sexta-feira, 20 de setembro de 2019

A imagem de mim


Não, não é verdade: aqueles que me acham pretensioso na escolha que faço dos outros estão perfeitamente enganados. E isto é ainda mais verdade se o critério depender de gostarem ou não de mim. Desde sempre relativizei a forma como me olham; ou como falam de mim. Nem sei bem porquê. Até porque em termos racionais há apenas duas justificações para tanto, sem que ambas se me apliquem de modo integral: uma refere-se à alta conta em que alguém se tem — o que não é por certo o meu caso; a outra tem a ver com a sabedoria que a maturidade nos traz, a de ser capaz de relativizar os defeitos de tudo o que nos envolve, na certeza de que nada é perfeito. 

Talvez que este juízo, reconheço-o, tenha a ver comigo. Mas desde sempre. Jovem ainda já o descobria na fala dos que comigo repartiam os lugares da esplanada. E sorria de superioridade avisada perante a fraqueza dos outros. Coitados de serem assim. 

Claro que esta minha contemporização com a fraqueza dos demais tem limites de amplitude. Quando a vontade de ser melhor do que efectivamente se é atinge o plano da maldade, ferindo-me naquilo que o mundo todo sabe ser inexpugnável em mim, bem... aí... é o oceano atlântico a nado a separar-nos. Para nunca mais. 

O cinismo que me caracteriza toma então conta do palco. 

Mas nada disto tem a ver com os meus amigos leitores. Muito menos com as mulheres, claro.

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Aniversário da Dona Lurdinhas


A Dona Lurdinhas faz hoje anos. É virgem, portanto. Mulher boa, angelical mesmo, dedicou os seus 42 anos de vida ao trabalho. Talvez para esquecer o desgosto que um amor adolescente lhe provocou. Sete meses de internamento, duas semanas de coma, uma perna mais curta que outra para toda a vida do maldito rapaz, comprovam a intensidade do mal que a postergou. De então para cá, a serenidade. E a simpatia que os meus consultantes lhe reconhecem. Em casa ouve só Chopin, Liszt, Debussy, Frank Zappa, Beethoven. No gabinete, uma devoção inultrapassável a este vosso amigo. “Não há ninguém como o Dr. Francisco “, diz ela repetidas vezes aos clientes. Deus guarde por muitos anos a Dona Lurdinhas. Se todas as mulheres fossem tão boas quanto ela...

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

A casa de Pedro Homem de Melo


Pedro Homem de Melo. Ainda o conheci, já lá vão muitos anos. Fato completo de cor branca quando passeava em dias de festa pelas ruas de Viana, de cor cinzenta com risca branca quando fazia os programas na televisão. Cigarro entre os dedos, a lançar uma coluna de fumo embora sem nunca ser fumado. O cabelo impecável, esforçadamente penteado, apresentação cuidada — e conseguida. Ele sabia do impacto que causava. Falava com uma educação esmerada, beijava a mão das senhoras. Era um aristocrata por via do nascimento e da forma de ser. 
Esse cuidado com as pequenas coisas transferia-o para a poesia. Era um grande poeta. Falava do mar com a mesma exigência literária de quando falava das pessoas. Do riacho vizinho à sua Quinta das Cabanas ou do rapaz da boina verde. Do dançarino do vira Manuel Enes Pereira ou das tílias. Cada palavra pesada, analisada de todos os lados para servir como nenhuma outra os intentos do verso. 
Parece fácil para quem não sabe escrever. Não é uma tarefa qualquer. Exige doação total do poeta ou do escritor. 
Talvez por isso muita gente da época não o percebeu. Homem de Melo era muito mais do que parecia quando buscava, sentado ao sol entre as rochas da praia de Afife, a verdade de si que lhe escapava. 
O seu funeral é a prova terrena disto mesmo — que ninguém quer lembrar. Na hora em que Pedro Homem de Melo desceu à terra poucos lá estavam: para além da Amália, apenas alguns admiradores de Viana, alguns intelectuais do Porto e alguns familiares. Muito poucos, todos. 
De Afife, onde viveu com alguma intensidade uma parte de si e ficou sepultado, quase ninguém. Para o futuro ficaram as ruínas do corpo, da vida, da praia, dos homens, da terra do vira e da gota que tanto amou.  
Do senhor doutor resta hoje uma saudade distante. Da sua belíssima casa, a Quinta das Cabanas, sobrevive a estrutura da capela e da habitação, o célebre ribeiro lá ao fundo, as discussões ouvidas longe dos actuais donos e o desagrado que nem tentam esconder pelo chegada de mais interessados na saga de conhecer os muros e as terras vizinhas da propriedade. 
“Existo, sem futuro e sem passado.
Por toda a sonolência que me abriga...
Obrigado!",  escreveu Pedro Homem de Melo. 
Ainda bem que o poeta percebeu em vida o destino de todos os poetas. 
Em Afife, ele e a mulher descansam em silêncio da festa e do mar, só entrecortado pelas vezes em que decidem “Havemos de ir a Viana”.

