terça-feira, 12 de março de 2019

Fernando Poeta


Já olhei fixamente para a cara deste miúdo e não descobri nada. Pelo menos de diferente. O olhar talvez. Há ali um certo ar interrogativo que pode querer significar inquietude. E alguma tristeza, possivelmente. De resto, quase nada. Com esforço consegue adivinhar-se o auto-convencimento de que consegue dominar o triciclo, de que é orgulhosamente seu e de mais ninguém. E é só isto. Acho que vou desistir: de resto é uma criança igual a tantas outras. Ao que eu fui, por exemplo. Exímio condutor de triciclos. Triste, toda a infância e adolescência triste. Nisto partilho o modo de estar com o rapaz da fotografia. Provavelmente por isso é que me sinto frustrado por não ser capaz de descobrir as sombras e os raios de luz que traçam o perfil do menino ciclista. Logo eu que adivinho o futuro de qualquer pessoa. Como é que se chama o miúdo? Deixa ver: Fernando. Fernando quê? Onde é que está a ficha? Tenho-a aqui: Fernando Pessoa.

sábado, 16 de fevereiro de 2019

Director do museu


O Museu de Serralves está salvo! Já foi escolhido o novo director da instituição: Kléber Cullmann, crítico de arte alemão, reconhecido em todo o mundo pela sua experiência em indústrias culturais de cariz forchhammer. Na foto, o novo director (à direita) já na cidade do Porto, acompanhado do assistente pessoal Rolf Forchhammer. 

Foto Dennis Conaghan

sábado, 9 de fevereiro de 2019

Esclarecimento


Uma brincadeira em vídeo produzida por uma rede social sobre os amigos da minha vida acabou por me trazer dissabores. Muitos (muitas) queixaram-se de no vídeo em questão só aparecerem mulheres e todas elas bonitas. Importa saberem duas coisas: só tenho amigos mulheres (com raríssimas excepções, geralmente relacionadas com a minha infância); todas as minhas amigas são bonitas. 
Isso explica o que se passou no tal vídeo. Inicialmente apareciam os de sempre, quase todos meus familiares. Achei melhor alterar o que podia alterar. Pedi autorização ao Dr. Zuckerberg e escolhi rostos diferentes do habitual. Como fiz essa selecção? É fácil: tendo em conta que são todas bonitas as minhas amigas, limitei-me a escolhê-las a eito. Estão todas seguidas pela ordem alfabética no meu grupo de amigos virtuais.  
Como é possível tal coisa?, perguntam os mais desconfiados. É que além de bonitas são também inteligentes. E tal como explico todos os anos aos meus alunos, a beleza faz-se. Pode-se ter o rosto mais harmonioso de todos e não resultar em situação alguma. Outras pessoas há que perante os flashes se transformam, vencem os castings das televisões ou os corações daqueles que são os seres mais pretendidos. 
Quem trabalha com a imagem sabe de tudo isto. E depois é só criar um personagem que assente como uma luva na nossa forma de ser, com quem nos identifiquemos. Quer dizer, que faça de cada um actor de tela grande ou figura saída de um romance. 
Uma última confidência: as pessoas que guardo mais no coração por questões de sangue ou de amor são as mais discretas na tal lista virtual de amigos. Fazem parte dele, andam por aí, mas aparecem com algum pundonor no tempo e no relevo que lhes é proporcionado. 
É o caso da minha primeira namorada Anabela, que já naquela tempo prometia vir a ser bela, e que hoje resolvi trazer à estampa através da fotografia que se junta a este arrazoado. 
Espero que ela não leve a mal. 

sábado, 2 de fevereiro de 2019

Pedido de casamento


O dia era sério: a resposta tinha de ser dada ao Daniel, um rapaz que segundo diziam sempre gostara de si. A Conceição olhava para ele e sentia desdém pelo que via, um tipo esquálido, quase grotesco, desajeitado na fala e no comportamento de homem novo. 

— Queres casar comigo? — a pergunta sempre adiada até àquele maldito dia.

— Se tu tiveres vontade nisso — disse a Conceição numa voz apagada pela vontade nenhuma.  

— Pois então vou falar com o Padre Maurício e marcar o casamento. Que contente vai ficar a minha mãe. Queres apostar como ela vai pôr uma vela à Senhora d’Aparecida?

