sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

O Sol, a Lua e Eu


Lá ao longe estás tu: o sol majestoso de calor e luz sobre o mar aquietado. Tão intenso que parece estar a iniciar a jornada. E, no entanto, o dia a aproximar-se do ocaso. 

A seguir há-de tomar o lugar do sol a lua branca. A minha primeira tentativa de poema, em plena aula da primária, enquanto o professor falava da matéria, teria eu sete ou oito anos, tinha a lua como tema. 

Numa altura em que ela ainda não me tinha feito mal, isso só aconteceria mais tarde. 

Já adulto tardio percebi finalmente o poder do sol, das manhãs luminosas, em mim e em tudo o resto. Hoje sei a falta que me faz, do sangue novo que me invade o corpo transportando a sua energia. 

Há algum tempo já que não chove. Os dias têm sido governados pelo sol límpido de inverno.  

Dizem as línguas malévolas que pululam em mim que estas tardes de esplanada se ficam a dever à gabardina beje que comprei há algum tempo. A verdade é que desde aí nunca mais choveu. 

Quando o sol me faltar outra vez vou procurar a Mariana da praia de São Rafael. Pode ser que na companhia dela aconteça o mesmo que com a gabardine.

Se tal não for possível, pelo menos que me ajude a reencontrar a luz branca da manhã e a noite clara que um dia foram nossas.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

Catarina Salgueiro Maia


A filha do capitão de Abril Salgueiro Maia emigrou para o Luxemburgo em 2011, num tempo em que Portugal era governado por Passos Coelho. Precisava de trabalho e em terras lusas não o encontrava. 

A Catarina Mau-Feitio — assim se auto-reconhece — soube desde sempre ser filha de um herói mas nunca foi beneficiada por isso. Aliás, o próprio pai também não viu reconhecido pelo estado essa condição — o triste episódio protagonizado por Cavaco Silva ao recusar-lhe a pensão ao mesmo tempo que a aprovou a dois inspectores da PIDE, é eloquente a esse propósito.  

A Catarina tem trabalhado nos últimos onze anos nas limpezas de cafés, restaurantes e, ultimamente, num lar de idosos — com todos os condicionalismos que a pandemia trouxe a estas profissionais.  

Exploradas, invisíveis para a sociedade, quem haveria de defender as “femmes de ménage” perante as entidades patronais? A nossa Catarina, claro. As televisões do Luxemburgo interessaram-se pela mulher de cabelos vermelhos, arauta inquebrantável de duas mil mulheres mal tratadas pelos diversos poderes. 

Da mesma têmpora que o pai. Indiferente a estatutos, prebendas, encómios 
supérfluos. A Catarina nunca ligou a nada disso. O que os outros pensam dela tem um interesse fugaz. 

Casou há dois meses com um trabalhador da construção civil também radicado no Luxemburgo, tal como ela com uma vida difícil para aquietar. 

Tenho muita admiração pela Catarina. Num país de que alguns acham ser donos, ela é um caso raro. 

Tem o sangue do pai, não há dúvida. Portugal precisa de mais gente desta têmpora. 

Razão tinha Sophia de Mello Breyner quando escreveu sobre Salgueiro Maia: «Aquele que na hora da vitória respeitou o vencido/Aquele que deu tudo e não pediu a paga/ Aquele que na hora da ganância perdeu o apetite/Aquele que amou os outros e por isso não colaborou com sua ignorância ou vício».

quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

Lisboa


A cidade vista portas adentro. Da luz branca das ruas para a proximidade entreaberta da taberna. A intimidade colectiva à vista de todos. 

Lisboa é isto. Na Mouraria ou em Alfama. No Bairro Alto ou na Graça. No Castelo ou no Cais do Sodré.

O resto não é Lisboa. É Madrid ou Antuérpia. Avenidas Novas ou Restelo. Igual a todas as cidades. Menos na luz branca. 

O Sr. Raimundo encostado ao balcão bebe o copinho das cinco da tarde e diz que sim. Que não troca a Mouraria por Montparnasse. Bairro que é bairro ouve a Amália, evoca a Severa, chora o Marceneiro. 

E fala da vizinha nova, alemã, que comprou a casa da falecida D. Miquinhas. Mas quem sabe destes assuntos é o gato Recruta, sempre atento ao movimento dos aviões que passam à porta da taberna. 