domingo, 11 de agosto de 2019

Manhã na esplanada


A vida a sério faz-se de coisas simples, banais mesmo. É o conjunto delas que decide quem somos e o que fizemos ao longo do tempo. Sem que nos demos conta disso. 
Senão vejam aquilo que se passou comigo e que conto de seguida: estava eu sentado na esplanada a pensar em si, meu caro leitor, quando uma miúda de uns cinco anos de idade veio ter comigo. Tinha medo de um cão pequeno que estava na mesa ao lado, agarrou-se a mim abraçando-me, procurei a mãe com o olhar, estava ela a conversar descontraída com uma colega no fundo da esplanada. 
Não conhecia a miúda nem a mãe. Fiz ver à criança que o cão não fazia mal, estava sentado ao lado dos donos, contente por desfrutar daquela manhã de sol. 
Foi então que a garota, agarrada ao meu braço, disse de forma lenta para nenhuma palavra escapar: “Tu cheiras igual ao meu pai”. 
Percebem agora quando digo que a vida é só isto? O resto são algoritmos inventados por imbecis armados em pessoas inteligentes.

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

A América é só de alguns...


— Idiota. E se te metesses com os do teu tamanho? Deixavas-nos em paz, a mim e à minha mãe, a fronteira é já ali, a casa a escola os meninos... custou tanto chegarmos aqui. Ai se o meu pai fosse vivo, ias ver... Mas quando eu crescer vou lutar contigo, aí é melhor fugires... ou então quando eu for presidente dos americanos!

quinta-feira, 20 de junho de 2019

Cinema ao ar livre


Ontem à noite fui ao cinema. Ao ar livre. Num espaço desenhado a pensar numa esplanada, mas que pode ser adaptado a muitas outras coisas. Palestras, exposições, desfiles por exemplo. Ou então à projecção de filmes. 

E é aqui que entra a diferença do traço transformado em arquitectura. Da célebre escola do Porto. De Eduardo Souto de Moura, neste caso. 

Fazendo de um quintal de uma casa um sítio lindo de estar, de ver, de namorar, de pensar. 

E de assistir na tela à Natalie Portman a vergar-se em respeitosa homenagem ao escritor israelita Amos Oz. 

Num filme de grande intensidade dramática. Envolvido pelas linhas de um traço só de Souto Moura. Soberbo. Tudo. 

De tal forma que ao olhar-me na tela houve em mim um arremedo que só pode ser cómico de uma epifania: a de só agora estar preparado em termos de vida para ser escritor. 

Demasiado tarde. Muito tarde. Mas não para ir à discoteca ver dançar a noite toda outra vez no éter do cinema. Pensei eu ao mesmo tempo que me dirigia rua acima ao sítio onde as mulheres dançam.

segunda-feira, 17 de junho de 2019

Médica bonita


Eu sei que por muitos sou abominado pela importância que dou à beleza, mas é mais forte do que eu. Se se comparar o sentimento estético que me suscita um jardim, uma montanha, um automóvel, uma escultura, uma igreja, com aquela outra realidade que é uma mulher nas ruas de Florença, escusado será dizer que prefiro o ser que desfila determinado, com um vestido de uma cor que depressa se extingue na memória, na cidade que é cinema vivo. 
Por várias vezes, às médicas bonitas que atendem no consultório sujeitos fragilizados pela doença, não resisto em perguntar-lhes se o rosto de anjo que as distingue não atrapalha o exercício profissional. 
Nunca me souberam verdadeiramente responder. 
A rapariga que posou para a máquina fotográfica na tarde de Sábado passado é também médica. Sim, a da imagem junta. É médica e psiquiatra. Portuguesa de gema. 
Olho a fotografia e vem-me à ideia que o doente que a consultar das duas uma: ou fica curado de vez na certeza de que a vida é bela ou, então, cai fulminado pela clarividência de que Deus o quis castigar a vida toda e que está ali à sua frente a prova da fealdade de tudo o que sempre o rodeou. 
Coitado dele. E de mim.