A Conceição sem saber o que dizer a seguir. Tão decidida e agora tonta sem querer pensar em nada. 

As mãos do Daniel a quererem cumprir o namoro. O rosto da mulher que tanto amava logo ali à distância de um palmo de coragem. Foi então que os dedos tocarem aquela pele quente de mulher. Nunca tinha sentido uma coisa assim. 

— Vou p’ra dentro que estou com frio — a Conceição a esgueirar-se pelas escadas acima em direcção a casa. 

— Amanhã digo alguma coisa — ele afoito a comportar-se decidido. 

Já a prometida não o ouvia. A barriga cheia pelo bebé do patrão casado dava sinal de querer descanso. A barriga e a cabeça sempre a pensar o mesmo. 

Ainda um dia vão ser felizes, a Conceição mais o Daniel.  

 

Foto Ludwig Schirmer

domingo, 27 de janeiro de 2019

Nunca mais é sábado


Amanhã é Segunda-feira. Lamento. Eu sei que queres sol e vida, música e dança. E amor. Mas a Segunda-feira não te impede de ser feliz. Sim, há horários para cumprir, contas a resolver, vestuário próprio para usar. E depois o pensamento de sempre: nunca mais é Sábado. Levanta a cabeça e sorri. Convence-te que o mundo lá fora sustém a respiração à espera de te ver. Vais conseguir. Desde que penses assim. O sol, a música e a dança ficam para quando quiseres: ao fim da tarde na esplanada, à noite no remanso do sítio que escolheres. 
O Sábado há-de chegar, mulher bonita.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

A propósito da Dra. Maria José Rodrigues


A ideia de que o povo português é o mais hospitaleiro do mundo é um exagero. A prova disso está no email que o meu tio Luís enviou desde as Antilhas: “Francisco, não sabe o que está a perder. Faça as malas e apanhe o próximo avião”. Importa acrescentar que ele possui a marca distintiva da família: nunca mente. Professor de Sociologia em Heidelberg, o professor Luís Norton de Barros vai proferir uma palestra na Universidade das Antilhas no âmbito de um colóquio internacional sobre “O Papel da Mulher na Nova Sociedade — Condicionalismos e Soluções da Maternidade na Perspectiva da Economia Social”. De referir que neste fórum há a registar uma outra participação portuguesa: a da eurodeputada Maria João Rodrigues.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

O discurso


— Dra. Maria Isabel D’Eça, é a sua vez de discursar no Conselho Nacional. 
— Jorge, achas que estou bem?
— Bem?! Com a cor do partido e tudo?
— Ai! Estou tão nervosa... e se o Dr. Rui Rio não gosta do que vou dizer? Ainda fico sem o lugar de deputada...

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

A imprensa regional e o aniversário do jornal O Vianense


Trinta e nove anos. Para um jornal é muito tempo. Os anos nas publicações periódicas não contam da mesma forma que as pessoas. Trezentos e sessenta e cinco dias a fazer jornalismo e a assegurar a continuidade de um órgão informativo regional equivale a anos de muito sacrifício em prol da terra onde se vive. 

E, para além disso, a necessidade de haver possibilidades financeiras. E de capacidades de gestão. E de gente, muita gente. 

Ora, nada disto existe em quantidade suficiente no jornalismo regional. As pessoas, por exemplo: dantes colaboravam por carolice no jornal da terra; hoje, e bem, querem ordenados consentâneos com a formação superior que adquiriram. Sinal dos tempos e da evolução por que todos nós lutamos. 

Simplesmente, os jornais pequenos não têm sustentabilidade financeira para suportar tamanho fardo. E, a pouco e pouco, vão soçobrando a menos que encontrem uma nova fórmula de negócio. Só que nem os jornais grandes portugueses a conseguiram até agora engendrar.

Tudo o resto, feito de homens e mulheres que dedicaram tempo da sua vida ao jornal, sem nada esperarem em troca, ficou definitivamente para trás.  

É deles que me apetece falar nesta comemoração dos 39 anos d’O Vianense. Até porque a saudade é um sentimento que, de tempos a tempos, faz falta a ela recorrer. É uma espécie de combustível essencial para a caminhada em direcção ao futuro. 

