-ministros, banqueiros, deputados, advogados de firmas muito conhecidas. 
E tudo porque os dirigentes da administração judiciária e policial escolheram a via do sucesso fácil quando foram buscar o Rui Pinto a Budapeste. Isto para além de continuarem com os tiques que os definem pelo menos desde a inquisição. 

domingo, 19 de janeiro de 2020

A morte triste do Giovani


O caso do homicídio do jovem cabo-verdiano Luís Giovani Rodrigues é mais interessante em termos de estudo do inconsciente social do que apressadamente se poderia pensar. O crime ocorrido numa cidade pequena, aparentemente pacata — onde estudam no instituto politécnico local jovens oriundos de 70 países — foi motivo de atenção mediática permanente nas últimas semanas. 
Bragança, o burgo onde as coisas se passaram, é um caso de sucesso no que à integração de diferentes povos e diferentes culturas diz respeito. Mas a morte do rapaz cabo-verdiano fez abanar os alicerces aparentemente sólidos da socialização conseguida até aqui. Não por razões raciais, a questão ultrapassa essa facilidade de catalogação, mas por causa das mudanças que o viver colectivo brigantino vem descobrindo no interior de si mesmo.  
De uma sociedade rural, em que a maioria das pessoas vivia numa situação de pobreza, passou-se em algumas décadas apenas, para uma estratificação comunitária assente no crescente rendimento da agricultura direcionada para alguns produtos de excelência e, principalmente, na revolução proporcionada pela abertura da escola às diferentes classes sociais.  
Claro que nem todos aproveitaram essa democratização do ensino de igual forma: os filhos da emergente classe média foram os grandes beneficiados. Muitos daqueles que provinham de famílias sem hábitos culturais, continuaram irredutíveis às mensagens de incentivo que lhes eram transmitidas pelas escolas e mantiveram-se à margem desta mudança. Sem que a culpa fosse só deles — afinal a progressão social não se faz do dia para a noite. 
Entretanto, os jovens que tinham objectivos bem definidos — tanto por eles como pelas suas famílias — entraram em grande número nas faculdades de medicina, engenharia, biotecnologia, economia, direito e outras.
A somar a este contingente, há a considerar ainda os que escolheram o Instituto Superior Politécnico de Bragança para estudar. E, depois, os estrangeiros: eslavos, africanos, do Médio Oriente , da Ásia, da América do Sul. 
E é aqui que a mais elementar das perguntas ganha sentido: onde se encontram nos períodos de ócio, todos eles, os que frequentam o ensino superior e aqueles que só estudaram enquanto foram obrigados pelas políticas governamentais? Na noite de Bragança, é óbvio. 
De acrescentar, em termos de informação histórica, que tem profunda tradição a vida nocturna da capital nordestina. 
O resto da explicação do triste fim do Giovani é do conhecimento ou intuição de todos. O comportamento ainda originário das tradições rurais que se materializa nas célebres esperas em grupo, na pseudo-honra recuperada pelo exercício da violência, na desconfiança em relação aos que são oriundos de um mundo diverso, no comportamento machista da sociedade brigantina em geral, necessariamente se irá confrontar, numa via de duplo sentido, com aqueles que podem vir a constituir ameaça ao sentimento de posse seja a que matéria, espaço ou pessoas se referir. 
Fica só a faltar o álcool: às duas da manhã, rapazes e raparigas estão em grande número embriagados. E entre eles, conforme seria de esperar, estão os que se sentem à margem de tudo e de todos: das jovens mais bonitas, dos candidatos às profissões invejadas, dos novos doutores, dos objectivos que ultrapassem o efeito da madrugada. Não estudaram, a escola nada lhes dizia e agora pouco há a fazer. A não ser combinar uma espera aos primeiros pobres coitados que saiam na rifa da noite, munidos de um poder que não têm. Mas isso eles fingem não saber.
Em resumo: duas nações, duas culturas, coincidentes no tempo e inconciliáveis entre si. 
Wundt, Jung ou Lévi-Strauss quando trabalharam a psicologia social contactaram com realidades próximas desta.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

Encontro com Deus


Acabo de chegar ao Ritz. Demoras muito?

