quarta-feira, 28 de julho de 2021

Glória a Deus


E já lá vão quase cinco anos que conheci a Lúcia de Jesus, o meu milésimo quinquagésimo sétimo grande amor. Mulher inteligente, operosa no trabalho e na devoção ao divino, leitora assídua do Observador e do Público, ela corresponde ao perfil que os homens procuram às vezes uma vida toda sem nunca encontrar. 
E, havia de ser eu, o sortudo que lhe arrebanhou o coração! Quando à noite estamos juntos no leito abençoado pelo Papa Bento XVI, a Lúcia de Jesus faz-me ver no esgar dos momentos últimos o inferno e o céu. 
E depois tem aquela qualidade que hoje é considerada pela comunidade pós-moderna a mais importante numa mulher — a de ser feia q. b. Quando os meus amigos do Centro Hípico do Estoril a caracterizaram assim, num jantar de homenagem à raça lusitana, enchi-me de uma vaidade tão grande que não me lembro de outra igual. 
Obrigado Lúcia de Jesus da Purificação dos Santos pela vida celestial que me tens proporcionado.

domingo, 18 de julho de 2021

Considerações avulsas sobre o amor


No princípio dos tempos os homens e as mulheres viviam livres e felizes. Nenhum sentimento de difícil adesão os condicionava. Até que, de forma insidiosa, silenciosa, traiçoeira até, aparece o amor. A partir desse momento nada permaneceu igual na relação dos indivíduos consigo próprios nem com os outros.
O amor é tão esquivo que não tem definição possível. É algo que nos consome cá dentro, nos condiciona a olhar para o mundo de modo próprio. Deixamos de ser donos de nós mesmos, passamos a depender de outrem, ansiosos para lhe agradar e angustiados com o medo de nos enxotar como cão a querer entrar no lar.
Transforma-nos numa triste máscara daquilo que já fomos e, vezes demais, abeiramo-nos do precipício que nos aproxima do ridículo.
Mas então aquela sensação boa que transportávamos connosco no fim das férias do Algarve, quando éramos adolescentes, deve ser reprimida e, se possível, obscurecida na memória? Não, por uma razão simples: o amor não é isto, a este sentir pode associar-se a transitoriedade, a intensidade limitada pelo tempo. 
Para que não haja confusão possível: a esta dor difusa chama-se paixão e deve ser autorizada na vida do ser humano. Contribui para o acrescento da felicidade pessoal sem que dela resulte a fissura irreparável na nossa vida. Não nos limita antes acrescenta. Já no amor nem o tempo nem a forma de estar garantem qualquer desfecho que seja.
Maldito seja aquele que se lembrou de criar o amor. Se ele não existisse desfrutávamos, sem ponta de remorso, do homem ou da mulher que nos apetecesse preencher num abraço sentido. Hoje, amanhã outra pessoa, no ano seguinte alguém de quem sentimos saudade daquele Verão. Livres e felizes. Sem consulta semanal marcada no psicanalista.
Eu quero a paixão não quero o amor.

sábado, 26 de junho de 2021

Dupond e Dupont


Ao que este país chegou! Dupond e Dupont a ocuparem os dois mais altos cargos da nação. Marcelo, presidente da república, afiança dias antes de a variante delta se tornar prevalente em Portugal, que com ele não haverá nunca recuo no processo de desconfinamento. Ferro Rodrigues, presidente da assembleia da república, entusiasmado com o empate sobre a França incentiva os portugueses a invadirem este domingo Sevilha para assistirem a mais um jogo da selecção. Isto num momento em que Sevilha é classificada como zona a evitar considerando os índices de transmissibilidade da covid que ali se fazem sentir. Mais tarde, avisado da asneira em que se meteu, o número dois do regime diz que quem tratou de tudo foi o número um, que ele é que sabe de todas as coisas. 
E o país a ser governado por tontos desta espécie. 

Foto: maisfutebol 

terça-feira, 8 de junho de 2021

O dedo em riste


— Vamos lá esclarecer uma coisa: se vens para o Paraíso, lugar de eleição criado por Deus, limar as unhas, a porta de saída é já ali. O caminho que deverás então  percorrer fica em frente. Quando encontrares uma avenida pejada de suvs da Porsche e da Mercedes e prédios com arremedos de varandas, terás chegado finalmente ao teu destino.