E a memória não se faz rogada a um exercício destes. São acontecimentos importantes demais para ficarem perdidos no tempo. As noites em branco a terminar a edição do jornal; os computadores Apple Macintosh a serem inaugurados na imprensa regional pelo O Vianense, num período tão novo que ninguém sabia trabalhar com eles e muito menos arranjá-los quando avariavam; o julgamento por parte dos tribunais do conceito de liberdade de imprensa em que O Vianense foi um participante corajoso; o orgulho de ter entre os colaboradores do jornal os mais brilhantes jornalistas de Viana; a perseverança na luta por objectivos essenciais ao desenvolvimento do Alto-Minho; a abertura de instalações bonitas na Rua de Aveiro; as gentes, sim, O Vianense foi sempre um jornal com gente dentro que ajudava, entre outras coisas, nas tarefas a que a tecnologia ainda não tinha chegado, de que é exemplo a colagem dos endereços dos assinantes, noite adentro, acompanhada das conversas amigas daquelas pessoas todas, que entretanto foram embora, teimosas na determinação de rumarem para sítios longínquos e sem retorno.

Escrevo isto e emociono-me. Trinta e nove anos de alma cheia. Com as pessoas que gostavam do jornal. Que queriam e querem a preservação do que de mais humano serve de alicerce ao O Vianense. 

Fica a faltar o modelo novo de negócio jornalístico. E pessoas capazes de serem mais que meros escrevinhadores de notícias iguais às que aprenderam nas universidades. 

Só dessa forma se pode prosseguir a alma que é essência e marca d’O Vianense.

Quadratura do Círculo


Isso, espetem o último prego no caixão. A televisão já estava moribunda... não é SIC? Agora é chamar a Servilusa e vermos só séries em streaming. Política e coisas sérias? Ninguém as quer ver, o Balsemão, o Costa e o Oliveira do que dizem os teus olhos é que sabem disto. Quadratura do Círculo... que é isso? É aquele programa que dá no intervalo dos debates sobre futebol? O que é que está p’ra aí a dizer, caro telespectador? Que a Quadratura é o melhor programa político da televisão portuguesa? Estes telespectadores estão cada vez mais néscios. Nem os amigos do Balsemão autorizam nem o público do Marcelo quer: a televisão actual é a da Cristina, do Carro do Amor e do Playback Total. Isso e muito futebol. Não gostam? Vão para o Facebook. Nós por cá ficamos bem. Nós e os partidos marginais a tudo isto. Até ao estouro final, dizem os consumidores da antiga televisão interclassista e honesta. 

 

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

A idade das mulheres


As coisas que vemos são enquadradas pelo espaço e pelo tempo. Kant ensinou-nos isto. Entretanto o espaço tem vindo a ser relativizado. As inovações tecnológicas e a globalização muito têm contribuído para que assim seja. O problema agora é o tempo. 

Vem isto isto a propósito da boutade provocadora do escritor Yann Moix que tanto alarme social tem causado. Será realmente a mulher de 50 anos encarada pelos homens de forma diferente sob o ponto de vista erótico daquela que tem apenas 25 anos? 

Se querem a verdade, eu digo: sim, há distinções objectivas entre ambas. Porquê? Porque há metade de uma vida a separá-las. Contra esta realidade não há argumentos possíveis. Por isso é que a Lolita continua a ser uma presença forte no imaginário masculino — não se esqueçam que os homens são sempre umas crianças. 

Mas as diferenças maiores acabam aqui. Nenhum cinquentão no seu perfeito juízo quer casar com a ninfa de Nabokov. Nem é preciso tanto: quando quer conversar sobre o tempo e o que ele deixa para trás escolhe a mulher que conhece a resposta (ainda por cima tantas vezes absolutamente linda). 

Calma. Não acabei ainda. Quando quer beber Barca Velho ao lado da lareira acesa e depois fazer amor bom, demorado e adulto, então escolhe a mulher de cinquenta anos. Bela e inteligente. Capaz de entender as mesmas palavras. E de sentir e fazer sentir como nem todas conseguem. 

