terça-feira, 30 de abril de 2019

Desalmadamente Lena D'Água




Meu Deus, Nosso Senhor: não se faz uma coisa destas — a passagem do tempo deveria acontecer apenas com aqueles que têm pressa de se irem embora e não com aqueles que querem ficar. Que gostam do sol logo pela manhã e da voz da multidão a caminho do trabalho. 

Permanecendo, se possível, eternamente bonitos; ou então jovens; ou então saudáveis, o que vem a dar mais ou menos no mesmo. 

Mas o tempo é um carrasco difícil de moldar — faz estragos, mata devagarinho. 

Já escrevi diversas vezes sobre o tempo (e também acerca do que permanece para além da mudança).

Hoje vi fotografias antigas e outras actuais de uma das mulheres-sonho da minha juventude: a Lena D’Água. 

A cantora de Sempre que o Amor me Quiser era absolutamente linda. Filha de um pai e de uma mãe também eles belíssimos, a Lena não precisava de maquilhagem ou de roupas muito elaboradas. Ela era naturalmente desejo dos homens e de algumas mulheres. 

Infelizmente, tal como a muitos de nós, a vida foi-lhe madrasta. Por culpa dela e dos outros. 

Do tempo que percorreu na noite e na vertigem de si própria ficaram-lhe as marcas. Na carreira, no pensamento e no corpo. Do rosto luminoso e das pernas de boneca já pouco resta. Nos olhos e no riso, talvez. No resto, a Lena D’Água de hoje mais não é do que a longínqua imagem de uma cantora portuguesa de muito sucesso dos anos oitenta. 

A menos que consiga recomeçar. Como se fosse do zero. Esquecendo o bom e o mau de tudo o que ficou para trás, de forma a não ter de penosamente comparar-se com o que já foi. 

A oportunidade está aí: trinta anos depois vai editar um novo álbum com o nome Desalmadamente. Quando o ouvirmos vamos imaginá-lo cantado por alguém que não se distingue pelas pernas ou pela beleza do rosto, mas antes pelo percurso e pela consciência que só uma vida cheia permite. 

No dia 10 de Maio, quando desalmadamente for divulgado o disco, eu vou amar outra vez a Lena D’Água.

terça-feira, 23 de abril de 2019

Tarde em Moledo


A cena presenciei-a mesmo a meu lado no Domingo passado. Eu e a Cuca finalmente esparramados ao sol, ninguém a aborrecer-nos. Ao fundo a vista linda de Moledo, a areia solidária a querer-nos felizes, o Forte no meio do mar a tomar conta de nós, o monte de Santa Tecla a mostrar-nos o caminho em direcção ao divino. Como se ele não estivesse ao nosso lados nas migalhas de rocha em que nos deitamos, e em tudo o resto a que chamamos natureza e que os homens ainda não souberam como estragar. 
A alguma distância de mim e da Cuca, um casal antigo no tempo mas igualmente feliz na cumplicidade de amor, sorria para nós como se pudéssemos compreender aquilo que ambos sentiam. Da mesma forma que eles nos adivinhavam, pareciam querer dizer. 
Até que chegou a desgraçada de uma víbora muito má travestida de mulher. Sentou-se perto do casal mais velho e devagar, muito devagar, começou a tirar cada uma das peças do seu vestuário escolhido de forma a fazer jus ao sol de Moledo. O soutien não constava do corpo da bruxa, mas dos seios redondos (da forma das minhas mãos), arrogantes de tão confiantes em si, não se tinha ela esquecido. 
Foi então que vi uma das cenas de amor mais bonitas dos últimos tempos: a mulher velha, preocupada com a interrupção do descanso do marido, tapou num ápice os olhos do companheiro com o pedaço de crochê que fazia desde que chegou à praia. 
Foi lindo. Cheguei mesmo a emocionar-me. Eu e a Cuca — que depressa aprendeu como se faz e pespegou à frente da minha imaginação a capa do seu último disco de vinil. 
Sorri contente de tanto amor. Um dia destes a bruxa má vai fazer-me a mesma coisa. Vocês vão ver.