terça-feira, 1 de junho de 2021

Eu Criança


A criança que está nessa fotografia não é uma criança. Nunca o foi. Rosto metido entras as páginas de um livro, circunspecto com os demais, interessado em matérias de que ninguém queria saber. 
É este o meu retrato enquanto menino que tinha idade de o ser. Obviamente que, tendo em conta a estranha metáfora em que me havia transformado, não gostava de mim. Hoje penso que invejava os outros ao mesmo tempo que alguns deles me invejavam também.
Ainda agora sofro as consequências de não ter sido criança quando devia. Por alguma razão abomino a normalidade, a monotonia das coisas. 
A forma que naquele tempo encontrei de dar a volta a tudo isto foi a de servir-me da única vantagem que um indivíduo diferente entre iguais pode ter: o de dizer às raparigas que sabia tudo acerca delas. E a verdade é que sabia. 
Mas essa estratégia só a descobri aos quinze anos de idade. 
De então para cá não fiz outra coisa senão fugir de ser aquele miúdo ensimesmado. É por isso que tenho percorrido durante toda a vida as noites quentes de mar e festa. Mesmo que sentado em frente ao televisor no sofá da sala.
Ainda hoje custa muito ser o menino do retrato.  

Dia da Criança, 1 de Junho de 2021

segunda-feira, 31 de maio de 2021

Desde Chaves até à chefia do programa espacial da União Europeia

O DN mostrava-se hoje admirado por um um engenheiro aeroespacial nascido em Chaves ter sido nomeado director da Agência para o Programa Espacial da União Europeia (EUSPA), com sede em Praga. 
Só quem não reconhece o mérito do ensino praticado em Portugal, a somar à alta qualidade da nova geração dos estudantes nacionais — particularmente os que integram uma elite cada vez mais alargada — pode estranhar esta escolha numa área a que habitualmente não estamos associados.  
O engenheiro Rodrigo da Costa estudou no Liceu Fernão Magalhães na cidade flaviense, uma das muitas escolas públicas injustamente arredadas dos primeiros lugares dos rankings. 
O que a maioria dos comentadores televisivos (de tudo e de nada) não sabem é que as estatísticas promovidas por instituições imparciais sobre o desempenho dos alunos oriundos das escolas públicas e privadas nas universidades demonstra o melhor desempenho dos primeiros. 
Obrigado, Rodrigo da Costa, por confirmar junto dos mais novos que todos têm possibilidade de chegar às metas consideradas inatingíveis. 
Não é por acaso que este engenheiro português de 44 anos é o responsável europeu, desde 12 de Maio, pela vigilância e pela descoberta de novas possibilidades no espaço.
Administrando, por exemplo, os mecanismos de acesso à localização dos nossos passos a qualquer hora do dia ou da noite através de uma multiplicidade de satélites.

sexta-feira, 21 de maio de 2021

A Marta


Disse que me amava. Logo vi que a razão de tal desafio estava na escultura do Cutileiro em frente dela. Perguntei-lhe por causa das coisas se era grande devedora ou pequena aforradora no Novo Banco. Respondeu que fazia parte do primeiro grupo. Aceitei então sentar na sua mesa e pedir um Magnum. 

sábado, 8 de maio de 2021

Quem somos nós?


Quem somos nós? A resposta mais procurada e nunca obtida. Somos máscara e corpo. Mentira e dor. Ou então, riso interminável que recuperamos da meninice. Nessas alturas tudo é tão bonito. Até nós o somos. Sentimo-nos bem na personagem que encarnamos. O crápula que se senta à nossa frente faz-nos lembrar os meninos do coro de que fazíamos parte. A velha que não nos larga parece mais apetecível. E aquela estudante de Antropologia que tanto queremos está mais igual a todas as outras.

A mentira boa tomou conta de nós. Deus está está misericordioso hoje. A felicidade tomou conta de todos. Pelo menos até à ressaca aparecer e voltarmos a ser o indivíduo de sempre com o estafado fato cinzento e o maldito trabalho de amanuense. 

Nesses momentos queremos lá saber quem realmente somos. 

sábado, 1 de maio de 2021

Escritório vazio


— Nos feriados sinto-me sempre assim. Melancólica, sem saber o que fazer, à espera do momento seguinte. Claro que posso a qualquer momento telefonar ao Tó e ele leva-me onde eu quiser. Mas diz de todas vezes as mesmas coisas: a mãe trata-o como um menino, o governo do Costa constitui uma desgraça para Portugal, o trabalho no banco a chegar ao limite do suportável. Por isso é que prefiro a companhia do Ardente, um puro-sangue lusitano. Ele e as minhas calças brancas fazem-me desmemoriar do gabinete vazio onde não vou trabalhar hoje.