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Em representação permanente

Se os donos do mundo fossem sempre assim as coisas poderiam ser mais fáceis. Mas não são: é tudo mentira. Naquele bar vietnamita quase ninguém é aquilo que aparenta ser. A representação é o esteio que sustenta as paredes e a conversa dos convivas. A auto-confiança do presidente contrasta com a fragilidade do apresentador da televisão. Mas isso para já ninguém sabe. A verdade só se revelará quando o apresentador morrer enforcado num quarto de hotel em Nice. Nessa altura será preciso arranjar um novo comparsa para a mesa do Obama.

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

Voltou o CR7


Uma coisa tem de se admirar neste puto reguila: a capacidade que tem de perante os momentos menos conseguidos — e que o atormentaram no final de 2019 — começar o ano com um novo corte de cabelo, um iPod fora de moda, uns óculos atrevidos, e, principalmente, uma força cerebral que só está ao alcance dos melhores. Resultado: três golos no primeiro jogo de 2020 e o sorriso de sempre estampado no rosto.

domingo, 29 de dezembro de 2019

Balanço de final de ano


























Mais um ano a chegar ao fim e eu sozinha. Tentei e nada resultou: inscrevi-me nas danças de salão, no curso de alemão, no Instagram... e o lugar ao lado do meu deserto no sofá lá de casa.  
Nada disto tem a ver com solidão. A circunstância de estar só nunca me assustou; pelo contrário, muitas das vezes prefiro ver as pessoas ao longe e imaginá-las no seu viver abnegado de gente simples. Nessas alturas crio-lhes identidade, invento-lhes enredos literários. Mas depois percebo que as histórias dos outros são meros paliativos da minha.  
Sempre quis ter uma família — um homem e filhos. Desejos de gente mediana que os meus pais souberam moldar em mim. 
Estive quase a iniciá-la. Mas depois aconteceu a desgraça que me faz estar tal como me sinto hoje. O único homem de quem verdadeiramente gostei — só o soube depois — foi embora para sempre por culpa minha. 
De então para cá, quando me apetecia ter alguém na cama, trazia mulheres e homens que há algum tempo havia escolhido na noite ou no escritório. Mas sabendo de antemão que nunca passariam de meros fogachos na penumbra em que se havia transformado a vida. 
No Verão deste ano resolvi consultar um conselheiro filosófico prestigiado. 
Disse-me que estava na altura certa de procurar o homem da minha vida. Perguntei-lhe onde achava que o deveria procurar. Olhou para mim e respondeu de forma inequívoca: Assembleia da República. Fiz-lhe ver que uma mulher branca gaga como eu poderia ter dificuldade num meio como aquele. “Qual quê? Lá todos gaguejam de uma forma ou outra”.
E aqui estou eu à espera de 2020, cheia de esperança no tempo que aí vem. Vou iniciar, na segunda semana de Janeiro, as lides parlamentares com uma intervenção sobre “A Política e a Procura do Homem Novo”. 
Uma coisa é certa: se não o encontrar nos corredores ou no restaurante da assembleia, volto a procurá-lo junto do tal conselheiro filosófico. Palavra de mulher apaixonada.