segunda-feira, 22 de abril de 2019

Quando a coerência é um mal


Não fui eu o autor deste sublinhado fotográfico — esse bom gosto deve-se à Diana Duarte, jornalista da SIC. 
Mas gosto muito do que na página do livro está escrito. Não há nada mais aborrecido que alguém de uma só cara. Que é constante no vestir e no dizer. E na escrita. E no gosto pelas mulheres louras; ou então, sendo do género feminino, preferindo os homens das contas certas. 
Eu não sou assim. Hoje sou o homem do comboio, amanhã sou escritor por publicar. Isto de manhã e à tarde, porque à noite sou milionário que o deixei de ser por causa da guerra civil no Ruanda. 
A vida é cinema e os chatos são porteiros e vendem os bilhetes do espectáculo. Que, por sinal, nunca terá um fim. 

sábado, 13 de abril de 2019

Mulher para as caminhadas


Seis indivíduos de bata branca, 
estetoscópio ao pescoço, proferiram o veredicto: “Tem de andar meia hora por dia”. Era a quinquagésima sétima vez que o diziam, sem nunca eu ter conseguido cumprir a malfadada sentença. As ruas sempre as mesmas, o suor a querer desaguar nos olhos, a figura de parvo a tomar conta de mim. 
“Vai ter de arranjar companhia”, vaticinaram os lentes da faculdade de medicina. Companhia?Mas qual? Um homem de bigode e cheiro de pés, sempre a divagar sobre futebol?
Não, não... fiz algumas asneiras, mas não mereço tamanho castigo. Uma mulher? Para quê? Para andar?Mal empregada musa da minha vida.  E qual havia de ser?  A Dona Lurdinhas não quero,  já chega o gabinete mais os clientes. Tem de ser mais viçosa e inexperiente, o corpo a cheirar ao perfume das raparigas dos bailes de quando eu tinha quinze anos. 
Loura, sim, quase a parecer morena, olhos pretos que eu gosto muito das ruivas. Sorriso obediente sem ser submissa, que eu nunca quis mulheres dependentes do carro ou do meu filósofo preferido ou ainda do porta-moedas Gucci. 
O cabelo escorrido e sempre impecável, a pedir para ser cofiado pelos dedos deste novel atleta. Há só mais uma condição e esta irrecusável: A de não falar enquanto caminha. Nem que seja sobre a desvalorização do euro, do Brexit ou do mau-gosto do vestido da vizinha. A única coisa que pode dizer é “Ai Jesus” ou “Ai, meu senhor”. 
Vou pôr o anúncio no Correio da Tarde. 
A ver se desta vez começo a andar pelos jardins e ruas à beira-rio da minha cidade. 

sexta-feira, 29 de março de 2019

Tontos


Tontos. Não perceberam nada. Os professores a julgarem-se importantes na sociedade e no PS. Não sabem que o mundo mudou. Só conta quem produz lucro. Por isso é que a Maria de Lurdes Rodrigues fez com que eles passassem a ganhar menos, a seguir Passos Coelho ainda baixou mais o ordenado e ameaçou que os cortes seriam permanentes. E os professores a pensarem que deveriam fazer o sacrifício pelo país. Que totós. Ao actual governo bastou fazer de conta que iriam recuperar aquilo que as suas carreiras determinavam. Ao mesmo tempo que lhes entregava metade do vencimento que por lei deveriam estar a receber. Adeus, mestres-escola. A paixão pela educação só é possível em países ricos.

 

Foto Observador

Vá lá, organizem-se...


Há ministros que são pai e filha, marido e mulher, amigos e amigas do primeiro de todos, eu não nomeei nenhum deles, quem o fez o foi o presidente da marquise, o mesmo que é vizinho dos gestores do BPN, eu é que não andei a passar férias no sítio do Ricardo Espírito Santo, nem a minha Maria trabalhou na administração do BES, o que é que este está para aí a dizer?