domingo, 25 de abril de 2021

Festejando a ignorância


“Hoje é um dia feliz: vou desfilar na Avenida da Liberdade. Comemorando essa data memorável, o 25 de Abril. Finalmente o Iniciativa Liberal foi autorizada a participar nos festejos. Vai ser o máximo. Eu, a Teté, a Carlota e o Manel vamos juntos fazer a festa gritando o Povo Unido Jamais Será Vencido e o 25 de Abril Sempre. E, além disso, cantando com aquele barulho sincopado dos sapatos do povo, o Grândola Vila Moreno. Só não sei ainda qual a cor do cravo a escolher: se encarnado ou branco ou preto. Claro que tenho consciência que tudo depende do tom do vestido a levar. E aí está a dificuldade — ando indecisa entre um azul da Gucci e um preto e branco que comprei na feira de Carcavelos. Sou capaz de pedir ao Manel que me ajude a resolver o dilema. Mas estou tão entusiasmada com a festa. Nem os meus pais puderam festejar esta data há 47 anos porque estavam em trânsito para Madrid. Sou a primeira da família a fazê-lo. A cantar vitória no dia em que se assinala o exílio do Salazar e do Spínola no Brasil. Até à vitória final, companheiros. Sempre!”

quinta-feira, 22 de abril de 2021

Medo do Amor


Sim, estou a ver-te. A ti, só a ti. O resto não me interessa nada. Que pensem o quiserem, que digam o que disserem. 

O meu mundo confunde-se contigo. Se te ris, eu rio também; se te zangam, eu compro briga. A minha vida começa quando começa a tua. Tenho vontade da festa quando tu a tens. Leio o livro só quando sei que estás nele. Eu e tu. 

Um dia destes hei-de ganhar coragem e dizer-te tudo isto. Mas tenho medo de a minha vida acabar nessa altura. E de ter de te ver de mão dada com outro. Com aquele que eu não sou.

segunda-feira, 19 de abril de 2021

À procura da identidade


O ser humano é muito estranho; torna-se, por isso, difícil apreendê-lo em toda a sua complexidade. Podemos estudá-lo pedaço a pedaço, primeiro os olhos, depois a palavra, logo de seguida traçando o perfil pisco-afectivo do pai ou da madrasta. Vai dar mais ou menos ao mesmo. Quer dizer, a muito pouco.  

Ou então buscando no todo a resposta de quem nunca é só um momento. Nem um só sítio. Nem uma só pessoa. Da mesma forma que não se confunde com uma música, um livro, um filme, um amor. É cada uma dessas coisas e muito mais do que isso. 

Pode-se mesmo recorrer às estratégias que o engenho científico nos proporcionou. Do cubismo à psicanálise existencial, do gestaltismo à neurofisiologia, da inteligência emocional à biotecnologia — os resultados são positivos mas sempre parcelares. 

Falta a perspectiva integrativa (não confundir com generalizadora) capaz de distinguir o acessório do essencial, produzindo um continuum coerente acerca de cada indivíduo. 

Claro que nem todos poderão chegar a este estádio de compreensão. Na primeira fila deste grupo de notáveis estarão os artistas, com destaque para os escritores e os poetas — desde que beneficiários da evolução científica conseguida pela comunidade dos investigadores. 

Na segunda fila sentar-se-ão as senhoras nossas vizinhas do terceiro esquerdo, do sexto frente, as clientes do café da Dona Júlia, a jornalista da Alerta TV e o Sr. Abílio do quiosque. 

Sem a contribuição de todos eles a ciência nunca será capaz de atingir a ansiada douta ignorância.

domingo, 18 de abril de 2021

A célebre intuição feminina


A menina da imagem não teve em conta um dos melhores trunfos do homem: o de servir de contrapeso.

quarta-feira, 14 de abril de 2021

A mulher do cartaz


— Olá!
— Olá!

— Sais hoje?

— Não. Tenho compromissos comerciais a cumprir. Mas não desistas. Quem sabe, um dia...

segunda-feira, 5 de abril de 2021

Esplanada da Páscoa de 2021


Este ano é já o segundo de uma desgraça vivida a muito custo. A covid-19 minou o viver colectivo na falta de previsibilidade quotidiana.

No meu caso as proporções negativas são ainda maiores. Para quem encontra nos outros a razão de viver, o solilóquio permanente não substitui nada. Eu sou, sempre fui, o “homem que olha” do Alberto Moravia. Quer dizer, a minha história de vida é a dos que fugazmente se situaram na vizinhança da minha mesa. Aonde? Na esplanada, onde havia de ser?

Significa isto que não vivi nos últimos meses. Um “voyeur” precisa de ter na mesa ao lado a prima assim-assim da Soraia Chaves, o Labrador castanho com mancha branca, o Sr. José da banca dos jornais, a velha serigaita que já foi vedeta de televisão. 

