quinta-feira, 14 de abril de 2022

A mãe


O mundo está todo aqui. A seiva e a vida em pleno. O acto de começar e a segurança proporcionada por quem amamos.  

A mãe orgulhosa segura nos braços o filho que é a eternidade possível. Ele é ela reconciliada com os demais. 

A realidade, por mais difícil que tenha sido, por algum tempo é suspensa. Nada mais conta do que este momento. Um pertence ao outro para sempre. 

Perante um quadro assim, a fealdade da guerra ou a mediocridade da multidão não significam nada.

terça-feira, 5 de abril de 2022

Estrada transmontana


Vão todas para o mesmo sítio. Habituaram-se a isso a vida toda. Seguem o líder ou então aqueles que aparentam ser os mais fortes. 
Na estrada transmontana, a passarem junto ao carro, as ovelhas sucedem-se umas às outras.  
À frente, o homem de faces cavadas, pele tisnada pelo clima excessivo, acompanha-as. 
Lá atrás, os cães controlam a turba. São admiráveis no cuidado com que zelam por todos. A fazer inveja à maioria dos seres humanos. 

segunda-feira, 4 de abril de 2022

Dia de Páscoa


A mãe. À espera de cada um de nós. Preocupada com aquilo que fazemos da vida. Sempre na esperança de que nada de mal nos aconteça. Na estrada da discoteca ou no dia em que nos formamos. 

E no primeiro divórcio, no segundo e na crise da meia-idade. Sim, naquele tempo em que passamos a não acreditar em nada do que tínhamos por certo.  

A mãe. O colo de que nunca nos afastamos em definitivo. Renunciar a ele seria morrer. Mesmo quando atingimos a idade em que tudo se torna possível. 

A mãe. Orai por nós. Queremos-te por perto quando chegar o tempo da Páscoa de cada um. Nesse dia vou deitar outra vez a cabeça no teu colo.

terça-feira, 22 de março de 2022

Quando a realidade ultrapassa a ficção


Voando sobre um ninho de cucos. Mas não daquelas aves cantoras que conhecemos dos nossos campos agrícolas; nem das que saíam de uma gaiola de madeira assinalando as horas. Não, do que aqui se trata é de um hospício que acaba de receber um novo hóspede, tão deslocado da realidade que o próprio Jack Nicholson olha para ele com ar de espanto. O caso não é para menos: o novato naquele espaço é um facínora da pior espécie. 

sábado, 19 de março de 2022

A meu Pai


De manhã não me lembrei que hoje é dia do Pai. Só na esplanada, pejada de famílias como é costume ao Sábado, é que se fez luz, com o tema a ser falado em muitas das mesas. 

Em casa, ao almoço, confirmou-se a efeméride. Estavam todos. Até a mais velha dos caçulas, finalista no Porto, estava presente. O próprio menu tinha sido escolhido em função dos meus gostos.

Olhei para aquela gente, a minha gente, e não lhes quis fazer a desfeita de não participar agradecido nos festejos — num dia em que habitualmente o meu pensamento se revolve numa dialéctica sem fim à vista. 

Tudo porque continuo a sentir-me mais filho do que iniciador do quer que seja. Talvez que o facto de o meu pai ser vivo e a presença e a lembrança dele ter muito impacto em mim explique isto. Alguém disse que apenas crescemos verdadeiramente depois de ficarmos sós no mundo. Aí sim, tornamo-nos adultos. 

No meu caso, as coisas não serão bem assim. Pouca gente sabe mas o meu pai viverá para sempre. Na sede do jornal, na Praça da República, no meu coração. E dessa forma continuarei apenas a ser o jovem sonhador aprendiz de escritor.