segunda-feira, 10 de junho de 2019

A sociedade portuguesa actual e a da idade média

Acabo de chegar ao meu segundo escritório, o da esplanada, e com que é que deparo? Com uma jovem eslava solitária por culpa de um feriado nacional que não compreende. Os ouvidos a acompanharem Liszt nas suas deambulações pelo mundo dos sons, os olhos fixos no computador (pelo menos até eu aparecer). Está a escrever a tese de doutoramento com o título “A Sociedade Portuguesa no Século XXI - Análise sobre a permanência da Idade Média no tempo actual”. Pela minha cara viu que não gostei muito do tema. Disse-me que que como homem inteligente (como é que ela percebeu tão rapidamente?!) deveria pensar seriamente no assunto. “A Madonna tem razão”, atirou-me em jeito de provocação. Por essa altura já eu pensava como fazer para esganar uma rapariga bielo-russa. Mas depois lembrei-me de muitas coisas: dos servos da gleba, dos senhores feudais, da quase impossibilidade de mobilidade social, do engajamento a um só perfil cultural, dos círculos de poder de admissão exclusiva, e lembrei-me da sociedade portuguesa contemporânea. De Lisboa e de Pampilhosa da Serra, de Marcelo e da Cristas, do Carlos César e do André Silva, da SIC e do Banco de Portugal, da Santa Casa da Misericórdia e do Banco Alimentar Contra a Fome, do aumento do ordenado dos juizes e da crise dos professores — e milagrosamente a rapariga loura tornou-se cada vez cada vez mais interessante. 
Perguntei-lhe se sabia como era o namoro na idade das trevas, ela disse-me que só estava em Portugal há duas semanas. 
Levei-a a uma festa de BDSM e bondage. 

terça-feira, 4 de junho de 2019

Agustina Bessa-Luís (II)


Agora que Agustina está a regressar às origens, não posso deixar de contar uma história que ela partilhou entre amigos (pode ser que esclareça alguma coisa da sua personalidade). 
Um dia a escritora deslocou-se, no mais esforçado anonimato, à casa de uma candidata a empregada doméstica da sua residência no Porto. Para grande surpresa da Agustina em cima da mesa da sala de jantar estava o livro Sibila. Perguntou à rapariga:”Então, está a gostar de ler?” A resposta não podia ser mais franca: “Ui! Nem me fale: é uma seca monumental. Não sei mais o que hei-de fazer com o livro”. 
A escritora veio então a saber que a candidata estava a estudá-lo na escola no horário nocturno — de dia criada, à noite aluna do secundário. 
Escusado será dizer, para quem conhece a autora de Sibila, que a contratou para trabalhar lá em casa.

segunda-feira, 3 de junho de 2019

Agustina Bessa-Luís (I)


Era uma mulher sem tempo, corajosa, frontal, sempre com a ironia pronta a desferir o golpe fatal na soberba dos outros. Grande, muito grande mulher e escritora. Capaz de publicar um anúncio no Primeiro de Janeiro para arranjar marido. Ou de escolher a direita para dela fazer bandeira política numa época em que era obrigatório ser de esquerda. E depois a escrita. Pensada palavra por palavra até ser pesada, acariciada, ouvida a tarde inteira na casa da família em Massarelos. 
É a primeira grande escritora de romance a entrar na história maior da literatura portuguesa. Fez o mundo como quis. Teimosa e doce ao mesmo tempo. Mas disso só sabe com propriedade aquele que foi o amor de toda a vida: o seu marido Alberto Oliveira Luís.

quinta-feira, 23 de maio de 2019

Os pavões e os motoristas de S. Bento


E mais coisas me contou a Maria Júlia, funcionária do parlamento. Uma delas tem a ver com a relação dos motoristas da Assembleia da República e os pavões do Palacete de S. Bento. Duas espécies vivas tramadas sendo que a das aves manifesta-se normalmente como  mais simpática e mais bem vestida. 
Mas para o caso em apreço, o que importa saber é que os motoristas têm de manter a todo o momento os carros oficiais a brilhar. Lavados de forma a ver-se o rosto de alguém na carroceria. A serem uns espelhos andantes, se possível. 
Ora os pavões, que amiúde passeiam entre a casa do primeiro-ministro e a Assembleia da República, circulam por entre os carros vistosos de tanto brilhar, olham para eles, e descobrem a sua imagem na carroceria. Como se estivesse a provocá-los. Claro que a resposta não demora: julgando tratar-se de bichos adversários atiram-se a eles e riscam os carros do estado.  
Uma desgraça. Ainda esta semana riscaram um de tal forma que teve de voltar à marca para ser pintado de novo. 
Um dia destes vou fazer o mesmo à Maria Júlia, pensei eu e ela. Mas antes tenho de me inspirar nos rituais de sedução dos pavões de S. Bento.

terça-feira, 21 de maio de 2019

Gato parlamentar


Nos jardins da Assembleia da República vivem vários gatos. Sete, mais exactamente, tantos quantos os quartos destinados para eles no hotel gatídeo construído no espaço relvado do Palácio de São Bento. Toda a gente que ali trabalha ou representa o esforçado povo português gosta dos bichos. Todos menos o Carlos Abreu Amorim.