Sem eles eu morro. Pelo menos animicamente. É por isso que, só hoje, dia em que o Dr. Cabrita autorizou a reabertura das esplanadas, renasço para a vida. 

Como se usufruísse finalmente da minha Páscoa. Da possibilidade de ser outra vez. Eu e a Primavera, e o Sol, e a roupa clara. Aleluia! Aleluia!

Olho em frente e o mar desafia-me com um sorriso próprio de quem compreende. É a prerrogativa dos verdadeiramente amigos. 

Segunda-feira de Páscoa de 2021

domingo, 21 de março de 2021

Antena para Deus


“Ora bem, vamos lá embelezar esta capela... Falta aqui qualquer coisa que assinale a presença do divino. Ah! Já sei! Uma antena que nos eleve à transcendência do 5G. E ainda por cima é tão linda...”

quarta-feira, 10 de março de 2021

Cuidar dos tempos de pousio


A Sandra sabe da vida. Desde muito jovem que investe na sua reforma e poupa o mais que pode nas compras. Tudo para que um dia tenha o desafogo económico que lhe permita ter a seu lado um homem sábio, pobre mas experiente na forma de ver o mundo. É o caso do Sr. Américo que posa para a fotografia na companhia da Sandra.

domingo, 7 de março de 2021

O vulgar a dominar isto tudo


— Lá vamos nós finalmente sentir o Sol a fazer cócegas na alma. 
— Sim, mas é preciso que eu traga comigo o mistério e a Frida o sexo transformado em vida. 
— Porque senão o Cabrita multa-nos, queres ver... Só falta vocês dizerem que eu tenho de levar os brincos de pérola de que os homens parece gostarem. 
— Meninas calem-se que o Pingo Doce é já ali. 

quarta-feira, 3 de março de 2021

Necessidade das coisas simples


Os outros viram-me quase sempre taciturno, silencioso. Pessimista a maior parte das vezes, como se estivesse zangado com tudo. Sou, efectivamente, ensimesmado nos pensamentos e hesitante na forma de estar. Assim construí a minha vida. Estudei filosofia e comunicação, sou pai de quatro filhos, fiz jornalismo e dei aulas. Tenho uma casa de família invejável. Mas então tenho tudo para me sentir feliz? Conforme. Conforme tenha ou não por perto a esplanada e o mar. E tu e a Coca-Cola zero. Além dos cabelos lisos encostados a mim. E a mão na tua mão.

domingo, 14 de fevereiro de 2021

Dedicado a todas que se sentem sós neste dia


Tu, (tal como a amiga da fotografia) que sentes o ambiente festivo por causa do dia dos namorados numa altura em que não o tens, por opção ou contingências da vida, e que por isso transparece na tua pele o frio desacompanhado que evidencia a solidão. 
Tu, que publicas fotografias bonitas de amor nas redes sociais e dizes não querer saber deste dia. 
Eu, que sempre gostei da companhia das mulheres, por quem tenho uma infindável admiração, quero expressar-te o enorme gosto em oferecer-me como namorado só durante o dia de hoje, proporcionando-te algum calor em noite de Inverno. 
Habemus amor, minha querida amiga.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

Jornalista Nelma Serpa Pinto


A fotografia dos amorosos militares da GNR já a conhecíamos. De novo neste enquadramento apenas a Nelma Serpa Pinto, jornalista safadinha da SIC. Coitados dos homens que nas paredes do estúdio olham para ela. A pivô portuense leva tudo na frente. Como se o mundo fosse dela. Por isso as televisões vão ter que a deixar voar quando a vontade de fazer dos outros marionetes chegar. Se assim não fizerem arriscam-se a que ela não volte ao ninho. E lá se vai a Nelminha.

sábado, 6 de fevereiro de 2021

O amor


Há coisas que o tempo não muda. O amor, por exemplo. Pode exteriorizar-se de forma diferente, mas no resto mantém-se igual. Aquele ímpeto que vem lá de dentro, das profundezas de nós mesmos, a atiçar os instintos na procura do corpo do outro. O cheiro, o calor, os cabelos, a pele fazem o resto. Fica apenas a faltar o horizonte, seja ele o mar, a areia da praia, a cama por fazer, a tarde a terminar, a rua distante, o Fiat que nos ampara. Seja em 1950 ou em 2020. 

sábado, 30 de janeiro de 2021

Dia de votação da proposta de lei relativa à eutanásia


Sei bem que são situações diferentes, mas aprovar a eutanásia no mesmo dia em que as ambulâncias esperam durante horas no Santa Maria a admissão dos doentes, parece-me ser algo de mau gosto. Pode até considerar-se que o que está em causa no hospital lisboeta é apenas uma questão de imagem. Pode ser que sim, só que a comunicação no mundo actual é predominantemente icónica. Fica por isso um conselho: da próxima vez aprovem a despenalização da morte assistida num dia em que os médicos não tenham de escolher os doentes a salvar.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