— Order!


quarta-feira, 13 de março de 2019

Partida de ténis


O João d’Arruda, convencido de si, desafiou-me para uma partida de ténis. “A minha mulher foi jogar nas máquinas do Casino da Póvoa e vai demorar”, anunciou o João eufórico por se sentir livre. A sua camisa branca impecável e a gravata azul eléctrico não estavam habituadas a recusas. “Está bem, em atenção à tua mulher aceito a proposta”, disse eu. O jogo começou, ao fim de meia-hora o João pareceu-me bem, às duas horas e quarenta e cinco minutos estava assim conforme se vê na fotografia.

terça-feira, 12 de março de 2019

Fernando Poeta


Já olhei fixamente para a cara deste miúdo e não descobri nada. Pelo menos de diferente. O olhar talvez. Há ali um certo ar interrogativo que pode querer significar inquietude. E alguma tristeza, possivelmente. De resto, quase nada. Com esforço consegue adivinhar-se o auto-convencimento de que consegue dominar o triciclo, de que é orgulhosamente seu e de mais ninguém. E é só isto. Acho que vou desistir: de resto é uma criança igual a tantas outras. Ao que eu fui, por exemplo. Exímio condutor de triciclos. Triste, toda a infância e adolescência triste. Nisto partilho o modo de estar com o rapaz da fotografia. Provavelmente por isso é que me sinto frustrado por não ser capaz de descobrir as sombras e os raios de luz que traçam o perfil do menino ciclista. Logo eu que adivinho o futuro de qualquer pessoa. Como é que se chama o miúdo? Deixa ver: Fernando. Fernando quê? Onde é que está a ficha? Tenho-a aqui: Fernando Pessoa.

sábado, 16 de fevereiro de 2019

Director do museu


O Museu de Serralves está salvo! Já foi escolhido o novo director da instituição: Kléber Cullmann, crítico de arte alemão, reconhecido em todo o mundo pela sua experiência em indústrias culturais de cariz forchhammer. Na foto, o novo director (à direita) já na cidade do Porto, acompanhado do assistente pessoal Rolf Forchhammer. 

Foto Dennis Conaghan

sábado, 9 de fevereiro de 2019

Esclarecimento


Uma brincadeira em vídeo produzida por uma rede social sobre os amigos da minha vida acabou por me trazer dissabores. Muitos (muitas) queixaram-se de no vídeo em questão só aparecerem mulheres e todas elas bonitas. Importa saberem duas coisas: só tenho amigos mulheres (com raríssimas excepções, geralmente relacionadas com a minha infância); todas as minhas amigas são bonitas. 
Isso explica o que se passou no tal vídeo. Inicialmente apareciam os de sempre, quase todos meus familiares. Achei melhor alterar o que podia alterar. Pedi autorização ao Dr. Zuckerberg e escolhi rostos diferentes do habitual. Como fiz essa selecção? É fácil: tendo em conta que são todas bonitas as minhas amigas, limitei-me a escolhê-las a eito. Estão todas seguidas pela ordem alfabética no meu grupo de amigos virtuais.  
Como é possível tal coisa?, perguntam os mais desconfiados. É que além de bonitas são também inteligentes. E tal como explico todos os anos aos meus alunos, a beleza faz-se. Pode-se ter o rosto mais harmonioso de todos e não resultar em situação alguma. Outras pessoas há que perante os flashes se transformam, vencem os castings das televisões ou os corações daqueles que são os seres mais pretendidos. 
Quem trabalha com a imagem sabe de tudo isto. E depois é só criar um personagem que assente como uma luva na nossa forma de ser, com quem nos identifiquemos. Quer dizer, que faça de cada um actor de tela grande ou figura saída de um romance. 
Uma última confidência: as pessoas que guardo mais no coração por questões de sangue ou de amor são as mais discretas na tal lista virtual de amigos. Fazem parte dele, andam por aí, mas aparecem com algum pundonor no tempo e no relevo que lhes é proporcionado. 
É o caso da minha primeira namorada Anabela, que já naquela tempo prometia vir a ser bela, e que hoje resolvi trazer à estampa através da fotografia que se junta a este arrazoado. 
Espero que ela não leve a mal. 

sábado, 2 de fevereiro de 2019

Pedido de casamento


O dia era sério: a resposta tinha de ser dada ao Daniel, um rapaz que segundo diziam sempre gostara de si. A Conceição olhava para ele e sentia desdém pelo que via, um tipo esquálido, quase grotesco, desajeitado na fala e no comportamento de homem novo. 