Foto: Ana Luísa Pontes

segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

Amélie


A Amélie Battle Bastos morreu em dia de desespero. A tinhosa da depressão andava a rondá-la há algum tempo já. A tentá-la sem misericórdia dos seus dezasseis anos.

Do rosto doce da Amélie, dos sonhos próprios de uma adolescente, do amor ainda provisório desdenhou a maldita da doença.

Naquele dia a Amélie aconchegou no ombro a mochila do colégio, despediu-se da mãe e foi ao encontro do mar – o mar imenso da foz do Porto. Na esplanada da praia deixou os seus pertences e caminhou em direcção à estrada azul que se abria a poucos passos de distância. Entrou na água indiferente às pessoas felizes que costumam andar por ali. 

A Amélie já não se lembrava de como era ser feliz. Nem via possibilidade de o vir a ser. Tudo era negro à sua frente. Não conseguia distinguir a escuridão da claridade.

Por isso é que recusou os espelhos e procurou o reflexo do mar para se ver por uma última vez.

domingo, 23 de janeiro de 2022

Rui Rio


Quem falou por todos, logo em 2018, foi o embaixador Martins da Cruz: “Não me revejo em pacóvios suburbanos”, a propósito de Rui Rio que havia ganho a liderança do PSD. Homem do Porto, que assentava os cotovelos à mesa e não tinha os modos do Tamariz, não podia estar à frente de um partido com aquela grandeza. 

Nos jornais e nas televisões a opinião era a mesma. Referia-se o nome do homem e logo os donos da opinião pública se sentiam na obrigação de dizer algo com piada. 

Esqueciam-se de algumas coisas básicas: Sá Carneiro era do Porto, e mesmo os opositores de Rio na conquista da liderança eram daqueles lados: Luís Montenegro de Espinho e Paulo Rangel também do Porto. 

Para além disso, dava mostras desde o início de ter ideias definidas acerca do que pretendia — e das quais nunca se afastou. Mais: provava, etapa a etapa, ter razão nas suas previsões e dava mostras da consistência dos quadros políticos enunciados. 

Ao mesmo tempo, os comentadores oficiais do regime continuavam a rir e até a mostrarem um esgar de desprezo pelo político nortenho nas suas apreciações. 

Quem me conhece sabe bem que nem a ideologia nem a história do PSD são próximas à minha forma de ser — talvez por isso possa ver melhor o comportamento dos que vivem à roda dos favores do líder. 

Há dias, Rui Rio invadiu o sossego da minha esplanada para perguntar se me podia cumprimentar. Disse-lhe que sim, mas aproveitei para o invectivar acerca do comportamento do PSD em matéria de Educação. 

Escutou-me com muita atenção e procurou contra-argumentar nalguns aspectos. Olhei com vagar para ele: estava vestido com algum gosto, tinha o cabelo bem tratado e um cachecol de um azul bonito. 

Mas, principalmente, aparentava uma serenidade surpreendente para quem vivia uma etapa-chave da sua vida política.

Para mal dos meus pecados, aquele homem ainda vai ser primeiro-ministro de Portugal.

Foto: Jornal de Negócios

quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

A vida a três


Está quase a começar. Falta pouco. A vida vem aí em todo o seu esplendor. Falta a sirene da fábrica tocar, as crianças vacinadas deixarem de utilizar a máscara nas salas de aula, o Artur perdoar a infidelidade da mulher, a Iniciativa Liberal passar a ser constituída por pessoas adultas, o vinho Alvarinho tornar-se oferta nas mesas dos lares, o lítio ser descoberto no subsolo do Rossio, o Costa deixar de considerar-se o rei sol mesmo sendo mais esperto do que os outros. 
Fica ainda a faltar que a natureza se mostre poderosa e terna, autónoma do ser humano mas cúmplice nos grandes desígnios. 
Que se abram as cortinas do palco! A vida está pronta a irromper na sua inevitável simplicidade. A mulher, o bebé e o cão são aliados entre si. Cada um com as particularidades que a natureza impõe. Mas a graça da existência está aí. Em serem de modo diferenciado a verdade de si mesmos. 

sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

COMUNICADO

Venho por este meio informar as clientes do Sr. Doutor que na próxima semana não poderão usufruir do contacto humano com aquele santo homem.  
Do facto pede-se desculpa mas o Sr. Doutor soube hoje que foi infectado pelo Belzebu, razão pela qual teve de adiar todos os compromissos de agenda. 
Aproveito para anunciar o pequeno aumento de 32 euros no preço das consultas a partir do dia 3 de Janeiro. 
Maria de Lurdes Fonseca

domingo, 26 de dezembro de 2021

Só tu me fazes grande


Só me sento quando sentares também. Não quero estar só com o mundo todo como interlocutor. A paisagem é extensa a ponto de me apoucar. Sinto-me um ser dispensável, igual a tantos outros perante um horizonte sem fim. As tuas mãos nas minhas costumam acalmar-me e dizerem que não sou tão insignificante assim. Que tenho dedos de pianista e olhos de quem leu os clássicos a eito. E eu então sou capaz de beijar-te e afirmar perante o mundo que sou maior que eu mesmo. Com uma força que me deixa espantado. A ponto de te fazer outro filho ou mesmo dizer que és boa pessoa. E de que ninguém tem direito a magoar-te.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2021

Noite de Natal

Cheguei. Tarde como sempre. Os poucos transeuntes que ainda encontrei disseram-me ser hoje noite de Natal. Grande surpresa a minha: não tinha dado conta da data festiva. Vou tentar ser feliz nem que seja a despropósito. 

domingo, 19 de dezembro de 2021

O belo na arte


O belo pode ser traduzido de milhentas formas. Através da palavra escrita, da pauta de música, da aguarela ou da fotografia, para só citar algumas possibilidades. Significa isto que o mesmo conceito ou sentimento manifestam-se de modo muito próprio nas diferentes formas artísticas. A dor ou o riso são os mesmos, a técnica e os materiais a utilizar primam pela diversidade.
Ao contrário do que a aparência nos diz: pintar ou fotografar parecem ser caminhos interpretativos que não podem alguma vez confundir-se. E, no entanto, tanto na tela como na película fotográfica procura-se o mesmo – a exteriorização do que nos vai interpelando à procura de sentido.
“Ah, mas a fotografia só pode aspirar a materializar processos figurativos, ao contrário da pintura”, dirão muitos. Estão tão enganados. A fotografia de rua deu-nos sobejos exemplos de que o transcendente pode ser captado pela lente de uma Leica. Que o diga Cartier-Bresson.
Ao mesmo tempo que o pintor pode não ser capaz de ultrapassar a mera reprodução de um objecto, incapaz, por isso, de sublimá-lo ao nível de uma dimensão absolutamente outra, captando a sua essência, que é aquilo que aproxima o resultado artístico do patamar de qualidade pretendido.
E nisto reside o segredo da boa produção pictórica ou literária ou outra: a tentativa da materialização possível do conceito de belo, por exemplo. Aliás, é neste plano de interpretação de uma ideia que muitos soçobram, esquecendo que toda a realidade resulta da confluência da objectividade e subjectividade.
A Gala pintada de costas pelo seu marido Dali é personificação do belo porque participa daquilo que só as realidades que não se inscrevem na vulgaridade do dia-a-dia são capazes de possuir. Da mesma forma, a apreciação da beleza depende também da educação, da vida e dos gostos daí decorrentes que nos caracterizam. Só desta forma seremos capazes de entender que a reprodução do corpo da mulher-amante daquele pintor catalão não é tão somente arte figurativa – é muito mais do que isso.
Talvez isto ajude a explicar porque algumas obras têm apreciações aproximadamente consensuais.

(De referir que a imagem que acompanha este texto é a fotografia de uma modelo chamada Francesca e que normalmente vive entre Ibiza e a Toscana)

quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

Ao Francisco e à Marília


Vi-os outro dia numa fotografia de uma rede social. Lá estavam os dois, cúmplices como sempre, boas pessoas à espera que os outros o sejam também. Olhei para as caras deles e senti os olhos humedecidos pela emoção. 
Trinta anos nos separam em termos de convivência. Por essa altura cheguei à vila alentejana onde o casal vive, professor acabado de estagiar, novo portanto, vindo do Norte. Tinha sido colocado a dar aulas de Filosofia e Psicologia na escola secundária local. 
Não tinha casa onde ficar a viver, como é óbvio. A única sugestão que recebi era a de um quarto, propriedade de um cangalheiro, que fazia os seus serviços no andar de baixo. 
Ora eu e a morte não temos uma relação muito fácil. Não aceitei e foi o tal casal que me salvou. Um primeiro andar só para mim e o rés-do-chão ocupado pela família alentejana rica que, de certa forma, se tornou também minha.
O resto da história um dia contá-la-ei, quando a extensão dos textos não afugentar ninguém.  
Fica só este pormenor para suscitar a curiosidade do leitor: nas primeiras semanas, era habitual o telefone tocar madrugada fora na casa dos senhorios, com a voz de um indivíduo que dizia ser agente da judiciária a informá-los de que tinham albergado na mansão um indivíduo muito perigoso, nem podiam calcular quanto... 
Uns meses depois, o casal de proprietários sondou-me para ser padrinho de um dos filhos, tal era a amizade que havíamos conquistado dia a dia, conversa a conversa, chá príncipe a chá príncipe.  
Tenho muitas saudades vossas. 

quinta-feira, 18 de novembro de 2021

Memória emoldurada


São pedaços de mim que estão pendurados em fotografias naquela parede. Significam momentos de importância maior na minha viagem. Uns mais acidentados do que outros — mais alegres que sombrios a maioria deles. Todos fazem parte de igual forma do percurso que me fez chegar aqui. Sem cada um não seria quem sou — para desdita de tantos e fortuna de muitos poucos. A vida é assim: oceano de significâncias contrárias perto da praia onde repousamos o espírito e o corpo. Até voltarmos a ter de percorrer a estrada insubmissa e bela.

sábado, 13 de novembro de 2021

O passado e o presente


“0k. Tens umas pernas aceitáveis mas sem histórias para contar como as minhas. Faltam-lhe gargalhadas e soluços. E seiva dos homens também.”

quarta-feira, 10 de novembro de 2021

Transgressão quase-trágica


Tinha acabado de entrar no café com o propósito de descansar um pouco do trabalho no jornal quando o viu sentado numa mesa perto da entrada. Era das últimas pessoas que gostaria de encontrar naquele fim de tarde.

Mas agora não havia nada a fazer: o indivíduo já o tinha visto. A única atitude a tomar era sentar nalgum lugar livre e esperar a sande e o vinho branco de sempre. 

Acabou por não ficar longe do homem de ar severo e bigode farto. Corpulento como seria de esperar num polícia do esquadrão de elite, o sujeito passou a dirigir o olhar firme na direcção do jornalista. Metia respeito o tipo.

Quando atendeu a mulher dele estava o Verão a começar, e ela voluptuosa e de vestido bonito, a participar o atendimento negligente de uma sobrinha no hospital. 

Nessa altura não poderia calcular que o marido fosse aquele bófia de ar assustador, ali sentado a olhar para ele, três ou quatro mesas à frente.  

Nas noites de serviço policial, o escriba e a mulher do vestido despido conversavam depois de fazerem amor estendidos na cama adúltera, e ela então contava-lhe, entre outras coisas, das medalhas recebidas pelo marido em reconhecimento dos bons serviços. 

Mas nada disso serviu de aviso ao repórter do Jornal Novo. E agora ali estava ele, prestes a ser estrangulado pelo polícia do corpo de elite.  

O mundo deu de si quando a gabardine dos filmes de acção e o corpo que a vestia se levantaram. Os olhos do marido enganado pareciam revólveres a fumegar de tanto disparar. Deixou o dinheiro da despesa e caminhou com vagar em direcção à mesa do escriba do amor. A morte estava a chegar inadiável. O prazer do corpo da mulher do vestido bonito prestes a transformar-se em maldição.  

O polícia aproximou-se, levou a mão ao bolso e foi-se embora. Saiu pela porta do café, a mesma que haveria de dar passagem, muito tempo depois, ao D. Juan lívido de medo.  

Foto: Stephan Vanfleteren

sexta-feira, 5 de novembro de 2021

O Presidente e o PSD


Palácio de Belém. Oito da noite. Os jornalistas acotovelam-se. Rui Ochôa, fotógrafo da presidência, corre espavorido, máquina na mão, cabelo a esvoaçar, para ocupar o melhor lugar. O presidente vai falar ao país.

— Portugueses: a situação é difícil em todo o mundo. Na Indochina ou no Monte Estoril. Em Portugal a situação tornou-se clara: a geringonça acabou. Resta-nos esperar por uma alternativa à direita. Com Paulo Rangel? Porventura. Com Rui Rio? Com esse a minha resposta só pode ser esta — e tira da boca uma língua esticada e fina.

quinta-feira, 4 de novembro de 2021

A Lenka míope


— Olha o Sr. Fernando Mendes… então como está?
— Um espectáculo! 