Na imagem a minha grande amiga Maria Júlia acaricia o pelo do animal mostrando aquilo que seria capaz de fazer ao fotógrafo.

sábado, 18 de maio de 2019

Benfica contra o Porto


“Às vezes não sei que pensar: eu sozinha aqui e o mundo lá fora a rir e a divertir-se. E tudo por causa do Benfica. O Artur nas bancadas junto aos amigos e a esposa largada ao tédio de um Sábado à tarde na casa de sempre. O jogador a avançar decidido para o golo, a assistência a aplaudir em êxtase, a cor encarnada a cobrir de glória o estádio. Bem me dizia a minha mãe: ‘Filha, não queiras um homem que ande atrás da bola o tempo todo — é vulgar e não te vai dar nunca uma casa fora do Montijo.’ O malandro do Artur enganou-me bem: não apreciava futebol, não tinha clube e depois foi o que se viu. E ainda por cima o Benfica. Se ainda fosse do Sporting, uns senhores aperaltados, com bons empregos, ainda se suportava.
Agora eu sei, a vida pregou-me muitas rasteiras. Não fosse o Benjamim a mostrar-me o lado bom das coisas e nada em mim faria sentido. Mesmo gostando de futebol e sendo fanático do Porto ele sabe distinguir as coisas: o amor de uma mulher é mais importante que a bola, diz muitas vezes. 
Por falar nisso, a que horas é o jogo? Deixa ver: às seis e meia — já não falta muito! O Benjamim mostrou vontade de conhecer o sítio onde moro e beber vinho branco numa lugar da casa que eu escolhesse. 
Isto pelo menos até o árbitro apitar para o final do jogo.”

segunda-feira, 6 de maio de 2019

O professor


Eu sei que não vão acreditar, mas eu vi esta manhã — cabeça apontada ao chão, óculos providenciais, pasta na mão — um professor. 
Senti-me a tremer quando passei por ele. Fez-me lembrar a sensação que experimentei há tempos quando vi sete cadáveres esquartejados em plena estrada, o fumo a sair das entranhas, as cabeças separadas dos corpos. 
Juro-vos que era um professor aquele homem pelo qual passei esta manhã.

Na foto, o professor Jürgen Habermas

quarta-feira, 1 de maio de 2019

1º de Maio


Janela ou porta que se preze está hoje engalanada com um ramo de giestas ou com uma coroa de flores. Os portugueses actuais aprenderam com os romanos a esconjurar desta forma os seres maléficos e a festejar o recomeço do Verão e da vida.
Nisto sou igual a todos os outros: ontem à noite disse à Dona Lurdinhas para decorar com as tradicionais Maias a minha casa. Não que acredite em dimensões esotéricos do mal, mas a precaução nunca fez mal a ninguém. 
Ainda por cima não dá trabalho nenhum...
Estamos, por isso, todos mais seguros a partir de hoje. Escusa o Doutor Centeno de pensar em mim ou no leitor. Quer dizer, “penso eu de que”... o leitor pendurou a Maia na sua porta, não é verdade?
Se não o fez também não entre em desespero. Aqueles que me lêem são normalmente pessoas confiantes em si, com um grau de auto-estima francamente positivo. Deve ser este o seu caso. 
Afinal, que mal poderá chegar até si através da porta ou das janelas da sua casa?
Raramente olha para a rua cinzenta onde mora. Os vizinhos já os conhece de ginjeira. Só se for a campainha da porta a tocar e a anunciar os fiscais dos impostos, as testemunhas de Jeová, o canalizador com a conta de 7 mil e duzentos euros para pagar, ou a Vanessa lá do escritório. 
Pelas janelas, então , o infortúnio nunca se mostra. A menos que o passarinho de penas amarelas invada a sala e largue as demasias fisiológicas no tapete de Portalegre comprado com muito suor por si. Ou então que o preservativo do Sr. Antunes da mercearia seja lançado desde o apartamento da D. Manuela para uma aterragem de emergência no passeio da rua — com passagem obrigatória pela janela do escritório onde a filha adolescente do leitor costuma estudar. 
Caso o mal seja mais grave, tenha a ver com a esquizofrenia do cônjuge ou com a zanga definitiva da sogra, por exemplo, então nessa altura será melhor recorrer aos serviços de alguém experiente em tirar o diabo do corpo da vítima de tanto mal. 
O meu consultório fica situado na Avenida de Roma, número 676, segundo esquerdo, em Lisboa. 
Não há ninguém igual ao autor destas linhas.

terça-feira, 30 de abril de 2019

Desalmadamente Lena D'Água




Meu Deus, Nosso Senhor: não se faz uma coisa destas — a passagem do tempo deveria acontecer apenas com aqueles que têm pressa de se irem embora e não com aqueles que querem ficar. Que gostam do sol logo pela manhã e da voz da multidão a caminho do trabalho. 