Os meus quatro filhos um dia compreenderão esta vontade inabalável.

sexta-feira, 18 de março de 2022

Inconstância amorosa


Ontem os astros estavam em amena cavaqueira entre si. E nós fomos felizes como no dia em que experimentamos a pele um do outro. 
Hoje as coisas correram mal. Eu não estive bem e tu não estiveste muito melhor. Decidimos romper os dias que nos estavam destinados pelo amor. 
Amanhã tudo será melhor. Vamos voltar a ser nós mesmos. Com a liberdade de à tarde olharmos o mar sozinhos e à noite procurarmos alguém na pista de dança. Por volta das cinco da manhã vou querer-te de volta. 

quinta-feira, 17 de março de 2022

Putin e o medo de si


Esta fotografia é todo um tratado, seja qual for o ângulo pelo qual a analisemos. Nela regista-se para a posterioridade uma reunião de Vladimir Putin com dois altos responsáveis militares.

Nada na disposição dos lugares ocupados por aqueles homens aponta, aos olhos de um ocidental, para um lastro de normalidade que seja. Putin sentado na extremidade da mesa e os dois generais a uns seis metros de distância. Como se o presidente da Federação Russa fosse um ser providencial, de natureza divina e, por isso, pertencente a uma dimensão transcendente.

Abdicando do pretensiosismo de produzir um retrato psicológico de quem não conhecemos, talvez seja útil, no entanto, relembrar aquilo que o senso comum popularizou há muito tempo: “o complexo de superioridade não existe; aquilo que julgamos como tal mais não é que a manifestação de um sentimento de inferioridade”.

Uma coisa afigura-se-nos indesmentível: um indivíduo que proceda como aquele da fotografia é, por certo, alguém inseguro, incapaz de olhar para dentro de si, frustrado de muitas situações, rancoroso dos outros porque são normalmente vistos como ameaça – ou então perspectivados como seres fracos com quem se estabelece uma relação do tipo senhor-vassalo.

Os sociopatas são identificáveis a partir de alguns destes traços. Normalmente são pessoas infelizes na medida em que não conseguem o maior dos seus obectivos: ser iguais aos outros.

Por via disso, tornam-se frequentemente perigosos nos relacionamentos. Por vezes não olham a meios para prosseguir metas de aniquilamento dos outros e, dessa forma, poderem aquietar sentimentos de fracasso.

Espero que os meus receios em relação à personalidade de Putin, de algum modo explanados nestas linhas, não se confirmem. As mulheres e as crianças em agonia nos escombros do Teatro de Mariupol merecem melhor sorte.

domingo, 13 de março de 2022

O papel da família na guerra da Ucrânia


Um país só o é se tiver um povo que se identifique com ele. Nestas primeiras duas semanas de guerra a Ucrânia deu mostras da consistência daquilo que os une. Fizeram da vontade de resistência um sentimento de todos — velhos, mulheres, crianças, homens-soldado. 

Alguns as armas calaram mas logo outros avançaram para os substituir, quer vivessem nas cidades em conflito ou na invejada Europa.  

Neste esforço todos colaboraram. A família, enquanto núcleo fundamental onde corre o mesmo sangue, deu provas da sua importância nesta guerra. Cada um dos seus elementos desempenhou um papel. Sem qualquer excepção. 

Esta é uma lição que ninguém pode fingir que não viu. É demasiadamente evidente mesmo para aqueles que reclamam tratar-se de um conceito desactualizado e, por isso, negligenciável. 

Neste núcleo de existência nem os gatos ou os cães ficaram de fora. Foram tratados como os homens e as mulheres da família. Andaram milhares de quilómetros em condições inenarráveis, dormiram e comeram da mesma forma que os humanos. 

Mas que grande lição deu o povo ucraniano! Com a arma na mão ou com a força do abraço da mãe ganharam a guerra mesmo que a venham a perder militarmente. 

Aquele miúdo de dois ou três anos que, na estação de comboios, não aceitava a separação do pai vestido com a farda do exército, a quem com a mão pequenina dava sapatadas furiosas no capacete de metal verde, é a imagem de tudo o que nestes malditos quinze dias se tem passado. 

Foto Observador

segunda-feira, 7 de março de 2022

A solidão nos homens e nas mulheres


O mal de se ser D. Juan a vida toda é um dia ficar só. O mesmo se passa, embora de forma menos dramática, com as mulheres que sempre pugnaram pela vida sem compromissos relacionais. 

Os homens não nasceram para estarem sós. A ancestralidade empurrou-os os desde sempre para a formação de um grupo do qual ele é de algum modo responsável. 