— Queres casar comigo? — a pergunta sempre adiada até àquele maldito dia.

— Se tu tiveres vontade nisso — disse a Conceição numa voz apagada pela vontade nenhuma.  

— Pois então vou falar com o Padre Maurício e marcar o casamento. Que contente vai ficar a minha mãe. Queres apostar como ela vai pôr uma vela à Senhora d’Aparecida?

A Conceição sem saber o que dizer a seguir. Tão decidida e agora tonta sem querer pensar em nada. 

As mãos do Daniel a quererem cumprir o namoro. O rosto da mulher que tanto amava logo ali à distância de um palmo de coragem. Foi então que os dedos tocarem aquela pele quente de mulher. Nunca tinha sentido uma coisa assim. 

— Vou p’ra dentro que estou com frio — a Conceição a esgueirar-se pelas escadas acima em direcção a casa. 

— Amanhã digo alguma coisa — ele afoito a comportar-se decidido. 

Já a prometida não o ouvia. A barriga cheia pelo bebé do patrão casado dava sinal de querer descanso. A barriga e a cabeça sempre a pensar o mesmo. 

Ainda um dia vão ser felizes, a Conceição mais o Daniel.  

 

Foto Ludwig Schirmer

domingo, 27 de janeiro de 2019

Nunca mais é sábado


Amanhã é Segunda-feira. Lamento. Eu sei que queres sol e vida, música e dança. E amor. Mas a Segunda-feira não te impede de ser feliz. Sim, há horários para cumprir, contas a resolver, vestuário próprio para usar. E depois o pensamento de sempre: nunca mais é Sábado. Levanta a cabeça e sorri. Convence-te que o mundo lá fora sustém a respiração à espera de te ver. Vais conseguir. Desde que penses assim. O sol, a música e a dança ficam para quando quiseres: ao fim da tarde na esplanada, à noite no remanso do sítio que escolheres. 
O Sábado há-de chegar, mulher bonita.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

A propósito da Dra. Maria José Rodrigues


A ideia de que o povo português é o mais hospitaleiro do mundo é um exagero. A prova disso está no email que o meu tio Luís enviou desde as Antilhas: “Francisco, não sabe o que está a perder. Faça as malas e apanhe o próximo avião”. Importa acrescentar que ele possui a marca distintiva da família: nunca mente. Professor de Sociologia em Heidelberg, o professor Luís Norton de Barros vai proferir uma palestra na Universidade das Antilhas no âmbito de um colóquio internacional sobre “O Papel da Mulher na Nova Sociedade — Condicionalismos e Soluções da Maternidade na Perspectiva da Economia Social”. De referir que neste fórum há a registar uma outra participação portuguesa: a da eurodeputada Maria João Rodrigues.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

O discurso


— Dra. Maria Isabel D’Eça, é a sua vez de discursar no Conselho Nacional. 
— Jorge, achas que estou bem?
— Bem?! Com a cor do partido e tudo?
— Ai! Estou tão nervosa... e se o Dr. Rui Rio não gosta do que vou dizer? Ainda fico sem o lugar de deputada...

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

A imprensa regional e o aniversário do jornal O Vianense


Trinta e nove anos. Para um jornal é muito tempo. Os anos nas publicações periódicas não contam da mesma forma que as pessoas. Trezentos e sessenta e cinco dias a fazer jornalismo e a assegurar a continuidade de um órgão informativo regional equivale a anos de muito sacrifício em prol da terra onde se vive. 

E, para além disso, a necessidade de haver possibilidades financeiras. E de capacidades de gestão. E de gente, muita gente. 

Ora, nada disto existe em quantidade suficiente no jornalismo regional. As pessoas, por exemplo: dantes colaboravam por carolice no jornal da terra; hoje, e bem, querem ordenados consentâneos com a formação superior que adquiriram. Sinal dos tempos e da evolução por que todos nós lutamos. 