Por isso é que é mentira dizer que são iguais as mulheres. Graças a Deus. E a elas também.

sábado, 5 de janeiro de 2019

Prisão de Armando Vara


Sei que os meus leitores não vão concordar comigo. Que muitos duvidarão mesmo do meu equilíbrio mental. Sinceramente, não me importo. Cheguei a uma fase em que a opinião dos outros adquiriu a relatividade correspondente. 
Vem isto a propósito do sentimento de pena que me dá ver a entrada no estabelecimento prisional de Évora, para cumprir uma pena de cinco anos, de Armando Vara. Ao contrário do que acontecerá à quase totalidade dos cidadãos portugueses, que exultarão de satisfação. 
Será a primeira vez no nosso país que alguém cumpre pena de prisão efectiva por tráfico de influência. Ora eu sempre achei que a prisão deve ser reservada para casos em que não há alternativa. 
Em toda a vida, só por uma vez entrei numa cadeia -- para expor considerações éticas (imaginem!) aos reclusos. Fiquei impressionado para sempre. Quem encontrei naquela plateia que me ouvia como se eu fosse ministro da justiça, eram meninos acabados de se tornarem homens, a grande maioria presos por tráfico de droga. Ainda hoje não acredito que algum deles tenha saído melhor do que quando entrou. Contrariando o objetivo maior de uma pena de prisão. 
Armando Vara não nasceu na linha de Cascais. Nasceu no Portugal profundo, a que os lisboetas gostam de chamar província. Claro que os de Cascais não são presos. Só os de Vinhais e terras assim. Que nasceram pobres e tiveram a audácia de querer deixar de o ser. Que entregavam fatos na casa dos clientes do patrão aos 16 anos. Que foram bancários em Mogadouro e, imagine-se!, tiveram a distinta lata de se sentarem um dia nas cadeiras reservadas aos membros do conselho de administração do banco onde no início da vida trabalharam ao balcão. 
No caso dos Vistos Gold ficou provado o crime de corrupção, mais grave que aquele de que é acusado Armando Vara. No entanto, o juiz não condenou nenhum dos réus a pena de prisão efectiva. 
Dois pesos, duas medidas. A linha de Cascais e a inteligência de um magistrado a saírem vitoriosas. 
E eu a não confiar em nada disto.  

(Foto Paulo Novais/Lusa)

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

As ondas da Nazaré


O amor a festejar o abraço dos corpos. E o chão dos nossos passos quase a estremecer. A vertigem da festa em noite de Verão está quase, quase...
— Amas-me?... diz-me que me amas Raimundo!
A onda grande da praia da Nazaré a chegar... o quarto quente e abafado a precisar de respirar. 
— Estou pronta Raimundo... escusas de esperar por mim. 
— E o que achas do Carlos César? — perguntou o homem bonito que surfava o corpo da jovem. 
Nesse momento um vento frio entrou pelo quarto adentro. Os corpos voltaram a ser os de sempre. O amor foi-se embora zangado com a festa que não chegou a acontecer. 
— Sabes uma coisa, Raimundo? Tu e o Carlos César são uns autênticos empatas. Em vocês não voto mais. E é escusado dizeres-me para ter paciência. Nem eu nem o Zé-Tó vamos demorar mais no amor.

sábado, 29 de dezembro de 2018

Festas felizes


O Natal já acabou. É pena. Era lindo o Natal deste ano. Desceu pela chaminé, pé ante pé, a julgar que o perfume que trazia não ia denunciar a sua presença. Como se chama? — perguntei eu. Soraia de Natal e Chaves — disse com voz de cópula de amor. Hesitei. Devia dar a mão num cumprimento formal ou beijá-la? Decidi-me pela pela segunda hipótese. Dei-lhe um beijo rápido na mão. E o que vem aqui fazer? Vim entregar-lhe a prenda deste Natal — respondeu. Foi mesmo ali, na sala iluminada pelo fogo da lareira, que comemorei o nascimento de Deus Nosso Senhor. Rezando eu e ela à paz no Golfo Pérsico e na Guatemala. Foi lindo o meu Natal. 
Agora vem o Ano Novo. E a noite dos Reis. Já mandei limpar a chaminé. Sabe-se lá se o meu coração não vai ser assaltado outra vez.

sábado, 15 de dezembro de 2018

O bebé que não gostava de televisão


Rui Zink premonitório nesta obra-prima da literatura infantil: A Matilde, naquela altura com apenas dois anos de idade, ainda gostava de televisão. Hoje, caloira de Direito, já não gosta. Da mesma forma que os irmãos mais novos nunca chegarão a saber o que foi um dia a televisão. Nem eles nem todos os outros que têm a mesma idade. A televisão para eles é algo que integra uma plataforma de comunicação distribuidora dos diversos conteúdos em streaming. Possibilitando que cada um veja o que quiser às horas que quiser (é escusado pensar em ir ao cabeleireiro e falar do concurso transmitido no dia anterior). Dando, deste modo, ao indivíduo autonomia e também solidão. E assim vai o mundo.