Permanecendo, se possível, eternamente bonitos; ou então jovens; ou então saudáveis, o que vem a dar mais ou menos no mesmo. 

Mas o tempo é um carrasco difícil de moldar — faz estragos, mata devagarinho. 

Já escrevi diversas vezes sobre o tempo (e também acerca do que permanece para além da mudança).

Hoje vi fotografias antigas e outras actuais de uma das mulheres-sonho da minha juventude: a Lena D’Água. 

A cantora de Sempre que o Amor me Quiser era absolutamente linda. Filha de um pai e de uma mãe também eles belíssimos, a Lena não precisava de maquilhagem ou de roupas muito elaboradas. Ela era naturalmente desejo dos homens e de algumas mulheres. 

Infelizmente, tal como a muitos de nós, a vida foi-lhe madrasta. Por culpa dela e dos outros. 

Do tempo que percorreu na noite e na vertigem de si própria ficaram-lhe as marcas. Na carreira, no pensamento e no corpo. Do rosto luminoso e das pernas de boneca já pouco resta. Nos olhos e no riso, talvez. No resto, a Lena D’Água de hoje mais não é do que a longínqua imagem de uma cantora portuguesa de muito sucesso dos anos oitenta. 

A menos que consiga recomeçar. Como se fosse do zero. Esquecendo o bom e o mau de tudo o que ficou para trás, de forma a não ter de penosamente comparar-se com o que já foi. 

A oportunidade está aí: trinta anos depois vai editar um novo álbum com o nome Desalmadamente. Quando o ouvirmos vamos imaginá-lo cantado por alguém que não se distingue pelas pernas ou pela beleza do rosto, mas antes pelo percurso e pela consciência que só uma vida cheia permite. 

No dia 10 de Maio, quando desalmadamente for divulgado o disco, eu vou amar outra vez a Lena D’Água.

terça-feira, 23 de abril de 2019

Tarde em Moledo


A cena presenciei-a mesmo a meu lado no Domingo passado. Eu e a Cuca finalmente esparramados ao sol, ninguém a aborrecer-nos. Ao fundo a vista linda de Moledo, a areia solidária a querer-nos felizes, o Forte no meio do mar a tomar conta de nós, o monte de Santa Tecla a mostrar-nos o caminho em direcção ao divino. Como se ele não estivesse ao nosso lados nas migalhas de rocha em que nos deitamos, e em tudo o resto a que chamamos natureza e que os homens ainda não souberam como estragar. 
A alguma distância de mim e da Cuca, um casal antigo no tempo mas igualmente feliz na cumplicidade de amor, sorria para nós como se pudéssemos compreender aquilo que ambos sentiam. Da mesma forma que eles nos adivinhavam, pareciam querer dizer. 
Até que chegou a desgraçada de uma víbora muito má travestida de mulher. Sentou-se perto do casal mais velho e devagar, muito devagar, começou a tirar cada uma das peças do seu vestuário escolhido de forma a fazer jus ao sol de Moledo. O soutien não constava do corpo da bruxa, mas dos seios redondos (da forma das minhas mãos), arrogantes de tão confiantes em si, não se tinha ela esquecido. 
Foi então que vi uma das cenas de amor mais bonitas dos últimos tempos: a mulher velha, preocupada com a interrupção do descanso do marido, tapou num ápice os olhos do companheiro com o pedaço de crochê que fazia desde que chegou à praia. 
Foi lindo. Cheguei mesmo a emocionar-me. Eu e a Cuca — que depressa aprendeu como se faz e pespegou à frente da minha imaginação a capa do seu último disco de vinil. 
Sorri contente de tanto amor. Um dia destes a bruxa má vai fazer-me a mesma coisa. Vocês vão ver.

segunda-feira, 22 de abril de 2019

Quando a coerência é um mal


Não fui eu o autor deste sublinhado fotográfico — esse bom gosto deve-se à Diana Duarte, jornalista da SIC. 
Mas gosto muito do que na página do livro está escrito. Não há nada mais aborrecido que alguém de uma só cara. Que é constante no vestir e no dizer. E na escrita. E no gosto pelas mulheres louras; ou então, sendo do género feminino, preferindo os homens das contas certas. 
Eu não sou assim. Hoje sou o homem do comboio, amanhã sou escritor por publicar. Isto de manhã e à tarde, porque à noite sou milionário que o deixei de ser por causa da guerra civil no Ruanda. 
A vida é cinema e os chatos são porteiros e vendem os bilhetes do espectáculo. Que, por sinal, nunca terá um fim. 