Simplesmente, os jornais pequenos não têm sustentabilidade financeira para suportar tamanho fardo. E, a pouco e pouco, vão soçobrando a menos que encontrem uma nova fórmula de negócio. Só que nem os jornais grandes portugueses a conseguiram até agora engendrar.

Tudo o resto, feito de homens e mulheres que dedicaram tempo da sua vida ao jornal, sem nada esperarem em troca, ficou definitivamente para trás.  

É deles que me apetece falar nesta comemoração dos 39 anos d’O Vianense. Até porque a saudade é um sentimento que, de tempos a tempos, faz falta a ela recorrer. É uma espécie de combustível essencial para a caminhada em direcção ao futuro. 

E a memória não se faz rogada a um exercício destes. São acontecimentos importantes demais para ficarem perdidos no tempo. As noites em branco a terminar a edição do jornal; os computadores Apple Macintosh a serem inaugurados na imprensa regional pelo O Vianense, num período tão novo que ninguém sabia trabalhar com eles e muito menos arranjá-los quando avariavam; o julgamento por parte dos tribunais do conceito de liberdade de imprensa em que O Vianense foi um participante corajoso; o orgulho de ter entre os colaboradores do jornal os mais brilhantes jornalistas de Viana; a perseverança na luta por objectivos essenciais ao desenvolvimento do Alto-Minho; a abertura de instalações bonitas na Rua de Aveiro; as gentes, sim, O Vianense foi sempre um jornal com gente dentro que ajudava, entre outras coisas, nas tarefas a que a tecnologia ainda não tinha chegado, de que é exemplo a colagem dos endereços dos assinantes, noite adentro, acompanhada das conversas amigas daquelas pessoas todas, que entretanto foram embora, teimosas na determinação de rumarem para sítios longínquos e sem retorno.

Escrevo isto e emociono-me. Trinta e nove anos de alma cheia. Com as pessoas que gostavam do jornal. Que queriam e querem a preservação do que de mais humano serve de alicerce ao O Vianense. 

Fica a faltar o modelo novo de negócio jornalístico. E pessoas capazes de serem mais que meros escrevinhadores de notícias iguais às que aprenderam nas universidades. 

Só dessa forma se pode prosseguir a alma que é essência e marca d’O Vianense.

Quadratura do Círculo


Isso, espetem o último prego no caixão. A televisão já estava moribunda... não é SIC? Agora é chamar a Servilusa e vermos só séries em streaming. Política e coisas sérias? Ninguém as quer ver, o Balsemão, o Costa e o Oliveira do que dizem os teus olhos é que sabem disto. Quadratura do Círculo... que é isso? É aquele programa que dá no intervalo dos debates sobre futebol? O que é que está p’ra aí a dizer, caro telespectador? Que a Quadratura é o melhor programa político da televisão portuguesa? Estes telespectadores estão cada vez mais néscios. Nem os amigos do Balsemão autorizam nem o público do Marcelo quer: a televisão actual é a da Cristina, do Carro do Amor e do Playback Total. Isso e muito futebol. Não gostam? Vão para o Facebook. Nós por cá ficamos bem. Nós e os partidos marginais a tudo isto. Até ao estouro final, dizem os consumidores da antiga televisão interclassista e honesta. 

 

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

A idade das mulheres


As coisas que vemos são enquadradas pelo espaço e pelo tempo. Kant ensinou-nos isto. Entretanto o espaço tem vindo a ser relativizado. As inovações tecnológicas e a globalização muito têm contribuído para que assim seja. O problema agora é o tempo. 

Vem isto isto a propósito da boutade provocadora do escritor Yann Moix que tanto alarme social tem causado. Será realmente a mulher de 50 anos encarada pelos homens de forma diferente sob o ponto de vista erótico daquela que tem apenas 25 anos? 

Se querem a verdade, eu digo: sim, há distinções objectivas entre ambas. Porquê? Porque há metade de uma vida a separá-las. Contra esta realidade não há argumentos possíveis. Por isso é que a Lolita continua a ser uma presença forte no imaginário masculino — não se esqueçam que os homens são sempre umas crianças. 