EM MEMÓRIA DO DR. TEÓFILO VAZ (Dedicado aos meus amigos transmontanos)


As pessoas as mais das vezes são idênticas, nascem, casam, constroem casa, morrem num lar social. Outras há que não se integram em nenhum porvir padronizado, que escapam a modos de interpretação fácil. O Dr. Teófilo Vaz, que nos deixou a semana passada, pertence ao segundo grupo de seres com quem nos cruzamos na vida. Não é, não era, alguém fácil de conhecer num primeiro momento, às vezes nos primeiros anos, às vezes nunca.

Teófilo Vaz fazia parte de uma casta rara, onde só tinha pertença um número muito reduzido de indivíduos, aqueles que sabemos serem modelados de matéria exclusiva.

É um drama ser assim. Os inconvenientes são muito maiores que as vantagens. Antes do mais porque ninguém os percebe verdadeiramente. Julgam saber mas confundem assertividade com arrogância, conhecimento com mera disponibilidade mental. Por isso é que Teófilo Vaz morreu sem que a maioria o tivesse percebido.

Jornalista e professor de História, tudo o que fazia em termos profissionais primava pela qualidade e entrega pessoal. Era ele todo que se reconhecia na oratória empregue nas aulas ou na escrita dos editoriais do jornal de que era director — o Nordeste. E sempre com o horário de trabalho a coincidir com a plenitude do dia, sem horas por preencher.

Era um excelente professor, admirado por sucessivas gerações de estudantes que passaram pelo Liceu de Bragança, escola de que era Presidente do Conselho Geral. Como jornalista tinha uma qualidade que cada vez é mais difícil de encontrar: sabia de jornalismo, mesmo. E aqui saber não se refere somente ao conteúdo dos livros lidos mas à intuição própria da profissão, que faz com que precisemos de dizer apenas duas palavras que logo a nossa ideia é percebida na íntegra. E depois aquele faro para as notícias que não se aprende…

Esta é a dimensão pública do homem, aquela que era conhecida e, vá lá, admirada. Quanto ao resto, exige ao interessado o franquear de espaços d’alma que estão para lá do gabinete de trabalho ou das tertúlias que frequentava. Teófilo Vaz, aliás como todos os seres de excepção, utilizava um léxico e uma gramática próprios; não porque usasse palavras novas mas porque lhes imprimia uma riqueza polissémica que não estava ao alcance de todos, além de que as encadeava de um modo pessoal.

A palavra inseria-se num contexto próprio, sempre em evolução ficcional, quer se referisse ao facto jornalístico ou à história contada em tertúlia de amigos. E tudo porque o mundo em sentido único, previsível, reduzia-se à veracidade corriqueira que não entusiasmava, nos momentos mais descontraídos, o Teófilo Vaz.

Quando podia era, deste modo, um sonhador. E um actor. Vezes sem conta vi-o usar da sua voz portentosa em reuniões com novos professores e eles, coitados, transidos de medo a perguntarem “Quem é este homem?”. Ou então fazendo perguntas a conferencistas com a eloquência que o caracterizava, promovendo, desse modo, a perplexidade no prestigiado orador que depressa percebia que aquele indivíduo da plateia sabia mais do que ele.

Mas atenção: não magoava ninguém. Era respeitador de todos. Distinguia-se mesmo por ser o primeiro a ajudar quem solicitasse os seus préstimos. Da mesma forma, quando contemplava a vida que por ele passava não lhe tocava; gostava de a olhar e de imaginar situações e histórias à volta dela mas deixando-a prosseguir o rame-rame quotidiano. Devia ter escrito ficção mas preferia viver a vida.

E no fim de tudo isto era um inveterado solitário. O que é comum nestes homens de eleição. Querem sempre mais, nunca satisfeitos com a realidade possível, e essa quimera ninguém lhes pode proporcionar. Mesmo tendo um numero considerável de amigos e ocasiões de festa a esmo.

Uma última palavra, agora de carácter pessoal. O Dr. Teófilo Vaz foi a única pessoa que percebeu o autor destas linhas, alto-minhoto desenraizado em terras transmontanas. A única mesmo. Quando me viu, uma das primeiras vezes, sentenciou do alto da sua sabedoria:

— Conde de Viana.