sábado, 26 de outubro de 2019

Aniversário do Henrique de Barros


Está na Amazónia e na galáxia Redshift. Entre vegetação luxuriante e terra seca. Na crista de uma onda na Praia Norte e no remanso da água do banho. 
E junto com ele, na sua página do Instagram, a Vodka. A altiva gata é simpática com todos de quando em vez. Não muitas porque cansa. Mas com o Henrique, ele pode fazer dela boneca de borracha que a bicha não reclama. Mais: beija-o o e lambe-lhe a cara o tempo todo. 
É um sedutor o rapaz. Ele sabe disso. Mas ultimamente vem aprendendo que não podemos agradar o mundo todo. Fazer com que a Marta goste de nós significa que o Artur vai detestar-nos; que ou se seduz a vida lá fora ou a escola onde estudamos — uma e outra, ao mesmo tempo, é difícil.  
E por vezes o Henrique sofre com isso. A liberdade de sermos quem queremos ser é aparente. Alguém controla coisas que deveriam ser só nossas. 
A sua inteligência está agora a avisá-lo desta realidade. 
Também só tem onze anos. Onze?! Não, não... tem doze anos, feitos hoje bem cedo, logo pela manhãzinha.  
Está quase um homem o Henrique. E sonhador e turista e actor. E eu, enquanto pai, cheio de medo — que sina! —, o rapaz tem os mesmos atributos os mesmos pecados de mim. 
Por isso é que gosto tanto dele e, ao mesmo tempo, olho-o com receio de tudo. 
Mas ele há-de ser feliz. Hei-de ter tempo e engenho para avisá-lo de todos os escolhos que vai ter de enfrentar.  
Parabéns Henrique. Não largues nunca a minha mão que só te quero feliz. O resto não interessa nada. 
Um beijo. 
O pai.

quarta-feira, 16 de outubro de 2019

Aniversário da Maria Leonor de Barros


O amor de um pai por um filho é de um tamanho sem fim. Não se pode definir, expressar através de palavras. Ultrapassa a dimensão de racionalidade exigida pela lógica. É vida que se anula em favor de outra. 
Gosto muito da Leonor. Olho para ela e sinto-me ao espelho. Sei tudo o que ela pensa e sente. Como se fosse eu outra vez. 
Faz hoje 14 anos, a Leonor. Em qualidade de raciocínio parece ter já chegado à maioridade. É absolutamente brilhante em tudo o que faz. Aluna do quadro de mérito sem nunca a ter visto estudar. Toca violino, canta, tem aulas no conservatório e no liceu sem se queixar do seu horário transcendente em relação às leis da razão.  
É muito melhor do que eu. Vai ser aquilo que quiser ser. Feliz, assim espero.  
Passei as últimas horas à procura de uma fotografia dela. Sem sucesso. Vi-me obrigado a buscar o rosto desfocado da Leonor em recordações de um jantar de amigos. 
Sem que ela suspeite de tal afronta. Também eu não gosto de estar em fotografias. 
Somos parecidos, Nonô. Por isso é que me sinto tão emocionado quando fazes anos. 
Não consigo escrever mais nada. Se calhar nem devia ter começado este arremedo de palavras. Mas se não o fizesse não estava a cumprir a tradição que impus a mim mesmo há muito tempo. 
Sê feliz, minha querida filha. Se o fores — e só se o fores — também eu serei. Meu amor.

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

A mentira dos homens


Mas que mentira te disseram! Não deves confiar nos homens que choram no teu regaço a afiançarem que sofrem por ti. Só querem saber deles. Nasceram e vão morrer narcisistas. No momento em que lhes disseres que estão perdoados começam logo a pensar na tua melhor amiga ao sol. Dá-lhes um Kleenex e deixa-os chorar à vontade. Só lhes faz bem sentirem a escorrer pela face as impurezas todas.

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Diogo Freitas do Amaral


A vida é preenchida por momentos-chave, situações marcantes e por pessoas. Muitas pessoas. Umas que conhecemos, outras que nos habituamos a ver, a ler ou a desejar. Marcando o tempo ou os tempos. Fazendo com que o ano de de 1989 seja o ano de Tiananmen, do muro de Berlim, da Teresa e da Amélia, do Marcelo a mergulhar no Tejo.
 