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Cavalinho de romaria


Foge cavalinho, foge... desse carrossel em que te aprisionaram, curva perpétua de uma vida sempre igual, vertigem da mentira que nunca se tornará verdade.
Salta da pista e lança-te na planície sem fim -- espaço de liberdade onde persigas a esperança de encontrares o amor, a natureza, a felicidade. Num horizonte sem fim e sem música de romaria. 
E se puderes, cavalinho, leva-me contigo, prometo-te o silêncio e a paz de que tanto precisamos.

domingo, 9 de dezembro de 2018

Violoncelo com corpo de mulher


Eu tinha um violoncelo. Era castanho, da cor da madeira. Cheirava a sândalo e todos o invejavam. Quando dedilhado nas cordas a música que dele se ouvia pedia meças ao som do mar. 

Resolvi envolvê-lo num vestido preto a ver se o subtraía à cobiça. Em má hora o fiz. Olhá-lo passou a ser o mesmo que ouvir as sinfonias de Beethoven sem ninguém as tocar. O violoncelo a cheirar a sexo e a sândalo nunca mais foi só um violoncelo. 
Fiz então aquilo que me pareceu mais eficaz para afastar a volúpia dos meus amigos da onça. Tirei da santa que casou comigo o colar que um dia lhe ofereci. Só assim conseguiria transformar o alvo do meu transtorno numa senhora de casa, cuidadora do marido e dos filhos que havia de ter. 
Idiota de mim. Quando percebi que a mulher-violoncelo a cheirar a sândalo, vestido negro a realçar-lhe as formas, seios de leite prontos a alimentar a prole, era mais explosiva que a bomba de Hiroshima, já era tarde. Já estava a cuidar dos filhos dos outros.

TEXTO: Francisco Sérgio de Barros e Barros
FOTOGRAFIA: Fátima Vicente Silva
CURADORIA (da iniciativa de juntar textos a trabalhos de fotógrafos portugueses reconhecidos): Maria Helena da Bernarda 

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

No Dia Internacional do Homem


Tu, meu desgraçado, que sofres sem o poderes demonstrar quando fazes um filho que à luz da lei nunca será teu, nem sequer se há-de nascer ou não a tua opinião conta, que disfarças a raiva quando chega o correio da empresa de crédito fácil que nunca pediste, na dúvida de fazeres feliz a Patrícia que te deixa a ver o Bruno de Carvalho na televisão e vai sozinha para o casino da Póvoa, que tens de estar sempre pronto para transpor o regaço de todas as mulheres, incluindo a vizinha do 3* andar e a irmã da Patrícia, e se não o fizeres és expurgado da comunidade, e se o fizeres também, que és obrigado a gostar da equipa de futebol da capital do império que já não existe, e de oferecer flores mesmo sabendo que não é aquilo que a Teresa quer, o que ela queria mesmo era o Bentley que viu no cinema, que te sentes constrangido a ouvir de braço no ombro da Carolina aquele cantor de Karaoke chamado Michael Bublé, que deves ser competente no jogo da sedução mesmo que não te apeteça jogar, que convém usares gravata na canícula do Verão e gostar de sushi mesmo que salives só de imaginar um cozido à portuguesa, que tens de ser homem e sempre homem, sem vacilar sem chorar, comemorando o facto de o ser apenas uma vez no ano, no dia 19 de Novembro, quando és finalmente autorizado a banhar-te no mar e a sentar na esplanada sozinho. Não é fácil ser homem nos dias de hoje, eu sei. Tem calma. A vingança serve-se fria. 