Acertou em cheio. Só mesmo um amigo daqueles poderia adivinhar tal coisa. Entre nós depressa se formou uma amizade alicerçada em poucas palavras mas em percursos de vida muito próximos. Eu apreciava-o verdadeiramente e ele a mim. Ao contrário dos outros, no meu caso. Adeus, Teófilo. Vais fazer-me falta.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

As máscaras


Não, não quero outra vez um ano como aquele que passou. Doença colectiva o tempo todo, o meu pai submetido a uma cirurgia difícil - isolado, sem poder receber visitas, a covid a mandar em tudo - a televisão e a comunicação social em geral a matraquearem-nos de forma ininterrupta com o mesmo assunto, a recuperação económica que tantos sacrifícios implicou a ir pelos ares, os homens e as mulheres a perderem a paciência.

E, como sempre acontece nestas ocasiões, o pior das pessoas a vir ao de cima. Os falsos, os cobardes, os idiotas a conseguirem superar-se. Como se o estado de aparente guerra os instigasse a tal. O medo a apelar ao uso das estratégias mais vis.

Sofri tudo isto no ano de 2020. Até na minha casa o infortúnio bateu. Sem que tivesse terminado ainda. Mas estou preparado para o que aí vier.

Só não quero que voltem aquelas marionetas cheias de títulos, bem vestidas, mas com um vazio enorme no lugar da emoção. Essas não, que procurem outros palcos, outros teatros que de mim não levam mais nada. Nem sequer o desprezo que esse secou com elas. Só se for o riso transformado em escárnio a que ultimamente me fui habituando.

No resto, naquilo que corresponde à felicidade, tudo igual - a família, a D. Lurdinhas, os meus amigos a sério a continuarem presentes. Juntos ainda vamos ser os donos de nós mesmos.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

Solilóquio de início de ano


Sentei-me na esplanada a olhar o mar. É a primeira vez nestes dias de festa em que tenho a oportunidade de estar só. E que bem me sabe pensar e olhar sem censura ou permissão de nenhuma espécie. O mar e a rapariga da boina agradecem a minha disponibilidade e sorriem. As ondas tornam-se maiores e o silêncio do seu vai-vem também. A rapariga tira a boina e penteia o cabelo para trás prendendo-o numa trança. E eu imagino o mar a afogar o cabelo da moça e ela a rir de alegria enquanto eu chamo a autoridade marítima para a salvar. Coitado de mim.

domingo, 27 de dezembro de 2020

A vida a recomeçar


Foi assim que comecei o dia. Um frio de rachar. Os campos coberto por um manto branco feito de gelo. Os cavalos livres a percorrerem a herdade. E eu, o homem toda a vida da noite, a recuperar a memória das manhãs. A única coisa boa proporcionada por este confinamento que encerra a vida à uma da tarde.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

Dia de Natal


O sagrado e o profano lado a lado. A campearem pela atenção dos homens. Como se a vida pudesse dispensar a introspecção ou a festa. 
Quem me conhece sabe que não sou religioso. Mas tenho de reconhecer que este maldito ano de 2020 aproximou-me mais do pensamento que da mera emoção.  
E, principalmente, duma componente da vida que a pandemia valorizou: a família. Estar junto de quem nos quer bem deve ser o objectivo maior de cada um. 
Feliz Natal, meus amigos — e, por isso, meus familiares. Dêem cá um abraço.

domingo, 20 de dezembro de 2020

Nós nos outros


Dois anos a calcorrear as ruas deste país à procura de histórias de vida. Inicialmente publicadas numa página online a que chamou de “Nós nos outros”, foram reunidas este mês em livro. Maria Helena da Bernarda é a autora do conteúdo integral da obra: dos textos, das fotografias, dos apontamentos biográficos dos entrevistados — que se transformam em testemunhos difíceis de esquecer — e, principalmente, do projecto que parecia condenado ao insucesso, tal era a sua exigência em termos de disponibilidade pessoal.
Só que a Maria Helena da Bernarda é um ser humano especial. Tudo o que faz faz bem. Economista de formação, foi até há poucos anos gestora de topo em empresas de prestígio internacional. Até um dia em que achou necessitar de outros voos para se sentir realizada. Abandonou o invejável cargo que desempenhava e fez aquilo que de vez em quando repete: pegou na mota e andou estrada fora, sem destino, à procura de si e do mundo que via para além das janelas do gabinete de trabalho.
Desde aí, nem um só dia deixou de absorver o melhor que a vida pode proporcionar aos que a entendem: voltou a tocar piano, apostou em aprender a fotografar — com excelentes resultados — e dedicou-se a conhecer as pessoas aparentemente vulgares que via nas ruas e cafés de Lisboa ou nas vilas e cidades de Portugal. A interpelá-las com genuíno interesse, a saber dos amores e desamores que por elas passaram ou, então, dos êxitos e fracassos da vida profissional. Dessas entrevistas informais nasceram as crónicas diárias e agora o belíssimo livro, profusamente ilustrado com as fotografias tiradas pela autora aos rostos dos homens e mulheres que todos conhecemos da rua.
Mulher sem idade, igual hoje ao que foi ainda jovem, altiva no comando, e no entanto uma alma carinhosa a ouvir os insucessos dos outros, é assim a Maria Helena da Bernarda que em boa hora os grandes órgão de comunicação social deste país, e alguns do estrangeiro, descobriram e dela fizeram referência nas televisões e nos jornais.
Uma prenda de agrado garantido para qualquer altura do ano, com 352 páginas em papel couché e muitas fotografias, vendida a 29 euros o exemplar.