Mas as diferenças maiores acabam aqui. Nenhum cinquentão no seu perfeito juízo quer casar com a ninfa de Nabokov. Nem é preciso tanto: quando quer conversar sobre o tempo e o que ele deixa para trás escolhe a mulher que conhece a resposta (ainda por cima tantas vezes absolutamente linda). 

Calma. Não acabei ainda. Quando quer beber Barca Velho ao lado da lareira acesa e depois fazer amor bom, demorado e adulto, então escolhe a mulher de cinquenta anos. Bela e inteligente. Capaz de entender as mesmas palavras. E de sentir e fazer sentir como nem todas conseguem. 

Por isso é que é mentira dizer que são iguais as mulheres. Graças a Deus. E a elas também.

sábado, 5 de janeiro de 2019

Prisão de Armando Vara


Sei que os meus leitores não vão concordar comigo. Que muitos duvidarão mesmo do meu equilíbrio mental. Sinceramente, não me importo. Cheguei a uma fase em que a opinião dos outros adquiriu a relatividade correspondente. 
Vem isto a propósito do sentimento de pena que me dá ver a entrada no estabelecimento prisional de Évora, para cumprir uma pena de cinco anos, de Armando Vara. Ao contrário do que acontecerá à quase totalidade dos cidadãos portugueses, que exultarão de satisfação. 
Será a primeira vez no nosso país que alguém cumpre pena de prisão efectiva por tráfico de influência. Ora eu sempre achei que a prisão deve ser reservada para casos em que não há alternativa. 
Em toda a vida, só por uma vez entrei numa cadeia -- para expor considerações éticas (imaginem!) aos reclusos. Fiquei impressionado para sempre. Quem encontrei naquela plateia que me ouvia como se eu fosse ministro da justiça, eram meninos acabados de se tornarem homens, a grande maioria presos por tráfico de droga. Ainda hoje não acredito que algum deles tenha saído melhor do que quando entrou. Contrariando o objetivo maior de uma pena de prisão. 
Armando Vara não nasceu na linha de Cascais. Nasceu no Portugal profundo, a que os lisboetas gostam de chamar província. Claro que os de Cascais não são presos. Só os de Vinhais e terras assim. Que nasceram pobres e tiveram a audácia de querer deixar de o ser. Que entregavam fatos na casa dos clientes do patrão aos 16 anos. Que foram bancários em Mogadouro e, imagine-se!, tiveram a distinta lata de se sentarem um dia nas cadeiras reservadas aos membros do conselho de administração do banco onde no início da vida trabalharam ao balcão. 
No caso dos Vistos Gold ficou provado o crime de corrupção, mais grave que aquele de que é acusado Armando Vara. No entanto, o juiz não condenou nenhum dos réus a pena de prisão efectiva. 
Dois pesos, duas medidas. A linha de Cascais e a inteligência de um magistrado a saírem vitoriosas. 
E eu a não confiar em nada disto.  

(Foto Paulo Novais/Lusa)

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

As ondas da Nazaré


O amor a festejar o abraço dos corpos. E o chão dos nossos passos quase a estremecer. A vertigem da festa em noite de Verão está quase, quase...
— Amas-me?... diz-me que me amas Raimundo!
A onda grande da praia da Nazaré a chegar... o quarto quente e abafado a precisar de respirar. 
— Estou pronta Raimundo... escusas de esperar por mim. 
— E o que achas do Carlos César? — perguntou o homem bonito que surfava o corpo da jovem. 
Nesse momento um vento frio entrou pelo quarto adentro. Os corpos voltaram a ser os de sempre. O amor foi-se embora zangado com a festa que não chegou a acontecer. 
— Sabes uma coisa, Raimundo? Tu e o Carlos César são uns autênticos empatas. Em vocês não voto mais. E é escusado dizeres-me para ter paciência. Nem eu nem o Zé-Tó vamos demorar mais no amor.