— E a Lenka? Está por aí?

— Foi lá dentro experimentar uns óculos progressivos. Com esta promoção… há que aproveitar. 

— Ela tem problemas de visão?

— Não vê um tipo apaixonado como eu a um palmo de distância.

sexta-feira, 22 de outubro de 2021

Desistência sentida


Não, não… vou-me embora. Isto não se faz. Ou bem que é Verão ou Outono. Agora uma e coisa e outra em simultâneo, é abusar da credulidade das pessoas. 

Saí de casa a pensar que ia abrir caminho por entre o nevoeiro, suportar o vento a sulcar-me rugas na face, vestir camisola por cima de camisola. E ao invés de tudo isto um sol luminoso de fim de tarde a aquecer as almas dos jovens namorados. 

Os deuses do Olimpo a brincarem comigo. 

No areal mulheres deitados ao sol gozam os últimos dias de Outubro. Das roupas escuras a tapar o peito feminino nem vê-las naquela alameda imensa. 

Não, não estou p’ra isto. Vou voltar p’ra perto do croché da Nanda e ver o Trio de Ataque. 

sábado, 16 de outubro de 2021

Carta a um adolescente só


Sempre que te sentires só, o mais triste de todos os homens, sem amigos, sem um projecto de vida definido, escreve. 

Mas escrever sobre o quê? — pergunta o jovem adolescente. Sobre ti mesmo. As tuas inseguranças, a razão delas, o tanto que te fazem sofrer. 

Dessa forma poderás entender-te melhor, racionalizando a tristeza, o desconhecimento de ti e dos outros. 

Para além de que através da escrita terás sempre a possibilidade de escolher situações diferentes, homens e mulheres fascinantes, locais de sonho. Depressa compreenderás que a vida é teatro, mentira consentida, e aceitável por isso mesmo. 

Faz desta estratégia de superação a identidade inteligível em cada página. Com uma condição: tens de ler para poderes escrever. Não é possível uma coisa sem a outra. Se assim não fizeres nada compreenderás. Nem as tuas faculdades nem as falhas dos outros.  

A este propósito: observa a vida olhando-a de forma compreensiva. Senta-te numa esplanada e aprecia-a sem que nada te escape. Ou então quando fores a um concerto, a uma inauguração, a uma viagem, a um velório. E pensa em cada pormenor. 

Por último, não escrevas nem vivas qualquer tentativa de perfeição. A vida não é assim, nem as pessoas nem tu. O que torna tudo mais interessante. Sobra espaço para a criatividade e para o livre arbítrio. 

E não te esqueças: sê feliz. Escreve e faz e escreve. Mesmo quando trabalhares num laboratório, num museu, numa escola. 

E ama. A ti e à vizinha do terceiro andar. Ela sente mais a solidão do que tu. Porque não escreve.

quinta-feira, 14 de outubro de 2021

Jornalismo d'antanho


Hoje deu-me para vasculhar fotografias antigas. Esta data de 2006 e foi feita na comemoração do centenário do Notícias dos Arcos. Num tempo irrepetível.

Os jornais ainda eram todos impressos. Os leitores, na sua maioria, tornavam-se assinantes e os correios levavam as notícias a casa. As páginas tipografadas eram lidas por causa do interesse nos assuntos locais mas também em resultado de um hábito herdado dos pais e dos avós. 

Foram verdadeiras escolas da leitura e da escrita. Os grandes nomes de hoje viram os seus textos publicados pela primeira vez nestes jornais. 

Na fotografia que encima este texto, vêem-se uns cinco ou seis directores (e proprietários) desses órgãos de comunicação social. Deles restam dois vivos.

Alguns dos integrantes do grupo transformaram-se em nomes de ruas, de equipamentos sociais e de muita saudade. 

Um dos dois directores vivos é meu pai. Vai ainda viver muitos anos, eu sei. Entre outras razões porque gosto muito dele. Para aqueles que não o reconheceram, é o primeiro dos convivas sentados (à esquerda). Ao lado do célebre Frederico Pinheiro — o homem que foi incumbido de me ensinar a nadar, coitado dele. 