E esta é altura em que as leitoras se sentem mais indignadas: “o Dr. Francisco diz isto por comodismo: é altura de calçar as pantufas e regressar ao lar, mas para isso precisa de uma criada para todo o serviço”.

Estão tão enganadas: o amor, tanto dos homens como das mulheres, é a consumação da possibilidade de gostarmos de nós mesmos através do rosto do outro. Ou das mãos. Ou do café que o outro sabe fazer. 

Mas então o amor é egoísmo, pode mesmo classicar-se em situações-limite de narcisismo?!

Vão vivendo. A aprendizagem decorre sem darmos conta disso. 

Uma coisa é certa: não há nada pior do que ver uma biografia na RTP2 e não ter a quem dizer que o indivíduo retratado é um grande estafermo. Como todos os homens e mulheres de quem tanto gostamos.

quarta-feira, 2 de março de 2022

Ser livre


No princípio somos células nervosas e sinapses que estabelecem relações entre elas. Mais nada. O sistema nervoso é a casa das máquinas de um navio perdido em pleno mar. Por isso é que quando nascemos, a liberdade na escolha das sinergias nervosas ainda é muito grande. Depois vêm as convenções sociais, a escola, a vizinha do 3* andar e, quando damos por isso, tornámo-nos funcionários de manga de alpaca, iguais a todos os outros. 
Claro que, como em tudo o resto, há um ou outro indivíduo que não vai por aí. Que faz questão de permanecer livre. Ou quase. Fica agarrado à condição de extravagante numa sociedade que não o aceita. E sofre. 

terça-feira, 1 de março de 2022

Espelho Mentira


Eu sou duas pessoas numa só. O espelho mostra alguém que não conheço, devolve um rosto que dizem ser meu, mas ele é apenas um sonho mau. Aceito que seja parecido porque os outros o confirmam. 

No entanto, quando me imagino continuo a ser a menina da minha mãe, da Dona Alice. Endiabrada com a vida, ufana de alegria quando corria no fim do dia de aulas.  

Entretanto fui crescendo. Eu e o Artur, meu vizinho de casa e das brincadeiras de criança. Ele foi estudar para Lisboa, eu para Coimbra. Namorei e ele namorou. Nenhum de nós quis saber e casamos. 

Foram anos de um azul límpido interrompido uma vez ou outra por nuvens fugazes. Até que o demiurgo da noite e da bruma o levou. 

Se me sinto sozinha? Claro que sim. Vezes a mais para a jovem juíza que reunia pessoas em volta sempre que respirava. 

Na casa hoje só vagueiam o cão e dois gatos que se habituaram a ser velhos. Gente viva não se vê nas redondezas. Há quem ainda frequente o Ateneu e a Pastelaria Docelândia mas sem saberem que já morreram e foram enterrados no tempo do El-Rei D. Manuel II.  

De vez em quando vou até à rua. Levo o rosto de quando era miúda e deixo aquele que não é meu na esquina do sofá. Pode ser que ainda encontre o Artur e os amigos a apanhar grilos nos campos.  

Carnaval 2022

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022

Desde DOSTOEVSKY (até aos dias de hoje...!!) — A insatisfação levada ao extremo


Ainda sou do tempo em que vinha alguém da tipografia entregar as provas para o meu pai rever. Um martírio para aqueles homens que juntavam as letras, uma a uma, da mesma forma que Gutenberg ensinou. 
Imagine-se o que eles enfrentavam quando os textos eram de jornalistas ou escritores conhecidos pela inesgotável necessidade de correcção. E eram muitos assim. 
Quem escreve sabe bem do que falo. A frase pode sempre ser melhorada. Aquela palavra não é bem a que se pretendia. 
Eça de Queirós escrevia e riscava numa ânsia de perfeição que nunca tinha fim. O Camilo, coitado, não podia dar-se a esses luxos, mas Aquilino, Pessoa, Saramago, Cardoso Pires eram alguns daqueles que punham a cabeça em água dos tipógrafos. 
Talvez porque a personalidade do artista é normalmente frágil, insegura, dependente até ao extremo da opinião dos outros. Sem que alguma vez a vaidade lhes permita admitir tal condição.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