sábado, 29 de dezembro de 2018

Festas felizes


O Natal já acabou. É pena. Era lindo o Natal deste ano. Desceu pela chaminé, pé ante pé, a julgar que o perfume que trazia não ia denunciar a sua presença. Como se chama? — perguntei eu. Soraia de Natal e Chaves — disse com voz de cópula de amor. Hesitei. Devia dar a mão num cumprimento formal ou beijá-la? Decidi-me pela pela segunda hipótese. Dei-lhe um beijo rápido na mão. E o que vem aqui fazer? Vim entregar-lhe a prenda deste Natal — respondeu. Foi mesmo ali, na sala iluminada pelo fogo da lareira, que comemorei o nascimento de Deus Nosso Senhor. Rezando eu e ela à paz no Golfo Pérsico e na Guatemala. Foi lindo o meu Natal. 
Agora vem o Ano Novo. E a noite dos Reis. Já mandei limpar a chaminé. Sabe-se lá se o meu coração não vai ser assaltado outra vez.

sábado, 15 de dezembro de 2018

O bebé que não gostava de televisão


Rui Zink premonitório nesta obra-prima da literatura infantil: A Matilde, naquela altura com apenas dois anos de idade, ainda gostava de televisão. Hoje, caloira de Direito, já não gosta. Da mesma forma que os irmãos mais novos nunca chegarão a saber o que foi um dia a televisão. Nem eles nem todos os outros que têm a mesma idade. A televisão para eles é algo que integra uma plataforma de comunicação distribuidora dos diversos conteúdos em streaming. Possibilitando que cada um veja o que quiser às horas que quiser (é escusado pensar em ir ao cabeleireiro e falar do concurso transmitido no dia anterior). Dando, deste modo, ao indivíduo autonomia e também solidão. E assim vai o mundo.

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Cavalinho de romaria


Foge cavalinho, foge... desse carrossel em que te aprisionaram, curva perpétua de uma vida sempre igual, vertigem da mentira que nunca se tornará verdade.
Salta da pista e lança-te na planície sem fim -- espaço de liberdade onde persigas a esperança de encontrares o amor, a natureza, a felicidade. Num horizonte sem fim e sem música de romaria. 
E se puderes, cavalinho, leva-me contigo, prometo-te o silêncio e a paz de que tanto precisamos.

domingo, 9 de dezembro de 2018

Violoncelo com corpo de mulher


Eu tinha um violoncelo. Era castanho, da cor da madeira. Cheirava a sândalo e todos o invejavam. Quando dedilhado nas cordas a música que dele se ouvia pedia meças ao som do mar. 

Resolvi envolvê-lo num vestido preto a ver se o subtraía à cobiça. Em má hora o fiz. Olhá-lo passou a ser o mesmo que ouvir as sinfonias de Beethoven sem ninguém as tocar. O violoncelo a cheirar a sexo e a sândalo nunca mais foi só um violoncelo. 
Fiz então aquilo que me pareceu mais eficaz para afastar a volúpia dos meus amigos da onça. Tirei da santa que casou comigo o colar que um dia lhe ofereci. Só assim conseguiria transformar o alvo do meu transtorno numa senhora de casa, cuidadora do marido e dos filhos que havia de ter. 
Idiota de mim. Quando percebi que a mulher-violoncelo a cheirar a sândalo, vestido negro a realçar-lhe as formas, seios de leite prontos a alimentar a prole, era mais explosiva que a bomba de Hiroshima, já era tarde. Já estava a cuidar dos filhos dos outros.

TEXTO: Francisco Sérgio de Barros e Barros
FOTOGRAFIA: Fátima Vicente Silva
CURADORIA (da iniciativa de juntar textos a trabalhos de fotógrafos portugueses reconhecidos): Maria Helena da Bernarda 