Teria tanto a dizer sobre esta gente e este tempo. Infelizmente os contemporâneos já se esqueceram da importância deles na vida social e cultural das vilas e cidades. 

Ah! Agora me lembro: o meu pai faz hoje anos. Percebe-se, assim, este roteiro de saudade. Com a certeza de que o futuro só existe quando alicerçado naquilo que já passou. Parabéns, meu pai. O meu futuro também és tu.

sábado, 9 de outubro de 2021

O Zeca de Sacavém


Apresento-vos o meu cão. É giro, não é? Chama-se Zeca e é muito vivo, sempre em rebuliço pela casa toda. Adoptei-o em Sacavém e desde o dia em que o trouxe estabelecemos uma ligação muito forte. Quando chego do trabalho está sempre à porta tentando saber de quem se trata. Quando me vê larga numa correria doida até aos aposentos da Dona Lurdinhas na tentativa de não me incomodar. É realmente um cão fantástico. No dia em que alguém aceitar levá-lo vou sentir uma grande tristeza.

terça-feira, 5 de outubro de 2021

O piano


Depois deste tempo todo sem ir a uma sala de espectáculos, assisti por estes dias a um concerto do Filipe Pinto-Ribeiro com a Orquestra de Câmara de São Petersburgo. Dos violinos e dos outros instrumentos de cordas não vou falar porque nada trouxeram de assinalável para esta crónica, para além da execução esperada de uma harmonia exercitada até à exaustão. Mas o piano, meus senhores, valeu por tudo o resto: pelos russos todos, pela decoração do teatro, pela noite de Outono, pelo público que não vi. Daquele instrumento musical, imponente desde logo na sua dimensão, saía um som que não era um só – parecia a reunião de todos os possíveis, mas numa intensidade forte, capaz de nos interpelar fisicamente. Nota a nota, tecla a tecla, a música que dele saía era desconcertante porque nada na sua fluidez se tecia da mesma forma que no som anterior. Filipe Pinto-Ribeiro, e isto só é possível nos grandes pianistas, modelava em cada nota da pauta mil e uma formas de a cumprir – e na maioria das vezes de modo tão amplo quanto a vida toda.
Já era tempo da maldita pandemia nos permitir uma trégua na vontade adiada de espectáculos com esta qualidade.

domingo, 26 de setembro de 2021

Solidão urbana


Hoje saí de casa para votar. As mais das vezes estou na sala fria da casa com a manta a cobrir as pernas e a televisão a quebrar o silêncio. Na carpete o gato Atum partilha a minha solidão.

Ultimamente não me sinto feliz. Não tenho a quem dizer o que seja, a minha mulher morreu o ano passado, a filha mora com a família na outra banda do rio. Os camaradas da bisca foram um a um desaparecendo. Restam poucos, todos eles tristes e ensimesmados como eu.

O mundo em que eu vivo já não é meu, sinto-o muitas vezes. Não sei quem são as pessoas de quem a televisão fala, os cantores do meu tempo foram substituídos por figuras grotescas vestidas de forma estranha. O próprio Benfica já não é tão glorioso como antes. 

Estou a pensar mudar de poiso nas horas livres. Em vez de ir para o para o Santa Maria vou começar a frequentar o Champalimaud Clinical Centre. Ainda vou arranjar alguém que queira fazer-me companhia. A mim e ao Atum.

sexta-feira, 17 de setembro de 2021

As séries da RTP2


A enorme qualidade das séries da RTP2, emitidas todos os dias às 22 horas, é o segredo mais bem guardado em Portugal.  
Procurar em canais de streaming produtos televisivos que o melhor canal nacional proporciona com igual valor é sinal de provincianismo.

domingo, 12 de setembro de 2021

Jorge Sampaio, o cidadão-presidente


A memória da multidão é breve e injusta. Na semana passada, os comentários dos leitores dos jornais e dos frequentadores das redes sociais – secundados por alguns textos de jornalistas – falavam com enfado da previsível morte de Jorge Sampaio. A exoneração da administração Santana Lopes era a razão aduzida por todos, esquecendo-se esta turbe que aquele governo caiu por si mesmo, tantas as trapalhadas em que se envolveu.

Nos últimos três dias, surpreendentemente, os portugueses redescobriram o Presidente Sampaio. Nem uma só crítica se ouviu nas televisões, só elogios ao “homem bom”, ao cidadão impoluto, ao homem de causas. A pouco e pouco, foram-se mesmo descobrindo situações desconhecidas do grande público, vividas num tempo político especialmente difícil.