Liceu de Viana


A minha escola. Liceu Nacional de Viana do Castelo. Com as obras que a Parque Escolar lhe fez tornou-se irreconhecível. Nunca vi um projecto de arquitectura fazer tão mal a um edifício. Mesmo que a um preço exorbitante. 
Não gostei dos anos que ali passei. Detestava o liceu, os professores e as matérias. Em abono da verdade, a escola devolvia-me num grau maior a animosidade. Não nos percebemos. Num tempo em que o aluno ou se conformava às exigências do sistema ou simplesmente podia contar com a única resposta praticada a eito: o desprezo. 
Sobrava no meio daquilo tudo os intervalos e as miúdas deitadas na relva e as motas com que elas arrancavam mal as aulas acabavam.  
Só mais tarde, já nos estudos superiores, percebi uma parte ínfima daqueles tempos perdidos. 

terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

Guerra e paz

Ó Putin! Não sabes nada de nada. A guerra não conta quando comparada com a alegria de uma criança a correr para o mar. Nenhuma coluna de tanques tem mais força que a vontade de felicidade demonstrada nos mais pequenos gestos do ser humano.  

Esquece a guerra e junta-te aos homens e mulheres de todos os tempos e lugares. Pode ser que ainda vás a tempo de ouvir por uma vez o som feito de silêncio do grande oceano. 

Nesse murmúrio perceberás o que palavra alguma pode ambicionar transmitir. Mesmo que seja a tua. 

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

A festa


Já não era sem tempo. É hoje a festa. Aquela por que anseio há tanto tempo. Sem regras, sem figurantes desejados, sem dress cod imposto. O único objectivo é não vir a ter objectivo algum. 

Os porteiros vão fazer asneiras para outro sítio. Todos podem entrar na festa de hoje à noite. Os homens sozinhos ou acompanhados. Mesmo que sejam néscios, liberais ou benfiquistas. Novos ou velhos. Doutores ou sábios. Na diversidade reside o sucesso do evento. 

No caso das mulheres, já as coisas não funcionarão exactamente assim. Só podem frequentar a festa as bonitas, ou as inteligentes, ou as do norte ao lado do mar, ou as cultas, ou as seguras de si, ou as inseguras prestes a tornarem-se seguras. Alegres ou a secarem as lágrimas com as costas da mão.  

Porquê a diferença no critério de admissão dos homens e das mulheres? 

É fácil chegar à resposta: só as mulheres são identificáveis pelas matizes que lhes dão a graça e que os homens nunca atingirão. Os bárbaros são sempre muito iguais.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

O Sol, a Lua e Eu


Lá ao longe estás tu: o sol majestoso de calor e luz sobre o mar aquietado. Tão intenso que parece estar a iniciar a jornada. E, no entanto, o dia a aproximar-se do ocaso. 

A seguir há-de tomar o lugar do sol a lua branca. A minha primeira tentativa de poema, em plena aula da primária, enquanto o professor falava da matéria, teria eu sete ou oito anos, tinha a lua como tema. 

Numa altura em que ela ainda não me tinha feito mal, isso só aconteceria mais tarde. 

Já adulto tardio percebi finalmente o poder do sol, das manhãs luminosas, em mim e em tudo o resto. Hoje sei a falta que me faz, do sangue novo que me invade o corpo transportando a sua energia. 

Há algum tempo já que não chove. Os dias têm sido governados pelo sol límpido de inverno.  

Dizem as línguas malévolas que pululam em mim que estas tardes de esplanada se ficam a dever à gabardina beje que comprei há algum tempo. A verdade é que desde aí nunca mais choveu. 

Quando o sol me faltar outra vez vou procurar a Mariana da praia de São Rafael. Pode ser que na companhia dela aconteça o mesmo que com a gabardine.

Se tal não for possível, pelo menos que me ajude a reencontrar a luz branca da manhã e a noite clara que um dia foram nossas.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

Catarina Salgueiro Maia


A filha do capitão de Abril Salgueiro Maia emigrou para o Luxemburgo em 2011, num tempo em que Portugal era governado por Passos Coelho. Precisava de trabalho e em terras lusas não o encontrava. 