Nessa galeria de homens e mulheres que marcaram o meu cenário de vida está Freitas do Amaral. Não que eu fosse seu correligionário político, mas porque ao lado de Soares, Sá Carneiro e Cunhal fundou um novo tempo em Portugal. 
No dia em que ele morre, vem-me à memória a ocasião em que o vi, a ele à mulher, dentro do Volvo cinzento a ser embalado pela turbe enfurecida a gritar “fascista”. Na cidade de Viana, era eu uma criança que adorava a contenda política. 
E Freitas do Amaral imperturbável. Tinha ele 33 anos e já era professor prestigiado de Direito Administrativo. 
Esta história que presenciei associo-a à retirada da sua fotografia da sede do partido que fundou. Por decisão de uns meninos mimados que nasceram com as coisas todas à disposição. 
De então para cá, a qualidade da formação moral e académica dos políticos nacionais tem vindo a degradar-se. Estadistas a sério não apareceram mais. Culturalmente, então, são um deserto de tudo que represente uma visão esclarecida do futuro. Não sendo capazes de se adiantarem ao tempo. Reagindo apenas ao acessório. 
E o sobretudo verde que não voltará. Nem a plasticidade do raciocínio de Soares. Nem a perseverança e a coragem de Cunhal. Ou o poder de sedução de um povo pelo atormentado Sá Carneiro. 
Descanse em paz, Senhor Professor. 

Foto Revista Maria

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

A imagem de mim


Não, não é verdade: aqueles que me acham pretensioso na escolha que faço dos outros estão perfeitamente enganados. E isto é ainda mais verdade se o critério depender de gostarem ou não de mim. Desde sempre relativizei a forma como me olham; ou como falam de mim. Nem sei bem porquê. Até porque em termos racionais há apenas duas justificações para tanto, sem que ambas se me apliquem de modo integral: uma refere-se à alta conta em que alguém se tem — o que não é por certo o meu caso; a outra tem a ver com a sabedoria que a maturidade nos traz, a de ser capaz de relativizar os defeitos de tudo o que nos envolve, na certeza de que nada é perfeito. 

Talvez que este juízo, reconheço-o, tenha a ver comigo. Mas desde sempre. Jovem ainda já o descobria na fala dos que comigo repartiam os lugares da esplanada. E sorria de superioridade avisada perante a fraqueza dos outros. Coitados de serem assim. 

Claro que esta minha contemporização com a fraqueza dos demais tem limites de amplitude. Quando a vontade de ser melhor do que efectivamente se é atinge o plano da maldade, ferindo-me naquilo que o mundo todo sabe ser inexpugnável em mim, bem... aí... é o oceano atlântico a nado a separar-nos. Para nunca mais. 

O cinismo que me caracteriza toma então conta do palco. 

Mas nada disto tem a ver com os meus amigos leitores. Muito menos com as mulheres, claro.

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Aniversário da Dona Lurdinhas


A Dona Lurdinhas faz hoje anos. É virgem, portanto. Mulher boa, angelical mesmo, dedicou os seus 42 anos de vida ao trabalho. Talvez para esquecer o desgosto que um amor adolescente lhe provocou. Sete meses de internamento, duas semanas de coma, uma perna mais curta que outra para toda a vida do maldito rapaz, comprovam a intensidade do mal que a postergou. De então para cá, a serenidade. E a simpatia que os meus consultantes lhe reconhecem. Em casa ouve só Chopin, Liszt, Debussy, Frank Zappa, Beethoven. No gabinete, uma devoção inultrapassável a este vosso amigo. “Não há ninguém como o Dr. Francisco “, diz ela repetidas vezes aos clientes. Deus guarde por muitos anos a Dona Lurdinhas. Se todas as mulheres fossem tão boas quanto ela...