Os desaparecidos detractores de Jorge Sampaio enganaram-se acerca deste homem. Ele foi o mais próximo do ideal republicano de todos os presidentes eleitos depois do 25 de Abril. Discreto, institucionalista, avesso aos rankings de popularidade, diplomata de excepção, cidadão-presidente igual nos direitos a qualquer outro português.

Tive oportunidade de o conhecer pessoalmente. Recordo com saudade um jantar num dos mais bonitos hotéis do país, o de Santa Luzia.

Só mais duas coisas muito breves. A primeira, refere-se ao comportamento da mulher e dos dois filhos, o André e a Vera, nas cerimónias fúnebres, exemplar a todos os títulos. 

Por último, Portugal, país de nove séculos, poderá ter, um dia destes, de recuperar o debate, por mais paradoxal que possa parecer, entre as vantagens do republicanismo e da monarquia numa União Europeia progressivamente federalista.

sábado, 11 de setembro de 2021

Vinte anos depois


Vinte anos se passaram já. A realidade a ultrapassar a mais extravagante imaginação hollywoodesca. A forma de viver que era a nossa a ser atacada em directo nas televisões de todo mundo.

Nesse início de tarde, lembro-me de estar a acompanhar a emissão da RTP conduzida pela pivô do Jornal da Tarde, a jovem jornalista Andrea Neves. E que bem que ela esteve. Enquanto os outros canais ainda falavam em acidente, naquele canal já se pensava num acto terrorista. Como as coisas, de então para cá, se alteraram também no modo de fazer televisão!

A sensação que mais guardo daquele dia, para além do espanto provocado pelas imagens, tinha a ver com a expectativa do que se poderia passar no momento seguinte. Hoje sabemos a cronologia dos acontecimentos e o raio de alcance dos alvos a atingir. Mas naquela tarde não. Dois mil milhões de telespectadores pensavam em todas as hipóteses possíveis de dimensão bélica. Pois se o centro do mundo político e financeiro estava a ser atacado daquela forma, tudo o resto parecia ser possível.

Desde aquele dia muitas coisas mudaram. De um país detentor maior do poder político passou-se para a disseminação global de zonas de capacidade militar e força económica mutáveis. O mundo tornou-se multipolarizado na possibilidade de novas alianças de interesse estratégico. Ao mesmo tempo que os Estados Unidos e a Europa não souberam responder aos novos desafios colocados pela globalização.

Agora resta-nos esperar que ainda estejamos a tempo de salvaguardar a cultura e os valores ocidentais face à nova super-potência – a China, claro – e a todas aquelas regiões de domínio emergente. Mas para isso a América terá de actuar em conjunto com a Europa, contando ainda com a união de interesses com países como a Índia, o Japão, o Brasil e continentes como o africano e o australiano. 

quinta-feira, 9 de setembro de 2021

Sobre mim


Escrevo tanto sobre os outros e nada sobre mim — o costume entre aqueles que fazem da vida posto de observação da comédia e do drama exterior a eles mesmo. Eu sou o “homem que olha”. Não por inveja ou por despeito. Apenas porque gosto das pessoas. Penso mesmo que elas são a única realidade que verdadeiramente me interessa. E as mulheres de uma forma muito especial. Claro, dizem os leitores que me vão conhecendo. Mas a razão de tal acontecer não é descortinável no divã do psicanalista. Gosto das mulheres de uma forma normal, ausente de qualquer factor patológico. Há quem tenha verdadeira adoração pela pintura, pela música, pela arquitectura ou pela natureza. Eu sinto um profundo fascínio pela feminilidade, no que ela tem de belo, de resistência anímica e de via de acesso a um mundo absolutamente outro. Numa palavra, a mulher é para além de tudo o mais, o colo. 
Mas as minhas paixões também se corporizam noutras áreas da vida: gosto de ler, de escrever e, principalmente, de fazer jornais, sejam eles impressos ou digitais. 
Quanto à forma de ser, sou tímido mas fui toda a vida relações públicas das festas oferecidas pelos meus amigos, sou cínico para aqueles de quem não gosto e ingénuo na abnegação com que trato alguns que mais tarde venho a saber não merecerem, caracterizo-me mais pela imaginação do que pelo fazer e, no entanto, fui desde sempre eleito presidente ou delegado de tudo o que se possa pensar sem nunca ter deixado de ser porteiro dessas organizações.  
Em resumo, sou a maioria das vezes bom tipo. Pelo menos até à altura em que a tristeza toma conta de mim perante a ausência de sentido daquilo que olho.