A Catarina Mau-Feitio — assim se auto-reconhece — soube desde sempre ser filha de um herói mas nunca foi beneficiada por isso. Aliás, o próprio pai também não viu reconhecido pelo estado essa condição — o triste episódio protagonizado por Cavaco Silva ao recusar-lhe a pensão ao mesmo tempo que a aprovou a dois inspectores da PIDE, é eloquente a esse propósito.  

A Catarina tem trabalhado nos últimos onze anos nas limpezas de cafés, restaurantes e, ultimamente, num lar de idosos — com todos os condicionalismos que a pandemia trouxe a estas profissionais.  

Exploradas, invisíveis para a sociedade, quem haveria de defender as “femmes de ménage” perante as entidades patronais? A nossa Catarina, claro. As televisões do Luxemburgo interessaram-se pela mulher de cabelos vermelhos, arauta inquebrantável de duas mil mulheres mal tratadas pelos diversos poderes. 

Da mesma têmpora que o pai. Indiferente a estatutos, prebendas, encómios 
supérfluos. A Catarina nunca ligou a nada disso. O que os outros pensam dela tem um interesse fugaz. 

Casou há dois meses com um trabalhador da construção civil também radicado no Luxemburgo, tal como ela com uma vida difícil para aquietar. 

Tenho muita admiração pela Catarina. Num país de que alguns acham ser donos, ela é um caso raro. 

Tem o sangue do pai, não há dúvida. Portugal precisa de mais gente desta têmpora. 

Razão tinha Sophia de Mello Breyner quando escreveu sobre Salgueiro Maia: «Aquele que na hora da vitória respeitou o vencido/Aquele que deu tudo e não pediu a paga/ Aquele que na hora da ganância perdeu o apetite/Aquele que amou os outros e por isso não colaborou com sua ignorância ou vício».

quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

Lisboa


A cidade vista portas adentro. Da luz branca das ruas para a proximidade entreaberta da taberna. A intimidade colectiva à vista de todos. 

Lisboa é isto. Na Mouraria ou em Alfama. No Bairro Alto ou na Graça. No Castelo ou no Cais do Sodré.

O resto não é Lisboa. É Madrid ou Antuérpia. Avenidas Novas ou Restelo. Igual a todas as cidades. Menos na luz branca. 

O Sr. Raimundo encostado ao balcão bebe o copinho das cinco da tarde e diz que sim. Que não troca a Mouraria por Montparnasse. Bairro que é bairro ouve a Amália, evoca a Severa, chora o Marceneiro. 

E fala da vizinha nova, alemã, que comprou a casa da falecida D. Miquinhas. Mas quem sabe destes assuntos é o gato Recruta, sempre atento ao movimento dos aviões que passam à porta da taberna. 

Foto: Ana Luísa Pontes

segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

Amélie


A Amélie Battle Bastos morreu em dia de desespero. A tinhosa da depressão andava a rondá-la há algum tempo já. A tentá-la sem misericórdia dos seus dezasseis anos.

Do rosto doce da Amélie, dos sonhos próprios de uma adolescente, do amor ainda provisório desdenhou a maldita da doença.

Naquele dia a Amélie aconchegou no ombro a mochila do colégio, despediu-se da mãe e foi ao encontro do mar – o mar imenso da foz do Porto. Na esplanada da praia deixou os seus pertences e caminhou em direcção à estrada azul que se abria a poucos passos de distância. Entrou na água indiferente às pessoas felizes que costumam andar por ali. 

A Amélie já não se lembrava de como era ser feliz. Nem via possibilidade de o vir a ser. Tudo era negro à sua frente. Não conseguia distinguir a escuridão da claridade.

Por isso é que recusou os espelhos e procurou o reflexo do mar para se ver por uma última vez.

domingo, 23 de janeiro de 2022

Rui Rio


Quem falou por todos, logo em 2018, foi o embaixador Martins da Cruz: “Não me revejo em pacóvios suburbanos”, a propósito de Rui Rio que havia ganho a liderança do PSD. Homem do Porto, que assentava os cotovelos à mesa e não tinha os modos do Tamariz, não podia estar à frente de um partido com aquela grandeza. 