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

A casa de Pedro Homem de Melo


Pedro Homem de Melo. Ainda o conheci, já lá vão muitos anos. Fato completo de cor branca quando passeava em dias de festa pelas ruas de Viana, de cor cinzenta com risca branca quando fazia os programas na televisão. Cigarro entre os dedos, a lançar uma coluna de fumo embora sem nunca ser fumado. O cabelo impecável, esforçadamente penteado, apresentação cuidada — e conseguida. Ele sabia do impacto que causava. Falava com uma educação esmerada, beijava a mão das senhoras. Era um aristocrata por via do nascimento e da forma de ser. 
Esse cuidado com as pequenas coisas transferia-o para a poesia. Era um grande poeta. Falava do mar com a mesma exigência literária de quando falava das pessoas. Do riacho vizinho à sua Quinta das Cabanas ou do rapaz da boina verde. Do dançarino do vira Manuel Enes Pereira ou das tílias. Cada palavra pesada, analisada de todos os lados para servir como nenhuma outra os intentos do verso. 
Parece fácil para quem não sabe escrever. Não é uma tarefa qualquer. Exige doação total do poeta ou do escritor. 
Talvez por isso muita gente da época não o percebeu. Homem de Melo era muito mais do que parecia quando buscava, sentado ao sol entre as rochas da praia de Afife, a verdade de si que lhe escapava. 
O seu funeral é a prova terrena disto mesmo — que ninguém quer lembrar. Na hora em que Pedro Homem de Melo desceu à terra poucos lá estavam: para além da Amália, apenas alguns admiradores de Viana, alguns intelectuais do Porto e alguns familiares. Muito poucos, todos. 
De Afife, onde viveu com alguma intensidade uma parte de si e ficou sepultado, quase ninguém. Para o futuro ficaram as ruínas do corpo, da vida, da praia, dos homens, da terra do vira e da gota que tanto amou.  
Do senhor doutor resta hoje uma saudade distante. Da sua belíssima casa, a Quinta das Cabanas, sobrevive a estrutura da capela e da habitação, o célebre ribeiro lá ao fundo, as discussões ouvidas longe dos actuais donos e o desagrado que nem tentam esconder pelo chegada de mais interessados na saga de conhecer os muros e as terras vizinhas da propriedade. 
“Existo, sem futuro e sem passado.
Por toda a sonolência que me abriga...
Obrigado!",  escreveu Pedro Homem de Melo. 
Ainda bem que o poeta percebeu em vida o destino de todos os poetas. 
Em Afife, ele e a mulher descansam em silêncio da festa e do mar, só entrecortado pelas vezes em que decidem “Havemos de ir a Viana”.

domingo, 11 de agosto de 2019

Manhã na esplanada


A vida a sério faz-se de coisas simples, banais mesmo. É o conjunto delas que decide quem somos e o que fizemos ao longo do tempo. Sem que nos demos conta disso. 
Senão vejam aquilo que se passou comigo e que conto de seguida: estava eu sentado na esplanada a pensar em si, meu caro leitor, quando uma miúda de uns cinco anos de idade veio ter comigo. Tinha medo de um cão pequeno que estava na mesa ao lado, agarrou-se a mim abraçando-me, procurei a mãe com o olhar, estava ela a conversar descontraída com uma colega no fundo da esplanada. 
Não conhecia a miúda nem a mãe. Fiz ver à criança que o cão não fazia mal, estava sentado ao lado dos donos, contente por desfrutar daquela manhã de sol. 
Foi então que a garota, agarrada ao meu braço, disse de forma lenta para nenhuma palavra escapar: “Tu cheiras igual ao meu pai”. 
Percebem agora quando digo que a vida é só isto? O resto são algoritmos inventados por imbecis armados em pessoas inteligentes.

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

A América é só de alguns...


— Idiota. E se te metesses com os do teu tamanho? Deixavas-nos em paz, a mim e à minha mãe, a fronteira é já ali, a casa a escola os meninos... custou tanto chegarmos aqui. Ai se o meu pai fosse vivo, ias ver... Mas quando eu crescer vou lutar contigo, aí é melhor fugires... ou então quando eu for presidente dos americanos!

quinta-feira, 20 de junho de 2019

Cinema ao ar livre


Ontem à noite fui ao cinema. Ao ar livre. Num espaço desenhado a pensar numa esplanada, mas que pode ser adaptado a muitas outras coisas. Palestras, exposições, desfiles por exemplo. Ou então à projecção de filmes. 