sábado, 13 de abril de 2019

Mulher para as caminhadas


Seis indivíduos de bata branca, 
estetoscópio ao pescoço, proferiram o veredicto: “Tem de andar meia hora por dia”. Era a quinquagésima sétima vez que o diziam, sem nunca eu ter conseguido cumprir a malfadada sentença. As ruas sempre as mesmas, o suor a querer desaguar nos olhos, a figura de parvo a tomar conta de mim. 
“Vai ter de arranjar companhia”, vaticinaram os lentes da faculdade de medicina. Companhia?Mas qual? Um homem de bigode e cheiro de pés, sempre a divagar sobre futebol?
Não, não... fiz algumas asneiras, mas não mereço tamanho castigo. Uma mulher? Para quê? Para andar?Mal empregada musa da minha vida.  E qual havia de ser?  A Dona Lurdinhas não quero,  já chega o gabinete mais os clientes. Tem de ser mais viçosa e inexperiente, o corpo a cheirar ao perfume das raparigas dos bailes de quando eu tinha quinze anos. 
Loura, sim, quase a parecer morena, olhos pretos que eu gosto muito das ruivas. Sorriso obediente sem ser submissa, que eu nunca quis mulheres dependentes do carro ou do meu filósofo preferido ou ainda do porta-moedas Gucci. 
O cabelo escorrido e sempre impecável, a pedir para ser cofiado pelos dedos deste novel atleta. Há só mais uma condição e esta irrecusável: A de não falar enquanto caminha. Nem que seja sobre a desvalorização do euro, do Brexit ou do mau-gosto do vestido da vizinha. A única coisa que pode dizer é “Ai Jesus” ou “Ai, meu senhor”. 
Vou pôr o anúncio no Correio da Tarde. 
A ver se desta vez começo a andar pelos jardins e ruas à beira-rio da minha cidade. 

sexta-feira, 29 de março de 2019

Tontos


Tontos. Não perceberam nada. Os professores a julgarem-se importantes na sociedade e no PS. Não sabem que o mundo mudou. Só conta quem produz lucro. Por isso é que a Maria de Lurdes Rodrigues fez com que eles passassem a ganhar menos, a seguir Passos Coelho ainda baixou mais o ordenado e ameaçou que os cortes seriam permanentes. E os professores a pensarem que deveriam fazer o sacrifício pelo país. Que totós. Ao actual governo bastou fazer de conta que iriam recuperar aquilo que as suas carreiras determinavam. Ao mesmo tempo que lhes entregava metade do vencimento que por lei deveriam estar a receber. Adeus, mestres-escola. A paixão pela educação só é possível em países ricos.

 

Foto Observador

Vá lá, organizem-se...


Há ministros que são pai e filha, marido e mulher, amigos e amigas do primeiro de todos, eu não nomeei nenhum deles, quem o fez o foi o presidente da marquise, o mesmo que é vizinho dos gestores do BPN, eu é que não andei a passar férias no sítio do Ricardo Espírito Santo, nem a minha Maria trabalhou na administração do BES, o que é que este está para aí a dizer?

— Order!


quarta-feira, 13 de março de 2019

Partida de ténis


O João d’Arruda, convencido de si, desafiou-me para uma partida de ténis. “A minha mulher foi jogar nas máquinas do Casino da Póvoa e vai demorar”, anunciou o João eufórico por se sentir livre. A sua camisa branca impecável e a gravata azul eléctrico não estavam habituadas a recusas. “Está bem, em atenção à tua mulher aceito a proposta”, disse eu. O jogo começou, ao fim de meia-hora o João pareceu-me bem, às duas horas e quarenta e cinco minutos estava assim conforme se vê na fotografia.

terça-feira, 12 de março de 2019

Fernando Poeta


Já olhei fixamente para a cara deste miúdo e não descobri nada. Pelo menos de diferente. O olhar talvez. Há ali um certo ar interrogativo que pode querer significar inquietude. E alguma tristeza, possivelmente. De resto, quase nada. Com esforço consegue adivinhar-se o auto-convencimento de que consegue dominar o triciclo, de que é orgulhosamente seu e de mais ninguém. E é só isto. Acho que vou desistir: de resto é uma criança igual a tantas outras. Ao que eu fui, por exemplo. Exímio condutor de triciclos. Triste, toda a infância e adolescência triste. Nisto partilho o modo de estar com o rapaz da fotografia. Provavelmente por isso é que me sinto frustrado por não ser capaz de descobrir as sombras e os raios de luz que traçam o perfil do menino ciclista. Logo eu que adivinho o futuro de qualquer pessoa. Como é que se chama o miúdo? Deixa ver: Fernando. Fernando quê? Onde é que está a ficha? Tenho-a aqui: Fernando Pessoa.