quarta-feira, 8 de setembro de 2021

De volta à cidade


Chegou Setembro e com ele a volta da rotina dos dias de trabalho. Logo de manhãzinha as portas automáticas do escritório num corrupio para deixarem entrar as pessoas. Muitas vezes atarefadas com coisa nenhuma mas a envergarem o rosto sério de quem está preocupado com os assuntos a tratar. 
Ao meio dia e meia hora do almoço. A comida feita em casa engolida num ápice. De seguida, o banco do jardim a servir para os trabalhadores descansarem as pernas antes de voltarem ao expediente da tarde. 
Entretanto a conversa a fluir indolente. 
— Olhe que comigo o vestido chegou rápido. Foi encomendar num dia e no seguinte estava cá. 
— Pois eu não tenho sorte nenhuma com as compras na internet. Ainda na semana passada a minha filha comprou uma camisola para oferecer ao namorado que fazia anos e… nada, o rapaz ficou sem prenda. 
— Vocês têm a mania que são modernas e depois dá nisto — diz a D. Aida — comprem num hipermercado que é mais rápido e mais barato. Ou então façam como o Sr. Antunes e mandem vir tudo pela Redoute. 
O Sr. Antunes não respondeu. Também já eram horas de voltar ao trabalho e, por isso, levantaram-se e começaram a caminhar. 
O que eles não sabiam é que a tarde ia ser ocupada com uma inspecção surpresa feita pelos senhores doutores vindos de Lisboa.

domingo, 5 de setembro de 2021

Arte urbana em cidade do interior

Nenhum ser humano é um só. Somos o conjunto de diversos momentos e diferentes formas de estar. O que revelamos agora é o contrário do que parecemos ser horas atrás. À noite estamos disponíveis na vontade de agradar, à tarde mostramo-nos carrancudos por fazermos aquilo que detestamos. Por isso é que os artistas que nos querem representar numa escultura ou numa pintura têm dificuldade em traduzir essa variabilidade. Até porque há aqueles cujo pensamento tende para o predomínio lógico ao mesmo tempo que outros são mais próximos da capacidade hermenêutica. Uns a serem assim a vida toda e os restantes apenas no dia a seguir. 
Isto mesmo procuraram reproduzir neste esboço de escultura os artistas Mário Ortega e Miguel Moreira da Silva, sem apoios financeiros de natureza alguma, num trabalho de grande coragem e também de desafio a todos os que ditam as normas de gosto da chamada arte urbana.

sábado, 4 de setembro de 2021

Paulo Rangel


Este é um tema tolerado numa conversa de café mas não num texto escrito. E, no
entanto, é aceite com alguma indiferença na sociedade actual - desde que não entre portas de casa adentro. 
Vem isto a propósito de Paulo Rangel ter assumido esta tarde, num programa de televisão, a sua homossexualidade. Confesso ter ficado surpreendido. Não sabia. Gabo-lhe a coragem de enfrentar velhos fantasmas que ainda povoam a sociedade portuguesa. Pouco tempo depois de ter sido divulgado um vídeo em que Rangel aparece embriagado numa rua de Bruxelas. Protagonizando, deste modo, uma campanha ad hominem em relação à sua identidade de professor universitário, advogado, homem culto. 
Mas o reconhecimento do seu valor enquanto figura cimeira da vida social que por cá vai acontecendo, não retira interesse à questão que há muito gostaria de ver respondida: o número relevante de homens e mulheres homossexuais em Portugal deve-se à libertação ideológica e moral possibilitada pelo 25 de Abril, ou eles sempre existiram em igual escala? De outro modo: é o mimetismo com que vulgarmente somos confrontados — principalmente em meios elitistas como o das televisões, dos fóruns culturais ou das universidades — que dita a leveza dos comportamentos de carácter intímo ou, em alternativa, as pessoas nascem com sua biologia potenciada de tal modo que os percursos opcionais são mais restritos do que pensamos? 
Não sei de forma peremptória responder a isto. Da mesma forma que não sei o que dizer aos que me vão criticar (e muito) por ter a veleidade de fazer perguntas deste tipo.