sábado, 19 de dezembro de 2020

Beber para esquecer


DONA LURDINHAS — Meninas, hoje o Senhor Doutor não vem dar consultas ao Porto. A GNR não o deixou passar na auto-estrada. O bar é ali ao lado.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

Adeus robalo


Disse ao empregado que era grande demais. Mas o robalo olhava para mim de forma aparentemente solidária, como que a querer partilhar a vida de peixe desgraçado. Tive alguma pena dele, à minha frente estendido, dissecado até à medula. Do seu corpo saía fumo, prova de que deveria ter veraneado nas águas quentes do forno da cozinha. Será que não merecia tanta pena como parecia? Provavelmente era eu o pobre coitado em tudo isto. Quer um bocadinho de azeite da travessa? — perguntou o empregado. Logo o robalo ganhou outras cores. Como se viesse de passar férias nas Maldivas. E eu em Matosinhos a olhar para uma criatura de Deus recuperada do cansaço de um ano de escritório — deitada à minha espera. Peguei nos talheres, olhei nos olhos o robalo e comi-o.

segunda-feira, 26 de outubro de 2020

Aniversário do Henrique


Não sei se alguma vez aconteceu com o leitor algo parecido. Na sexta-feira passada um médico afamado confirmou o que pensava ser mero pretensiosismo meu. O Henrique é outra vez o pai. Vou tentar explicar: para além de se assemelhar a mim no comportamento ele é, para o bem e o mal, a cópia em termos fisiológicos e psicológicos do progenitor. Nomeadamente ao nível do sistema nervoso central. O que necessariamente lhe vai trazer problemas, mas também algumas alegrias. Ser diferente, alguns o sabem, não é fácil. Torna-se alvo de incompreensões, de ciúmes e de prejuízos vários no relacionamento com os outros.
A verdade é que na escola ninguém compreendeu o Henrique. Até aos dias de hoje. O mesmo tinha acontecido comigo pelo menos até ao 12º ano. Eu e o Henrique gostamos demasiado da vida para a estudar apenas nas sebentas. Precisamos de ver as pessoas a digladiarem-se na vã tentativa de virem a ser felizes. Na rua, no ecrã do computador, na esplanada.
O Henrique faz hoje 13 anos. Está um homem. Bonito, sedutor, difícil. Quando eu morrer vai ele ser eu vivo. A continuar os estudos que ainda não terminei. E a namorar as filhas daquelas mulheres que durante algumas horas desejei.
Não há palavras que possam traduzir o amor que sinto por ti, meu querido filho. Se pudesse viveria em tua vez as dificuldades que vais encontrar, e deixava-te apenas as noites estreladas em frente ao mar. E todos os outros momentos e pessoas que saibam fazer-te sorrir. A vida tem coisas boas.
Parabéns Henrique Manuel Francisco Sérgio de Barros e Barros.

domingo, 18 de outubro de 2020

Três nomes grandes da cultura luso-tropical


Esta fotografia é só uma fotografia. Na vida real as coisas não são assim. Nenhum artista grande suporta outro que lhe possa tirar a exclusividade. Sorri, cumprimenta com aparente afectuosidade e desespera pelo fim daquele momento. E não é por causa da soberba: na maioria das vezes a razão está na mera insegurança. A plebeia incerteza de alguém dizer que o outro é melhor — a fazer das suas. E nós, meros espectadores de tudo isto, sem perceber que para se falar da vida é preciso saber senti-la da mesma forma que o mais anónimo dos homens.

sexta-feira, 16 de outubro de 2020

Os 15 anos da Maria Leonor de Barros


A minha filha Leonor faz hoje anos. Quinze mais concretamente. Um oitavo da vida dela. Está quase a escrever as memórias.

Ela não mas eu sim. É a lei natural a fazer das suas. A Leonor a começar... e eu a tirar o bilhete para recomeçar um dia. A vida como sempre a lucrar com a mudança de gerência: a minha filha é muito melhor do que eu. Não sei a quem sai o raio da rapariga.