sábado, 16 de fevereiro de 2019

Director do museu


O Museu de Serralves está salvo! Já foi escolhido o novo director da instituição: Kléber Cullmann, crítico de arte alemão, reconhecido em todo o mundo pela sua experiência em indústrias culturais de cariz forchhammer. Na foto, o novo director (à direita) já na cidade do Porto, acompanhado do assistente pessoal Rolf Forchhammer. 

Foto Dennis Conaghan

sábado, 9 de fevereiro de 2019

Esclarecimento


Uma brincadeira em vídeo produzida por uma rede social sobre os amigos da minha vida acabou por me trazer dissabores. Muitos (muitas) queixaram-se de no vídeo em questão só aparecerem mulheres e todas elas bonitas. Importa saberem duas coisas: só tenho amigos mulheres (com raríssimas excepções, geralmente relacionadas com a minha infância); todas as minhas amigas são bonitas. 
Isso explica o que se passou no tal vídeo. Inicialmente apareciam os de sempre, quase todos meus familiares. Achei melhor alterar o que podia alterar. Pedi autorização ao Dr. Zuckerberg e escolhi rostos diferentes do habitual. Como fiz essa selecção? É fácil: tendo em conta que são todas bonitas as minhas amigas, limitei-me a escolhê-las a eito. Estão todas seguidas pela ordem alfabética no meu grupo de amigos virtuais.  
Como é possível tal coisa?, perguntam os mais desconfiados. É que além de bonitas são também inteligentes. E tal como explico todos os anos aos meus alunos, a beleza faz-se. Pode-se ter o rosto mais harmonioso de todos e não resultar em situação alguma. Outras pessoas há que perante os flashes se transformam, vencem os castings das televisões ou os corações daqueles que são os seres mais pretendidos. 
Quem trabalha com a imagem sabe de tudo isto. E depois é só criar um personagem que assente como uma luva na nossa forma de ser, com quem nos identifiquemos. Quer dizer, que faça de cada um actor de tela grande ou figura saída de um romance. 
Uma última confidência: as pessoas que guardo mais no coração por questões de sangue ou de amor são as mais discretas na tal lista virtual de amigos. Fazem parte dele, andam por aí, mas aparecem com algum pundonor no tempo e no relevo que lhes é proporcionado. 
É o caso da minha primeira namorada Anabela, que já naquela tempo prometia vir a ser bela, e que hoje resolvi trazer à estampa através da fotografia que se junta a este arrazoado. 
Espero que ela não leve a mal. 

sábado, 2 de fevereiro de 2019

Pedido de casamento


O dia era sério: a resposta tinha de ser dada ao Daniel, um rapaz que segundo diziam sempre gostara de si. A Conceição olhava para ele e sentia desdém pelo que via, um tipo esquálido, quase grotesco, desajeitado na fala e no comportamento de homem novo. 

— Queres casar comigo? — a pergunta sempre adiada até àquele maldito dia.

— Se tu tiveres vontade nisso — disse a Conceição numa voz apagada pela vontade nenhuma.  

— Pois então vou falar com o Padre Maurício e marcar o casamento. Que contente vai ficar a minha mãe. Queres apostar como ela vai pôr uma vela à Senhora d’Aparecida?

A Conceição sem saber o que dizer a seguir. Tão decidida e agora tonta sem querer pensar em nada. 

As mãos do Daniel a quererem cumprir o namoro. O rosto da mulher que tanto amava logo ali à distância de um palmo de coragem. Foi então que os dedos tocarem aquela pele quente de mulher. Nunca tinha sentido uma coisa assim. 

— Vou p’ra dentro que estou com frio — a Conceição a esgueirar-se pelas escadas acima em direcção a casa. 

— Amanhã digo alguma coisa — ele afoito a comportar-se decidido. 

Já a prometida não o ouvia. A barriga cheia pelo bebé do patrão casado dava sinal de querer descanso. A barriga e a cabeça sempre a pensar o mesmo. 

Ainda um dia vão ser felizes, a Conceição mais o Daniel.  