E é aqui que entra a diferença do traço transformado em arquitectura. Da célebre escola do Porto. De Eduardo Souto de Moura, neste caso. 

Fazendo de um quintal de uma casa um sítio lindo de estar, de ver, de namorar, de pensar. 

E de assistir na tela à Natalie Portman a vergar-se em respeitosa homenagem ao escritor israelita Amos Oz. 

Num filme de grande intensidade dramática. Envolvido pelas linhas de um traço só de Souto Moura. Soberbo. Tudo. 

De tal forma que ao olhar-me na tela houve em mim um arremedo que só pode ser cómico de uma epifania: a de só agora estar preparado em termos de vida para ser escritor. 

Demasiado tarde. Muito tarde. Mas não para ir à discoteca ver dançar a noite toda outra vez no éter do cinema. Pensei eu ao mesmo tempo que me dirigia rua acima ao sítio onde as mulheres dançam.

segunda-feira, 17 de junho de 2019

Médica bonita


Eu sei que por muitos sou abominado pela importância que dou à beleza, mas é mais forte do que eu. Se se comparar o sentimento estético que me suscita um jardim, uma montanha, um automóvel, uma escultura, uma igreja, com aquela outra realidade que é uma mulher nas ruas de Florença, escusado será dizer que prefiro o ser que desfila determinado, com um vestido de uma cor que depressa se extingue na memória, na cidade que é cinema vivo. 
Por várias vezes, às médicas bonitas que atendem no consultório sujeitos fragilizados pela doença, não resisto em perguntar-lhes se o rosto de anjo que as distingue não atrapalha o exercício profissional. 
Nunca me souberam verdadeiramente responder. 
A rapariga que posou para a máquina fotográfica na tarde de Sábado passado é também médica. Sim, a da imagem junta. É médica e psiquiatra. Portuguesa de gema. 
Olho a fotografia e vem-me à ideia que o doente que a consultar das duas uma: ou fica curado de vez na certeza de que a vida é bela ou, então, cai fulminado pela clarividência de que Deus o quis castigar a vida toda e que está ali à sua frente a prova da fealdade de tudo o que sempre o rodeou. 
Coitado dele. E de mim.

segunda-feira, 10 de junho de 2019

A sociedade portuguesa actual e a da idade média

Acabo de chegar ao meu segundo escritório, o da esplanada, e com que é que deparo? Com uma jovem eslava solitária por culpa de um feriado nacional que não compreende. Os ouvidos a acompanharem Liszt nas suas deambulações pelo mundo dos sons, os olhos fixos no computador (pelo menos até eu aparecer). Está a escrever a tese de doutoramento com o título “A Sociedade Portuguesa no Século XXI - Análise sobre a permanência da Idade Média no tempo actual”. Pela minha cara viu que não gostei muito do tema. Disse-me que que como homem inteligente (como é que ela percebeu tão rapidamente?!) deveria pensar seriamente no assunto. “A Madonna tem razão”, atirou-me em jeito de provocação. Por essa altura já eu pensava como fazer para esganar uma rapariga bielo-russa. Mas depois lembrei-me de muitas coisas: dos servos da gleba, dos senhores feudais, da quase impossibilidade de mobilidade social, do engajamento a um só perfil cultural, dos círculos de poder de admissão exclusiva, e lembrei-me da sociedade portuguesa contemporânea. De Lisboa e de Pampilhosa da Serra, de Marcelo e da Cristas, do Carlos César e do André Silva, da SIC e do Banco de Portugal, da Santa Casa da Misericórdia e do Banco Alimentar Contra a Fome, do aumento do ordenado dos juizes e da crise dos professores — e milagrosamente a rapariga loura tornou-se cada vez cada vez mais interessante. 
Perguntei-lhe se sabia como era o namoro na idade das trevas, ela disse-me que só estava em Portugal há duas semanas. 
Levei-a a uma festa de BDSM e bondage.