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

A profissão de professor

A professora e os seus alunos. Um bando de miúdos ao redor da mulher que ensina as primeiras letras. Não é fácil fazer-se ouvir. Naquela sala vêm parar todos os problemas do bairro, da cidade, da vida. 
Ser professor é cada vez mais uma tarefa inglória. Porque nem sempre é compreendida e ainda menos reconhecida. Veja-se o caso do governo do nosso país: o que conseguiu junto daqueles profissionais, sem a opinião pública se dar conta, foi aproveitar a presença da troika e demitir os que tinham menos de 50 anos, para depois fazer um novo contrato estabelecendo um ordenado que equivale a metade do que por lei deveriam estar neste momento a ganhar. 
Virando a população contra os seus professores. Chamando-lhes de privilegiados, mandriões, grevistas permanentes. 
E eles iguais a sempre. A fazerem com que o sector da educação seja o que mais evoluiu nas últimas décadas. Contribuindo para a formação de novas gerações cada vez mais bem preparadas, a dar cartas cá dentro e lá fora. 
Triste profissão. Por isso é que ninguém a quer. Vamos ter de esperar por mão-de-obra barata, oriunda de África e da América Latina, para ensinar os nossos filhos e netos. Lamentável tempo aquele que aí vem em matéria de educação.

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Hockney revisitado

“Estou tão feliz. Eu e a Vodka na sala depois de um dia de trabalho no escritório. Parece um quadro do Hockney. E daí... nunca ele pintaria coisa alguma sem a presença de um homem a abrilhantar a cena. Aqui não teria sorte. O meu Francisco Sérgio está na cozinha a fazer o jantar. Temos pena, não é Vodka?”

domingo, 4 de novembro de 2018

Cidade grande


Só. Nesta cidade grande em que não me reconheço. Longe de tudo e cada vez mais de mim. Só. O metropolitano a fugir e eu a correr atrás dele. A cidade grande nunca chega a tempo. De quebrar o silêncio quando a melancolia pede festa. De sentar na mesa ao lado a mulher que ri de todos. Do cumprimento afectuoso do director-geral que nunca nos olhou. Só. Não era isto que eu queria da cidade grande. Queria ser reconhecido. Estar perto de tudo. Do teatro e do rio. Do centro do mundo. Só. E eu cada vez mais longe de mim. E da minha cidade pequena que não me reconhecia mas conhecia. Só.

 

TEXTO: Francisco Sérgio de Barros e Barros
FOTOGRAFIA: Fátima Vicente Silva
CURADORIA (da iniciativa de juntar textos a trabalhos de fotógrafos portugueses reconhecidos): Maria Helena da Bernarda 

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Chega p´ra lá


“Não, não te quero mais... nem eu nem ninguém, não conquistaste nenhuma das minhas amigas, não tens noites por contar, és muito direitinho em tudo que fazes, não discutes com o teu chefe, ganhas há anos a fio o mesmo, até a fazeres amor... é sempre a mesma posição... não, chega bambino... bye, bye.”

terça-feira, 16 de outubro de 2018

Maria Leonor de Brandão Ferreira e Barros

Alguns de nós estão mais em viagem do que outros. O caminho que aqueles fazem é mero caminho. A meta ainda está longe. A estação em que pararam agora é apenas prenúncio de muitas outras que hão-de chegar. 
Claro que esta nãé uma viagem qualquer, daquelas que se compram na internet. É a viagem de uma vida. Que se faz para descobrirmo-nos e escolhermos o resto do itinerário a percorrer. 
Nãé fácil. Acarreta riscos, decisões erradas, companheiros de peregrinação que nunca o deveriam ser. 
A Leonor, minha querida filha, que hoje faz 13 anos, está nesta altura a descrever uma das curvas mais difíceis do percurso. 
Vai em trânsito de uma estação perdida nos montes brancos em direcção ao Evereste. É um tempo e um espaço de transição, de modificações rápidas, de dilemas para os quais não temos resposta. 
Nada que inquiete a Leonor. Ela nasceu para vencer o que é difícil. Sem fazer alarde de nada. Discreta em quase tudo. Por isso é que encontrar uma fotografia dela é tarefa inglória. Nem os professores que a avaliam com cinco a tudo a conhecem. 
Só eu e muitos poucos mais sabem. É um diamante por lapidar. O segredo mais bem guardado lá de casa. 
Dona de um sentido de humor apurado, terna (quando não luta com o irmão), perspicaz, quase adulta em muitas coisas. 
Nunca a vi estudar — penso que o faz no remanso do escritório ou do quarto, longe da vista dos outros — toca clarinete na banda e violino na orquestra do conservatório. 
Escreve bem, é criativa em tudo que faz, seria por certo uma boa aquisição para a Sonae, NASA, Abreu Advogados, Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (i3S), Casa da Música, Museu Nacional de Arte Antiga. 
Ou então, caixa de supermercado, casada com o Sr. David, presidente da junta de freguesia do Soajo, mãe de três filhos sempre com ranhos no nariz e muitíssimo feliz. 
Todo o tempo com o pai ao lado. Quer dizer, a 1000 quilómetros de distância, mas perto do coração da Leonor. 
Gosto tanto de ti, rapariga. Mais do que de mim. Tu és aquilo que eu deveria ser. E isso para mim é muito. 
Parabéns, minha adorada Leonor. Que a vida te abençoe sempre.