Desde pequena que dissecou, olhou de um lado e outro tudo o que a interpelasse em termos de curiosidade. Sem que fizesse alarde disso, discreta como a raposa, mas com o radar de observação sempre em funcionamento. Perscrutava o mundo sem que os outros se dessem conta disso.

Nunca a vi estudar. E no entanto ela estuda, não pode ser de outra forma. O nome no quadro de honra do liceu não pode ir lá parar por obra do divino espírito santo. É organizada nos horários, no cumprimento das tarefas que lhe estão assacadas.

Às aulas regulares acrescentava até ao ano passado as do conservatório. E ensaiava o violino fechada no escritório e resguardada do olhar dos outros. Às vezes zangava-se com a música que saía dos seus dedos pequenos e, por arrastamento, com ela mesma. 

Nessas alturas não falava com ninguém. Até ter vontade de recuperar o domínio da situação. Então voltava a ser a Leonor de sempre, genial, conhecedora dos assuntos como se de uma adulta se tratasse.

De há algum tempo para cá descobri que entre aqueles que me rodeiam - na universidade, na esplanada, na vida, no facebook mesmo - a Leonor conseguia o impensável: ultrapassava todos no acerto das sua sentenças sobre qualquer dúvida que eu tivesse. Utilizando poucas palavras, com a objectividade própria de quem sabe.

Mas tudo isto, minha querida Leonor, poucos sabem acerca de ti. Não perdes nada por isso. Tens muito tempo pela frente. E caminho também. De tal modo que ainda podes pensar em todas as possibilidades de vires a ser. Primeira-ministra, directora do instituto Ricardo Jorge, escritora, encarregada de condomínio, mãe, cliente de esplanada de praia, campeã de tiro aos pratos - são algumas das possibilidades.

E sempre - lamento informar-te da impossibilidade de não o seres - superiormente inteligente. Vinga-te sorrindo por dentro da venalidade dos outros. Com a discrição a que nos habituaste.

No resto, duvida dos homens: não há um que se aproveite. Com excepção daquele que tiver a sorte de cair nas tuas graças. Nessa altura espero não lhe partir nenhuma costela quando o abraçar.

Do teu Pai que tanto te ama, minha querida Leonor, parabéns pelos quinze anos de vida.

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

Aniversário do meu Pai


Agora sei que foi muito bom começar os meus estudos universitários pela filosofia. Muitos outros jovens deveriam fazer o mesmo. 

Depois poderiam enveredar por outras áreas. Mas o estudo das questões gerais e ao mesmo tempo radicais proporcionam uma compreensão muito especial da vida. 

Penso em tudo isto no dia em que o meu Pai faz 85 anos, uma idade que necessariamente nos impele a procurar afirmações sobre a verdade do tempo que passou. 

Sem que o consigamos. Uma das primeiras coisas que se aprende em filosofia é a noção de que a vida materializa-se num eterno retorno, num círculo nunca concluído. 

Quer dizer, o tempo de cada um está sempre em construção. Dando azo a revisões, a argumentos novos, a certezas que nunca o foram. 

Há, no entanto, na vida do meu Pai, verdades que dificilmente o tempo poderá alterar. Inteligente, dinâmico, ousado são características que desde sempre lhe valeram o reconhecimento dos outros a nível profissional e empresarial. 

No jornalismo, o facto de ser actualmente um dos muito poucos elementos de uma geração que criou publicações periódicas novas e possibilitou o surgimento de nomes naquela área, atesta a sua importância inquestionável. 

Mas a verdade primeira de todas as que no meu Pai me interessam refere-se ao acerto com que prosseguiu um percurso de vida sempre desejado pelos que o antecederam. 

Não degenerou no sonho dos seus e, por consequência, meus familiares. Escreveu a vida toda. 

É neste ponto que ainda hoje tenho medo de não ter atingido aquilo que me competia — o de prosseguir um desígnio que tive tudo para o conseguir. 

O meu Pai faz hoje 85 anos, digo-o uma vez mais. Foi este ano submetido a uma cirurgia muito difícil. Não quisemos dar notícia deste facto. 

Está em satisfatória recuperação. Vamos tê-lo connosco muito tempo ainda. 

Os que gostarem de História e de Jornalismo só poderão ficar contentes com a notícia. Os que nada sabem nem de uma ou doutra coisa, como por exemplo, os membros da autarquia de Viana, vão ficar na mesma como sempre estiveram. 

O meu respeito e a minha admiração, meu Pai. Pode ser que um dia um dos meus filhos escreva sobre mim qualquer coisa parecida. 

Parabéns.