 

Foto Ludwig Schirmer

domingo, 27 de janeiro de 2019

Nunca mais é sábado


Amanhã é Segunda-feira. Lamento. Eu sei que queres sol e vida, música e dança. E amor. Mas a Segunda-feira não te impede de ser feliz. Sim, há horários para cumprir, contas a resolver, vestuário próprio para usar. E depois o pensamento de sempre: nunca mais é Sábado. Levanta a cabeça e sorri. Convence-te que o mundo lá fora sustém a respiração à espera de te ver. Vais conseguir. Desde que penses assim. O sol, a música e a dança ficam para quando quiseres: ao fim da tarde na esplanada, à noite no remanso do sítio que escolheres. 
O Sábado há-de chegar, mulher bonita.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

A propósito da Dra. Maria José Rodrigues


A ideia de que o povo português é o mais hospitaleiro do mundo é um exagero. A prova disso está no email que o meu tio Luís enviou desde as Antilhas: “Francisco, não sabe o que está a perder. Faça as malas e apanhe o próximo avião”. Importa acrescentar que ele possui a marca distintiva da família: nunca mente. Professor de Sociologia em Heidelberg, o professor Luís Norton de Barros vai proferir uma palestra na Universidade das Antilhas no âmbito de um colóquio internacional sobre “O Papel da Mulher na Nova Sociedade — Condicionalismos e Soluções da Maternidade na Perspectiva da Economia Social”. De referir que neste fórum há a registar uma outra participação portuguesa: a da eurodeputada Maria João Rodrigues.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

O discurso


— Dra. Maria Isabel D’Eça, é a sua vez de discursar no Conselho Nacional. 
— Jorge, achas que estou bem?
— Bem?! Com a cor do partido e tudo?
— Ai! Estou tão nervosa... e se o Dr. Rui Rio não gosta do que vou dizer? Ainda fico sem o lugar de deputada...

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

A imprensa regional e o aniversário do jornal O Vianense


Trinta e nove anos. Para um jornal é muito tempo. Os anos nas publicações periódicas não contam da mesma forma que as pessoas. Trezentos e sessenta e cinco dias a fazer jornalismo e a assegurar a continuidade de um órgão informativo regional equivale a anos de muito sacrifício em prol da terra onde se vive. 

E, para além disso, a necessidade de haver possibilidades financeiras. E de capacidades de gestão. E de gente, muita gente. 

Ora, nada disto existe em quantidade suficiente no jornalismo regional. As pessoas, por exemplo: dantes colaboravam por carolice no jornal da terra; hoje, e bem, querem ordenados consentâneos com a formação superior que adquiriram. Sinal dos tempos e da evolução por que todos nós lutamos. 

Simplesmente, os jornais pequenos não têm sustentabilidade financeira para suportar tamanho fardo. E, a pouco e pouco, vão soçobrando a menos que encontrem uma nova fórmula de negócio. Só que nem os jornais grandes portugueses a conseguiram até agora engendrar.

Tudo o resto, feito de homens e mulheres que dedicaram tempo da sua vida ao jornal, sem nada esperarem em troca, ficou definitivamente para trás.  

É deles que me apetece falar nesta comemoração dos 39 anos d’O Vianense. Até porque a saudade é um sentimento que, de tempos a tempos, faz falta a ela recorrer. É uma espécie de combustível essencial para a caminhada em direcção ao futuro. 

E a memória não se faz rogada a um exercício destes. São acontecimentos importantes demais para ficarem perdidos no tempo. As noites em branco a terminar a edição do jornal; os computadores Apple Macintosh a serem inaugurados na imprensa regional pelo O Vianense, num período tão novo que ninguém sabia trabalhar com eles e muito menos arranjá-los quando avariavam; o julgamento por parte dos tribunais do conceito de liberdade de imprensa em que O Vianense foi um participante corajoso; o orgulho de ter entre os colaboradores do jornal os mais brilhantes jornalistas de Viana; a perseverança na luta por objectivos essenciais ao desenvolvimento do Alto-Minho; a abertura de instalações bonitas na Rua de Aveiro; as gentes, sim, O Vianense foi sempre um jornal com gente dentro que ajudava, entre outras coisas, nas tarefas a que a tecnologia ainda não tinha chegado, de que é exemplo a colagem dos endereços dos assinantes, noite adentro, acompanhada das conversas amigas daquelas pessoas todas, que entretanto foram embora, teimosas na determinação de rumarem para sítios longínquos e sem retorno.

Escrevo isto e emociono-me. Trinta e nove anos de alma cheia. Com as pessoas que gostavam do jornal. Que queriam e querem a preservação do que de mais humano serve de alicerce ao O Vianense. 

Fica a faltar o modelo novo de negócio jornalístico. E pessoas capazes de serem mais que meros escrevinhadores de notícias iguais às que aprenderam nas universidades. 

Só dessa forma se pode prosseguir a alma que é essência e marca d’O Vianense.