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Viagem no Alfa


A paisagem a correr veloz, os olhos da jovem a quererem fixar o instante, as cores a não se distinguirem, o nariz dela encostado ao vidro, o pai sentado a ouvir Liszt nos auscultadores, “jantar no vagão-restaurante” diz o homem do comboio, Aveiro nunca mais chega, a menina não gosta de Liszt, anda a ouvir vezes sem conta os Future Island, as terras correm iguais atrás das carruagens, a memória da mãe que ensinava na universidade de Aveiro e que esperava sempre pelos dois na estação, o mar da Barra forte e grande a brincar com ela no Verão, a mãe antes de morrer sentada na areia a olhar para a sua menina, o comboio cruza-se a grande velocidade com outro, o pai pega num jornal de economia, o nariz a despegar-se do vidro, a menina vai levantar-se e andar, as aldeias feias pararam de correr, não há-de demorar muito a chegar a estação de Aveiro.

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

A Dona Lurdinhas e a cliente moldava

— Está! Queria falar com o Conde de Viana...
— Tem consulta marcada?
— Minha senhora, venho de propósito da Moldávia para falar com o mago do amor!
— Isso a mim interessa-me pouco. Há aqui pessoas que vêm de Bruxelas...
— Mas foi o Conde que me disse para esperar por ele na esplanada.
— Menina, não brinque comigo. Todas as consultas têm que passar por mim. 
— Ai é? Vou fazer queixa à Deco e à Dra. Ana Avoila. Como é que se chama a senhora?
— D. Lurdinhas.

domingo, 7 de outubro de 2018

Coração de Viana

               

Duas nota preambulares necessárias para a compreensão das linhas que se seguem: sou de Viana e sempre gostei de mulheres muito femininas, muito compridas e curvilíneas, com um cabelo bem tratado -- à espera de ser acariciado --, enfim, uma boneca igual às que se vêem expostas nas prateleiras das lojas. 
Não estão a ver? O melhor é eu exemplificar com alguém conhecido. Ora então... pensar professor, pensar... já sei! A Cuca Roseta. 
Não sei se será uma insuportável chata no contacto diário, mas que é gira, lá isso é...
E eu com isso... dizem os leitores! Pois é mesmo aqui que eu queria chegar, a Viana e à boneca. É sabido que boneca que se preze veste saia. A saia levanta-se devagar às ordens dos dedos; as calças não, abrem-se quando o assexuado fecho-éclair assim determina. 
E a saia que a Cuca Roseta usou no espectáculo deste fim-de-semana em Antuérpia é um autêntico sonho. “É parecida com alguma que já vi!”, pensam os leitores mais distraídos. 
Pois parece-se, mas não é. Nasce da inspiração de um povo mas resulta da reformulação bem conseguida do traje à vianesa. De Viana, portanto. Juntando duas coisas de que gosto: Viana e a Cuca boneca. 
Não é a primeira vez que ela usa coisas da minha terra. Os brincos com o Coração de Viana ficam-lhe a matar. Quer dizer, a matar-me. 
Fica apenas a faltar ouvi-la cantar o hino de Pedro Homem de Mello e Amália Rodrigues: "Havemos de ir a Viana." Vou-lhe dizer isso quando nos encontrarmos em breve.