Nos jornais e nas televisões a opinião era a mesma. Referia-se o nome do homem e logo os donos da opinião pública se sentiam na obrigação de dizer algo com piada. 

Esqueciam-se de algumas coisas básicas: Sá Carneiro era do Porto, e mesmo os opositores de Rio na conquista da liderança eram daqueles lados: Luís Montenegro de Espinho e Paulo Rangel também do Porto. 

Para além disso, dava mostras desde o início de ter ideias definidas acerca do que pretendia — e das quais nunca se afastou. Mais: provava, etapa a etapa, ter razão nas suas previsões e dava mostras da consistência dos quadros políticos enunciados. 

Ao mesmo tempo, os comentadores oficiais do regime continuavam a rir e até a mostrarem um esgar de desprezo pelo político nortenho nas suas apreciações. 

Quem me conhece sabe bem que nem a ideologia nem a história do PSD são próximas à minha forma de ser — talvez por isso possa ver melhor o comportamento dos que vivem à roda dos favores do líder. 

Há dias, Rui Rio invadiu o sossego da minha esplanada para perguntar se me podia cumprimentar. Disse-lhe que sim, mas aproveitei para o invectivar acerca do comportamento do PSD em matéria de Educação. 

Escutou-me com muita atenção e procurou contra-argumentar nalguns aspectos. Olhei com vagar para ele: estava vestido com algum gosto, tinha o cabelo bem tratado e um cachecol de um azul bonito. 

Mas, principalmente, aparentava uma serenidade surpreendente para quem vivia uma etapa-chave da sua vida política.

Para mal dos meus pecados, aquele homem ainda vai ser primeiro-ministro de Portugal.

Foto: Jornal de Negócios

quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

A vida a três


Está quase a começar. Falta pouco. A vida vem aí em todo o seu esplendor. Falta a sirene da fábrica tocar, as crianças vacinadas deixarem de utilizar a máscara nas salas de aula, o Artur perdoar a infidelidade da mulher, a Iniciativa Liberal passar a ser constituída por pessoas adultas, o vinho Alvarinho tornar-se oferta nas mesas dos lares, o lítio ser descoberto no subsolo do Rossio, o Costa deixar de considerar-se o rei sol mesmo sendo mais esperto do que os outros. 
Fica ainda a faltar que a natureza se mostre poderosa e terna, autónoma do ser humano mas cúmplice nos grandes desígnios. 
Que se abram as cortinas do palco! A vida está pronta a irromper na sua inevitável simplicidade. A mulher, o bebé e o cão são aliados entre si. Cada um com as particularidades que a natureza impõe. Mas a graça da existência está aí. Em serem de modo diferenciado a verdade de si mesmos. 

sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

COMUNICADO

Venho por este meio informar as clientes do Sr. Doutor que na próxima semana não poderão usufruir do contacto humano com aquele santo homem.  
Do facto pede-se desculpa mas o Sr. Doutor soube hoje que foi infectado pelo Belzebu, razão pela qual teve de adiar todos os compromissos de agenda. 
Aproveito para anunciar o pequeno aumento de 32 euros no preço das consultas a partir do dia 3 de Janeiro. 
Maria de Lurdes Fonseca

domingo, 26 de dezembro de 2021

Só tu me fazes grande


Só me sento quando sentares também. Não quero estar só com o mundo todo como interlocutor. A paisagem é extensa a ponto de me apoucar. Sinto-me um ser dispensável, igual a tantos outros perante um horizonte sem fim. As tuas mãos nas minhas costumam acalmar-me e dizerem que não sou tão insignificante assim. Que tenho dedos de pianista e olhos de quem leu os clássicos a eito. E eu então sou capaz de beijar-te e afirmar perante o mundo que sou maior que eu mesmo. Com uma força que me deixa espantado. A ponto de te fazer outro filho ou mesmo dizer que és boa pessoa. E de que ninguém tem direito a magoar-te.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2021