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

No Dia Internacional do Homem


Tu, meu desgraçado, que sofres sem o poderes demonstrar quando fazes um filho que à luz da lei nunca será teu, nem sequer se há-de nascer ou não a tua opinião conta, que disfarças a raiva quando chega o correio da empresa de crédito fácil que nunca pediste, na dúvida de fazeres feliz a Patrícia que te deixa a ver o Bruno de Carvalho na televisão e vai sozinha para o casino da Póvoa, que tens de estar sempre pronto para transpor o regaço de todas as mulheres, incluindo a vizinha do 3* andar e a irmã da Patrícia, e se não o fizeres és expurgado da comunidade, e se o fizeres também, que és obrigado a gostar da equipa de futebol da capital do império que já não existe, e de oferecer flores mesmo sabendo que não é aquilo que a Teresa quer, o que ela queria mesmo era o Bentley que viu no cinema, que te sentes constrangido a ouvir de braço no ombro da Carolina aquele cantor de Karaoke chamado Michael Bublé, que deves ser competente no jogo da sedução mesmo que não te apeteça jogar, que convém usares gravata na canícula do Verão e gostar de sushi mesmo que salives só de imaginar um cozido à portuguesa, que tens de ser homem e sempre homem, sem vacilar sem chorar, comemorando o facto de o ser apenas uma vez no ano, no dia 19 de Novembro, quando és finalmente autorizado a banhar-te no mar e a sentar na esplanada sozinho. Não é fácil ser homem nos dias de hoje, eu sei. Tem calma. A vingança serve-se fria. 

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

A profissão de professor

A professora e os seus alunos. Um bando de miúdos ao redor da mulher que ensina as primeiras letras. Não é fácil fazer-se ouvir. Naquela sala vêm parar todos os problemas do bairro, da cidade, da vida. 
Ser professor é cada vez mais uma tarefa inglória. Porque nem sempre é compreendida e ainda menos reconhecida. Veja-se o caso do governo do nosso país: o que conseguiu junto daqueles profissionais, sem a opinião pública se dar conta, foi aproveitar a presença da troika e demitir os que tinham menos de 50 anos, para depois fazer um novo contrato estabelecendo um ordenado que equivale a metade do que por lei deveriam estar neste momento a ganhar. 
Virando a população contra os seus professores. Chamando-lhes de privilegiados, mandriões, grevistas permanentes. 
E eles iguais a sempre. A fazerem com que o sector da educação seja o que mais evoluiu nas últimas décadas. Contribuindo para a formação de novas gerações cada vez mais bem preparadas, a dar cartas cá dentro e lá fora. 
Triste profissão. Por isso é que ninguém a quer. Vamos ter de esperar por mão-de-obra barata, oriunda de África e da América Latina, para ensinar os nossos filhos e netos. Lamentável tempo aquele que aí vem em matéria de educação.

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Hockney revisitado

“Estou tão feliz. Eu e a Vodka na sala depois de um dia de trabalho no escritório. Parece um quadro do Hockney. E daí... nunca ele pintaria coisa alguma sem a presença de um homem a abrilhantar a cena. Aqui não teria sorte. O meu Francisco Sérgio está na cozinha a fazer o jantar. Temos pena, não é Vodka?”

domingo, 4 de novembro de 2018

Cidade grande


Só. Nesta cidade grande em que não me reconheço. Longe de tudo e cada vez mais de mim. Só. O metropolitano a fugir e eu a correr atrás dele. A cidade grande nunca chega a tempo. De quebrar o silêncio quando a melancolia pede festa. De sentar na mesa ao lado a mulher que ri de todos. Do cumprimento afectuoso do director-geral que nunca nos olhou. Só. Não era isto que eu queria da cidade grande. Queria ser reconhecido. Estar perto de tudo. Do teatro e do rio. Do centro do mundo. Só. E eu cada vez mais longe de mim. E da minha cidade pequena que não me reconhecia mas conhecia. Só.

 

TEXTO: Francisco Sérgio de Barros e Barros
FOTOGRAFIA: Fátima Vicente Silva
CURADORIA (da iniciativa de juntar textos a trabalhos de fotógrafos portugueses reconhecidos): Maria Helena da Bernarda 

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Chega p´ra lá


“Não, não te quero mais... nem eu nem ninguém, não conquistaste nenhuma das minhas amigas, não tens noites por contar, és muito direitinho em tudo que fazes, não discutes com o teu chefe, ganhas há anos a fio o mesmo, até a fazeres amor... é sempre a mesma posição... não, chega bambino... bye, bye.”