Noite de Natal

Cheguei. Tarde como sempre. Os poucos transeuntes que ainda encontrei disseram-me ser hoje noite de Natal. Grande surpresa a minha: não tinha dado conta da data festiva. Vou tentar ser feliz nem que seja a despropósito. 

domingo, 19 de dezembro de 2021

O belo na arte


O belo pode ser traduzido de milhentas formas. Através da palavra escrita, da pauta de música, da aguarela ou da fotografia, para só citar algumas possibilidades. Significa isto que o mesmo conceito ou sentimento manifestam-se de modo muito próprio nas diferentes formas artísticas. A dor ou o riso são os mesmos, a técnica e os materiais a utilizar primam pela diversidade.
Ao contrário do que a aparência nos diz: pintar ou fotografar parecem ser caminhos interpretativos que não podem alguma vez confundir-se. E, no entanto, tanto na tela como na película fotográfica procura-se o mesmo – a exteriorização do que nos vai interpelando à procura de sentido.
“Ah, mas a fotografia só pode aspirar a materializar processos figurativos, ao contrário da pintura”, dirão muitos. Estão tão enganados. A fotografia de rua deu-nos sobejos exemplos de que o transcendente pode ser captado pela lente de uma Leica. Que o diga Cartier-Bresson.
Ao mesmo tempo que o pintor pode não ser capaz de ultrapassar a mera reprodução de um objecto, incapaz, por isso, de sublimá-lo ao nível de uma dimensão absolutamente outra, captando a sua essência, que é aquilo que aproxima o resultado artístico do patamar de qualidade pretendido.
E nisto reside o segredo da boa produção pictórica ou literária ou outra: a tentativa da materialização possível do conceito de belo, por exemplo. Aliás, é neste plano de interpretação de uma ideia que muitos soçobram, esquecendo que toda a realidade resulta da confluência da objectividade e subjectividade.
A Gala pintada de costas pelo seu marido Dali é personificação do belo porque participa daquilo que só as realidades que não se inscrevem na vulgaridade do dia-a-dia são capazes de possuir. Da mesma forma, a apreciação da beleza depende também da educação, da vida e dos gostos daí decorrentes que nos caracterizam. Só desta forma seremos capazes de entender que a reprodução do corpo da mulher-amante daquele pintor catalão não é tão somente arte figurativa – é muito mais do que isso.
Talvez isto ajude a explicar porque algumas obras têm apreciações aproximadamente consensuais.

(De referir que a imagem que acompanha este texto é a fotografia de uma modelo chamada Francesca e que normalmente vive entre Ibiza e a Toscana)

quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

Ao Francisco e à Marília


Vi-os outro dia numa fotografia de uma rede social. Lá estavam os dois, cúmplices como sempre, boas pessoas à espera que os outros o sejam também. Olhei para as caras deles e senti os olhos humedecidos pela emoção. 
Trinta anos nos separam em termos de convivência. Por essa altura cheguei à vila alentejana onde o casal vive, professor acabado de estagiar, novo portanto, vindo do Norte. Tinha sido colocado a dar aulas de Filosofia e Psicologia na escola secundária local. 
Não tinha casa onde ficar a viver, como é óbvio. A única sugestão que recebi era a de um quarto, propriedade de um cangalheiro, que fazia os seus serviços no andar de baixo. 
Ora eu e a morte não temos uma relação muito fácil. Não aceitei e foi o tal casal que me salvou. Um primeiro andar só para mim e o rés-do-chão ocupado pela família alentejana rica que, de certa forma, se tornou também minha.
O resto da história um dia contá-la-ei, quando a extensão dos textos não afugentar ninguém.  
Fica só este pormenor para suscitar a curiosidade do leitor: nas primeiras semanas, era habitual o telefone tocar madrugada fora na casa dos senhorios, com a voz de um indivíduo que dizia ser agente da judiciária a informá-los de que tinham albergado na mansão um indivíduo muito perigoso, nem podiam calcular quanto... 
Uns meses depois, o casal de proprietários sondou-me para ser padrinho de um dos filhos, tal era a amizade que havíamos conquistado dia a dia, conversa a conversa, chá príncipe a chá príncipe.  
Tenho muitas saudades vossas.